Anexo VI – Termómetro de Angústia da NCCN
1. ANAMNESE
Após a consulta pré-operatória realizada no gabinete de enfermagem pedi mais uns instantes à D. Maria (nome fictício) e ao seu esposo, de modo a realizar a colheita de dados, à qual consentiram.
A disponibilidade demonstrada e a relação estabelecida no primeiro momento de consulta com esta mulher e o seu esposo, foi fundamental para prosseguir com a sistematização e planeamento deste estudo de caso. Foram atendidas as questões éticas, tais como a vulnerabilidade e autonomia, anteriormente referido, resultando numa intervenção de suporte, de clarificação, de escuta, promotora de conforto e sensação de calma àquele casal, tal como me puderam confidenciar no final da entrevista e exame físico.
A anamnese e o exame físico constituem um importante instrumento de avaliação da pessoa, de forma a planear e antecipar intervenções de enfermagem e, onde se detetam alterações físicas e até psicológicas, ou outros problemas de saúde, nem sempre relatados pela pessoa/ família durante a consulta. De acordo com Santos, Veiga & Andrade (2010):
“através da anamnese e do exame físico é possível conhecer o cliente, estabelecer vínculos de confiança, identificar alterações biopsicossociais e espirituais e prosseguir definindo diagnósticos de enfermagem, traçando metas e ou prescrições de enfermagem, avaliando o paciente e realizando registos. O enfermeiro tem um papel fundamental na equação e resolução dos problemas apresentados pelos pacientes/clientes” (p358).
Assim, antes da entrevista, na primeira abordagem com a D.ª Maria, procurei
saber qual o nome que gostaria de ser tratada, determinando com ela os moldes da
entrevista e exame físico, ao que referiu que pretendia que fosse realizada na
presença do esposo.
Capacitação da Mulher com Cancro da Mama: Criação de uma Consulta Especializada de Enfermagem Pré-Operatória
1.1 Dados demográficos
A D.ª Maria tem 67 anos de idade, (26/03/1952) é do sexo feminino, raça caucasiana. Nacionalidade portuguesa, natural de Mora (Alentejo), reside atualmente na Sobreda com o esposo.
Encontra-se reformada (professora primária). Ocupa os seus tempos livres a bordar, passear à beira-mar e frequentemente desloca-se a Mora, onde tem família, amigos e a sua casa na aldeia.
1.2 Hábitos de Vida
Sono e repouso – Desde a altura do diagnóstico que tem dificuldade em adormecer, fazendo medicação.
Alimentares – Refere ter uma alimentação equilibrada, sem abusos, devido à estenose da glândula salivar, refere ainda que, nunca comeu muito e neste momento refere alguma falta de apetite.
Exercício - Gosta de fazer longas caminhadas pela manhã, principalmente à beira-mar.
Dependências – não se aplicam.
1.3 Experiências de vida significativas
Durante a entrevista, quando questionada acerca de experiências de vida significativas recordou com saudosismo, os “miúdos”, as aulas, e o fato de ter sido professora no interior do Alentejo, percorrendo grandes distâncias para dar aulas e, da dificuldade nos materiais e dos recursos na altura.
Relatou ainda os acontecimentos inerentes ao nascimento do seu único filho, do problema de saúde que tinha e do que sofreu até se descobrir e tratar. Recordou o apoio incondicional do esposo e da sua falecida mãe.
Contou-me à cerca dos fatos relacionados com a morte da sua mãe, da qual foi
a principal cuidadora. Refere que a mãe era uma pessoa inteligente, muito culta e
até meses antes de falecer, com 96 anos (paragem cardiorrespiratória), o seu
principal passatempo era ler livros, discutir política e ver debates na televisão.
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Muito independente, lúcida e autónoma até essa altura, necessitando apenas de apoio na confeção de alimentos, higiene e companhia, segundo a D.ª Maria.
Por fim, aborda a história atual da sua doença, referindo sentir-se confiante perante o futuro e no desenrolar deste processo de doença oncológica. Menciona ainda que o seu esposo, é um sobrevivente de cancro do cólon, tendo sido operado e realizado radioterapia há cerca de 12 anos. O seu esposo, inquieto durante a consulta e posteriormente na entrevista, mostra-se muito preocupado, ansioso e cheio de perguntas relativamente à situação da esposa, uma vez que antevê na sua mente, o longo processo de doença oncológica, agora a ser vivenciado pela sua companheira. Por sua vez a D.ª Maria, aparenta estar calma e confiante, porque “o nódulo” foi detetado precocemente e, porque tem no marido um exemplo de recuperação e sucesso, sentindo esperança e confiança face ao futuro. Indica ainda o seu animal de estimação (Tejo) como uma grande companhia, transmitindo-lhe sensações de alegria e calma.
Refere ainda ser católica, não praticante. “Acredito muito em Deus e falo com
Ele”. Acredita que existe algo ou alguém que a “guarda” e ajuda quando precisa,referindo que tem confiança Nele e que tudo correrá de acordo a Sua vontade.
A D.ª Maria vê o esposo e o filho como a principal força anímica para viver, dizendo sentir grande carinho e apoio por parte dos dois.
Expôs ainda algumas questões e preocupações quanto ao futuro, referindo que esta alteração na sua saúde lhe tem “tirado o sono”. Tem receio do que virá depois da cirurgia e como é o que o seu organismo vai “tolerar” tantas agressões. No final da entrevista, de forma muito pausada e com os olhos a cobrirem-se de lágrimas e refere sentir-se “cansada” e que “ainda mal começou este longo processo na luta contra o cancro” sic.
Neste contexto, e de acordo com a Teoria do Auto-cuidado de Orem (1985),
que no fundo corresponde à articulação entre três grandes áreas, a primeira,
descrevendo o porquê e como é que as pessoas cuidam de si próprias; a segunda,
explicando a razão pela qual as pessoas podem ser ajudadas através da
enfermagem (Teoria do Défice de Auto-cuidado) e por fim, a terceira, relatando e
explicando as relações que têm de ser criadas e mantidas para que se produza
enfermagem, na
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Teoria dos Sistemas de Enfermagem. Citando Santos, Ramos & Fonseca (2017), a respeito da Teoria de Orem, as “crenças, antecedentes sociais e culturais, características pessoais e relação entre os profissionais de saúde e os clientes são alguns dos fatores que influenciam os comportamentos de autocuidado” (
p.51). Tomey & Alligood (2004), acrescentam, através da análise da teoria do Auto-cuidado de Orem, que esta atividade consiste na “combinação singular de propriedades e características concetualizadas comuns a todas as circunstâncias de enfermagem”
(p.224). Essas autoras, referem ainda, que o auto-cuidado, constitui um resultado sensível aos cuidados de enfermagem com translação positiva nomeadamente, no que refere à promoção da saúde e do bem-estar, principalmente através da capacitação do doente através do ensino e estratégias que promovem o aumento de conhecimentos e habilidades à pessoa, objeto de cuidados especializados, dirigidos e diferenciados. Segundo Galvão & Janeiro (2013):
“o autocuidado é a chave dos cuidados de saúde e é visto como uma orientação subjacente à atividade do enfermeiro e que a distingue de outras disciplinas. (…) Essas intervenções visam informar as pessoas sobre a sua condição e tratamento e formá-las acerca da automonitorização, perceção e identificação de mudanças na funcionalidade, avaliar a severidade dessas mudanças e as opções para gerir essas mudanças, bem como selecionar e desempenhar ações apropriadas” (p.227).
Assim e neste contexto, procurei ao nível da consulta de enfermagem pré-operatória atender a estes critérios, subjacentes à teoria do Auto-cuidado de Orem, fornecendo à D.ª Maria dados e informações pertinentes e adequados à sua situação de cuidados que permitissem aumentar a sua capacidade para o autocuidado.
1.4 Caracterização do meio envolvente