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CAPÍTULO 3. MUITO ALÉM DE UM CURTO VERÃO

3.5 Anarquismos, contracultura e ambientalismos

Um dos encontros mais criativos do pensamento libertário contemporâneo foi a hibridização ocorrida entre os movimentos ambientais e a contracultura. Um movimento que pode ser tomado por exemplo é a banda anarcopunk CRASS e o movimento Straight Edge161, que unia um discurso majoritariamente vegetariano e

160 Modelo político organizativo autogestionário defendido pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do

Curdistão). Para uma análise mais aprofundada do pensamento de Ocalan, principal referência teórica do partido, indicamos a leitura Abdullah. Prison Writings: The Roots of Civilisation, 2007.

ambientalista. Posteriormente, ganhou força a vertente mais radical do vegetarianismo: o veganismo, caracterizado pela recusa da utilização de produtos de origem animal. Essa prática rapidamente foi aderida entre os anarquistas e grupos de contracultura (FERNANDES, 2014).

Durante as décadas de 1960 e 1970 ocorreu o que Walls (2008) chamou de “segunda onda dos movimentos ambientalistas”. Trata-se período no qual proliferam publicações discutindo a relação entre natureza e humanidade, apontando para a exacerbação do afastamento desses dois polos no capitalismo industrial. As movimentações em torno da ecologia ganharam força, tornando-se comum ações e passeatas com pautas contrárias a poluição de lençóis freáticos, derrubada de florestas, contaminação do ar e discutindo a utilização de recursos naturais como combustíveis.

Essas manifestações em torno de causas ecológicas passaram a compor a agenda das mobilizações sociais, principalmente quando alguma lei específica era discutida tais como: Lei de Poluição das Águas (1967, 1970 e 1972), Lei de Limpeza do Ar (1965, 1970 e 1972) e a Lei de Pesticidas (1972) (FERNANDES, 2014)

Nessas décadas os movimentos passaram por um processo de inflexão radical, marcados pelo aparecimento de agrupamentos como Friends of the Earth (1969), Environmental Action (1970), Greenpeace (1970), Clean Water Action (1971),

Earth First (1980), Citizens Clearinghouse for Hazardous Waste (1981) e Earth Island Institute (1982) (WALLS, 2008). Todavia, essas lutas foram, a seu modo, capturas e

se abriram para negociações em torno da produção de resoluções, metas, conferências que criam documentos e relatórios, endossando a produção de conceitos negociados como o de “desenvolvimento sustentável”. Conceito que vai ser veementemente criticado pelas organizações ambientalistas anticapitalistas. Muitos desses movimentos experimentam cisões estimuladas pelos quadros que discordavam com a adesão da pauta do desenvolvimento sustentável. Os que romperam acreditavam da impossibilidade de desvincular o caráter anticapitalista da luta ecológica.

A partir dessa cisão, muitos grupos resolvem deixar nítida sua oposição ao capitalismo, adotando o modelo de ação direta para a radicalização de suas ações. Nesse contexto aparece o termo “ecoterrorismo”. A organização internacional Animal

Liberation Front (ALF) é uma das mais populares quando pensamos a ação direta e

invasões em industrias e matadouros e o resgate de animais ou destruição de laboratórios que realizam a vivissecção. Conforme discute Fernandes (2014) a associação entre ambientalismo e práticas radicais foi usada como base para a descrição do FBI sobre grupos e células de práticas de ação direta ambiental no enquadro do “terrorismo”. Conforme cita o relatório:

considerando-os ilegais e criminosos: [...] o uso ou ameaça de violência de natureza criminosa contra inocentes, vítimas ou propriedades por um grupo ambientalista subnacional, por razões político-ambientais, ou tendo como alvo a população [...] como ato simbólico (U.S. Code, Title 18, Part I, Chapter 113B § 2331)

É importante destacar que o veganismo libertário traz discussões éticas e políticas sobre ciência e tecnologia de grande profundidade. Suas problematizações questionam, por exemplo, modelos cognitivos e técnicos de experimentação científica, introduzem a temática do valor da ciência na sociedade contemporânea, ampliam investigações voltadas à neurociência, ciências biológicas, farmacêuticas, veterinária, médica e etc., Além de pensar a ciência como uma prática social histórica que deve ser problematizada por outras questões sociais que não sejam somente preceitos técnicos da própria ciência.

Ainda em relação a década de 1990 há um aumento do movimento anarcopunk e de publicações que propunham discutir ideias anarquistas com a difusão de práticas e ideias ligadas a questão ecológica. Um dos coletivos emblemáticos daquele momento é Crimethinc Ex-Worker’s Collective, um coletivo baseado na ação direta e no apoio à toda e qualquer manifestação contrária ao Estado. A Crimethinc se alia ao pensamento de John Zerzan pela vertente do primitivismo de forte discurso contrário à civilização, voltando-se a uma trajetória de vida que procura “transformar o mundo à nossa volta da mesma forma que transformamos nossas próprias vidas” (CRIMETHINC, 2010, p.273).

Fernandes (2014) aponta que a profusão deste tipo específico de anarquismo é mais comum entre straight edgers pela influência da Crimethinc e pela propulsão de zines que cobriam a temática em suas páginas, como Reclaim, Grito Feral (uma alusão à John Zerzan), Ética da Sabotagem, Pequena Ameaça, Selvage, Erva Daninha, Libres y Salvajes, dentre outros. De acordo com Fernandes (2014), o anarcoprimitivismo une a prática libertária a ideia do apocalíptico fim da civilização.

Nessa perspectiva, a civilização é um modelo contrário à própria existência da terra. Além disso, consideram que outro mundo existiu, e também um outro mundo é possível. Os anarcoprimitivistas insistem em estabelecer uma relação entre cotidiano e trajetória de vida, buscando uma ética de vida. Ainda conforme Fernandes(2014) podemos ver esse movimento na adoção de práticas como freeganismo. Na medida que o veganismo se tornou um produto e popular, sendo transformado em uma fonte de consumo e vida saudável, perdeu parte de seu caráter contestatório na visão desses primitivistas. Desse modo, o freeganismo buscava unir a luta contra o capitalismo, a harmonia com os processos naturais, questionando o consumo capitalista e as formas de troca e consumo dessa sociedade.

A palavra freegan é uma combinação de “free” - de graça, porque você o encontrou numa lixeira - e “vegan”, um vegetariano que se abstém de todos os produtos de origem animal. No entanto nem todos os freegans são estritamente vegetarianos. Alguns preferem comer a carne, os laticínios e os ovos que encontram em vez de os deixar estragar (NAUMCZUK, 2011, p.5). No Brasil é comum a utilização do nome “coletor urbano” em referência ao freegan, como forma de evitar o anglicismo e, deste modo, a continuidade do imperialismo estadunidense, mesmo tendo em vista que a maior comunidade freegan do mundo localiza-se em Nova York (DOWDEY, 2011) Ainda, a denominação “coletor urbano” provém de uma homologia aos caçadores-coletores paleolíticos, referenciados através do anarcoprimitivismo. A prática freegan, assim, possui uma relação direta com as práticas primitivistas, baseando-se na ação de evitar o consumo a partir das coletas de alimentos em feiras ou no lixo.

Em contraposição, temos novamente o exemplo de Murray Bookchin quando criticou os dois tipos de ecologismos vigentes entre as décadas de 1970 e 1990: a) o pensamento ambientalista pragmático; b) o pensamento ambientalista místico e primitivista. Bookchin desejava construir uma perspectiva ecológica dissociada das propostas “naturalistas” que buscavam um modelo de intervenção puramente técnico para os problemas ecológicos e que eram defendidas pelos chamados “movimentos verdes” – rapidamente absorvidas pelo discurso capitalista. Ao mesmo tempo, a proposta bookchiniana também se distanciava das filosofias de tipo New Age e seus apelos irracionalistas, pensamento defendido por correntes filosóficas como as da

Ecologia Profunda, Primitivismo, Gaia etc. (BOOKCHIN, 2011; AQUINO e QUELUZ,

Em relação ao Brasil, em 1992, o Centro de Estudos Libertários (CEL) que era um espaço de circulação de anarquistas, incentivado por Ideal Peres, acaba por congregar militantes ambientais simpatizantes do pensamento libertário. O CEL se torna responsável pela publicação do jornal Mutirão em 1991, tendo como bandeira o engajamento nas lutas camponesas e dos sem-teto. É um jornal libertário que apresenta debates sobre primitivismo, ecologia social, libertação animal e etc. Posteriormente, dessa experiência cria-se o Libera, o mais duradouro jornal anarquista brasileiro, o qual realizaremos análise na parte dois do trabalho.

3.6. Sociologias e Filosofias Libertárias dos Movimentos Sociais –