3. O CONTEÚDO JURÍDICO-SENTIMENTAL DA CLÁUSULA DOS BONS
3.2. A CLÁUSULA DOS BONS COSTUMES
3.2.1. O nojo
3.2.1.1. Anatomia do nojo
a) As manifestações típicas do sentimento de nojo consistem na tentativa de distanciamento do objeto, evento ou situação que o deflagrou, de modo que ele pode ser classificado como uma emoção de rejeição554.
Facialmente, sua expressão ocorre predominantemente na região bucal – onde se percebe uma abertura da boca e uma retração do lábio superior555 –, embora se possa observar
reflexos em outras partes do rosto, sobretudo as sobrancelhas – que costuma se franzir – e o nariz – que tende a manifestar um enrugamento556.
Outras características físicas envolvem o aparecimento de algumas respostas autonômicas parassimpáticas, com especial relevo para a redução da frequência de batimentos
552 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Disgust. In: LEWIS, Michael; HAVILAND-JONES, Jeanette M.; BARRETT, Lisa Feldman (Eds.). Handbook of emotions. 3. ed. Nova York: The Guilford Press, 2008, p. 766.
553 Ressalve-se que a anatomia a ser exposta se trata de uma adaptação, com a inclusão de alguns aprofundamentos e a retirada de certos elementos, de uma descrição já desenvolvida anteriormente. Cf. SOARES, Hugo Leonardo Chaves. O nojo como fundamento para a criminalização de condutas. Relatório de Mestrado. Faculdade de Direito. Universidade de Lisboa. Lisboa, 2015, p. 12 e ss.
554 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Op. cit., p. 758. 555 Idem, ibidem, p. 759
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cardíacos557, além da diminuição do nível de resposta galvânica da pele558. Registra-se, também,
a ocorrência de náuseas e salivação559.
b) Via de regra, os objetos materiais que tipicamente deflagram o asco possuem uma natureza orgânica560, o que aponta para uma certa relação deste sentimento com a noção de
vida.
Neste sentido, até mesmo o lixo, que às vezes é considerado como a exceção inorgânica dentre os gatilhos do nojo561, pode ser incluído nesse conjunto. Afinal, não parece haver a
mesma reação emocional quando se trata de materiais inorgânicos descartados, como objetos de papel, metal, entre outros.
Há, por outro lado, certos elementos que não possuem materialidade e, ainda assim, parecem deflagrar o nojo. Nesta linha, encontra-se, na literatura especializada, menções ao incesto, ao racismo, à hipocrisia, à traição, a atos de crueldade, entre outros, como elementos capazes de estimular o surgimento de tal emoção562.
Ocorre que, da forma como foi percebido nas primeiras abordagens científicas a seu respeito, o asco possuía uma dimensão essencialmente física. Com efeito, originalmente, a descrição científica do nojo mostrava-se limitada ao paladar, admitindo-se a participação de outros sentidos somente na medida em que estes promoviam, de algum modo, a remição à possibilidade de ingestão do objeto considerando repugnante563.
557 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Disgust. In: LEWIS, Michael; HAVILAND-JONES, Jeanette M.; BARRETT, Lisa Feldman (Eds.). Handbook of emotions. 3. ed. Nova York: The Guilford Press, 2008, p. 758.
558 CURTIS, Valerie; BIRAN, Adam. Dirt, Disgust, and Disease. In: Perspectives in biology and medicine, vol. 44, n. 1, 2001, p. 18.
559 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Op. cit., p. 758.
560 KOLNAI, Aurel. Asco, soberba, odio: Fenomenologia de los sentimientos hostiles. Madri: Encuentro, 2013, p. 63 e ss.
561 Idem, ibidem, p. 63.
562 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Op. cit., p. 766; similarmente, HAIDT, Jonathan. The moral emotions. In: DAVIDSON, Richard J.; SCHERER, Klaus R.; GOLDSMITH, H. Hill (Eds.). Handbook of affective sciences. Oxford: Oxford University Press, 2003, p. 857.
563 Cf. DARWIN, Charles. The expression of the emotions in man and animals. Londres: John Murray, 1872, p. 257 e ss. Ressalve-se que tal tendência ainda é relativamente forte, mantendo-se presente mesmo estudos recentes, cf. BELZUNG, Catherine. Biologia das emoções. Lisboa: Instituto Piaget, 2010, p. 439 e ss.
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Todavia, mesmo as mais avançadas dentre essas concepções iniciais – que ampliavam a vinculação do nojo com a boca e o paladar para uma conexão com o corpo como todo564 –
não se mostraram capaz de explicar a relação do nojo a certos atos, como o racismo565.
Para tanto, certas hipóteses são levantadas. Pode-se, por um lado, entender que as pessoas, ao afirmarem sentir nojo de determinadas condutas morais, apenas o fazem de maneira leiga, querendo, na realidade, expressar o sentimento de raiva por meio de confusões conceituais566. De modo similar, essa associação pode ser explicada como um uso metafórico
para enfatizar a aversão ao ato567.
Contra essas hipóteses, pode-se levantar dois argumentos. O primeiro, está baseado na disseminação da associação do nojo a violações morais em diversas culturas e idiomas, como o alemão, o bengali, o espanhol, o francês, o hebreu, o japonês, o mandarim e o russo568.
Todavia, o argumento da disseminação pode ser contra-atacado através do reconhecimento da possibilidade de intercâmbio linguístico ou desenvolvimento paralelo de metáforas similares569.
A segunda objeção, porém, se mostra mais contundente. Estudos tem demonstrado empiricamente que certas violações morais extremas, como o nazismo, eliciam emoções de repugnância e não de raiva570. Assim, embora não se exclua a possibilidade de ocorrência de
confusões conceituais ou metáforas – o que parece ocorrer, por exemplo, no que diz respeito à hipocrisia e traições – demonstra-se que tais modelos explicativos não são suficientes para explicar a realidade.
Uma terceira tentativa consiste na admissão de uma dimensão moral do nojo que esteja diretamente conectada com a sua dimensão física, de modo que somente as violações morais
564 Cf. HAIDT, Jonathan et al. Body, psyche, and culture: The relationship between disgust and morality. In: Psychology and Developing Societies, vol. 9, n. 1, 1997, p. 114.
565 Idem, ibidem, p. 116; HAIDT, Jonathan. Op. cit., p. 857; e ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Disgust. In: LEWIS, Michael; HAVILAND-JONES, Jeanette M.; BARRETT, Lisa Feldman (Eds.). Handbook of emotions. 3. ed. Nova York: The Guilford Press, 2008, p. 762.
566 NABI, Robin L. The theoretical versus the lay meaning of disgust: Implications for emotion research. In: Cognition and Emotion, vol. 16, n. 5, 2002, p. 700 e ss.
567 ROYZMAN, Edward B.; SABINI, John. Something it takes to be an emotion: The interest case of disgust. In: Journal for the Theory of Social Behaviour, vol. 31, n. 1, 2001, p. 52 e ss.
568 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Op. cit., p. 762 e ss. 569 ROYZMAN, Edward B.; SABINI, John. Op. cit., p. 53.
570 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Op. cit., p. 763; e HAIDT, Jonathan. The moral emotions. In: DAVIDSON, Richard J.; SCHERER, Klaus R.; GOLDSMITH, H. Hill (Eds.). Handbook of affective sciences. Oxford: Oxford University Press, 2003, p. 857.
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relacionadas ao corpo evocariam tal emoção571. No entanto, ela também não consegue explicar
a relação do nojo com genocídios, de modo a também não superar o argumento empírico. Diante dessas evidências, faz-se necessário reconhecer que o asco, para além de sua dimensão física identificada logo nos primeiros estudos sobre ele, possui uma segunda dimensão igualmente relevante: a dimensão sociomoral.
Neste contexto, é possível identificar, em geral, cinco categorias de fatores capazes de provocar – ou eliciar – o sentimento de repugnância: i) partes e excreções corporais; ii) deterioração e apodrecimento de alimentos; iii) certas criaturas, como cobras e insetos; iv) algumas categorias sociais, vistas como “outros”; e v) certas violações de normas morais ou sociais572.
Considerando esta classificação, pode-se, desde logo, observar potenciais riscos para o emprego normativo do asco, haja vista a possibilidade de rejeição de certas categorias demográficas. Por outro lado, demonstra-se, também, algumas vantagens, como a possibilidade de seu emprego como parâmetro para a identificação da violação de certas normas.
c) A partir da identificação dos fatores deflagradores do asco, é possível afirmar que este se desenvolveu evolutivamente no sentido de prevenir o contato com agentes potencialmente infecciosos573. Neste contexto, o nojo exerceria um papel fundamental na
função de seleção de alimentos saudáveis, bem como na de redução do risco de doenças574.
Por outro lado, certas correntes também atribuem ao nojo uma função simbólica, associando-o à rejeição à morte e à animalidade do ser humano575. Neste sentido, a repugnância
configuraria um mecanismo voltado para o reconhecimento de situações que se relacionam com relações indivíduo-ambiente associadas, de alguma forma, com a condição animal humana e
571 BLOOM, Paul apud OLIVERA LA ROSA, Antonio. ROSSELLÓ MIR, Jaume. On the relationships between disgust and morality: A critical review. In: Psicothema, vol. 25, n. 2, 2003, p. 224.
572 CURTIS, Valerie; BIRAN, Adam. Dirt, Disgust, and Disease. In: Perspectives in biology and medicine, vol. 44, n. 1, 2001, p. 21.
573 Idem, ibidem, p. 18 e ss.
574 OLIVERA LA ROSA, Antonio. ROSSELLÓ MIR, Jaume. Op. cit., p. 223.
575 BECKER, Ernest apud OLIVERA LA ROSA, Antonio. ROSSELLÓ MIR, Jaume. Op. cit., p. 223; similarmente, ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Disgust. In: LEWIS, Michael; HAVILAND-JONES, Jeanette M.; BARRETT, Lisa Feldman (Eds.). Handbook of emotions. 3. ed. Nova York: The Guilford Press, 2008, p. 761 e ss.
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com sua decadência, sobretudo a corporal576. O nojo poderia ser visto, então como o sentimento
voltado para a proteção – real e simbólica – do corpo577.
Todavia, a partir do reconhecimento da dimensão sociomoral do nojo, pode-se ampliar, ao menos no que tange ao Ocidente, o âmbito de incidência dessa função protetora, saindo da tutela do corpo para a garantia da dignidade da humanidade, no sentido de patamar mínimo da condição humana578.
Deste modo, os atos que, de alguma forma, parecem degradar alguém moral ou fisicamente a ponto de ultrapassar a fronteira da natureza humana eliciam esse sentimento social. Não por acaso, já se afirmou que a humanidade é o fundamento desta emoção579.
d) Uma das características mais mencionadas do nojo é a sua relação com o fenômeno de contaminação, no qual o caráter repugnante de um objeto seria transmitido para os demais objetos com os quais ele teve contato580. Tal associação, inclusive, não dependeria da existência
de um efetivo contato físico, sendo suficiente a imaginação de alguma forma de conexão entre os objetos581.
Como ilustração dessa relação entre o asco e a contaminação, pode-se recorrer ao relato de Charles Darwin a respeito do sentimento de repugnância que ele sentiu ao ter seu alimento tocado por um nativo da Patagônia, independentemente do fato de que não haver qualquer indício no sentido de que suas mãos estivessem, de algum modo, sujas582.
A existência dessa associação tem o condão de lançar dúvidas sobre o modelo não- cognitivista das emoções583, o que traria, inclusive, repercussões práticas na fase do estudo das
possibilidades prescritiva do nojo.
576 ROZIN, Paul; HAIDT, Jonathan; MCCAULEY, Clark R. Disgust. In: LEWIS, Michael; HAVILAND-JONES, Jeanette M.; BARRETT, Lisa Feldman (Eds.). Handbook of emotions. 3. ed. Nova York: The Guilford Press, 2008, p. 761 e ss.
577 HAIDT, Jonathan et al. Body, psyche, and culture: The relationship between disgust and morality. In: Psychology and Developing Societies, vol. 9, n. 1, 1997, p. 114.
578 HAIDT, Jonathan. The moral emotions. In: DAVIDSON, Richard J.; SCHERER, Klaus R.; GOLDSMITH, H. Hill (Eds.). Handbook of affective sciences. Oxford: Oxford University Press, 2003, p. 857.
579 Cf. MILLER, William Ian. The anatomy of disgust. Cambridge: Harvard University Press, 1997, p. xiv. 580 Cf. MILLER, William Ian. Op. cit., p. 17 e ss.; igualmente, OLIVERA LA ROSA, Antonio. ROSSELLÓ MIR, Jaume. On the relationships between disgust and morality: A critical review. In: Psicothema, vol. 25, n. 2, 2003, p. 223.
581 OLIVERA LA ROSA, Antonio. ROSSELLÓ MIR, Jaume. Op. cit., p. 223
582 DARWIN, Charles. The expression of the emotions in man and animals. Londres: John Murray, 1872, p. 257. 583 Cf. itens “a”, “b” e “e” do tópico 2.4.1.2.
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Afinal, se o nojo, que é um sentimento, possuir uma relação íntima com uma crença de contaminação, trata-se de uma evidência em favor do cognitivismo. Não por acaso, essa relação é sustentada por defensores desse modelo584.
No entanto, essa argumentação não merece prosperar por três motivos. O primeiro, e mais simples, é que o modelo não-cognitivista de avaliações corporificadas585-586 parece ser
capaz de explicar essa relação: o nojo, nesse modelo, apenas apontaria – tal qual um alarme de incêndio – sinais de que há uma contaminação, independentemente de ela efetivamente existir ou não.
Em segundo lugar, a ideia de contaminação não parece sequer ser necessária, para a configuração do sentimento de nojo. Pode-se demonstrar a primeira afirmação ao se remeter a um exemplo comum do cotidiano: é possível imaginar a utilização de um garfo para afastar alimentos considerados repugnantes – alguma iguaria exótica, por exemplo – e, logo em seguida, a continuação de seu uso no curso da mesma refeição587. Caso a contaminação fosse
essencial ao asco, tal situação seria impossível.
Ademais, a contaminação nem mesmo parece ser um fenômeno exclusivamente vinculado à repugnância. Da literatura universal, por exemplo, é possível extrair uma ilustração de uma situação em que a contaminação está relacionada com a raiva: no clássico “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, a raiva entre as famílias Capuleto e Montecchio é transmitida de forma geracional, sendo suficiente que uma pessoa nasça em um desses clãs para ser contaminada e se tornar objeto da raiva dos membros da outra casa588.
A partir de tais considerações, outra conclusão não parece haver, senão a de que há apenas uma mera correlação entre a contaminação e o sentimento de nojo. Não se pode afirmar, portanto, que a primeira é inerente ao segundo.
584 Cf. NUSSBAUM, Martha. Hiding from Humanity: Disgust, shame, and the Law. Princeton: Princeton University Press, 2004, p. 87 e ss.
585 PRINZ, Jesse J. The emotional construction of morals. Oxford: Oxford University Press, 2007, p. 60 e ss. 586 Cf. item “e” do tópico 2.4.1.2.
587 SOARES, Hugo Leonardo Chaves. O nojo como fundamento para a criminalização de condutas. Relatório de Mestrado. Faculdade de Direito. Universidade de Lisboa. Lisboa, 2015, p. 13.
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