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Capítulo III – Cardiomiopatia dilatada canina

6. Anatomo e histopatologia

Ao exame anatomopatológico os cães com CMD apresentam-se, em geral, com dilatação das quatro câmaras cardíacas, ou, predominantemente, das do lado esquerdo (Sandusky, Capen & Kerr, 1984; Kittleson, 1998b; Sisson et al., 1999; Tidholm & Jönsson, 2005; Ware, 2006a). Nestes animais, é evidente uma hipertrofia excêntrica do miocárdio, verificando-se um aumento da relação peso do coração/peso do corpo e uma diminuição da relação entre a espessura da parede ventricular e o diâmetro desta câmara cardíaca (Sandusky et al., 1984; Sisson et al., 1999; Borgarelli et al., 2001; Boon, 2002). Deste modo, o septo e a parede livre têm tipicamente uma aparência mais fina do que o normal, podendo, porém, encontrar-se dentro dos valores normais na CDM inicial (Kittleson, 1998b; Boon, 2002; Ware, 2006a). O músculo cardíaco apresenta-se pálido, macio e flácido (Kittleson, 1998b; Sisson et al., 1999), enquanto que os músculos papilares, por seu lado, estão frequentemente com uma aparência achatada e atrófica (Sandusky et al., 1984; Kittleson, 1998b; Sisson et al., 1999; Ware, 2006a). Já o ânulo das valvas átrio-ventriculares encontra- se aumentado em proporção à magnitude da dilatação das câmaras (Sisson et al., 1999). Adicionalmente, também poderão ser encontradas alterações degenerativas leves a moderadas nas mesmas (Ware, 2006a), e alongamento e espessamento ligeiro das cordas tendíneas (Sisson et al., 1999). Uma vez colocado sobre uma mesa o coração dilatado destes pacientes tende a colapsar (Kittleson, 1998b).

O endocárdio atrial e ventricular esquerdo está com frequência ligeiramente espessado, pois a gravidade da hipertrofia miocárdica nem sempre é evidente com clareza devido à dilatação das câmaras cardíacas, sendo, assim, a melhor maneira de o demonstrar o uso da quantificação da relação peso do coração/peso do corpo e da relação peso do coração/superfície corporal, que se encontram em geral aumentadas (Sisson et al., 1999). Além disto, poderão ser encontrados pequenos focos disseminados de necrose, hemorragia

e fibrose miocárdica, mas tais achados não costumam ser extensos (Sandusky et al., 1984; Sisson et al., 1999).

As alterações histopatológicas descritas em humanos, cães e gatos com CMD idiopática incluem alongamento, estiramento, diminuição, atrofia ou ondulação das miofibras, infiltração lipídica, vacuolização do citoplasma, hipertrofia de miócitos individuais, variação do diâmetro das miofibras, fibrose e, por vezes, necrose (Borgarelli et al., 2001). Estas lesões afectam essencialmente o ventrículo esquerdo (Ware, 2006a), sendo mais prenunciadas na base dos músculos papilares, no septo interventricular e nas regiões subendocárdicas da parede livre (Sandusky et al., 1984; Calvert et al., 1997a; Sisson et al., 1999). Em casos mais avançados poderá haver uma maior disseminação das áreas de fibrose e infiltração lipídica miocárdica (Sisson et al., 1999). O remodelamento das artérias coronárias, a que se assiste nesta doença, é evidenciado no decorrer do exame histopatológico pela presença de hiperplasia da íntima e hipertrofia excessiva das células musculares lisas da média (Sisson et al., 1999), podendo estas apresentarem-se com calibre diminuído (Calvert et al., 1997a).

A nível histopatológico parecem existir duas formas distintas de CMD idiopática, a cardiomiopatia dos Boxers e dos Dobermanns (Tidholm & Jönsson, 2005), correspondendo à degenerativa por infiltração lipídica (Dukes-McEwan, Borgarelli, Tidholm, Vollmar & Häggström, 2003), e a cardiomiopatia detectada nas outras raças em geral, abrangendo também Boxers e Dobermanns, e sendo classificada pela presença de atenuação e ondulação das fibras (Dukes-McEwan et al., 2003; Tidholm & Jönsson, 2005). Destas, a forma de CMD correspondente à presença de atenuação e ondulação das fibras parece ser a mais prevalente, uma vez que afecta um maior número de raças comparativamente à outra forma histopatológica de CMD (Tidholm & Jönsson, 2005).

A possível causa para o aparecimento da ondulação nas fibras cardíacas poderá ser a disrupção colagénica, que ocorre durante o remodelamento cardíaco e que é responsável pela sua dilatação (Tidholm & Jönsson, 2005). No entanto, tanto o trabalho de Tidholm et al. (1998) como o de Tidholm, Häggström e Jönsson (2000) advogam que o desenvolvimento destas alterações não seja uma resposta à dilatação cardíaca nem ao estiramento miocitário, uma vez que estas não se encontram presentes noutras doenças nas quais existe igualmente sobrecarga crónica de volume, estiramento miocárdico e dilatação cardíaca, e, pelo contrário, estão patentes em animais muito jovens e de corações não dilatados (Tidholm et al., 2000; Tidholm & Jönsson, 2005). Na verdade, estas alterações histológicas podem preceder os sinais clínicos e ecocardiográficos de CMD e, assim, indicar a presença de uma fase precoce desta doença (Tidholm et al., 2000; Tidholm & Jönsson, 2005).

A presença destas alterações foi documentada numa grande percentagem dos canídeos inseridos em diversos estudos, estando presente em 90% a 100% dos animais com CMD

nos trabalhos de Sandusky et al. (1984), Tdholm et al. (1996), Tidholm, Svensson e Sylvén (1997) e Tidholm et al. (1998). É, assim concluído, de acordo com o trabalho de Tidholm et al. (1998), que o exame histopatológico dos animais afectados, e a presença de fibras atenuadas e onduladas, pode constituir um teste diagnóstico para a CMD após a morte do animal, tendo isto também sido realçado posteriormente por Dukes-McEwan et al. (2003). A biópsia em vida do ventrículo direito, além de questionável na aplicação, poderá não ser suficiente para identificar a presença destas fibras alteradas e, por conseguinte, para fazer o diagnóstico desta fase precoce da CMD, uma vez que, como referido, estas alterações se encontram essencialmente no lado esquerdo do coração, sendo, assim, necessário o exame pós-morte ou a biópsia do lado esquerdo do coração para ser atingido o diagnóstico definitivo desta fase de CMD (Tidholm et al., 2000).

Uma vez que a própria estrutura miocitária se encontra alterada nesta forma de CMD, a origem desta deformação poderá ser mesmo causada por defeitos das proteínas citoesqueléticas, e sendo, por conseguinte, estas as responsáveis por transmitir a força contráctil aos sarcomeros e miócitos adjacentes, o seu comprometimento impedirá a normal contractilidade levando à atrofia miocitária secundária (Tidholm & Jönsson, 2005).

Por seu lado, a substituição fibrolipídica tecidular miocárdica, que também pode ocorrer, é tida como sendo uma consequência da perda miocitária originada por diferentes causas, como a miocardite ou secundariamente a outro estímulo nocivo (Tidholm & Jönsson, 2005). Ultra-estruturalmente, as principais alterações encontradas nos miócitos dos pacientes com CMD foram desorientação e perda de miofibras, espessamento irregular e degeneração das bandas Z, alterações mitocôndriais e presença de numerosos grânulos de glicogénio e de vacúolos lipídicos, assim como aumento do número de lisossomas e presença de grânulos de liposfuscina (Sandusky et al., 1984). Contudo, estas alterações ultra-estruturais não são específicas desta doença e, assim, não são diagnósticas da CMD (Sandusky et al., 1984).