3 ENTRE RAMOS E SABERES: CURAS E APRENDIZAGENS
3.2 Ancestralidade: O Processo Alinear do Ensino-Aprendizagem
No trato dos processos de aprendizagem na prática mostra-se necessário e imprescindível a abordagem sobre a importância da ancestralidade.
Para compreender a dimensão da ancestralidade bem como sua aplicação na pesquisa é necessária a abordagem de alguns pontos, em especial, o que é a ancestralidade. O início para tanto é assumir a ideia de que ancestralidade não está estritamente relacionada ao passado, como algo antigo, e apenas arraigado na memória. Dentro da cosmopercepção africana a ancestralidade não se retém
apenas à concepção de origem, mas sim “o eterno impulso inaugural da força de continuidade do grupo”, ela é a origem e o destino (SODRÉ, 1988, p. 153). Essa também não se restringe à laços de parentesco consanguíneo, mas regula e orienta as práticas e representações do grupo. A ancestralidade não só rege os ritos, mas orienta também as relações sociais, atuando enquanto princípio regulador (OLIVEIRA, 2007). Adilbênia Machado (2014, p. 57) afirma que essa manifesta-se “como guia, referência, lógica que organiza”.
Num contexto de escravidão em que a imposição da travessia resultou nos indivíduos escravizados sobreviventes, dentre tantos outros fatos, a solidão territorial, linguística, afetiva, social, etc., a perda de seus pares, filhos, família, de seus nomes, suas referências, a proibição do culto às suas divindades assim como a fragmentação de suas identidades étnicas, a ancestralidade atuou como um elo de ligação que possibilitou a, mesmo que limitada, reestruturação de alguns alicerces fundamentais para a sobrevivência em outra conjuntura e que estão, ainda hoje, latentes.
Assim, quando os africanos chegaram ao Brasil, o primeiro exercício de sobrevivência foi tentar recompor o tecido cultural africano. Recolheram seus vestígios, seus traços, seus fragmentos e tentaram reelaborar, recompor a cultura do seu lugar de origem, o lugar mãe. Fora a ancestralidade que permeou e sustentou essa tentativa, pois o sentimento materno nos acompanha em todos os lugares. Essa busca da re-territorialização encontra-se no culto à tradição, assim como na possibilidade de continuidade do seu espaço e seu tempo histórico, tempo esse que é o dos ancestrais (MACHADO, 2014, p. 57).
A ancestralidade e as simbologias que essa abarca foram fundamentais para a recomposição da população negra que teve seus elos marcados por significativas rupturas. De acordo com Sodré (1988) as culturas permeadas pelas ancestralidade, denominadas pelo autor como Arkhé, têm ligação fundamental com os saberes do símbolo, esses presentes nos rituais, nas entidades, no espaço, na natureza e nas palavras, além de ter a cultura fortemente associada à natureza, e foram essas características que permitiram a recomposição enquanto grupo e o reencontro com o que, na verdade, jamais foi perdido.
Os apontamentos de Cláudio Cavas e Maria Neto (2013) permitem compreender que a busca pela recriação da África “imaginada”, essa que habitava a memória dos povos africanos, se deu, principalmente através do contexto
mágico-religioso, que operava como um reagrupamento de povos diaspóricos, e é essa prática religiosa que permite recriar e viabilizar os contornos da identidade original. Dessa forma, as tradições africanas eram, e ainda são, traduzidas principalmente na fé. O repasse oral através da memória possibilitou a perpetuação de traços culturais fundamentais para a sobrevivência tanto no sentido existencial quanto político num contexto histórico doloroso. De maneira descontínua e polidirecional, com significativas balizas cronológicas e geográficas, o poder oculto da ancestralidade se manifesta enquanto estratégia de aprendizagem. Seja pela sensibilidade do corpo e da palavra ou pela rigidez do contexto e da experiência o repasse da sobrevivência dos povos negros possibilitou a criação de novos e possíveis horizontes.
Sondar a ancestralidade é trilhar também pelo axé, que é a forma da fecundidade, da proteção e da melhora das condições sociais (PETIT; CRUZ, 2008). Acerca da ligação do axé com a ancestralidade:
Acredita-se na preeminência dos mais velhos como detentores de axé pela sabedoria adquirida pela vivência. Pior do que o roubo de sua força de trabalho, o desenraizamento imposto ao negro levou ao roubo de sua força vital, obrigando-o a criar para si, novos territórios de sustentação e de multiplicação do seu axé. (PETIT; CRUZ, 2008, p. 348)
Pensar o axé é então, compreender sua atuação no corpo da benzedeira, no ritual da benzedura, é pensar que a sua vivência como praticante encorpa seu axé e, proporcionalmente, lapida seu dom. Outro aspecto extremamente enraizado na ancestralidade se refere ao jogo, conceito trabalhado também por Sodré (1988) que abarca a linguagem dos gestos, dos movimentos do corpo, das imagens, etc. Petit e Cruz (2008) afirmam que esses são os espaços de reterritorialização dos negros. Essa perspectiva pode ser aplicada à benzedura a maneira que se rememora a movimentação da benzedeira durante prática, o sinal da cruz, o movimento lateral dos ramos e a água lançada sobre o corpo do outro indivíduo assentam-se na sensibilidade do gesto, em que o tempo cronológico passa a ser o tempo cósmico, muito distante da rapidez e do automatismo moderno, ditando novos ritmos ritualizados, restituindo a dignidade aos corpos negros através do espaço próprio (PETIT; CRUZ, 2008).
Os saberes transmitidos tornaram viáveis a reprodução estética, culinária, musical, ritual, de saberes sagrados entre tantos outros elementos que devolveram a possibilidade da vida. Dessa forma, aproximando-se da função pedagógica da ancestralidade e de sua inspiração formativa, aponta-se então a construção do saber da prática de benzedura que se dá, sobretudo, através do repasse de encantações pronunciadas intergeracionalmente bem como a transmissão das técnicas de manejo e emprego de espécies vegetais e animais, práticas essas repletas de corporeidade, materialidade, essência e alcance.
Essa transmissão afetiva e efetiva dos saberes sagrados pode-se dar de abundantes formas, seja através da observação de um indivíduo, pela repetição de gestos e falas ou até mesmo por “herdar” espécies vegetais dispostas no quintal da família, por exemplo. A contemplação do uso das mesmas por outros internaliza o conhecimento no observante. Neste aspecto crê-se relevante a abordagem sobre as aprendizagens da benzedura, tanto da benzedeira quanto do benzido, num movimento de reconhecimento das potencialidades desta.