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Ancorando e objetivando a “violência de dentro”

No documento Liliana Martino Bertola Queiroz (páginas 126-130)

Os jovens alunos concordavam com o fato de que a violência faz parte do contexto social como um todo e que sua presença pode ser notada em qualquer ambiente, mas que em alguns ela se manifesta em menor e em outros em maior grau. Assim, o Colégio Vênus, de acordo com esses jovens não abriga as formas mais explícitas e mais graves de violência, as modalidades ali encontradas e relatadas dizem de atitudes mais implícitas e de categorias ancoradas e objetivadas por eles como sendo menos graves, mais amenas tais como:

25 Pátio Savassi é um shopping localizado na região da Savassi que como dito anteriormente é uma área nobre da cidade de Belo Horizonte. O Pátio Savassi é um shopping localizado nessa região e freqüentado por jovens, muitos deles alunos dos colégios situados na mesma região e que, segundo reportagens do jornal Estado de Minas, integrariam as chamadas “Gangues da Savassi”.

Violência física, vista como sendo “aqueles empurrões na fila”, “socos ou pontapés” ou ainda as “rixas novas ou antigas”. O relato a seguir retrata um episódio que ilustra essa categoria de violência que foi ancorada e objetivada como sendo

“violência de dentro”:

Sempre tem essa coisa de agressão física, sempre acontece. Outro dia sete horas da manhã teve um pega. Um cara deu um soco no peito do outro no pátio. Isso é comum, sempre tem alguma coisa assim. O boato foi que um xingou o outro e aí acabou em soco no peito e na cara. Às vezes um não gosta do outro há muito tempo, aí aproveita um esbarrão, qualquer coisa e já parte para a agressão. E às vezes é só coisa de momento, um ta mais irritado e acaba descontando em qualquer pessoa que ta perto. (CADERNO DE CAMPO Aluno do subgrupo pertencente à turma LARANJA do 2º ano)

O desrespeito para com os objetos dos colegas foi ancorado e objetivado como sendo “esses pequenos furtos”, os quais eles reconhecem possuir uma ocorrência e freqüência muito pequena dizendo de casos isolados. Relataram que desde a sétima série ocorrem esses “casos isolados”, pequenos furtos , dos quais possuem muita dificuldade em interpretar e explicar , e que pela ênfase dos relatos parecem incomodar.

Acontecem também furtos, roubos, mas não muitos. Mas acontece de sumir celular, MP3, MP4, IPOD... O pior é que a maioria dos caras tem condição de ir lá e comprar. Pode ser uma doença, clepto..., sei lá viciado em pegar, sei lá. Quando a gente tava na sétima série, tinha um colega nosso que roubava, sei lá, achava fácil roubar dos menores. Os meninos saiam da sala, iam andando e ele ia lá e pegava pulseiras, coisas fáceis de roubar. Acho que às vezes a pessoa tem uma solidão ou uma tristeza e acaba roubando para suprir essa falta... Acho que não tem motivo pelo lado financeiro. Só se for por causa de alguma outra coisa, pra comprar droga talvez.(CADERNO DE CAMPO Aluno do subgrupo pertencente à turma AZUL do 1º ano)

Essa categoria de violência parece incomodar muito na medida em que os jovens não conseguem explicar o “porquê” desses pequenos furtos, pois segundo eles , a maioria dos objetos que somem poderiam perfeitamente ser adquiridos por grande parte dos colegas. Eles evidenciaram a necessidade de buscar uma explicação e suas tentativas de argumentar foram sendo registradas na

conversação. Pareceu-me, então, que essas atitudes além de incomodar, necessitavam de uma explicação, um motivo para sua ocorrência. Os jovens demonstravam um sentimento que se fazia perceber como sendo “um querer entender” que foi evidenciado no depoimento anterior.

A “zoação” como violência dos apelidos pejorativos, denominada de bullying por Fante (2003) foi sendo ancorada e objetivada sendo denominada de “violência da zoação dos “apelidos e da discriminação”. A “zoação” foi representada pelos alunos como sendo um tipo de violência mesmo, ou seja, referindo-se às atitudes pensadas, planejadas com a intenção de magoar, ofender, espezinhar até o limite do outro, até que o outro não suporte mais.

Essa conotação que foi dada a “zoação” difere da trabalhada por Gonçalves e Nogueira in (Gonçalves e Tosta (orgs), 2008), o sentido abordado por eles refere-se à “zoação” como refere-sendo o fenômeno que combina socialização e sociação. Sendo a socialização vinculada à sociologia de Durkheim e dizendo da interiorização de regras institucionais por parte das crianças e jovens para sua integração e a sociação vinculada à Simmel, o qual acentua não a integração , mas o distanciamento desses jovens dos seus papéis sociais como alunos, filhos.

Assim, esse conceito de “zoação” não pode ser interpretado como violência, mas como um processo que no dizer dos autores acima

explicitava essa condição paradoxal posta pela articulação entre as duas identidades que se combinam produzindo, ao mesmo tempo, a conservação dos objetivos propostos pela escola e sua (re) significação pelos jovens ao orientarem suas ações no âmbito escolar. (GONÇAVES e NOGUEIRA in GONÇALVES ; TOSTA (orgs), 2008. p.123)

Um aluno da turma MARROM relata um episódio em que, diferentemente da

“zoação” trabalhada pelos autores acima, diz de uma atitude denominada por eles de violência, em que um colega apelidado pela turma de “o gordinho chato” é

considerado vítima. Segundo esse relato a turma não deixava o colega falar, debochava de suas colocações, ficava “zoando o tempo todo”, até que ele não conseguiu mais ficar na sala e pediu para mudar para a outra turma, para a turma CINZA. O relato desse aluno foi reiterado pelos outros jovens como sendo de fato uma categoria de violência que está presente no Colégio Vênus. Porém, um paradoxo foi se desenhando na medida em que os alunos, ao reconhecerem essa atitude como sendo violência, também a justificavam através do argumento de que o colega era “chato” e atrapalhava as aulas, portanto, tinha mesmo que sair.

Não é só porque ele era gordinho... Além disso, ele era muito chato, sabe! Ele perguntava o tempo todo, perguntas sem sentido, não deixava o professor dar aulas. Ele interrompia demais, parece que não entendia nada ou queria aparecer. A gente se encheu daquilo e resolveu que ia perturbar até ele não dar conta de ficar e pedir pra sair. Foi indo, foi indo, até que ele pediu mesmo. Até que depois a gente ficou meio que com pena, mas foi bom, ele era muito chato, não tinha nada a ver ele aqui, acho que foi melhor mesmo... (Aluno do subgrupo pertencente à turma CINZA do 3º ano)

Interpretanto a idéia dos jovens alunos, foi possível inferir que esses possuem uma facilidade em perceber aquilo que é violência para com eles, mas em se tratando das próprias atitudes, essa percepção se torna menos evidente ou

“evidenciada”. Foi o que percebi nesse caso em questão, pois a violência praticada contra o colega foi facilmente justificada pelo argumento de ele “ser chato”, como se isso fosse o suficiente para explicar a exclusão, ou pelo menos amenizá-la.

O palavrão também foi sendo ancorado e objetivado como podendo dizer da violência, o que dependeria da intenção e do contexto de sua utilização. Assim, o relato abaixo sobre a utilização do palavrão nas aulas de Educação Física, foi evidenciando essa relativização proposta pelos jovens acerca de sua utilização.

O palavrão pode ser pra xingar mesmo e pode ser só pra descontrair.

Depende ...Por exemplo: se o cara tá jogando e fala o palavrão normal lá no meio do jogo, tipo você tá lá entretido com o jogo e aí acontece um lance e você passa a bola pro seu colega e podia ter sido um gol e ele erra, aí você fala um palavrão. Assim é normal! Mas se você pede pro cara tocar a bola e ele toca errado porque tava distraído ou jogando mal mesmo, aí ele toca errado aí você xinga. Aí é outro caso, você xingou com raiva mesmo. A gente acha que palavrão é violência ou não, depende do contexto. Às vezes a gente xinga mesmo, ás vezes faz parte do que a gente tá fazendo, a gente nem tá com raiva nem nada, é só pra extravasar.(Aluna da turma VERDE do 1º ano)

No documento Liliana Martino Bertola Queiroz (páginas 126-130)