4. Tempos múltiplos, sobrepostos e segregados
4.1. Tempos e espaços nos/dos meios de transporte
4.1.2. Andar de bicicleta, o paradoxo do tempo e da eternidade
Ir para o trabalho a pé ou de bicicleta tornou-se algo insólito a partir dos anos 50 e,
principalmente 60 do século XX, momento em que os carros se generalizaram. De facto,
houve um período em que a bicicleta foi relegada para segundo plano, excluída das opções de
transporte dos habitantes da cidade, que preferiam o carro, autocarro ou metro para realizar o
seu trajeto casa-trabalho – “o afastamento dos locais de habitação relativamente aos locais de
trabalho e a utilização sistemática do carro, empurraram a bicicleta para o domínio do
desporto e do lazer” (Augé, 2008: 19).
No entanto, arriscaríamos sugerir, aqui, que nas últimas décadas, a sociedade
contemporânea é confrontada com um novo fenómeno: “a moda” das bicicletas, disponíveis
nos centros urbanos, nos seus vários pontos de aluguer e a baixo custo. Marc Augé, na sua
obra Éloge de la Bicyclette (2008) propõe que, numa sociedade em que somos convidados a
uma passividade, a um adormecimento dos sentidos, muito por culpa dos media, a bicicleta
aparece como uma forma dos indivíduos “acordarem”, serem responsáveis pelos seus atos e
de tomarem consciência desses mesmo atos – “o sucesso atual da bicicleta, nomeadamente
junto dos jovens, é, portanto, revelador. Ele vale como sintoma” (Ibid., 86).
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Foto 5: Junto ao posto de aluguer de bicicletas na cidade do Luxemburgo –
“Então, se queres, metes o inseres o teu código, escolhes uma bicicleta, fazes validar e já está!” (X: 73-74)
Ao longo das entrevistas, são várias as razões apontadas pelos entrevistados para a
escolha da bicicleta como meio de transporte: a praticidade, o ”ganho de tempo” no trajeto
(quando comparado com os outros meios de transporte), questões ambientais, ou outras razões
de caráter pessoal.
“Acontece-me ir de bicicleta até à escola, porque estou só com a minha filha R. e
ela adora isso, então vou levá-la. Na verdade, se faço isso, ganho muito tempo de
manhã. Em primeiro lugar, diverte-a, em segundo lugar dá-lhe uma outra visão
dos transportes: estamos de bicicleta, é cómico! E, em terceiro, ganho 20 minutos
no meu tempo de trajeto” (X: 8)
“Na verdade, tal como com os engarrafamentos, enerva-me ter que apanhar o
autocarro. Há imensa gente, toda a gente espera e estamos apertados, então
penso: prefiro estar sozinho na minha bicicleta” (X: 59)
A maior parte de nós aprendeu a andar de bicicleta em criança e recordar essa
aprendizagem é recordar as primeiras vezes que ultrapassamos limites, transpusemos
barreiras, conquistamos etapas, nos sentimos livres, caímos e nos levantámos; é recordar o
companheirismo, a entreajuda, a sensação de acelerar e de esperar.
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“O percurso na bicicleta gosto bastante, deve despertar, em mim, recordações de
liberdade. O trajeto de bicicleta entre a estação e o meu trabalho é mesmo o meu
maior prazer!” (X: 44)
É no ato de andar de bicicleta e na evocação das recordações da sua aprendizagem que
encontramos o grande paradoxo temporal do ato de andar de bicicleta. Somos confrontados
com o tempo (curto prazo) e, no mesmo ato, com aquilo que seria, eventualmente, a ausência
de tempo – a eternidade (ou, pelo menos, o longo prazo).
O progressivo conhecimento de si a que corresponde aprender a andar de bicicleta
deixa traços tanto inesquecíveis quanto inconscientes. Este é o paradoxo que o
torna original: o paradoxo do tempo e da eternidade […]. Neste sentido, andar de
bicicleta é aprender a gerir o seu tempo, tanto o tempo curto do dia ou da etapa,
quanto o tempo longo dos anos que se acumulam. Porém, (e aqui está o paradoxo)
a bicicleta é também uma experiência de eternidade […]. Aquele que, após alguns
anos de abstinência se arrisca a andar de bicicleta novamente, não só não demora
a 'reencontrar as sensações' [sensações, que não tendo idade, escapam à ação
corrosiva do tempo] como encontra, sobretudo, um conjunto de impressões […]
que pareciam apenas estar à espera desta ocasião para renascer (Ibid., 31-32).
Por outro lado, tal como o ato de caminhar, andar de bicicleta desperta os sentidos,
principalmente a visão, o tato e a audição. A visão expande-se, está-se mais alto e vai-se mais
rápido (do que a pé). A audição apura-se. A paisagem desfila perante os olhos do ciclista ao
mesmo tempo que a sente na pele. O tato, eventualmente adormecido, acorda: sente-se de
forma intensa o vento, a chuva, o frio, o calor, a neve enquanto se pedala. Este despertar dos
sentidos foi claramente manifestado pelos entrevistados:
“[Andar de bicicleta] é mesmo muito, muito divertido porque estou bastante
voltado para a observação. Se, por um lado, no comboio estou concentrado nas
minhas leituras, uma vez que pego na bicicleta, passo ao modo: abrir os olhos e
ver!” (X: 47)
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“Não sei se encontramos mais pessoas porque estávamos de bicicleta mas tens a
impressão de estar mesmo no espaço para o qual vieste! Sentes o quente. Na
verdade, tens tudo, sentes a chuva, o vento, o sol. E isso, na minha opinião, atiça
a viagem e a descoberta” (X: 48)
A bicicleta promove a perceção da condição real, palpável da nossa existência,
desperta em nós o sentimento de liberdade e ao mesmo tempo de descoberta, não apenas
exterior mas também de quem somos, dos outros e do contexto em que existimos.
Graças à bicicleta o espaço é apropriado de uma forma distinta, única. É o corpo a
chocar de frente com o mundo e, no caso particular deste estudo, o corpo a chocar com a
cidade.
Nariz ao vento, [os ciclistas] confrontam-se, claramente, com uma dupla
descoberta: apercebem-se, maravilhados, que a cidade é feita para ser olhada, para
ser vista (vista directamente, sem a mediação de uma máquina fotográfica ou de
uma câmara), que é bela até nas suas mais singelas ruas e que é fácil de percorrer
(Ibid., 54).
Pedalar é, por um lado, um meio propício à descoberta do ritmo biológico por outro,
um meio de acesso privilegiado a um espaço real. Quanto ao tempo, o mérito do ciclismo
passa por impor uma consciência mais aguda do tempo físico – “o milagre da bicicleta é que
ela funciona de forma suave, recordando a ordem biológica” (Ibid., 84-85). Aquele que
pretende pedalar toma consciência da sua idade, da sua preparação ou falta de condição física.
Quanto ao espaço, a bicicleta é um meio privilegiado de acesso a um espaço real em que se
sentem na pele as condições exteriores de existência levando a uma maior consciência de si.
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Foto 6: Estacionamento de bicicletas, à chegada ao local de trabalho (X:73)
A primeira pedalada é a aquisição de uma nova autonomia, é a fuga, a liberdade
palpável, o movimento na ponta do pé, quando a máquina responde ao desejo do
corpo e quase o ultrapassa. Em apenas alguns segundos, o horizonte delimitado
liberta-se, a paisagem mexe. Estou noutro lugar e porém sou eu próprio como
nunca; sou aquilo que descubro (Ibid., 29).
Ao longo das nossas entrevistas, verificamos que andar de bicicleta na cidade, mesmo
que seja a caminho do trabalho induz ao passeio, ao apreciar, ao “tomar o seu tempo”. A
bicicleta induz uma predisposição à flânerie.
“Se, por um lado, de manhã, como viste, ando rápido para não perder o comboio
[…], por outro, aqui, pegando na minha bicicleta, adoto um ritmo muito mais
'cool'. Não estou com pressa, se estou distraído com alguma coisa, não me
importo” (X: 55)
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A bicicleta permite então, uma aproximação ao espaço completamente distinta. É uma
experiência inédita que permite experienciar a cidade usando sentidos, que os transportes em
comum não permitem. Com ela reavaliamos distâncias, o tempo e o espaço transmutam-se.
Deixamo-nos escorregar sub-repticiamente numa outra geografia, eminentemente
e literalmente poética pois é ocasião de contatos imediatos entre lugares que
normalmente apenas frequentamos separadamente e ela aparece, assim, como a
fonte de metáforas espaciais, de aproximações inesperadas (Ibid., 53-54).
Não há dúvida que com o uso da bicicleta, os indivíduos encontram uma forma de
satisfazer essa necessidade de fluir, de circular. A bicicleta permite realizar, em certa medida,
um ideal de mobilidade fácil e, talvez, satisfazer, num determinado sentido, essa necessidade
e exigência atual de deslizar “através de”, de fundir-se, no fundo, de “liquidez” (Bauman,
2004)
No documento
Tempos múltiplos, sobrepostos e segregados: narrativas no Luxemburgo
(páginas 66-71)