H
avia exatamente dois dedos de água dentro do copo abandonado sobre a pia de mármore. O homem mediu com a mão direita. Um gole. O resto da cozinha estava absolutamente em ordem. Branco milimétrico. Cada coisa em seu devido lugar. Facas inoxidáveis, panelas, utensílios para abrir, espremer, triturar, decantar, e alimentos tão bem organizados que pareciam nunca terem sido tocados.Não era a primeira vez que chegava do escritório e encontrava o copo ali. Outras vezes, sobre a mesma pia de mármore, encontrara-o vazio. Outras ainda, fora surpreendido pelo objeto nos demais cômodos do apartamento. Já o havia notado sobre o criado-mudo do quarto. Não sabia explicar como nem por quê.
A única pessoa que possuía as chaves da casa era ele. Morava só. Passava o dia todo fora, trabalhando dois turnos condensados em um. Demorava-se ainda por causa da academia. Aos finais de semana, as indispensáveis viagens ao litoral. O
apartamento ficava vazio. Ou assim presumia. Até que começou a reparar na freqüência com que o fenômeno do copo se repetia.
De início, julgou que andava distraído. Atordoado pela correria do escritório, dormindo três horas por noite em média, a cabeça lhe doía muito. O copo itinerante, inferiu, era conseqüência da pressa e das aspirinas, consumidas às dúzias, uma atrás da outra. Parecia-lhe natural que alguns detalhes da vida cotidiana passassem despercebidos. Ele mesmo consumia o copo d’água antes de sair e não lembrava disso ao voltar. O raciocínio faria sentido não fosse a certeza de, aquela manhã, perturbado pela dúvida, o haver propositadamente colocado de ponta cabeça.
O homem fitava imóvel o objeto de vidro sobre a pia da cozinha. Meditava enquanto o silêncio asséptico do apartamento ameaçava engoli-lo. Um pequeno rosto deformado
mas idêntico ao seu o contemplava do fundo do copo, desconfiado. Sentia-se cada vez menor, cada vez menos o morador daquele duplex. As suas costas, o motor da geladeira zunia incessantemente como o ronco de um demônio adormecido.
Sentiu seu corpo esquentar. Desfez o nó da gravata e arregaçou as mangas da camisa listrada. Um filete de suor escorreu da axila pelo flanco do tórax. Perturbou-se e decidiu investigar.
Sobre a mesa de centro da sala ampla, o jornal, cuidadosamente dobrado, repousava ao lado dos livros de arquitetura e do vaso de cristal. O homem recordou que não estava lá quando saiu de manhã. O havia deixado no banheiro. Também abrira a cortina antes de partir. Agora, no entanto, constatou que estava completamente fechada, e a luz da rua transparecia pálida através do tecido.
Caminhou até o quarto vagarosamente. O corredor parecia ainda mais estreito na penumbra. Acendeu a luz. Os quadros nas paredes iluminaram-se, subitamente revelando coloridas figuras de desenho animado. Ao abrir a porta, surpreendeu-se por definitivo: a cama havia sido feita e roupas limpas jaziam dobradas e empilhadas sobre a poltrona de canto. Coisas que ele sem dúvida não tivera tempo de fazer ao levantar, pensava redobrado, testando a veracidade dos fatos.
Esquadrinhou seus objetos pessoais revirados, e o medo que experimentava de repente se liqüefez em uma espécie de raiva. Ocorreu-lhe esta idéia: a ex-mulher teria passado no apartamento para resgatar vestidos ou vasos ou qualquer coisa do gênero. Há quanto tempo vinha fazendo isso? Não havia devolvido a chave ainda? Resolveu ligar.
O telefone tocou várias vezes antes de cair na caixa postal. Sobreveio uma voz delicada, anunciando uma longa viagem ao exterior. Voltaria dali a dez dias, dizia em seguida. A melodia macia da gravação impeliu o homem à irritação profunda.
Devolveu o auscultador sem fio à base com um estouro. Lembranças ruins ameaçaram voltar. O enigma do copo permanecia sem solução.
Voltando para a sala pelo corredor, arrastava-se encurvado sobre si mesmo. O relógio prateado no seu pulso marcava nove e meia. Queria assistir ao jornal das dez. Ouvir a opinião dos analistas econômicos a respeito da crise imobiliária. A televisão ficava no escritório, se é que também não havia sido trocada de lugar.
Achou graça na situação. Daria uma boa história, calculou. O dia em que alucinou e encontrou a própria casa de pernas para o ar. Obra das medicações que o analista recentemente lhe receitara, diria: um
comprimido de fluoxetina com três doses do uísque de tarja vermelha. Sorriu. Vieram-lhe a expressão “efeito colateral” e as gargalhadas dos colegas de trabalho. Ao erguer a cabeça, sentiu sua espinha como um cabo de alta tensão. Seus olhos flagraram nitidamente um vulto acelerando em direção à cozinha.
Paralisado, concentrou-se em um ponto imaginário localizado na parede cândida a sua frente, dentro da copa. Ficou ali estático alguns minutos, antes de ter certeza que, de fato, vira alguém ou alguma coisa
se movimentando e que a sombra tinha desaparecido dentro da cozinha.
Sob as palmas crispadas, estalou os dedos das mãos. Respirou fundo. Deu um passo a frente, depois outro. Repetia para si mesmo que tudo estava em seu devido lugar. Pé ante pé, sussurrava a frase em círculos concêntricos.
O som da geladeira voltou a perturbar o homem. Teve a impressão de que aumentara de volume. Tudo permanecia intocado na
cozinha. Atentou para área de serviço ao fundo, escondida na escuridão. O vulto só poderia ter migrado para lá. Caminhou até o interruptor ao lado do fogão elétrico e acionou o botão.
As lâmpadas frias piscaram indecisas antes de acender completamente. Duas máquinas grandes em forma de cubo, com as quais tinha pouca familiaridade, emergiram do breu. Examinando-as, lembrou-se que serviam para lavar e secar roupa e que já lhe haviam sido úteis há muito tempo, na época nebulosa que sucedeu a partida da ex-mulher. Um passado remoto do qual se sentia mais ou menos emancipado. Certificou-se de que não havia nada dentro ou atrás dos aparelhos.
Quase imperceptivelmente, uma corrente de vento deslizou pela fresta de uma
das janelas e agitou os imensos lençóis pendurados no varal a sua direita. Não havia reparado neles ainda. Estavam tão limpos que pareciam a continuação da parede. Achou curiosa a maneira como o pano oscilava em ondas, reproduzindo o ruído suave do algodão. Era como se derretesse, revelando outra dimensão.
O homem, então, conscientizou-se de que nunca antes havia reparado que ali havia um varal. Assumira sempre que a área de serviço acabava naquela falsa parede branca, construída
sobre pano e indiferença. A assombração, concluiu, só poderia ter se escondido ali atrás. Estendeu o braço como se o mergulhasse em