Entrevista concedida a Antônio Abujamra no programa de televisão Provocações, número 696, exibido no dia 28 de abril de 2015, veiculado na TV Cultura e disponível na internet no link https://www.youtube.com/watch?v=Z_zmf8O-PF8, acessado em 8 de outubro de 2015. A entrevista foi decupada conforme pode ser conferido no material abaixo.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Provocações... Provocações outra vez na minha vida, na vida da TV Cultura, na vida das pessoas, na vida da água, do mar, meu Deus do céu! Provocações é uma palavra que devia ser dita pelos gregos, por Medeia, por Écoba. Gregos é que deviam falar provocações, mas os gregos não estão falando nada hoje, eles não estão inventando mais as coisas, inventaram tudo, agora eles gritam, berram, lá também tem problemas e eles fazem provocações também.
Nós estamos aqui, provocações, quatorze anos no ar, caminhando no incerto, idolatrando a dúvida. Agora, ano quinze, este programa pode não ser uma janela aberta para o mundo, mas é certamente um periscópio sobre o oceano do social. Provocações... Provocações!
E vejam só como é a internet quando usada não a serviço da banalidade, dois adolescentes amigos criaram no Facebook a página chamada SP Invisível, ou seja, São Paulo Invisível. É para que os moradores de rua mostrem a cara e contem a sua história. É uma ideia simples, não é?! Só que se alguém teve antes deles, não fez. É uma boa ideia não posta em prática e uma boa ideia não posta em prática não quer dizer nada. Não é o caso de SP Invisível, já vista no Facebook por mais 40 mil pessoas, seus criadores estão aqui, eles são André Soler e Vinicius Lima.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Vinícius Lima, de onde surgiu a ideia?
VINÍCIUS LIMA: A ideia surgiu um dia, um grupo de amigos, eu, André e mais alguns amigos a gente saiu na rua querendo tirar foto de moradores de rua pra incomodar, porque querendo ou num Facebook que tudo é falso que a vida de todo mundo é boa, uma foto de um morador de rua incomoda. Esse dia a gente chamou de SP Invisível, porém esse dia passou, o nome ficou e o que eu e o André percebemos depois? Invisível não são as pessoas, são as histórias delas. Vamos
então mostrar além das pessoas, vamos tirar foto e contar a história delas e ai nasceu o SP Invisível.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: E como seu amigo André Soler entrou na história?
VINÍCIUS LIMA: Eu tenho muito essa intimidade com a palavra, que eu gosto de ler, estudo jornalismo, e o André é mais a parte do cinema, da fotografia e achei que não tinha ninguém melhor pra tocar esse projeto do que ele. Aí eu chamei ele e a gente construiu a ideia junto.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Você e o André acham mesmo que moradores de rua são invisíveis?
VINÍCIUS LIMA: Como eu disse invisível não são as pessoas, são as histórias. Muita gente até vê o morador de rua, porém até ajuda, mas quando ajuda, ajuda de uma maneira muito vertical. “Eu tô aqui em cima e você ai embaixo, um pobre coitado toma um pão”, o cara não tem a possibilidade de escolha. É um pão que tem, é um pão que você vai ter. Tem um ditado que diz “Pé de pobre não tem número”, “tem esse tênis, se quiser é esse.”, e a partir do momento que você conhece a história da pessoa deixa de ser uma maneira verticalizada de caridade, pra ser uma maneira horizontal, essa ajuda, de justiça.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: André Soler, quantos moradores de rua você acha que são necessários para esgotar a página no Facebook?
ANDRÉ SOLER: Pra esgotar a página a gente não precisa pegar todos os moradores de rua e por no Facebook. A ideia é que com o menor número de moradores de rua a gente consiga atingir o maior número de pessoas e a partir dai ter o menor número de moradores de rua nas ruas.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Como vocês são recebidos por seus invisíveis de São Paulo?
ANDRÉ SOLER: A gente é recebido muito bem. Eu posso dizer que fui maltratado uma vez, que foi ontem.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Tiraram seu bigode? Um pedacinho?
ANDRÉ SOLER: (Risos) Não. Tentaram me bater, mas...
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Mas não bateram?
ANDRÉ SOLER: Não bateram.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Perderam essa oportunidade.
ANDRÉ SOLER: Perderam. Perderam. (Risos)
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que é a vida, hein?! E como é que você se safou?
ANDRÉ SOLER: Bom, ele tentou me bater com uma garrafa, mas é que eu sinceramente forcei um pouco a conversa, coisa que eu não devia ter feito e ele veio correndo atrás de mim, mas eu corri um pouco mais rápido.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Muito bem! Tem que entrar numa maratona qualquer ainda.
ANDRÉ SOLER: (Risos)
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Como os chamados visíveis na rua tratam os invisíveis?
VINÍCIUS LIMA: Eu acredito muito que o pessoal bota um padrão pro dia que a pessoa querer sair da rua, isso sem falar das pessoas que não querem sair da rua. Esses aí o pessoal fala “ah esse aí é cracudo”, “Esse aí é vagabundo”, “Esse aí não sei o que”, mas ele simplesmente não quer sair da rua. Os que falam que querem sair da rua, eles oferecem até uma ajuda, os programas, as pessoas, porém o erro já tá no começo que eles acham que é só com o trabalho que a pessoa vai sair a
rua. E aí perguntam “quanto você pesa?”, ”Quanto você mede?”, “O que você sabe fazer?”, e vê onde ele é funcional pro sistema que a gente vive. E ninguém pergunta o que ele sente, o que ele quer, do que que ele tem fome. Eles veem os moradores de rua de uma maneira muito distante, não como pessoa e ao mesmo tempo eles criam um padrão que o cara tem que ser manso, longe de vícios, ele tem que ter uma vida saudável, tem que ser assertivo, produtivo, e aí você bota o cara que fala isso num trânsito ou em uma reunião de condomínio o cara xinga, o cara grita, o cara bate na mulher em casa ou o cara é viciado num rivotril, numa ritalina, num cigarro. Então é meio estranho o padrão que o pessoal cria pra um morador de rua e é totalmente igual a ele se for ver.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que você está fazendo pode ser considerado reação ao que você aprendeu na infância?
VINÍCIUS LIMA: Nunca pensei nisso, mas creio que sim. Eu acho que toda criança quer ser ouvida e a maioria dos adultos não ouve a criança. Ainda mais uma criança de rua, não é meu caso, mas imagino que pra uma criança de rua deva ser pior ainda. Aí essa voz que a criança não tem, tentei dar pra essas pessoas na rua.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que os seus amigos de escola acham do que vocês fazem?
VINÍCIUS LIMA: Eles gostam bastante, ainda mais o pessoal lá da minha faculdade que é tudo envolvido com essa questão dos direitos humanos. Um amigo meu me falou um negócio muito interessante, falou “Vini, com esse projeto tá dando visibilidade as pessoas e a visibilidade é o primeiro passo para garantir os direitos humanos.” Um amigo meu da faculdade falou porque se tem casos como do Amarildo6 e do Douglas7 que foram mortos pela violência policial, que se os amigos deles não se mobilizassem e falassem esse é Amarildo e esse é o Douglas, eles tem
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Amarildo Dias de Souza era um ajudante de pedreiro que ficou conhecido por conta de seu desaparecimento, em 14 de julho de 2013, após ter sido detido por policiais militares do Rio de Janeiro. Seu desaparecimento tornou-se símbolo de casos de abuso de autoridade e violência policial
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Douglas Rafael da Silva Pereira era dançarino do programa Esquenta, da TV Globo, conhecido como DG. Foi encontrado morto no dia 22 de abril de 2015, em uma creche na comunidade do Pavão-Pavãozinho, Rio de Janeiro. Inicialmente, a morte foi atribuída a uma queda, porém O laudo do IML, mostra que foi morto com um tiro.
um nome, eles não são invisíveis, passariam em branco e as famílias deles não teriam direito e essas coisas. Acho que isso eu não tinha enxergado, que é uma coisa que a gente faz.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Agora me diga uma coisa André Soler, vocês gravam em vídeo ou só fotografam?
ANDRÉ SOLER: Quando eu saio pra rua eu fotografo e gravo tudo o que eles estão falando com um gravador. E a partir daí o Vini escreve o texto.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: E o que vocês pretendem fazer no futuro com esse material?
ANDRÉ SOLER: Bom a gente tem alguns sonhos. A gente tem o sonho de ter um livro nosso com as histórias, a gente tem o sonho de ter um site onde as pessoas possam adquirir mais o conteúdo e entender. Porque tá com esses caras, ter essa experiência de vida, de conversar com eles é muito grande e acho que uma das minhas maiores tristezas é não conseguir passar tudo isso que eu vivo com eles na página. É triste dizer que o texto e a foto não são suficientes pra mostrar toda aquela emoção, toda aquela energia que existe ali naquela conversa.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Agora em São Paulo milhares de Haitianos, de Africanos, de Palestinos, eles não são invisíveis também?
ANDRÉ SOLER: Olha Abu, na nossa cidade de São Paulo, cada vez que a gente volta nossos olhos para um invisível a gente tem que tomar cuidado para não deixar outro lado invisível. E eu falo isso porque eu tava colocando todas as minhas energias no SP Invisível e eu esqueci dos meus avós que estavam em casa querendo conversar comigo também, sozinhos. Então eu acabei deixando os idosos invisíveis. Então a nossa vida, a gente tem que sempre tá de olhos abertos pra saber o que a gente vai fazer.
ANDRÉ SOLER: A gente escolheu falar dos invisíveis como moradores de rua. Outros movimentos na internet tem sidos gerados como SP Idosos Invisíveis, SPciais Invisíveis, que estão aí pra também mostrar outro lado dos invisíveis. A gente é uma página que incentiva o coletivo, incentiva a ideia de outras pessoas. Então se surgir alguém com a vontade no coração de falar sobre colombianos, sobre haitianos, a gente vai estar disposto a ajudar.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que você está fazendo pode ser considerado reação ao que você aprendeu na infância?
ANDRÉ SOLER: O que eu estou fazendo é uma subversão ao que eu aprendi na infância. Os meus pais, eles... Uma vez a minha mãe me falou assim “Cuidado André, ali o homem do saco! Ele vai correr atrás de você.”, uma brincadeira né, uma brincadeira que às vezes os nossos pais fazem pra gente tá distante dessas pessoas. E acho que isso me fez pensar por que? Por que? Eles são seres humanos como a gente, eles têm um coração, eles tem uma história, eles têm algo a dizer. E essa ideia de tratar eles como igual é algo que a sociedade não colocou pra nós, porque eles são iguais a gente, a gente só tem um monte de preconceitos que fazem com que eles fiquem cada vez mais pra baixo e alguns, com isso, até se colocam pra cima.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que a sua família acha? Que é isso mesmo que você tem que fazer ou que isso vai passar?
ANDRÉ SOLER: Bom, a minha família acredita muito no projeto e dá todo apoio. Há pouco tempo atrás eu pedi demissão do meu emprego e meus ais falaram “Se é isso que você acredita, eu acho que você tem que correr atrás.”
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que você gostaria que eu tivesse perguntado, mas eu não perguntei?
ANDRÉ SOLER: O quanto isso tem mudado na minha vida?
ANDRÉ SOLER: O SP Invisível tem mudado muito a minha vida. Eu sou um menino de classe média, que tenho que encarar essa provocação diária de ter que conversar com um morador de rua e às vezes se sentir impotente de fazer alguma coisa. E ter que escutar e saber que eu não sou o dono do mundo, saber que ali é que está a vida e existem pessoas ali que precisam ser ajudadas. E a coisa mais triste é saber que existem pessoas que leram todas as histórias e ainda não entenderam do que a gente tá falando.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: André Soler, o que é a vida?
ANDRÉ SOLER: A vida são emoções indescritíveis, onde a gente tem que passar todo dia por elas e saber o que fazer com elas.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que é a vida?
ANDRÉ SOLER: A vida são momentos onde se não há amor, não faz sentido existir os momentos.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Vinícius Lima, o que é a vida?
VINÍCIUS LIMA: A vida é o caminho, é acordar todo dia, é tentar ser melhor que ontem. E assim vai. Às vezes você vai cair, às vezes não, mas mais a caminhada do que onde você quer chegar. Eu acho que é isso.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: O que é a vida?
VINÍCIUS LIMA: A vida é o caminho, mas agora já não sei se é o caminho mesmo.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: (Dirigindo-se a Vinícius Lima) Tá bom! Então dá aqui um abraço. Que a única coisa falsa desse programa é o abraço.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: (Dirigindo-se a André Soler) Tudo bem! Dá aqui um abraço. Que a única coisa falsa desse programa é o abraço.
- ANTÔNIO ABUJAMRA: Eu não invejo a vastidão do mundo e da vida e nem eles me invejam. Eu lhes ofereço as minhas profundezas e eles, a mim, apenas suas poucas coisas visíveis: as regiões e as paisagens a olho nu. Que eles, o mundo e a vida, não possam compreender-me, não depende de mim. Continuo mentindo que eles me pertencem, só porque os vejo. Quanto a eles, nem sei se sabem de minha existência. (Autor: Branislav Prelevic).