CAPÍTULO I – Enquadramento Teórico
3. Animação Patrimonial e potencialidades turísticas
3.5 Animação Patrimonial, Turismo Apropriado e Desenvolvimento Local
Clarificado o conceito de Animação Patrimonial é então fundamental compreender de que forma o mesmo se relaciona com o conceito de turismo apropriado defendido por Cherem ou com o conceito de turismo comunitário defendido por vários autores.
A principal ligação entre Animação Patrimonial, turismo comunitário e turismo apropriado é que um se torna consequência do outro.
Um projeto de Animação Patrimonial só faz sentido evoluir para uma componente turística caso se aposte numa filosofia de turismo comunitário ou turismo apropriado.
Não teria qualquer sentido apostar num projeto em que se trabalhasse com a comunidade a sua relação com o património local, um projeto em que a comunidade aprendesse mais sobre a sua cultura, sobre a sua história, sobre os ancestrais da sua identidade e depois fosse implementado um sistema turístico massificado no qual a comunidade não tivesse qualquer participação. Antes de mais importa conhecer o que se entende por desenvolvimento local, inúmeros autores têm refletido sobre esta temática apresentando várias abordagens sobre o conceito.
Segundo Santos, no artigo, “Dos modelos de desenvolvimento local aos projectos de animação cultural: conceitos, dimensões e desafios” o desenvolvimento local pode ser encarado e desenvolvido sobre diferentes paradigmas, podendo ser entendido, por um lado, numa perspetiva funcionalista ou por outro, numa ótica territorialista. (2011,p.1)
Santos considera que estas duas formas de intervenção são bastante divergentes, se por um lado, o modelo funcionalista atua numa ótica de satisfação dos interesses sectoriais e empresarias, por outro, o modelo territorialista aposta na defesa dos interesses da comunidade e território, através da sua qualificação e mobilização dos recursos existentes. A lógica de atuação dos dois paradigmas também diverge na medida em que na ótica funcionalista as dinâmicas sociais e económicas dos territórios advêm de estímulos externos, já na visão patrimonialista as dinâmicas existentes advém da criação de sinergias entre os agentes locais.
O modelo territorialista aposta no empoderamento das comunidades tornando os cidadãos elementos ativos na toma de decisões. Este modelo defende ainda a atuação estratégica com base na defesa dos elementos diferenciadores através da valorização dos recursos endógenos e identitários.
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Na tabela que se segue é possível verificar os aspetos em que os modelos divergem: Dimensões de análise Modelo Funcionalista Modelo Territorialista
Objectivo Utilização dos territórios e das
comunidades locais e regionais como veículo de satisfação dos interesses sectoriais e
empresariais
Qualificação dos territórios e das comunidades locais e regionais através da
mobilização integral dos seus recursos
Lógica Criação de dinâmicas sociais
assentes em estímulos externos; vertical e funcional
Criação de dinâmicas sociais assentes na mobilização das energias internas; horizontal e territorial
Organização Sectorial; atomista; território hospedeiro/objecto
Transversal; redes; território protagonista/sujeito
Recursos Captação de investimento
móvel internacional e inter- regional; valorização dos recursos financeiros e materiais (hardware); privilégio da grande escala
Apoio ao empreendedorismo de génese local e regional; valorização dos recursos imateriais organizacionais (software e organware); aproveitamento de iniciativas de pequena e média escala
É pertinente afirmar que no âmbito da Animação seja ela Cultural ou Patrimonial o desenvolvimento local seja baseado num modelo de cariz territorialista. Santos corrobora com esta opinião afirmando que “os projectos de animação cultural devem revestir um claro figurino territorialista, ou endógeno, porque só assim poderão constituir-se como verdadeiros instrumentos de valorização dos activos locais e de qualificação das comunidades” (2011,p.1). Como o autor defende ao longo do artigo, o desenvolvimento local deve basear-se nos recursos endógenos permitindo a qualificação das comunidades. Esta estratégia de intervenção nos territórios que visa a mobilização de todos os recursos existentes pretende também reforçar a matriz identitária das regiões bem como favorecer o empoderamento das comunidades na tomada de decisões. (Santos, 2011, pp. 8,9)
Para além de Santos outros autores se têm debruçado sobre o conceito de desenvolvimento local, para Silva “Desenvolvimento (territorial) local é frequentemente interpretado como o paradigma mais recente do desenvolvimento”(2009, p.68), o conceito de desenvolvimento tem Estratégias
Integração funcional Diferenciação, inovação, afirmação identitária
Riscos potenciais Deslocalização de actividades,
abafamento do potencial de
recursos local e regional
Auto-fechamento, esclerose institucional e organizacional
Papel dos aspectos culturais Menor, despiciendo Maior, fundamental
Tabela 3 Tabela 3- Diferenças entre o modelo de desenvolvimento Funcionalista e Territorialista. Fonte: Santos (2011, pp. 8,9)
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vindo a sofrer alterações ao longo dos tempos, na atualidade este paradigma assenta sobretudo numa perspetiva de desenvolvimento endógeno.
O autor prossegue desenvolvendo esta ideia ” É também conhecido sob a designação de desenvolvimento endógeno, integrado, comunitário e sustentável” (Silva, 2009, p.68), isto é, assente nas potencialidades e recursos locais.
Buarque apresenta-nos uma conceção bastante esclarecedora relativamente ao conceito “(…) o desenvolvimento local depende da capacidade dos atores e sociedades locais se estruturarem e se mobilizarem, como base nas suas potencialidades e matriz cultural, para definir e explorar, as suas prioridades e especificidades” (2002, p. 30, em linha).
O autor acima citado apresenta uma visão que responsabiliza os atores sociais, ou seja, a comunidade no processo do seu próprio desenvolvimento, apoiado sobretudo em potencialidades locais e na matriz cultural e identitária.
É sob este ponto de vista defendido pelos vários autores citados que se insere a Animação no contexto do património e turismo. Sendo a Animação Comunitária uma estratégia de ação que visa a mobilização das comunidades para o seu próprio desenvolvimento sustentável, é simples compreender que no contexto do património, basta que esta mobilização se desenvolva em torno deste, fomentando assim a procura e oferta turística.
Lopes partilha da mesma ideia afirmando:
Num conceito alargado de Animação, pretende-se que esta projete, junto do turismo, a sua capacidade técnica e metodológica de gerar processos participativos e criativos, de otimizar recursos humanos e outros, de promover a interação social, de potenciar o desenvolvimento social e pessoal, sempre com a preocupação central de levar a pessoa a um autodesenvolvimento que decorra de aprendizagens ativas. (2008, p.363)
Mais autores defendem esta perspetiva, tomemos como exemplo esta afirmação de Silva:
(…)o território que se quer também turístico, deve ser (re)construído envolvendo, e unindo, todos os “atores” que, no local “visionam” o seu futuro, usando a inovação, aprendizagem, as redes e a governância como fatores decisivos, e em que a coesão interna de todos os elementos que o compõem , aliada a uma necessária abertura ao exterior, se assumem como determinantes para o seu sucesso. (2008, p.84)
Ainda dentro deste contexto, Bucho apresenta o conceito de Animação Turístico-Cultural:
Podemos definir animação turístico-cultural do património como um conjunto de acções e serviços que permitem e que estimulam uma fruição turístico-cultural de qualidade, preferencialmente disponível em regime de permanência, dos valores patrimoniais em causa, resultando benéfica, não só para o visitante, como para o bem em causa, como para a comunidade onde se insere esse património. (2010, p.87)
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Como breve resumo destas noções apresentadas por vários autores em torno do desenvolvimento no contexto turístico, segue uma citação de Silva muito elucidativa no que diz respeito à importância da mobilização dos atores sociais em prol de projetos de dimensão turistico-cultural: O desenvolvimento (turístico) local constrói-se pelo embate quotidiano dos diferentes actores dos locais, movidos pelos seus interesses, e reprocessado pelas suas representações politico-sociais, pelas suas empresas, planeadores e governos, tendo como referencia os padrões de consumo dos actuais e novos turistas, as necessidades das populações locais, as expectativas de lucratividade e os imperativos de conservação ambiental, tendo sempre, como pano de fundo, a qualidade de vida das populações e dos cidadãos e a sustentabilidade. (2008, p.84)
Todos os autores citados apresentam a clara noção que o desenvolvimento local, nomeadamente o desenvolvimento local em torno do turismo, exige a participação da comunidade. Como afirma Silva na citação anterior, no contexto do turismo, defende-se que a linha de ação deve ter em conta as necessidades e expectativas do turista. Esta preocupação em oferecer algo que vá ao encontro do que o turista procura deve também ser explorado no contexto da animação patrimonial, sem nunca esquecer de auscultar se esta oferta interfere no bem-estar da comunidade local.
Sendo possível conciliar uma oferta de Animação Patrimonial em contexto turístico com os interesses e qualidade de vida da população, o animador deve desenvolver em conjunto com a comunidade projetos ricos e diversificados captando assim visitantes.
A maior afluência de visitantes aos locais turísticos pode acionar mecanismos de desenvolvimento económico que em muito podem contribuir para a melhoria de qualidade de vida da comunidade. Lugares visitados podem estimular a criação de novas ideias de negócio, sendo também um incentivo à inovação e empreendedorismo em vários sectores de mercado e também no sector da animação cultural.
A afluência de visitantes ao espaço turístico pode contribuir para o desenvolvimento cultural, estimulando a criação artística e a oferta cultural. A criação artística em diversas áreas pode contribuir para o desenvolvimento do próprio património cultural local.
A par do desenvolvimento artístico e económico a Animação Patrimonial pode também contribuir para o desenvolvimento educativo e cívico, fomentando hábitos de preservação e valorização patrimonial. A sensibilização para a importância do património cultural junto da comunidade poderá contribuir no futuro para a preservação da identidade cultural local. Citando Veríssimo, poderemos compreender de que modo estes projetos educativos promovem a herança cultural:
Projecto educacional desenvolvido a partir do Património Cultural, a Educação Patrimonial promove a identidade e visa a revitalização da herança cultural, através do conhecimento, da preservação, da animação e da consciência crítica e responsável que nos torna cidadãos
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mais activos e também mais próximos das nossas raízes, numa interacção proveitosa com o meio onde nascemos ou vivemos. (Veríssimo, 2007, em linha)
Só uma comunidade desperta para a importância da preservação patrimonial, poderá oferecer um turismo de qualidade, baseado numa identidade rica e genuína. Esta noção deve ser desenvolvida e promovida por diversas entidades, escolas, autarquias, associações, empresas, entre outras, de modo a fomentar uma consciência cívica perante o legado deixado pelos nossos antepassados.
Figura 2- Contributo da Animação Patrimonial para o desenvolvimento local Fonte: Autoria própria
Económico •Criação de postos de trabalho •Estimulo a ideias inovadoras e ao empreendedorismo Artístico •Maior produção e oferta cultural •Visão de desenvolvimento continuo do património artístico Educativo •Desenvolvimento de mentalidades ao contribuir para a preservação do legado patrimonial Animação Patrimonial, Turismo e Desenvolvimento Local
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