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Animado/inanimado bonecas, manequins e automatos

TRATAMENTO DO OBJECTO

3. Surrealismo e o Período de Latência Conceptual

3.2. Surrealismo e o Uncanny

3.2.1. Animado/inanimado bonecas, manequins e automatos

Outro aspecto presente neste movimento artístico e que está relacionado com o uncanny provem “da incerteza intelectual relativamente ao facto de estarmos presentes a algo animado/ inanimado, ou “quando um objecto sem vida partilha demasiadas semelhanças com o que vive” (Freud 1994, 217) reportando-se à impressão provocada por figuras de cera, bonecos e autómatos. Estes são motivos que apareceram com grande importância no repertório de objectos e imagens do surrealismo.

Nesse aspecto, temos o famoso exemplo da serie Poupées de Hans Bellmer. A relação desta série de trabalhos com o uncanny não podia ser mais directa, pois Bellmer desenvolveu o projecto após contacto com a opera The Tales of Hoffman, em 1932, por Jacques Offenbach. Parte da peça centrava-se na personagem de Olympia, (uma boneca que ao longo da história é confundida por um ser-humano real) retirada do conto de Hoffmann Der Sandman, o mesmo conto que Freud analisa em The Uncanny e que dá origem à impressão provocada por bonecos/autómatos.


Tradução do autor, no original: "The dream as a whole is a distorted substitute for

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something else, something unconscious, and…the task of interpretation a dream is to discover this unconscious material." (Freud, 1966, 114).

As series Poupées consistiam em montagens e desmontagens de uma boneca articulada, mas estranhamente deformada quer pela colocação deslocada e/ou número dos seus membros, posteriormente fotografada em ambientes específicos, que enfatizavam ainda mais um cenário lúgubre, ou sugeriam uma narrativa soturna por contar.

A primeira série começou a ser construída em 1933 e foi publicada na revista Minotaure em 1934, enquanto que a segunda série, intitulada Les Jeux de Poupée, foi terminada em 1936 mas apenas publicada em 1949.

Rosalind Krauss, em The Optical Uncounscious (1994) associa estes trabalhos de Bellmer não só ao uncanny, mas também ao complexo de castração: “o corpo desta boneca, codificado / feminino / mas contendo por diante o órgão masculino dentro de um cenário de desmembramento, traz consigo a ameaça da castração. É a boneca como uncanny, a boneca como informe.” (Krauss, 1994, 172)47

Tradução do autor, no original: “this doll’s body, coded/female/but figuring forth the male

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organ within a setting of dismemberment, carries with it the treat of castration. It is the doll as uncanny, the doll as informe.” (Krauss, 1994, 172)

Em L’Amour Fou (1985), Krauss explica esta associação pois as formas complexas das Poupées por vezes sugerem múltiplos genitais, e, segundo Freud, essa é uma das formas do duplo, pois a multiplicação ou duplicação dos genitais torna-se uma forma de evitar o complexo de castração. Hal Foster também está de acordo 48 quanto à forte relação destas peças com o uncanny,

"De muitas maneiras estas poupées compreendem um sumário do surrealismo delineado até agora: confusões uncanny de figuras animadas e inanimadas, conjunções ambivalentes de formas castrativas e fetichistas, repetições compulsivas de cenas eróticas e traumáticas, difíceis complexidades de sadismo e masoquismo, de desejo e morte.” (Foster, 1995, 101)49

Para mais informações ver Krauss, 1985, 86.

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Tradução do autor, no original: “in many ways these poupées comprise a summa of the

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surrealism delineated thus far: uncanny confusions of animate and inanimate figures, ambivalent conjunctions of castrative and fetishistic forms, compulse repetitions of erotic and traumatic scenes, difficult intricacies of sadism and masochism, of desire and death." (Foster, 1995, 101)

Mas o trabalho de Hans Bellmer pode ser associado ao Uncanny não só na série Des Poupées, mas em trabalhos como Machine Gunneress

in a State of Grace (1937). Roger Callois, escreveu um artigo sobre

essa peça na revista Minotaure, nº5, em maio de 1934, comparando-a a um louva-a-deus, no qual a sua principal defesa contra os predadores é simular a morte.50

Neste trabalho de Bellmer, a duplicidade entre o orgânico/ mecânico, entre o humano/inumano, sugerem a dicotomia do uncanny entre o estado de indefinição entre vida/morte, metade boneca, metade autómato, que, como sugere Rosalind Krauss: "O louva-deus, tal como os andróides, os robots, tal como um ataque

Ver Krauss, 1994, 171.

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epiléptico , é um mensageiro do uncanny, um prenúncio de morte.” (Krauss, 1994, 171)51

Mas para além das bonecas, no imaginário surrealista encontram-se também diversas representações de manequins e autómatos, outra das características apontadas por Freud como despoletadoras do uncanny. No Primeiro Manifesto Surrealista, Breton aponta que:

“O maravilhoso não é o mesmo em todas as épocas; participa obscuramente de uma classe de revelação geral, de que só nos chega o detalhe: são as ruínas românticas, o manequim moderno ou qualquer outro símbolo próprio a comover a sensibilidade humana por algum tempo.” (Breton, 1969, 16)52 O manequim aparece corporalizado com um objecto “capaz de comover a sensibilidade humana,” talvez como forma de duplicação (e aí associada ao complexo de castração), ou numa personificação romântica de uma era industrializada e dos medos que essa mecanização possa reflectir no ser humano, como num arauto de morte, que preenchia as paisagens urbanas da época.

Imagens de manequins e autómatos apareciam frequentemente nas capas e no interior da revista La Revolution Surrealiste. Um exemplo, é a fotografia de uma montra repleta de manequins de Eugène Atget, que indicia uma compulsão à repetição na exposição da sequência organizada dos manequins da montra, numa disposição objectual do corpo feminino. Essa objectualização do corpo humano levou a reflexões na associação dos manequins aos autómatos, como se vê no artigo de Benjamin Pérez: Au Paradis des Fantômes. 53

Tradução do autor, no original: “the mantis, like the androids, like the robot, like the

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epileptic in seizure, is a messenger of the uncanny, a harbinger of death.” (Krauss, 1994, 171) Tradução do autor, no original: “The marvelous is not the same in every period of history: it

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partakes in some obscure way of a sort of general revelation only the fragments of which come down to us: they are the romantic ruins, the modern mannequin, or any other symbol capable of affecting the human sensibility for a period of time.” (Breton, 1969, 16)

Benjamin Pérez, Au Paradis des Fantômes, Minotaure, n° 3/4, (décembre, 1933) p 29-35.

É de destacar também a Exposition Internationale du Surrealisme, na Galerie Beaux-Arts, Paris, (Janeiro/Fevereiro de 1938), na qual artistas como André Breton, Kurt Seligmann, Max Ernst, Giorgio de Chirico entre outros, apresentaram trabalhos com manequins vestidos e decorados ao longo de várias salas.

Relativamente aos autómatos, Briony Fer apresenta um ponto de vista interessante onde faz uma comparação etimológica em relação aos termos automatique/automatisme/automate:

“Sem querer forçar a comparação muito longe, poderíamos ter em mente que os termos automatique e automatisme em francês, no uso comum, referem-se aos movimentos mecânicos, como os de autómatos. Embora o termo automatisme, seja geralmente considerado como decorrente das técnicas automáticas de escrita usadas na prática terapêutica, a sua alusão mais comum para uso "mecanicista" adiciona uma camada de ironia, e

Figuras 6 e 7. Eugène Atet (1912) Boulevard de Strasbourg; Denise Bellon (1938) Sem título, manequim de Oscar Dominguez na Exposition Internationale du Surréalisme.

simbolicamente substituir a máquina racional por uma boneca mecânica.”(Fer, Batchelor e Wood, 1993, 193-194)54

Nesse sentido, o termo automatismo pode não ser apenas um método de representação/criação, e os autómatos poderão ser uma metáfora para a representação corporificada do termo automatismo. O uso de autómatos ou manequins poderia assim ser interpretado não só como uma representação do método, assim um método de representação. Ou ainda, o antagonismo deste termo poderá ser levado ainda mais longe, no sentido em que se utiliza uma técnica mecânica/automática, ou “fria”, de forma a aceder ao inconsciente, ou seja, a utilização de uma técnica não humana - derivada da máquina - para aceder a um lado mais humano, o que não deixa de ser idiossincrático, pois o autor do acto, é um ser humano, que utiliza algo mecanicista para atingir a essência de si mesmo. O uso de manequins não era assim estranho nas práticas comuns dos surrealistas. Andre Breton, no artigo Le Surrealisme et la Peinture, num parágrafo acerca das cidades e da pintura de Chirico emprega a expressão: “Época dos Porticos, época dos Fantasmas, época dos Manequins, época dos Interiores.” (Breton, 1926, 3)55

Os trabalhos de Chirico, estão povoados por diversos motivos ameaçadoramente estranhos, como manequins, duplos, figuras espectrais, colocados em conjunto em cenários de interiores, e/ou ruas e cidades, transferindo ao seu trabalho uma carga misteriosa que fascinou Breton.

Tradução do autor, no original: “Without wishing to force the comparison too far, we might

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bear in mind that the French terms automatique and automatisme, in ordinary usage, referred to the mechanical movements, like those of automata. Although the term automatisme, is usually, correctly, regarded as deriving from the ‘automatic’ writing techniques used in therapeutic practice, its more commonplace allusions to the ‘mechanistic’ add a further layer of irony, and symbolically replace the rational machine by a mechanical doll.” (Fer, Batchelor e Wood, 1993, 193/194)

Tradução do autor, no original: “Époque des Portiques, époque des Revenants, époque des

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A associação entre as cidades e os interiores, é algo também que pode ser associado ao uncanny, devido ao enquadramento histórico- cultural do momento. O uncanny, parte da premissa de um conflito entre aquilo que é secreto/privado/interior, e entre aquilo que é revelado, público, e não acolhedor. Baudelaire, em O Pintor da Vida

Moderna (1863), considerou que a cidade era a casa do homem

moderno, (pois todos os avanços da modernidade forçavam nesse sentido), criando um antagonismo nas significações entre o que é privado e seguro, e entre o que é publico e agora se tornava acolhedor.

Em 1935, na Exposição Paris, a Capital do século XIX, Walter Benjamin analisa os interiores burgueses como uma espécie de refugio contra o local de trabalho. Para Benjamin:

“(...) o interior incorpora uma nova divisão ideológica não só entre vida e trabalho, casa e escritório, mas também entre público e privado, subjetivo e social. Neste espaço privado, tanto os aspectos industriais do mundo do trabalho e o aspecto

Figuras 8 e 9. Anónimo (1938) Sem título, foto da peça de André Breton na Exposition Internationale du Surréalisme; Giorgio de Chirico (1939) Il Trovatore.

antagonista do domínio público são reprimidos - apenas para voltar, de acordo com a fórmula do uncanny, numa fantástica forma deslocada.”(Foster, 1995, 178)56

Essas características podem ser vistas em trabalhos como La Femme

100 têtes de Ernst (1929), onde imagens de interiores burgueses,

retirados de gravuras do século XIX, são reconstruídos, e os seus interiores assim como as acções que neles ocorrem, são transformados em algo unheimlich, ou algo estranhamente familiar. Segundo Freud, a palavra uncanny implica também o seu oposto, nesse sentido, o titulo deste trabalho de Ernst, poderá ter essa acepção, no aspecto em que La Femme 100 Têtes contém um duplo significado, ao colocar “100" (em francês, cent) e “sem” (em francês,

sans); podendo ser interpretado como “A mulher sem cabeças” ou

“A mulher com cem cabeças,” um trocadilho que implica em si opostos, e que, poderá ser associado à imagem de Medusa, um dos motivos freudianos associados à ideia de castração e que é frequentemente encontrado no trabalho de Ernst.

Tradução do autor, no original: “(…) the interior embodies the new ideological division not

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only between living and working, home and office, but also between private and public, subjective and social. In this private space both the industrial aspects of the work world and the antagonistic aspect of the public realm are repressed - only to return, according to the formula of the uncanny, in displaced fantastic form.” (Foster, 1995, 178)

Encontra-se também essa relação entre a cidade e o uncanny em trabalhos como Nadja (1928), de André Breton, onde ocorre o que Hal Foster denomina por “objective chance.” Segundo Rosalind Krauss:

“Nadja, Breton pensa, é uma história de amor, impulsionado pela força rebelde da libido, o princípio do prazer, o desejo imperioso. Mas a partir da primeira linha, sob o domínio dos efeitos do acaso objetivo, ele escreve que na chave do estranho, com seus tons de uma unidade para a morte. "Quem sou?", Ele começa, "Se excepcionalmente recorresse a um provérbio, tudo não se resumiria em saber “'quem

assombro’”? (Krauss, 1994, 178)57