Result ados
1. Animais e dados epidemiológicos
Foram utilizados 60 cães naturalmente infectados com o vírus da cinomose, apresentando sinais neurológicos precedidos ou concomitantes com sinais sistêmicos, como alterações respiratórias, digestivas, oculares e epiteliais. Todos os animais não possuíam histórico de vacinação correto e foi estudada a quantidade de animais que apresentavam histórico de contactantes sintomático ou que possuíam acesso à rua.
Os 20 animais dos grupos 1 e 2 fizeram parte da pesquisa precedente, porém todos os dados foram novamente avaliados para serem comparados com protocolos de tratamento testados na atual pesquisa.
O estudo apresentou a frequência de 45% de fêmeas e 55% de machos que foram descritos na tabela 2.
TABELA 2 – Frequência de cães machos e fêmeas com cinomose incluídos nos respectivos grupos experimentais. Botucatu, SP, 2011.
Fêmeas Machos Grupo n % n % G1 5 50 5 50 G2 4 40 6 60 G3 6 60 4 40 G4 3 30 7 70 G5 4 40 6 60 G6 5 50 5 50 Total 27 45 33 55
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 n: número de animais
%: porcentagem
Os animais incluídos na pesquisa apresentavam idades a partir de três meses até um de 156 meses. Apenas esse animal acima de seis anos foi incluído na pesquisa, já que apresentou imunofluorescência direta positiva no líquor, demonstrando que estava em fase aguda da doença. Os dados das idades dos animais estão na tabela 3.
TABELA 3 – Média, desvio padrão, mediana das idades em meses dos cães com cinomose incluídos na pesquisa, divididos nos diferentes grupos. Botucatu, SP, 2011.
Grupo Média Desvio
padrão
Mínimo P25 Mediana P75 Máximo
G1 29,6 15,8 8,0 24,0 24,0 36,0 60 G2 47,0 44,4 4,0 12,0 42,0 60,0 156 G3 35,4 24,6 5,0 7,0 48,0 60,0 60 G4 31,0 20,9 7,0 16,0 24,0 36,0 72 G5 20,0 21,8 3,0 8,0 10,5 24,0 60 G6 15,1 17,5 5,0 8,0 7,5 12,0 60
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 P25: percentil 25
P75: percentil 75
Mesmo o estudo sendo realizado de forma aleatória a inclusão dos animais nos grupos, os componentes dos grupos 5 e 6 foram os mais jovens, no entanto os valores demonstraram que na sua maioria foram adultos, ou seja, acima de um ano de idade.
Com relação à raça dos animais incluídos na pesquisa, 75% foram cães sem raça definida; seis (10%) da raça Poodle; dois (3,3%) animais da raça Border Colie; dois (3,3%) Pinschers e um (1,7%) animais das raças Daschound, Labrador, Pit Bull, Pointer e Waimaraner.
Quando analisou-se a frequência das raças por grupo, verificou-se que a quantidade de animais sem raça definida ocorreu em 90% dos animais dos grupos 4 e 6; 70% nos grupos 1, 3 e 5, e 60% no grupo 2.
Para serem incluídos na pesquisa, os animais deveriam apresentar no máximo 10 dias de evolução dos sinais neurológicos, com objetivo de selecionar os animais que estavam na fase aguda, onde há intensa replicação viral e possível ação da droga antiviral. Estes dados do período de evolução foram registrados na tabela 4.
TABELA 4 – Média, desvio padrão e mediana dos dias de evolução dos sinais clínicos neurológicos dos cães com cinomose nos diferentes grupos. Botucatu, SP, 2011.
Grupos Média Desvio
padrão
Mínimo P25 Mediana P75 Máximo
G1 5,0 3,2 1,0 3,0 4,0 9,0 10,0 G2 6,2 2,6 3,0 4,0 6,0 8,0 10,0 G3 7,0 2,6 2,0 5,0 7,0 10,0 10,0 G4 6,0 3,0 1,0 4,0 6,5 7,0 10,0 G5 5,2 1,8 3,0 4,0 5,0 7,0 8,0 G6 4,4 2,1 2,0 2,0 4,5 6,0 7,0
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 P25: percentil 25
P75: percentil 75
Dos animais incluídos no estudo 63,3% apresentavam sinais oculares. Os animais dos grupos 5 e 6 foram os que apresentaram maior índice de acometimento ocular, em relação aos outros grupos.
TABELA 5 – Frequência dos sinais oculares em cães com cinomose nos diferentes grupos experimentais. Botucatu, SP, 2011.
Sem sinais oculares Sinais oculares
Grupo n % n % G1 5 50,0 5 50,0 G2 5 50,0 5 50,0 G3 4 40,0 6 60,0 G4 4 40,0 6 60,0 G5 1 10,0 9 90,0 G6 3 30,0 7 70,0 Total 22 36,7 38 63,3 Estatística: Qui-quadrado, p=0,4307
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 n: número de animais.
Com relação aos sinais respiratórios, foi encontrada uma frequência de 41,7% dos animais incluídos na pesquisa. Somente o grupo 5 que apresentou 60% dos animais com sinais respiratórios, os outros grupos mostraram uma frequência maior de animais sem sinais respiratórios. É importante ressaltar que este mesmo grupo apresentou uma frequência alta de animais com sinais oculares (Tabela 6).
TABELA 6 – Frequência dos sinais respiratórios em cães com cinomose nos diferentes grupos experimentais. Botucatu, SP, 2011.
Sem sinais respiratórios Sinais respiratórios
Grupo n % n % G1 7 70,0 3 30,0 G2 6 60,0 4 40,0 G3 6 60,0 4 40,0 G4 6 60,0 4 40,0 G5 4 40,0 6 60,0 G6 6 60,0 4 40,0 Total 35 58,3 25 41,7 Estatística: Qui-quadrado, p=0,8507.
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 n: número de animais.
%: porcentagem.
De todos os animais incluídos na pesquisa, 38,3% deles apresentou sinais gatroentéricos. Esta sintomatologia foi a que apresentou menor frequência nos animais estudados. Apenas o grupo 6 apresentou maior frequência de animais com sinais gastroentéricos no momento de atendimento no Hospital Veterinário ou no histórico. Estes animais também apresentaram uma frequência alta de sinais oculares associados (Tabela 7).
TABELA 7 – Frequência dos sinais gastroentéricos em cães com cinomose nos diferentes grupos experimentais. Botucatu, SP, 2011.
Sem sinais gastroentéricos Sinais gastroentéricos
Grupo n % n % G1 7 70,0 3 30,0 G2 6 60,0 4 40,0 G3 7 70,0 3 30,0 G4 7 70,0 3 30,0 G5 6 60,0 4 40,0 G6 4 40,0 6 60,0 Total 37 61,7 23 38,3 Estatística: Qui-quadrado, p=0,7168.
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 n: número de animais.
%: porcentagem.
Após a tabulação dos dados de sinais clínicos foi possível verificar que os animais incluídos no estudo além de apresentarem sinais neurológicos, tiveram alta frequência em sinais oculares, menor em sinais respiratórios e, por último, sinais gastroentéricos. No G5 foi possível verificar alto índice de sinais oculares e respiratórios e no G6 de sinais oculares e gastroentéricos. Os outros grupos apresentaram distribuição homogênea dos sinais sistêmicos.
Além dos sinais sistêmicos, também foi avaliada a frequência dos sinais neurológicos em todos os animais e nos diferentes grupos experimentais (Tabela 8).
TABELA 8 – Frequência dos sinais neurológicos nos cães com cinomose incluídos na pesquisa nos diferentes grupos experimentais. Botucatu, SP, 2011.
Sinais neurológicos Frequência (%)
G1 G2 G3 G4 G5 G6 Total Alteração de Nervos Cranianos 60,0 90,0 90,0 90,0 90,0 50,0 78,3 Alteração postura ou andar 80,0 80,0 80,0 70,0 50,0 50,0 68,3 Ataxia 90,0 70,0 70,0 60,0 70,0 50,0 68,3 Mioclonias 40,0 60,0 50,0 60,0 20,0 40,0 45,0 Déficits de propriocepção 30,0 30,0 60,0 50,0 60,0 30,0 43,3 Balançar a cabeça 50,0 40,0 40,0 0,0 10,0 30,0 28,3 Desvio de cabeça 20,0 30,0 50,0 10,0 20,0 10,0 23,3 Alteração no nível de consciência 40,0 20,0 30,0 20,0 0,0 20,0 21,7 Choro noturno 10,0 10,0 20,0 10,0 10,0 20,0 13,3 Alteração dos reflexos
medulares 20,0 20,0 30,0 10,0 0,0 0,0 13,3 Andar compulsivo 0,0 20,0 20,0 30,0 10,0 0,0 13,3 Andar em círculos 0,0 10,0 20,0 10,0 10,0 0,0 8,3 Opistótono 0,0 10,0 10,0 30,0 0,0 0,0 8,3 Agressividade 0,0 0,0 10,0 20,0 10,0 0,0 6,7 Pressão da cabeça contra objetos 0,0 0,0 0,0 20,0 0,0 0,0 3,3 Estatística: Qui-quadrado.
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 %: porcentagem.
Os sinais neurológicos mais encontrados nos animais incluídos na pesquisa foram as alterações de nervos cranianos (78,3%), seguidos de
alterações na postura e no andar (68,3%), junto com ataxia (68,3%). Dentre as alterações de postura foram incluídos os animais que apresentavam dificuldade de ficar em estação, consequência de paresia/paralisia flácida ou espástica dos quatro membros e/ou do pescoço, não foi considerado alteração apenas na postura de cabeça, como o desvio de cabeça. Dentre os déficits de andar foram consideradas as dificuldades de iniciar o movimento, hipo ou hipermetria, paresias flácidas ou espásticas, dificuldade de realização de manobras especiais, como subir ou descer degraus e quedas espontâneas durante a locomoção. A ataxia foi considerada separadamente das alterações no andar por ser caracterizada, na maior parte das vezes, por um déficit de coordenação motora.
A mioclonia apresentou uma frequência de 45% em todos os grupos. Este sinal foi considerado em animais com acometimento de um músculo ou grupo de músculos. Alguns grupos de músculos apresentaram maior incidência como os músculos mastigatórios, abdominais e flexores dos membros.
Na pesquisa, animais que apresentavam déficits de propriocepção em um membro ou nos quatro membros foram agrupados e apresentaram uma frequência de 43,3%.
O balançar de cabeça foi considerado como mudança de comportamento e foi encontrado em 28,3% dos animais. Já o desvio lateral da cabeça (23,3%) ocorre por alteração no sistema vestibular e foi considerado quando não havia paralelismo na posição das orelhas e olhos em relação ao chão. Este sinal neurológico geralmente foi acompanhado por nistagmo e estrabismo, que foram considerados nas alterações de nervos cranianos.
A diminuição do nível de consciência (21,7%) foi caracterizada principalmente por animais que apresentavam apatia, já que não foram incluídos animais em estado semicomatoso ou comatoso. Dentre os déficits dos níveis de consciência, o choro noturno apresentou uma frequência de 13,3%.
As alterações de comportamento com menor frequência ficaram caracterizadas por agressividade (6,7%), andar compulsivo (13,3%), pressão da cabeça contra objetos (3,3%) e andar em círculos (8,3%), este último também é considerado na síndrome vestibular quando é caracterizado por círculos pequenos.
Os reflexos medulares (13,3%) foram considerados tanto na hipo quanto na hiperreflexia, que geralmente estão alterados quando há um quadro de paresia.
O opistótono foi encontrado em 8,3% dos animais incluídos na pesquisa e é considerado como uma alteração postural, portanto por uma lesão cerebral, diferente da maior parte das alterações posturais que observamos, por isso foi colocado separadamente.
Quando analisamos em cada grupo separadamente verificamos que no G1 90% dos animais apresentavam ataxia, 80% alteração de postura e andar e 60% alteração de nervos cranianos.
O G2 apresentou as mesmas características do G3 com 90% de cães com alteração de nervos cranianos, 80% de alteração de postura e andar, seguida de 70% com ataxia.
No G4, 90% dos animais incluídos apresentavam alteração dos nervos cranianos, 70% com alteração da postura e andar e 60% com ataxia ou mioclonias.
Os animais do G5 apresentaram 90% de alteração de nervos cranianos, 70% de ataxia e 60% de déficits proprioceptivos.
O grupo que apresentou maior distribuição dos sinais clínicos foi o G6, com 50% dos animais apresentando alterações de nervos cranianos, alteração de postura e andar ou ataxia. Sendo que 40% apresentavam mioclonias e 30% dos cães tinham déficits de propriocepção e balançar de cabeça.
Não foram incluídos animais com histórico de vacinação correta, ou seja, com três doses e aplicadas por um médico veterinário. Os animais foram caracterizados por: não vacinados; com vacinação incompleta, ou seja, não receberam doses de reforço; vacinação sem orientação do médico veterinário e animais sem histórico de vacinação (Tabela 9).
TABELA 9 – Frequência da vacinação dos cães com cinomose incluídos na pesquisa, segundo o grupo experimental. Botucatu, SP, 2011.
SV VI VSO SHV Grupo n % n % n % n % G1 5 50 0 0 4 40 1 10 G2 6 60 2 20 2 20 0 0 G3 6 60 1 10 3 30 0 0 G4 6 60 1 10 1 10 2 20 G5 5 50 1 10 4 40 0 0 G6 5 50 1 10 4 40 0 0 Total 33 55 6 10 18 30 3 5
G1: grupo 1; G2: grupo 2; G3: grupo 3; G4: grupo 4; G5: grupo 5; G6: grupo 6 n: número de animais
%: porcentagem
SV: sem vacinação; VI: vacinação incompleta; VSO: vacinação sem orientação do médico veterinário; SHV: sem histórico de vacinação.
O número maior de animais que foram incluídos não recebeu a vacina contra o vírus da cinomose nos últimos três anos, em seguida os animais que receberam vacina em casas agropecuárias ou farmácias veterinárias sem orientação do médico veterinário e 10% dos animais receberam pelo menos uma ou duas doses da vacina contra o vírus da cinomose, independente se foi com orientação veterinária ou não. Os animais que não receberam a vacina no período dos dois últimos anos foram incluídos no grupo de animais com vacinação incompleta, contando que houve uma interrupção na revacinação anual.
Outros dados epidemiológicos também foram estudados, como a presença de contactantes sintomáticos e o acesso à rua. Com relação aos animais que conviveram com animais doentes, verificou-se que apenas 16,7% dos animais tiveram esse contato. 55% dos animais da pesquisa não tinham contactantes
na mesma residência e 28,3% tinham contato com outros animais sem sinais clínicos.
Dos 60 cães incluídos na pesquisa, 34 (56,7%) não tinham acesso à rua e 26 (43,3%) acessavam a rua com frequência, sozinhos ou acompanhados pelo proprietário.