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Animais Reservatórios, Sentinelas e Carreadores

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CAPITULO II Aspectos epidemiológicos de Borrelia spp em equinos de uso militar

2.6 Animais Reservatórios, Sentinelas e Carreadores

Na Europa, tem sido verificado que passeriformes, durante seus processos migratórios, podem contribuir para a disseminação de carrapatos e borrélias. Três mecanismos podem estar ocorrendo na disseminação de carrapatos e borrélias. Em primeiro lugar, o transporte passivo de ninfas previamente infectadas e/ou larvas infectadas via transovariana pode ocorrer. Em segundo lugar, as aves migratórias infectadas podem infectar os carrapatos que, posteriormente, são deixados em um novo local. Em terceiro lugar , os carrapatos podem transferir borrélias entre si por meio de co-alimentação durante o transporte pelas aves (HASLE et al, 2011). Este processo foi observado em aves migratórias marinhas, inclusive com o carreamento de borrélias e carrapatos entre continentes (HUMAIR, 2002).

Na Eurásia tem sido identificados como reservatórios competentes de B. burgdorferi sensu lato pequenos mamíferos (pequenos roedores), mamíferos de médio porte (esquilos, texugos, porcos-espinho, raposas) e 16 espécies de aves, incluindo passeriformes, aves marinhas e faisões. O camundongo (Mus musculus) é fortemente suspeito de ter competência como reservatório, bem como muitas outras espécies de pequenos roedores silvestres, especialmente da Europa Oriental e Rússia. Ungulados, inclusive cervídeos, aparentemente

não cumprem papel importante como hospedeiros desses patógenos, embora a transmissão através de co-alimentação possa permitir a infecção dos carrapatos, os quais atuariam como amplificadores e carreadores de carrapatos (GERN et al., 1998).

Nos EUA, como comentando anteriormente, o principal reservatório competente de B. burdorferi é um pequeno roedor, o rato de pés brancos (“White Footed Mice”), Peromyscus leucopus, o qual infecta larvas e ninfas que nele se alimentam. Embora o veado de cauda branca (“white-tailed deer”), Odocoileus virginianus, não transmita eficazmente espiroquetas aos carrapatos que nele se alimentam, não sendo um reservatório competente, este cervídeo pode atuar como sentinela e também como carreador de carrapatos infectados, contribuindo para a dispersão da doença. Aves também tem um papel na dispersão de larvas e ninfas de carrapatos infectados, parecendo que algumas espécies funcionam como reservatórios competentes de B. burdorferi. É reconhecido que as aves colaboram para o estabelecimento de novos focos de DL, sendo seu papel como reservatório de menor importância se comparado ao pequeno roedor (MAGNARELLI, 2011).

No Brasil, tem sido verificada soropositividade em cães, testados por ELISA, para B. burgdorferi, reforçando a importância destes como sentinela. Cordeiro et al. (2012), em estudo na cidade de Seropédica- RJ, encontraram soroprevalência similar às encontradas em pesquisas sorológicas realizadas em cães de áreas endêmicas para DL nos Estados Unidos. Alves et al. (2004) também encontraram resultados similares na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Borrelia spp. foi identificada em urina de gambás (Didelphis aurita) sadios e naturalmente infectados após imunossupressão com ciclofosfamida, sendo tais espiroquetas infectantes quando inoculadas em camundongos albinos (BARBOZA, 1997). Abel et al. (2000b) identificaram espiroquetemia em 13 de 56 gambás D. aurita capturados na natureza e naturalmente infectados, relatando ainda que tais animais estavam parasitados por carrapatos dos gêneros Amblyomma e Ixodes. Assim é sugestivo que tais marsupiais possam ser reservatórios de borrélias em nosso país, com participação em sua epidemiologia.

Estudo com roedores e marsupiais capturados em reserva de Mata Atlântica, na região de Cotia – SP, onde casos humanos de SBY e cães sororeativos foram reportados, conseguiu cultivar espiroquetas à partir de amostras de sangue de alguns marsupiais, de sangue e fígado de roedores e de carrapatos Ixodes adultos coletados dos animais. Tais dados sugerem que os carrapatos de espécies Ixodes, demosntrando que estes roedores e marsupiais podem estar envolvidos no ciclo enzoótico das borrélias na região (ABEL et al., 2000a).

Da Costa et al. (2002) observaram, à microscopia de campo escuro, espiroquetas em culturas de quatro amostras de baço de roedores silvestres, uma de fígado de roedor silvestre, uma de sangue de marsupial e três de macerados de ninfas de Amblyomma provenientes de roedores e marsupiais silvestres, todos coletados em área de reserva de floresta urbana no Estado do Mato Grosso do Sul.

Como exemplos de animais de nossa fauna silvestre que apresentam grandes infestações de carrapatos particularmente do gênero Amblyomma, podem ser citados capivaras e gambás (PEREZ et al. 2008), os quais podem estar funcionando como reservatórios de borrélias. Em alguns municípios do Estado do Espírito Santo tem sido verificado, além de sororeatividade para B. burgdorferi em cães, uma associação entre a presença de capivaras e a ocorrência de casos humanos de SBY. Suspeita-se que carrapatos Amblyomma que parasitam as capivaras participem da epidemiologia da SBY (SPOLIDORO, 2009). Também é importante salientar que muitos casos de SBY humanos tem histórico de desenvolvimento de sintomas clínicos após contato com animais domésticos como cães, equinos e bovinos (YOSHINARY et al., 2010).

Mesmo com todas estas evidências epidemiológicas, de forma análoga ao que tem ocorrido nos casos humanos de SBY, apesar da identificação e visualização de espiroquetas à

sucesso no seu cultivo em meios de cultura habituais, como o meio BSK. Igualmente não se tem conseguido identificação por técnicas moleculares (PCR) (YOSHINARY et al., 2010).

Muitos aspectos da epidemiologia destas espiroquetas continuam a ser investigados, entretanto, reconhecendo-se que a presença de espiroquetas em carrapatos ou mamíferos, por si só, não prova que estes sejam vetores ou reservatórios competentes. Para os carrapatos, testes de infecção experimental são necessários para avaliar a capacidade destes para manter e transmitir tais espiroquetas a novos hospedeiros, comprovando assim sua competência vetorial. Ademais, a competência dos reservatórios vertebrados deve ser confirmada por testes de xenodiagnóstico (ABEL et al., 2000a).

Portanto, cães (CORDEIRO et al., 2012), equinos (MADUREIRA, 2004; MADUREIRA, 2007), bovinos (ISHIKAWA,1996) e animais silvestres (ABEL et al., 2000a), têm sido identificados como sororeagentes, evidenciando a circulação de borrélias nas zonas urbana e rural, bem como em ambientes silvestres em nosso país. É possível que pequenos roedores, marsupiais, capivaras e outros animais silvestres e domésticos participem da epidemiologia da SBY, sendo necessários mais estudos epidemiológicos sob a ótica da Saúde Única para esclarecimento do seu real papel de cada ator nesta rede.

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