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Depois de apresentarmos como Bergson compreende a evolução das espécies a partir de um mesmo impulso de vida que se divide em forma de feixe, possibilitando um infinito número de tendências para as quais os seres se inclinaram, se distanciando ao longo da criação, mas, mantendo latente em si algo de sua origem, chega o momento de analisarmos mais a fundo uma dessas bifurcações essenciais para compreendermos a evolução da vida até chegarmos a inteligência que nos caracteriza: a divisão do reino vegetal e do reino animal.

É importante relembrar que ambos os reinos se distanciaram por sua tendência a acentuar características, como vimos na primeira parte desta capítulo, não havendo diferenças de natureza, uma vez que partiram de um mesmo impulso vital, mas diferenças de graus em determinadas características.

Para Bergson,

digamos que nenhuma característica precisa distingue a planta do animal. As tentativas feitas para definir rigorosamente os dois reinos sempre fracassaram. Não há nenhuma propriedade da vida vegetal que não tenha sido reencontrada, em algum grau, em certos animais, nenhum traço característico do animal que não se tenha observado em certas espécies, ou em determinados momentos, no mundo vegetal (BERGSON, 2005a, p.115).

Essa tendência a ressaltar algumas características, leva Bergson a afirmar que “o grupo não será mais definido pela posse de certas características, mas por sua tendência a acentuá-las” (BERGSON, 2005a, p.116). Assim, para ele, estes dois reinos se distanciaram pelas tendências desenvolvidas diferentemente ao longo da evolução acerca de três características principais, são elas: a mobilidade, a alimentação e a consciência. Na análise de Worms,

Bergson remonta às principais bifurcações observáveis na evolução da vida, ao que elas têm de estruturalmente diferente, mas também de comum o elã original: é assim, a consciência que aparecerá como o

‘objetivo’ global da evolução, para além da distinção entre o vegetal e o animal, indo este último no sentido da mobilidade, depois entre animal e o homem, indo este último no sentido da inteligência (WORMS, 2010, p.

235).

Essas características podem estar mais acentuadas em alguns seres e menos em outros, reafirmando sua teoria de que algumas características se mantem em estado latente. Segundo ele,

não há realmente manifestação da vida que não contenha em estado rudimentar, ou latente, ou virtual, as características essenciais da maior parte das outras manifestações. A diferença está nas proporções. Mas essa diferença de proporção bastará para definir o grupo no qual pode ser encontrada, se pudermos estabelecer que essa diferença não é acidental e que o grupo, à medida que evoluía tendia cada vez mais a enfatizar essas características particulares. Numa palavra, o grupo não será mais definido pela posse de certas características particulares, mas por sua tendência a acentuá-las(BERGSON, 2005a, p.116).

Partindo para a apresentação das principais características, a alimentação é uma das três pelas quais Bergson procura mostrar como animais e vegetais desenvolveram tendências divergentes. Vegetais se distinguem dos animais por sua atividade clorofílica, ou seja, pelo poder de criar matéria orgânica às expensas de elementos minerais que extraem diretamente da atmosfera, da luz solar. Os animais, são desprovidos desta função e precisam procurar

nutrientes para retirar deles substâncias necessárias para seu desenvolvimento.

Nas palavras do filósofo,

sabe-se que o vegetal retira diretamente do ar, da água e da terra os elementos necessários à manutenção da vida, em particular o carbono e o azoto: toma-os em sua forma mineral. Pelo contrário, o animal só pode apossar-se desses mesmos elementos caso já tenham sido fixados para ele nas substâncias orgânicas pelas plantas ou por animais que, direta ou indiretamente, os devem a plantas, de modo que, em última instancia, é o vegetal que alimenta o animal (BERGSON, 2005a, p.116).

Bergson tem ciência de que na vida vegetativa e na vida animal pode haver algumas exceções, mas de maneira geral, o animal precisará se apropriar de alguns nutrientes próprios aos vegetais para garantir-lhe a sobrevivência.

À procura por estes alimentos, a evolução conduziu os animais ao desenvolvimento de mais uma das características apontadas no início desta etapa: a locomoção. Nas palavras do filósofo:

o vegetal fabrica diretamente substâncias orgânicas a partir de substâncias minerais: essa aptidão dispensa-o em geral de movimentar-se e, por isso mesmo, de sentir. Os animais, obrigados a sair à procura de seu alimento, evoluíram no sentido da atividade locomotora e, por conseguinte, de uma consciência cada vez mais ampla, cada vez mais distinta” (BERGSON, 2005a, p.118).

Assim, na busca pelos nutrientes, os animais, ao longo de sua trajetória, evoluíram de forma a disporem de membros que possibilitassem sua busca por alimentos. Aos vegetais, que já encontravam seu alimento sem esta necessidade, coube a tendência à fixidez e à imobilidade. Para ele,

desde a Ameba, que lança ao acaso seus pseudópodos para captar as matérias orgânicas esparsas em uma gota d’água, até os animais superiores, que possuem órgãos sensoriais para reconhecer sua presa, órgãos locomotores para ir capturá-la e um sistema nervoso para coordenar seus movimentos a suas sensações, a vida animal se caracteriza, em sua direção geral, pela mobilidade no espaço (BERGSON, 2005a, p.118).

No sentido de caracterizar mais esta diferença entre as espécies animais e vegetais, Bergson destaca a relação entre a atividade locomotora e a consciência. Para ele, quanto mais desenvolvido for o sistema nervoso, mais numerosos e precisos serão os movimentos, as escolhas e a consciência que os

acompanha, o que justificaria o fato de o ser humano ter uma consciência em um grau mais desenvolvido do que o vegetal, uma vez que neste, ela permanece em estado de repouso. A respeito desta característica ele afirma que

quanto mais o sistema nervoso se desenvolve, tanto mais numerosos e precisos se tornam os movimentos entre os quais pode escolher, mais numerosa também é a consciência que os acompanha. Mas, nem essa mobilidade, nem essa escolha, nem, por conseguinte, essa consciência tem por condição necessária a presença de um sistema nervoso: este último não fez mais que canalizar em sentidos determinados e elevar a um grau mais alto de intensidade uma atividade rudimentar e vaga, difusa na massa da substância organizada (BERGSON, 2005a, p.120).

Logo, o fato de todos os seres também terem consciência, reafirma a teoria bergsoniana de que as diferenças entre os reinos são apenas diferenças de grau, tendo em vista que os organismos se desenvolvem e se completam de acordo com a tendência para a qual cada espécie se inclinou. Podemos observar que o que o filósofo considera é a troca de movimento com o meio e que o sistema nervoso é apenas uma sofisticação dessa troca que, por natureza, é igual ao sistema de trocas da monera, ou seja, introdutor de indeterminação, proporcionando a produção de novidade. Isso nos leva a afirmar que a alimentação, a mobilidade e a consciência são características de todas as espécies, uma vez que estas têm como objetivo suprir as necessidades específicas de cada organismo. O que as diferencia é a forma de interagir com o meio e o grau de desenvolvimento de cada uma de suas características. Para Riquier13,

não há consciência sem mobilidade, e não há mobilidade sem um certo modo de alimentação. Neste sentido, a consciência dirige o movimento, à medida em que ela se intensifica, se liberta da necessidade que ligava sua vida somente à busca de alimento, com a conquista de atos cada vez mais livres. Efeito último da evolução, a consciência é ao mesmo tempo sua causa mais profunda (RIQUIER, 2010, p.150).

Tendo isto exposto, passaremos da diferenciação dos reinos para a diferenciação das formas de ação no interior do reino animal, entre o homem e os demais animais.

13 RIQUIER, Camile. In: L’Évolution Créatrice de Bergson. Études et Commentaires. Arnaud François (éd). Paris: Librairie Philosophique, 2010.