PARTE 2. OS JESUÍTAS NO SERTÃO DO PIAUÍ
2.5 Ano de 1760: expulsão e confisco dos bens
A expulsão dos jesuítas que se achavam residindo no Piauí aconteceu no ano de 1760, apesar de Portugal ter ordenado a prisão dos membros dos padres e o sequestro dos seus bens no início de 1759. (AB’SABER, 1973)
A ordem que chegou à Mocha tinha a data de 19 de setembro de 1760. João Pereira Caldas, primeiro governador do Piauí que há pouco havia chegado para assumir a função, a encaminhou ao ouvidor-geral recomendando que fosse fixada nas fazendas e na vila.
Foram anexadas à ordem as dívidas que terceiros possuíam junto aos regulares com o alerta que a partir de então os possíveis devedores deveriam saldá- las junto à Coroa. O alerta fez com que os que possuíam débitos se apressassem em saldá-los como foi o caso de um certo Manuel de Souza que assumiu dever três bois aos inacianos. A ordem assinada pelo governador comunicava:
Sendo de S. Majestade servido encarregar-me proximamente da expulsão dos Regulares da Companhia denominada de JESUS que assistam nesta Capitania, o foi por bem de me ordenar, que lhe fizesse sequestrar todas as Fazendas, e bens que lhes pertencessem e por que deste poderia haver alguns no poder de pessoas que os ocultem [...]. Declaro e ordeno que toda a pessoa assistente nesta Capitania e que se persuadido daquela sinistra imaginação, conservar em si ou sobre aonde porão quaisquer bens ou dívidas pertencentes aos Regulares da dita sociedade os venha prontamente entregar na presença do desembargador ouvidor-geral desta comarca, a quem deixo encarregado ser castigado de forma que S. Majestade ordena e para que a notícia de todos e não possam alegar que não mandei passar esse Edital, que se fixará nos lugares públicos desta Vila da Moucha (APEPI, l. 1, f. 13).
Dias antes, em cinco de setembro de 1760, o ouvidor-geral havia escrito ao governador comunicando que em resposta ao ofício de 24 de julho próximo passado, em que lhe fora pedido o auto de sequestro dos bens dos jesuítas, vinha informar a relação de tudo o que possuíam os regulares na Capitania trazendo também informações complementares sobre foros e encargos (APEPI, l. 1, f. 58-59).
João Pereira Caldas teve entre suas primeiras incumbências como governador demarcar e distribuir as fazendas confiscadas pela Coroa (SANTOS, 2011). O confisco fora feito pelo próprio ouvidor-geral, Luís José Duarte Freire, e coube ao governador apenas concluir o processo e “[...] fazer a prisão dos discípulos de Loiola, em número seis, remetê-los para a Bahia, seguindo o destino de seus irmãos de Ordem que foram expulsos de Portugal e seus domínios”. (NUNES, 2001, p. 56).
Com o confisco das fazendas, os vaqueiros ou administradores, bem como os sitiantes foram expulsos das propriedades. A ordem de banimento era clara, teria sido assinada por D. José I e prometia castigo a quem porventura tivesse em seu poder algum bem dos jesuítas e não o viesse entregar.
Após serem confiscadas, as propriedades ficaram sob a tutela dos oficiais da Câmara da vila da Mocha que assumiram a função de depositários fiéis.
De acordo com as informações do ouvidor-geral, algumas fazendas estavam entregues a escravos, a exemplo da fazenda Água Verde que pertencia ao Colégio. Outras eram administradas por seus feitores como a Campo Largo, Saquinho, Saco, Baixa dos Veados, Algodões, Gameleira do Piauí, Espinhos e Torre, esta última a primeira residência dos inacianos no Piauí. Todas estas faziam parte da Capela Grande.
A fazenda Gameleira44, segundo informou o ouvidor-geral, encontrava-se muito
mal administrada, havendo na propriedade muitos animais bravos45. A mesma
observação foi feita em relação à fazenda Caeté que “[...] por falta de vaqueiro tinha no mato a maior parte dos bezerros da parição” (APEPI, l. 1, f. 60). Na Caeté,
só um homem pardo, de nome Antônio Vieira se encontrava na propriedade visto ter o vaqueiro abandonado o serviço justamente por haver se desentendido com o referido morador. Estas observações, além de demonstrarem a importância do vaqueiro para o bom andamento das propriedades revela que, apesar do cuidado que os jesuítas tinham com a administração de seus bens, nem todas as fazendas eram gerenciadas a contento.
44 Havia duas fazendas com o nome de Gameleira. A Gameleira do Canindé e a Gameleira do Piauí, ambas pertencentes à Capela Grande. O documento não esclarece a qual das duas se refere. 45 O gado ficava bravo quando o vaqueiro ou administrador não cuidava a contento do rebanho, deixando que este vivesse muito solto. Apesar de ser criado solto, em regime de pecuária extensiva, os animais eram recolhidos ao curral para o pernoite. Quando isto não ocorria, os animais tendiam a dormir e procriar na mata. Esses animais que viviam quase independentes nos pastos e caatingas se tornavam esquivos e bravos. Em muitos casos era necessário serem caçados, já que se tornava quase impossível trazê-los novamente para os currais e o convívio na fazenda (GOULART, 1965).
Por causa dos muitos bezerros desgarrados, o ouvidor mandou que os criadores das fazendas São Roque, Água Verde e Boqueirão fizessem uma vaquejada46, o que resultou na recuperação de 50 bezerros bravos ou desgarrados
do rebanho.
Em cumprimento ao edital, em todas as fazendas em que foi possível proceder com a execução da ordem de expulsão, os vizinhos47 foram notificados para que desocupassem as terras. No relatório que escreveu dirigido ao governador, o ouvidor comenta sobre a atitude tomada:
A vizinhança que achei na Fazenda do Julião [fazenda da Capela Grande] a mandei despejar em termo breve, por assim dever ser por serviço de S. Majestade. Na Fazenda Água Verde [fazenda do Noviciado] assiste Luiz Anacleto, o qual estava ausente quando não mandei notificar para despejar pois não é conveniente que haja vizinhos nas fazendas (APEPI, l. 1, f. 61).
Estavam no Piauí, à época da expulsão os padres João de Sampaio – que no momento era o administrador dos bens na capitania – Francisco de Sampaio, Manoel Cardoso e José de Figueiredo, além do leigo Jacinto Fernandes e o Donato Antônio Ferreira (IHGB, tomo XX, p. 32). Cunha (2015, p. 66) exclui o nome do padre Francisco de Sampaio da lista dos sacerdotes que se achavam no Piauí à época da expulsão. Costa (1974, p.135) também exclui o nome do jesuíta Francisco de Sampaio da lista, mas informa a existência de mais dois padres que se encontravam também na capitania do Piauí, na vila de São João da Parnaíba, litoral piauiense. Estes dois padres teriam seguido para São Luís do Maranhão, a pedido do governador daquele estado.
O juiz ordinário da Mocha, Manuel da Silva e Sousa, a mando do ouvidor-geral, foi quem se dirigiu à residência de Brejo de São João e procedeu ao sequestro dos bens daquela residência e a condução dos jesuítas que lá se achavam.
Para a residência de Nazaré, o ouvidor concedeu poderes a oficiais da Câmara que, com o auxílio de escolta, realizaram o sequestro.
46 No período, a vaquejada era a busca no mato por vacas paridas e suas crias. É comum as vacas irem ter as crias na caatinga, fazendo isso por instinto, às escondidas. Cabe ao vaqueiro campeá-las e trazê-las para o curral (GOULART, 1965, p. 123).
47 Entende-se aqui por vizinhos os moradores que habitavam a circunvizinhança das propriedades, assentados nas terras das fazendas.
Na residência de Brejo de Santo Inácio, o próprio ouvidor, Dr. José Luís Freire, realizou o confisco dos bens e conduziu o padre Francisco de Sampaio, superior no Piauí que se encontrava em Santo Inácio, à vila da Mocha.
Para a surpresa de todos que esperavam bem mais, foram encontrados na residência poucos objetos.
No cubículo do Superior acharam-se duas canastras que lhe pertenciam, com papéis e dois livros [...] que registrava os capítulos das visitas e outro, os assentos das profissões dos religiosos que professaram na residência. Os bens sequestrados consistiam em seis colheres e seis garfos de prata e seis facas com cabos do mesmo, e mais duas colheres e um garfo de prata e uma faca do mesmo, tudo velho, sendo os mais bens, estanho, cobre, e arame, e também livros de Teologia Moral, Expositores à Escritura Sagrada, Livros de Sermões e outras matérias. (NUNES, 2007, p. 147-148)
Estas informações constavam no relatório do ouvidor, que continua:
[...] Todo o pano de algodão que achei na Residência do Brejo de S. Inácio, e de Nazaré está em depósito, e é o pertencente à Administração dois rolos atacados, e em retalhos duzentas e trinta e três varas, e em fio vinte e três libras, tendo o Colégio só quarenta e duas varas da Capitania do Espírito Santo, e todo este pano é preciso, e muito mais para vestir os escravos das fazendas, e suadouros das selas dos vaqueiros. Não achei na dita residência de S. Inácio mais dinheiro do que doze mil e quinhentos e oitenta reis, pertencente à Administração mencionada, oito mil e duzentos réis, e ao Colégio o resto que é de quatro mil e trezentos e oitenta réis, segundo a declaração do dito Padre Francisco Sampaio, o que também constou pelos cadernos da receita e despesa, em que logo fiz apreensão, que também remeto com os mesmos papéis (NUNES, 2007, p. 147).
Dos cinco padres que se achavam no Piauí e que seguiram para Salvador somente quatro lá chegaram. O padre José de Figueiredo, professo do segundo voto48, faleceu no caminho, na fazenda Santo Antônio das Queimadas, a uma
distância de oito dias de Salvador (SILVA, 1937, p. 611).
Os jesuítas do Piauí ao chegarem em Salvador não mais encontraram os padres que lá se achavam reunidos. Os inacianos já haviam embarcado rumo a Europa, fato ocorrido em 19 de abril de 1760. Foram então encaminhados para a Casa
48 Cf. CONSTITUIÇÕES DA COMPANHIA DE JESUS e normas complementares. São Paulo: Edições Loyola, 2004, p. 276.
de Exercícios Espirituais49 onde ali permanecem até seguirem para a Europa, o que
veio a acontecer em 20 de maio do mesmo ano50. Foram os últimos a deixarem o
Brasil (LEITE, 2004, t.5, p. 219).
Com a expulsão, os bens da Companhia foram considerados bens do tesouro e passaram para o domínio da Coroa. As fazendas foram entregues a novos administradores e as propriedades foram reorganizadas em três grupos que se denominou de inspeções. As inspeções deram início a uma nova fase do patrimônio jesuíta no Piauí.