3. MEMÓRIAS DA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL NO IF FARROUPILHA
3.1. Ano 2011
Na primeira aula, foi apresentado o Plano de Ensino (PE) da disciplina, com a ementa, conteúdo programático para o ano e o objetivo da disciplina e do próprio
curso. Em relação a isso, ficou evidenciado que o conhecimento dos alunos sobre a formação técnica se resumia em afirmar que se tratava de organizar qualquer tipo de evento, ou “não sei, vim porque minha mãe quis que eu fizesse o curso”. Então as razões para realizar o mesmo foram registradas em dois níveis: decisão própria ou dos pais por ser de Instituição Federal, mais porque lembravam as Escolas Técnicas Federais caracterizadas por ensino de qualidade, do que motivados pelo curso ofertado, já que toda a comunidade gostaria de adentrar no prédio novo do campus (AUTOR, 2013).
O objetivo do componente curricular de Geografia para o primeiro ano era:
Conhecer a geografia como ciência que representa o seu espaço de vivência, obtendo noções dos aspectos físicos, humanos, ecológicos, preparando-se para as grandes transformações que ocorrem no mundo atual. Analisar as principais características do planeta terra; Compreender as noções de orientação, localização e espacialização; relacionar as modificações ocorridas no tempo e no clima do planeta; Identificar os acontecimentos dos últimos anos que levaram o mundo a uma nova ordem econômica e social (BRASIL, 2013b).
As aulas centraram-se, inicialmente, no resgate ou reconhecimento dos conceitos estruturantes da Geografia, como Espaço e Tempo, Sociedade, Lugar, Paisagem, Região e Território, e na interpretação de fenômenos nas suas dimensões (local, regional, nacional e mundial), no desenvolvimento do domínio da linguagem cartográfica e do reconhecimento dos conjuntos espaciais, a partir de uma compreensão do mundo articulada ao lugar de vivência (BRASIL, 2006).
Para isso, desenvolvemos uma atividade em sala de aula em que cada aluno deveria elaborar um mapa do trajeto de sua casa até o campus. Nesse trajeto, os alunos destacaram os principais pontos de referência para a localização. Nessa atividade muitos apresentaram aspectos espaciais que consideravam relevantes como o antigo bolicho do Seu Moleza ou denominações populares como do antigo bairro Saravá e vila Marrocos19, demonstrando que os espaços são móveis e sofrem transformações. Naquele momento, começamos a estudar as mudanças da paisagem com imagens do cais do porto da cidade no passado, quando servia para o antigo comércio “formiga” (denominação atribuída à movimentação de pessoas em ambos os lados dos rios) com a entrada de produtos da Argentina ao país via tráfego de balsas e a ocupação atual do porto como área de lazer e entretenimento, considerando a construção da ponte internacional como fator que motivou a mudança desse espaço geográfico.
Após motivarmos os alunos a observarem e destacarem mudanças espaciais na cidade foi possível perceber algumas lacunas de conhecimentos básicos de Geografia como domínio da leitura espacial cartográfica e orientação espacial. Isso ficou mais evidente ao constatar a admiração e espanto por parte de um aluno ao identificar, no mapa, países como a Jamaica como sendo americano e não africano, pois reconheciam o país pela figura de um cantor afrodescendente (Bob Marley).
Ao propor o estudo do espaço geográfico a partir da leitura de mapas, evidenciou-se a necessidade do estudo das representações cartográficas, o que motivou o desenvolvimento de um projeto que articulasse o conhecimento geográfico em questão, destacado como importante pelos professores da área técnica do Eixo Turismo Hospitalidade e Lazer, aproveitando a possibilidade de realização de uma festa junina nas dependências do campus (AUTOR, 2013).
19 Para efeito de contextualização, a denominação de vila Marrocos foi atribuída a um conjunto de construções
resultantes de ocupações irregulares em terrenos no Bairro Paraboi na zona sul da cidade. Essa denominação foi retirada da semelhança atribuída às imagens de cenas da novela O Clone, exibida pela Rede Globo entre 2001 e 2002. Já o Bairro Saravá, hoje Bairro São João Batista, é uma antiga denominação atribuída a um bairro da zona leste da cidade por conta da concentração de terreiros de umbanda.
Esse projeto teve como principal objetivo contextualizar os conhecimentos cartográficos abordados na Geografia aos conhecimentos veiculados na disciplina de Matemática através dos conceitos de proporcionalidade (BRASIL, 2011) e da Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada a Eventos, que, de acordo com sua ementa:
[...] tem como objetivo curricular deixar o aluno apto a elaborar projetos de eventos, compreendendo as fases que envolvem o planejamento, a execução e o controle de um projeto para evento, visando o reconhecimento das melhores estratégias na organização dos mais diferentes tipos de eventos, levando em consideração os recursos físicos,humanos, materiais e financeiros (BRASIL, 2011).
Ainda, o projeto da festa junina deveria ser devidamente classificado de acordo com os estudos na disciplina de Introdução ao Turismo de Eventos, que previa no seu plano de trabalho conteúdos a serem abordados, tais como conceito, tipologias, história e categorização de eventos através do estudo do meio (Figura 1).
A metodologia do estudo do meio aplicada nesta disciplina, segundo Callai (2009), possibilita, para a Geografia, uma aprendizagem presente no cotidiano tornando-o mais significativo.
Para executar a atividade do projeto, os alunos reduziram e representaram o espaço de convívio do Campus numa escala de 1:100 (1 cm no papel é igual a 1 metro da realidade representada) aproveitando os conceitos de grandeza e escala da matemática, de cartografia, das convenções cartográficas e de orientação espacial da Geografia. Após isso, os alunos, em grupos de três componentes, distribuíram estandes na representação gráfica de forma a melhor utilizar o espaço, considerando os critérios da disciplina de Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada a Eventos.
Com o auxílio do obtido desenvolvido na disciplina Introdução Turismo de Eventos, os alunos justificaram toda a logística do evento de acordo com a origem do mesmo, a finalidade de determinados estandes e total de público-alvo (AUTOR, 2013).
FIGURA1: Integração Curricular por Tema Proposto EVENTO: Festa Junina Geografia: Convenções cartográticas, Escala e Representação Espacial. Matemática: Grandezas , escalas e proporcionalidade Introdução ao Turismo de Eventos: Tipologia e História do Evento Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada a Eventos
Nessa proposta, a integração curricular ocorreu devido à capacidade de os alunos articularem os conhecimentos dos diversos componentes curriculares para a execução da atividade de organização de um evento. E mais este: evento utilizado como recurso de um trabalho pedagógico na busca intencional de contextualizar os conhecimentos das disciplinas e, ainda, reconhecer o objetivo final do curso, que consiste em potencializar o sujeito a organizar qualquer evento (BRASIL, 2011).
Segundo Callai, é “fundamental que se considere que a aprendizagem é um processo do aluno, e as ações que se sucedem devem necessariamente ser dirigidas à construção do conhecimento por esse sujeito ativo” (2009, p. 92). Na prática, os alunos tiveram algumas dificuldades de cunho teórico, principalmente das disciplinas técnicas como Logística e Turismo de Evento, por se tratar de início de curso, mesmo assim o resultado final foi satisfatório quanto à representação do espaço em mapas e maquetes. A apresentação e o acompanhamento dos critérios para determinação da distribuição do evento sofreu uma carência, o que demonstrou que a disposição para realização de uma atividade de integração curricular apresentada no início do ano letivo foi apenas aparente. Mesmo assim, o projeto foi desenvolvido buscando uma forma dos alunos reconhecerem nas outras disciplinas o que havia sido solicitado para essa atividade.
Outra atividade, bastante lembrada pelos alunos ocorreu ao estudarmos a localização geográfica proposta a cada aluno para identificar o lugar na sala de aula dos colegas, que estavam no seu entorno. Após essa etapa e tendo verificado a posição geográfica do campus com o auxílio de um aparelho de GPS (Global Positioning System), os alunos fizeram uma mapa da sala de aula identificando cada colega de acordo com sua posição geográfica. Depois disso, realizamos um mapeamento do prédio do Campus representando cada sala com um signo de acordo com os critérios da convenção cartográfica.
Essa atividade, além de promover a integração dos alunos, potencializou a uma aluna realizar como Trabalho de Conclusão de Curso, um projeto que consiste em desenvolver, apresentar e aplicar a proposta de um evento: a promoção de um torneio de orientação no Instituto Federal Farroupilha, no ano de 2013.
A atividade desenvolvida no Trabalho de Conclusão consistiu na organização de um evento, uma atividade esportiva, em que os alunos compreendessem as noções de orientação, localização e espacialização de acordo com objetivos propostos no Plano de Trabalho e, assim, juntamente com a disciplina de Educação Física e Eventos Esportivos, integramos os conceitos cartográficos com a atividade esportiva, além de potencializarmos o trabalho de conclusão (AUTOR, 2013).
Para Santomé, “a aprendizagem significativa ocorre quando as novas informações e conhecimentos podem relacionar-se de uma maneira não arbitrária com aquilo que a pessoa já sabe” (SANTOMÉ, 1998, p.100).
Ainda, no primeiro ano da Turma 2011 do curso Técnico em Eventos Integrado ao estudarmos o conteúdo relacionado à estrutura física da Terra, estudado pela Geomorfologia, em acordo com a disciplina de Química, apresentamos alguns elementos químicos que constituem produtos e bens utilizados no cotidiano dos alunos e nos setores da economia. Por conseguinte, identificamos algumas rochas que potencialmente teriam esse elemento na sua composição mineralógica.
Ao reconhecer que as rochas continham os elementos estudados, os alunos primeiramente, na disciplina de Geografia, classificaram-nos como minerais metálicos, não metálicos e energéticos e, num segundo momento, pesquisaram as estruturas geológicas, em que fosse possível encontrar as rochas correspondentes ao primeiro momento e suas possíveis localizações geográficas.
Essa atividade foi realizada em aula e no laboratório de informática e visava à significação, por parte dos alunos, do conhecimento produzido pela Química ao identificar elementos da tabela periódica no seu cotidiano e compreender a ação humana de utilizar elementos da natureza, para descrever o espaço geográfico (AUTOR, 2013).
De acordo com Suertegaray, “pensar o ambiente em geografia é considerar a relação natureza/sociedade, uma conjunção complexa e conflituosa que resulta do longo processo de socialização da natureza pelo homem” (2004, p.196). Com isso, visamos desenvolver o estudo com base num contexto em que os alunos pudessem reconhecer o conteúdo trabalhado na sua vivência e o percebessem “através do trabalho e da técnica enquanto instrumentos de produção, acumulação e, por consequência, de produção de uma nova natureza” ( 2002, p.52).
A Figura 2 representa atividade de integração do conhecimento químico e geográfico ou uma pretensão de estabelecer uma articulação interdisciplinar entre os componentes curriculares envolvidos, numa via de dois sentidos. Essa articulação busca significações do conteúdo estudado na contextualização através da vivência e do mundo da vida, para que os alunos compreendam as atividades, os conceitos e os objetivos que envolvem essas disciplinas e produzam saberes na sua integralidade (AUTOR, 2013).
FIGURA 2: Saberes: via de dois sentidos
Saberes contextualizados.
Situação Contextual Conhecimentos da
O homem utiliza-se de diversos conhecimentos produzidos pela humanidade e a visão apresentada pela química sobre a atividade proposta na realidade se integra e se complementa à visão proposta pela geografia na produção de saberes. Conforme Pansera de Araujo, Auth e Maldaner:
[...] a proposta curricular, com base numa situação contextual, tende a proporcionar aos estudantes a produção de entendimentos, que não se restringem aos conceitos disciplinares, e transitar com autonomia em vários campos disciplinares (2007, p. 168).
Segundo Tardiff, o saber docente constitui-se “como um saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais” (2002, p. 36). Isso é relevante no sentido de reconhecermos que todas as iniciativas que ocorreram no primeiro ano da Turma 2011 foram intensamente influenciadas pela experiência no ensino regular e na Educação de Jovens e Adultos, motivo pelo qual, as práticas educacionais voltaram-se à integração através da interdisciplinaridade20.
As leituras desenvolvidas em relação ao Currículo Integrado21 demonstravam que a dualidade estrutural do ensino Técnico Profissional persistia, pois não se percebia efetivamente uma integração do conhecimento abordado na disciplina de Geografia com os conhecimentos técnicos trabalhados nas disciplinas específicas do curso (AUTOR, 2013).
A seguir, destacamos as práticas pedagógicas efetuadas durante o segundo ano da turma e, de certa forma, algumas mudanças e ressignificações sobre a proposta de efetivar o currículo integrado para além do discurso.