1964 441 29,16 1965 362 29, 1 1966 374 27,84 1967 425 29,35 1968 292 25,9 1969 84 8,17 1970 79 7,3 1971 70 5,86 1972 86 8,22 1973 64 6,27 1974 57 8,99 1975 68 6,56 1976 34 3,67 1977 40 3,59 1978 54 4,38 1979 42 3,25 1980 62 4,22 1981 97 5,52 1982 116 6,64 1983 124 6,32 1984 255 9,77 1985 260 10,65 1986 147 7,95 1987 22 8,49 1988 6 5,79
Fonte: Acervo da Junta de Conciliação e Julgamento de Ribeirão Preto.
205 Sabóia, por exemplo, cita que em 1968, o Fórum da Comarca de Cravinhos obteve autorização para julgar
processos de cunho trabalhista, o que até então era de competência da Comarca de Ribeirão Preto. O autor viu nesse movimento um estímulo à mobilização dos trabalhadores rurais do município, sobretudo na esfera jurídica, já que até então enfrentavam dificuldades em se deslocar até a JCJ de Ribeirão Preto para acompanhar audiências e as demais etapas dos processos. José Carlos de Sabóia. De senhores a trocadores de
cebola: estudo sobre representações de fazendeiros da região de Cravinhos, São Paulo. Universidade
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Outro aspecto relevante que chama atenção no gráfico diz respeito à tendência de crescimento do número global de processos contra estabelecimentos agropecuários notada a partir de 1979. O fortalecimento popular das críticas contra a ditadura, o ascenso de mobilizações de massa e, especialmente no caso dos trabalhadores rurais, o retorno de quadros políticos da esquerda até então exilados no exterior, além de uma atuação mais sistemática da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na organização e na mobilização de assalariados rurais e lavradores, parecem ter figurado como elementos decisivos para o incremento da luta de modo geral, especialmente a luta jurídica.
Notou-se que no caso de Ribeirão Preto, sobretudo após o advento da anistia política em 1979, que diversos quadros políticos da esquerda, muitos deles exilados no exterior em função da participação em organizações de luta armada, passaram a trabalhar como advogados sindicais para inúmeros STRs, para a FETAESP e, inclusive, para a própria CONTAG. Foi o caso de Wanderley Caixe e Leopoldo Paulino, ambos militantes das FALN e ALN, respectivamente, durante a segunda metade da década de 1960, que passaram a atuar como advogados sindicais no pós-anistia.
Paulino, por exemplo, apresentou maior ascensão e mobilidade social enquanto advogado sindical, tendo começado sua carreira como assessor jurídico de alguns STRs em Ribeirão Preto, passando pelo cargo de advogado da FETAESP no em 1981 e, posteriormente, sendo um dos fundadores e primeiro presidente da Associação Nacional dos Advogados dos Trabalhadores Rurais (ANATAG), sendo seu primeiro presidente. Esse retorno de antigos militantes parece ter contribuído para um incremento das reclamações trabalhistas no período indicado, embora não seja o único vetor. 206
206 Já a queda acentuada no número global de reclamações notada a partir de 1986 parece estar relacionada ao
processo de desmembramento do 2º Tribunal Regional do Trabalho - até então responsável por todo o estado de São Paulo e mais algumas regiões do Paraná e Mato grosso do Sul - em duas cortes regionais. Tal processo parece ter contribuído para a subnotificação de reclamações, para o extravio de parte dos processos, ou simplesmente para a incineração de parte do acervo dos tribunais trabalhistas. Sobre o histórico do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo e seu desdobramento, feito entre 1984 e 1986, ver http://portal.trt15.jus.br/historico. Acesso em fevereiro de 2017. A lei que regulamentou o desmembramento do Tribunal foi a lei 7.520, de 15 de julho de 1986.
124 O “assistencialismo” no cotidiano sindical.
Indagado sobre o recurso à Justiça do Trabalho, Crispim (dirigente do STR de Cravinhos) respondeu que se tratava do “início da luta dos trabalhadores”, sobretudo no começo das ações do STR.
Aquilo que a gente orientava os trabalhadores na época, como os patrões se recusavam a pagar os direitos deles, então a gente pegava e ingressava na Justiça, que era o caminho que o trabalhador tinha para poder receber. E a gente acompanhava todos os processos. 207
A fala mostra como o recurso à Justiça do Trabalho era visto pelos trabalhadores e, sobretudo no caso daquelas lideranças sindicais mais sensíveis e preparadas pela luta pelos direitos, como o acesso à Justiça do Trabalho era uma tática importante de mobilização e de arregimentação de sócios e novos quadros para os sindicatos.
[a Justiça] era o meio do trabalhador conseguir os direitos dele. E um meio também que a gente tinha na época que era um meio de despertar o trabalhador, porque se nenhum fosse procurar os direitos dele, quer dizer, então ficava sem receber. Agora, na medida em que um ia e recebia os direitos dele, então os outros já iam ficar sabendo também. Então era um meio de pegar e forçar os patrões a cumprir o que a lei determinava. (...) O sindicato era um meio de encaminhar os trabalhadores, porque através do sindicato então tinha advogado. A gente arrumava advogado para acusações, e para defender os trabalhadores, aquela coisa toda. 208
Especialmente após a implementação da política de benefícios assistenciais aos trabalhadores rurais, por meio do FUNRURAL, de 1971, era comum que os STRs mantivessem uma equipe de assistência jurídica gratuita (ou à preço módico) para os trabalhadores rurais sócios do sindicato. É o caso, por exemplo, da amostragem elaborada pela pesquisa (Tabela 1): do montante de casos onde houve investidura de um advogado, 60% dos processos (9 reclamações de 21) foram encaminhados pela equipe de assistência jurídica de algum STR.
Assim, não só porque eram detentores de um saber específico e de conhecimentos técnicos próprios ao bom andamento das reclamações trabalhistas, mas também por conta
207 Antônio Crispim da Cruz. Entrevista... p. 8. 208
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de eventuais trajetórias políticas, os advogados parecem ter ocupado posições de destaque na elaboração das estratégias de luta sindical. Ao analisar as atas de assembleias sindicais, por exemplo, foi recorrente encontrar situações onde era o próprio advogado sindical o responsável pela condução das reuniões, por vezes à frente de 200, 300 trabalhadores rurais. Ao lado dos dirigentes sindicais, eram os advogados que explicavam os “direitos” aos trabalhadores, os “deveres” dos empregadores e as razões de determinada manobra sindical ou reclamação trabalhista. 209 Em muitas ocasiões, eram os advogados também os responsáveis por delinear a linha política de atuação do sindicato, traçando as melhores estratégias, definindo o caráter das reivindicações e a melhor forma de encaminhá-la aos tribunais.
Por outro lado, os STRs abriam suas portas para a atuação de advogados das mais distintas filiações políticas, de comunistas a católicos. Um exemplo pode ser visualizado na trajetória de João Orlando Duarte da Cunha, advogado que atuou no primeiro dissídio coletivo dos trabalhadores rurais de São Paulo e que já era longo conhecido de Pe. Celso desde a época da FAP. João Orlando, muito embora tenha iniciado sua carreira política pelo Partido Democrata Cristão (PDC), foi também personagem importante na construção do MDB na região de Ribeirão Preto, chegando, posteriormente, a se eleger deputado federal constituinte. 210
Em outro caso, o advogado do STR de Ribeirão Preto e, posteriormente, da própria FETAESP, Leopoldo Paulino, fora militante vinculado à ALN da Região de Ribeirão Preto até a queda da entidade em 1969. O próprio Wanderley Caixe e tantos outros militantes das FALN e da própria ALN, mais ou menos intensamente, também compuseram, por meios
209 Numa assembleia realizada pelo STR de Pontal, em 10 de abril de 1974, por exemplo, foi o assessor
sindical quem conduziu a quase totalidade da reunião. De acordo com a ata, ao presidente do STR coube apenas a fala inicial dos trabalhos e de apresentação dos participantes da mesa. Na ocasião, foi o advogado sindical quem definiu, dentre as demandas elencadas pelos trabalhadores, quais eram as “plausíveis” e quais estariam “em conformidade com a legislação”. Tribunal Regional do Trabalho 2ª Região (Doravante TRT2). Dissídio coletivo 89/74. p. 8-11.
210 Essa era uma relação curiosa. Parte expressiva dos advogados sindicais pesquisados ao longo da
elaboração desta tese parecem ter se aproveitado do seu papel frente aos sindicatos e às bases sindicais para galgar espaços dentro dos espaços legislativos ou mesmo no executivo de diversos municípios do interior de São Paulo. João Orlando Cunha, por exemplo, antes de se eleger deputado federal, fora vereador pelo MDB em Ribeirão Preto. O mesmo aconteceu com os demais personagens analisados ao longo da pesquisa. Ocupar as assessorias jurídicas sindicais pode ter representado uma estratégia importante para conquistar vitórias eleitorais por parte de inúmeros agrupamentos e partidos políticos ao longo da ditadura.
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variados, o quadro de apoiadores de diversos STRs na região de Ribeirão Preto no período pós-anistia. 211 Tais casos permitem conceber um cenário curioso, com sindicalistas católicos - fossem “independentes”, “progressistas” ou “autênticos” - abrindo espaço para a atuação de advogados afinados com ideais políticos variados, muitos de esquerda, no cotidiano sindical.
Embora a assessoria jurídica não fosse, necessariamente, uma novidade no mundo rural, visto que já era largamente utilizada por associações e sindicatos de lavradores e trabalhadores rurais antes mesmo da promulgação do ETR e da própria deflagração do golpe de 64, inovações importantes no âmbito sindical parecem ter sido elaboradas pelos advogados trabalhistas ao longo das décadas ora abordadas. A apropriação dos serviços de assistência jurídica de forma a politizar a ação dos trabalhadores e do próprio sindicato parece ter sido uma delas. Abordaremos outros aspectos considerados inovadores dessa luta jurídica nas próximas seções.
Outros serviços sindicais, como a clínica médica, a assistência odontológica e os programas de bolsas de estudos para filhos de trabalhadores(as) sindicalizados, também foram citados por antigas lideranças em depoimentos, sempre numa perspectiva de mobilizar a base e ampliar a clientela sindical.
Há uma vasta literatura dedicada à descrição dos serviços assistenciais sindicais como algo negativo, desmobilizador. Um denominador comum destas análises reside no fato que elas o fazem pela perspectiva das intenções dos governos militares ao elaborarem os respectivos dispositivos e políticas públicas. Assim, o assistencialismo sindical, estimulado pela ditadura, teria arrefecido a luta; criado toda uma geração de sindicalistas incapazes de mobilizar de forma original a sua base sindical; bem como instaurou uma cultura entre os próprios trabalhadores que parecia equivaler o sindicato aos benefícios assistenciais e não à luta e reivindicação política. Essa opinião parece ter sido retomada por Crispim (STR de Cravinhos), em seu depoimento:
Depois, os militares, pra tapear os trabalhadores, jogou aí o assistencialismo, então a maior parte do movimento sindical se tornou de
211 Há também relatos de que outros militantes envolvidos na luta armada ribeirão pretana também apoiaram,
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fato assistencialista. Mantinham lá, mantém ainda muitos sindicatos, posso dizer até a maioria, que mantém o sindicato lá com médico, dentista, pra dar assistência ao trabalhador quando a obrigação é do Estado e não do sindicato fazer isso. Então onde que esfriou o movimento sindical (CRUZ, 1989, p. 25).
Contudo, logo na sequência, no mesmo depoimento, o líder sindical de Cravinhos aponta para a possibilidade da mesma estrutura sindical utilizar, de forma intencional e orientada, as mesmas políticas públicas para fim de mobilizar os trabalhadores rurais.
Então,(...) ser um órgão assistencialista (...) é muito mais cômodo pra quem entrou no movimento sindical depois de 64, sem nenhuma opinião formada, sem nenhuma ideologia despertada pelo menos. 212
O grifo feito pelo sindicalista mostra que a utilização das políticas assistenciais não necessariamente redundava em assistencialismo. Antes de serem mutuamente excludentes, podiam ser pensadas de forma paralela, de modo a ampliar a força do sindicato e seu papel de politizador dos trabalhadores.
Waldomiro Jorge, um dos diretores do STR de Sertãozinho nas décadas de 1960-70, mencionou em entrevista o papel dos serviços assistenciais na estruturação e consolidação de um “quadro de associados” para o sindicato. 213 Segundo seu relato, os diversos tipos de assistência oferecidos pelo STR eram um estímulo à associação e um contraponto à imagem de “terrorista” que empreiteiros, usineiros e fazendeiros da região tentavam imprimir às lideranças sindicais do município e ao próprio STR. Dessa forma, uma utilização simultânea das políticas assistenciais e de uma postura focada nos direitos seria capaz de animar e dar vida ao cotidiano sindical.
É provável, como apontado por Crispim, que muitas lideranças, sobretudo aquelas mais jovens, que chegaram à direção dos STRs no período pós-golpe, tenham sido socializadas e acumulado experiência dentro de uma concepção de sindicalismo mais próxima do assistencialismo ou voltada para a prestação burocrática de serviços. Contudo, os casos analisados sugerem apropriações interessantes da institucionalidade, sobretudo das políticas do FUNRURAL e da assessoria jurídica por parte de alguns STRs da região de
212 Antônio Crispim da Cruz. Entrevista… p, 26. 213
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Ribeirão Preto. Algumas lideranças, especialmente aquelas com uma trajetória anterior a frente dos STRs, souberam articular as políticas assistencialistas com as bandeiras de luta, sobretudo os “direitos”, mobilizando trabalhadores rurais em prol da aplicação das “leis” e também na luta pela ampliação dos benefícios sociais e trabalhistas. Os casos analisados também sugerem que algumas lideranças podem ter ousado ainda mais, conciliando a institucionalidade com a militância político-partidária, como fica visível no caso dos advogados e seus vínculos com organizações e entidades de orientações políticas diversas. Esses parecem ter contribuído para uma renovação da noção de “direitos” e “justiça”, como abordaremos na próxima seção.
Tencionando a legislação: as “conquistas”.
Os dissídios coletivos eram outra forma de atuação dos trabalhadores rurais nos tribunais. Diferentemente das reclamações individuais, feitas na JCJ, que como apontado, podiam resultar de inúmeras mediações, mais ou menos politizadas e planejadas, nos dissídios todo o processo dava-se de modo qualitativamente distinto. O primeiro aspecto é de natureza propriamente estrutural: é que o recurso ao dissídio implicava uma vinculação do conjunto de trabalhadores e empregadores de uma mesma base territorial, fosse ela municipal ou estadual. 214 Pressupunha também, especialmente por parte dos trabalhadores, o cumprimento de uma série de pré-requisitos para que a ação fosse considerada legal, como a realização de assembleias, lançamento de editais de convocação para as reuniões em jornais locais, elaboração de ata com as reivindicações assinadas pelos presentes, etc.
Os dissídios parecem ter sido também os momentos em que trabalhadores e sindicatos cobravam formalmente das instâncias patronais o fim de ilícitos trabalhistas bastante generalizados e, por isso mesmo, recorrentes. 215 Deste modo, o dissídio era a oportunidade adequada para sujeitar empregadores, obrigando-os a assumir compromissos no âmbito judicial, ainda que, nem sempre, os pontos acordados fossem devidamente cumpridos. Mesmo assim, como exposto ao longo dessa sessão, os trabalhadores rurais
214 Este aspecto tem a ver com a própria regulamentação da estrutura sindical, que previa o monopólio de
representação focado na categoria de trabalhador e na base territorial.
215 A reivindicação pela entrega de segundas-vias de documentos de controle da produção para os
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foram capazes de elaborar estratégias relativamente sofisticadas e inovadoras, buscando enquadrar empregadores, obrigando-os a cumprir demandas acordadas nos tribunais.
E é exatamente este ponto que parece importante de destacar. A noção de “conquista”, termo que se mostrou recorrente ao longo da pesquisa, remete exatamente a um conjunto complexo e coordenado de ações que passaram a ser acionadas pelos trabalhadores rurais e seus advogados em torno dos direitos e das leis, sobretudo a ausência daquelas reivindicações consideradas legítimas ainda não contempladas na legislação oficial. Em entrevistas e análises de documentos sindicais, constatei que líderes mais experientes se utilizavam estrategicamente dos dissídios como forma de ampliar benefícios sociais e trabalhistas, incorporando novas demandas e reivindicações. Tal prática, de acordo com os relatos, sugere que algumas lideranças diferenciavam os “direitos” das “conquistas”:
Uma grande batalha do meu pai era que tudo o que ele conseguia como conquista ele trabalhava para virar direito. 216
No depoimento acima, as conquistas parecem estar relacionadas aos pontos negociados durante o processo de condução dos dissídios coletivos. Já os direitos, remetem às leis positivas. Crispim (STR de Cravinhos) também mencionou a noção de “conquista” ao falar dos primeiros dissídios no campo:
Agora, pra desenvolver mesmo a luta em termos de novas conquistas, foi a partir de 64, porque aí (...), embora com pressões do governo e essa coisa toda, nós fizemos o 1º dissídio coletivo, mas só que esse dissídio coletivo ficou 2 anos para ser julgado... 217
Essas e outras falas apontam para a existência de uma concepção de direito que passava pela “conquista” (via Justiça) de alguma demanda vista como legítima e sua posterior transformação em lei positiva, fosse por meio de acordos judiciais com os empregadores, fosse por meio da elaboração de jurisprudências, percursos esses quase sempre indefinidos e construídos ao longo do embate entre os reclamantes e os reclamados. Em outras palavras, por meio dos dissídios e de estratégias posteriores de pressão, algumas
216 Persiana Áttilis Leoni. Entrevista concedida ao autor. Piedade, nov. 2015, grifos meus. 217
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lideranças sindicais conseguiram ampliar benefícios sociais e trabalhistas, incorporando nos códigos e leis oficiais novas reivindicações e demandas. 218
Foi assim que uma série de “conquistas”, originadas e renegociadas ano após ano em dissídios coletivos, passaram a compor, de forma gradual, e quase sempre definitiva, o arcabouço jurídico oficial, seja pela inscrição no próprio corpo das novas leis, seja pela consagração de jurisprudências ou interpretações das regras oficiais mais favoráveis aos interesses dos trabalhadores rurais. 219 Esses casos apontam também para uma novidade de ordem sociológica, sobretudo considerando a trajetória das relações sociais dos trabalhadores rurais: a existência de uma percepção, ao menos por parte dos líderes sindicais mais atentos, de que a Justiça poderia ser utilizada em benefício próprio e de que inúmeros “direitos” restavam ausentes das legislações. Em última instância, casos como estes mostram que a própria lei passava a ser encarada de modo mais complexo por muitos trabalhadores, que começaram a se enxergar como sujeitos ativos no processo de consolidação das próprias legislações e no tencionamento da própria Justiça do Trabalho.
Assim, no limite dos casos observados para a região de Ribeirão Preto, o recurso à Justiça do Trabalho deu-se, ao menos, em duas vias: a possibilidade de traçar acordos com os empregadores pareciam ser o momento mais adequado para pressionar por novas conquistas, ao passo que reclamações trabalhistas usuais, pelo cumprimento da “lei”, dos
218 A este respeito, cabe destacar o modo como o advogado da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do
Estado de Pernambuco (FETAP), tocou no assunto: “Contrato coletivo toma o nome de convenção coletiva quando os trabalhadores conseguem dobrar o patronato a assinar o que nós chamamos de ‘lei do sindicato’, se é para o conjunto dos trabalhadores. Toma o nome de acordo coletivo, quando não pega todos os trabalhadores na base do sindicato, mas apenas os empregados de determinadas empresas. E toma o nome de
dissídio coletivo quando ele desemboca na Justiça e sai através de sentença do Trabalho. É o instrumento mais
forte porque é a classe trabalhadora legislando em seu próprio favor, conquistando direitos não previstos na lei.” Ver Romeu Fonte. Dissídio coletivo, lei de greve e luta pelo cumprimento: aspectos jurídicos. Em:
Canavieiros em greve. Campanhas Salariais e sindicalismo. Cadernos do Centro Ecumênico de
Documentação e Informação (CEDI) nº 14. São Paulo, 198, p. 32.
219
Garantias como remuneração das horas in itineri e o fornecimento de equipamentos de proteção individual para trabalhadores também surgiram, inicialmente, como acordos entre trabalhadores e patrões, até que se firmaram definitivamente como obrigações legais. Leoni, Entrevista, 2015. Foi também o caso da
contribuição assistencial, uma inovação sugerida pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STRs) de
Sertãozinho no início da década de 1970, durante a realização de um dissídio coletivo. Para o STR, os empregadores deveriam recolher um valor específico para cada trabalhador, uma única vez ao ano no início da safra, depositando-a em favor do sindicato. Era entendida como uma contribuição patronal legítima, que