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2. A CONSCIÊNCIA E A NOSSA VISÃO CIENTÍFICA DE

3.3 A ANOMALIA DO MENTAL

Um outro ponto relevante da teoria de Donald Davison destaca a interrogação sobre se o domínio do mental se deixa abarcar por leis estritas, sem exceções, do tipo que é requerido para que fenômenos mentais possam ser inseridos em uma psicologia científica. Como vimos acima, para Davidson, estados mentais não podem ser reduzidos à esfera física. A consequência disso é que a atribuição ao sujeito de razões para agir, no lugar de identificar possíveis causas para seu comportamento, nos impede de explicar as suas ações de maneira nomológica, ou seja, de admitir a existência de leis que relacionem descrições mentais e descrições físicas. Em outras palavras, para Davidson, não há leis psicofísicas e psicológicas; os eventos mentais não podem ser capturados por uma estrutura nomológica, como o faz a física. Segundo o anomalismo do mental não há qualquer lei determinística estrita, garantindo que os eventos mentais sejam preditos e explicados de modo preciso. Não existem, por conseguinte, leis que apreendam os nossos

estados psicológicos; há uma autonomia da ação humana em relação à força implacável de leis estritas como as que regem o mundo físico e

Qualquer esforço para aumentar a precisão e o poder de uma teoria do comportamento nos obriga a tomar diretamente em conta uma parte cada vez maior de todo o sistema de crenças e motivações do agente. Mas para inferir este sistema a partir da evidência, necessariamente, impomos condições de coerência, racionalidade e consistência. Estas condições não têm eco na teoria física, e é por isso que não podemos esperar mais do que vagas correlações entre os fenômenos psicológicos e físicos (DAVIDSON, 2001, p. 230).

Outra razão para Davidson desacreditar na existência de leis em psicologia é a ideia de que uma explicação psicológica tem de ser holista, e, nesse sentido, quando fizer referência a um certo estado mental de alguém isso só pode ocorrer com base na atribuição a essa pessoa de outros estados mentais. Deixe-me dar um exemplo.

Imagine que meu pai é um economista de direita e que eu tenha convicções de esquerda. No dia do aniversário do meu pai, resolvo dar a ele de presente o livro do marxista da moda no momento. Agora, perceba a lista de explicações possíveis para meu comportamento. Pode ser o desejo de reagir às provocações que meu pai faz acerca de minhas posições políticas; não é descabido pensar que eu queira provocá-lo; posso estar querendo mudar o pensamento político de meu pai; talvez apenas eu pretenda deixá-lo bem informado sobre a bibliografia recente sobre o assunto; quem sabe, seja o caso de alguém ter me sugerido o desejo dele por este livro, etc. Como poderia encaixar tais explicações em uma lei estrita? Há tantos componentes envolvidos e que podem ter atuado em meu comportamento, e cada um parece tão vago, que em virtude da dificuldade de apontar o que está precisamente interferindo no meu modo de agir somos levados a considerar o aspecto holista das explicações psicológicas. Tanto que Davidson, quando quer compatibilizar o anomalismo do mental com um quadro em que explicamos a ação de alguém, atribuindo a este liberdade, nos diz que:

Explicamos as ações livres de um homem, por exemplo, apelando aos seus desejos, hábitos, conhecimento, percepções. Tais explicações do

comportamento intencional funcionam num enquadramento conceptual afastado do alcance direto da lei física descrevendo causa e efeito, razão e ação, como aspectos de uma representação do agente humano. O anomalismo do mental é assim uma condição necessária para ver a ação como autônoma. (DAVIDSON, 2001, p. 225). Portanto, é uma característica dos estados mentais o fato de que, ao atribuirmos esses estados a alguém, tenhamos de ter por base o background de motivações, intenções e crenças desse indivíduo. Davidson, entretanto, admite que, apesar de estamos impedidos de elaborar leis deterministas, podemos fazer certas generalizações que nos auxiliem na compreensão de determinadas situações.

O incremento do monismo anômalo por meio do conceito de superveniência convém, assim, para que, apesar da existência de uma relação entre acontecimentos mentais e físicos, não se siga disso que esta identidade descambe para o reducionismo, ou para a existência leis causais estritas, que liguem as propriedades mentais com as suas propriedades físicas. Portanto, mesmo que o mental não seja redutível ao físico, ocorre que os acontecimentos mentais podem aparecer casados com os acontecimentos físicos. Ou seja, toda descrição mental de uma determinada ocorrência pode ser correlacionada com uma descrição de uma ocorrência física. Por isso o uso da noção de superveniência, que nos diz que uma propriedade mental M é superveniente em relação a uma propriedade física F se não puder acontecer uma mudança em M sem que ocorra uma mudança em F. Desse modo, Davidson pode defender um monismo ontológico sem aderir ao reducionismo.

É pelo fato de podermos falar dos acontecimentos de várias formas, isto é, segundo descrições mentais ou físicas, que esse acontecimento tem várias características ou propriedades. Desse modo, o acontecimento de Mauro ter arrombado a porta de casa tem a propriedade de ele ter desejado entrar para se proteger do frio, de ele ter forçado a porta ou de ter feito a porta quebrar a sua escultura nova. Todos esses são o mesmo acontecimento e todos possuem as mesmas propriedades. No entendimento de Davidson, portanto, podemos falar em uma ocorrência física causando uma ocorrência mental e podemos, inversamente, dizer que uma ocorrência mental causa uma ocorrência física. Assim, pois, me refiro ao desejo de Mauro entrar em casa fazer com que ele se dirija à porta para derrubá-la e, por outro lado, alego que

uma rajada de vento gelado do lado de fora da casa gerou nele o desejo de arrombar a porta.

Mesmo não havendo leis psicofísicas nem psicológicas estritas, de modo que não possamos rigorosamente prever o comportamento humano, podemos, no entanto, nos basear no que sabemos acerca da psicologia destes ao falarmos de seu comportamento. Contudo, por mais que saibamos, nos mínimos detalhes, sobre a psicologia de alguém, jamais poderemos prever com exatidão suas próximas deliberações, vontades e escolhas. Certamente, ainda que um competente psicólogo estude os pensamentos, anseios e razões relatadas por uma pessoa, ou mesmo que o cérebro e o contexto social em que essa pessoa viva sejam conhecidos, de tal modo que toda informação possível esteja disponível, a explicação sobre uma ação qualquer desse indivíduo não estaria ao alcance de uma psicologia científica. Mesmo sabendo tudo da psicologia de alguém, a existência de leis estritas que regulam o comportamento humano nos é negada, nos restando apenas generalizações imprecisas sobre como esse indivíduo se comporta.

4 NATURALISMO DUALISTA OU BIOLÓGICO?

Como já apontamos, os fenômenos que compreendem algum tipo de sensação semelhante aos qualia resistem às explicações científicas por não se afigurarem como físicos, e sim como subjetivos, remetendo aos aspectos qualitativos da experiência consciente. O sabor cítrico de uma comida, o que experimento internamente diante de um objeto que reflete uma luz verde forte ou uma dor que sinto ao topar em uma cadeira, por exemplo, consistem em coisas inerentemente privadas, envolvendo eventos que vão além daquilo que atingimos quando conhecemos a realidade física. As explanações científicas, no entanto, exigem explicações em termos de características do mundo objetivas ou publicamente acessíveis. As ideias de Davidson apresentadas anteriormente parecem agravar mais ainda o problema, nos expondo a fortes razões para pensarmos que a psicologia, área devotada ao estudo de alguns aspectos da nossa vida mental, está fadada ao fracasso no que tange a capturar regularidades nomológicas que enquadrem o mental em um visão cientificamente embasada.

Para enfrentar esse dilema, a investigação sobre a natureza dos estados conscientes se apresenta, assim, como extremamente necessária, e foi o que fizeram alguns filósofos num momento de bastante efervescência, que se seguiu ao longo período em que tais estudos se afiguraram como uma tarefa desestimulante. Assim, sendo umas das noções consideradas mais importantes no debate sobre a filosofia da mente atual, o termo consciência possui fundamental relevância no tratamento da questão acima levantada, o que é atestado pelo espaço dado a este conceito nas teorias dos dois filósofos que aqui passaremos a abordar. Trata-se dos pensadores John Searle e David Chalmers, cujos enfoques sobre os problemas da filosofia da mente pretendemos explorar e avaliar nesta parte do trabalho. As teorias desses filósofos, pensamos, trazem em seu interior importantes repercussões para a compreensão deste tema da filosofia contemporânea, e o interesse específico nelas se deve ao fato de ambas terem resistido à posição fisicalista reducionista, sem abdicar de uma explicação naturalista para o que talvez seja o item mais relevante daquilo que é mental.

Nem sempre, como já frisamos, estamos nos referindo ao mesmo aspecto da mente, quando usamos a palavra consciência. E mesmo quando um certo consenso surge a esse respeito, as divergências logo aparecem quando se trata de acomodá-lo à nossa visão científica de

mundo. No entanto, em um ponto os dois filósofos aqui referidos parecem concordar: ambos rejeitam a proposta de reduzir os qualia internos a estados físicos do cérebro. Searle entende a consciência como uma propriedade que emerge da atividade cerebral de alguns seres vivos superiores, do mesmo modo que a vida é uma propriedade emergente da matéria quimicamente formada. A atividade do nosso cérebro causa a consciência, mas, segundo ele, assim como não podemos explicar a vida reduzindo-a a outra coisa, a consciência não pode ser explicada também apenas reduzindo-a à atividade cerebral. Chalmers, por sua vez, aborda o tema defendendo que fenômenos conscientes não podem ser explicados a partir dos conceitos e teorias científicas presentes. Esse filósofo identifica a consciência com estados fenomênicos autoevidentes para o sujeito, mas que não podem ser estudados sob uma perspectiva de terceira pessoa. Mas como então encaixar a consciência no mundo, conciliando sua existência com o resto das informações científicas de que dispomos? Tentaremos aqui expor a abordagem do problema dos fenômenos conscientes feita por esses dois autores no intuito de esclarecer como a emergência desse evento, ligado a aspectos internos ou subjetivos, ocorre a partir de um mundo com seus sistemas meramente físicos. Assim, poderemos avaliar a tentativa feita por eles, no sentido de conformar o mental à nossa visão científica de mundo estabelecida.