3 GESTÃO EDUCACIONAL NO BRASIL E EM MINAS GERAIS DE 1991 A 1998 Verificou-se no capítulo anterior que as recentes transformações produtivas no
3.2 P ANORAMA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE 1991 A 1998: TEMPOS DE R EFORMAS DO
ESTADO
Nos anos 1990 foram intensificados os acordos político-econômicos entre as nações, a fim de garantir a interdependência dos países em desenvolvimento ao mercado mundial globalizado e, simultaneamente, o progressivo alinhamento dessas nações às diretrizes e critérios já definidos internacionalmente. No caso do Brasil, a década se iniciou após o processo de reconstrução do regime democrático, promulgação da Constituição Federal e re-estabelecimento das eleições diretas, todas configuradas no governo José Sarney de Araújo Costa (1986-1989), primeiro governo civil após o movimento militar de 1964. No entanto, o quadro de crise econômica deixado por José Sarney se apresentava como alarmante, já que a reforma monetária, alinhada às orientações emanadas do FMI, e os planos de estabilização postos em prática não conseguiram conter a inflação, o que gerou forte recessão em diversos setores no país.
Quanto às políticas educacionais que permearam a passagem dos anos 1980, estas se sustentaram sob o discurso assistencialista de ressarcimento da dívida social, manutenção da harmonia entre as classes e preservação da estabilidade política e institucional (FIGUEIREDO, 2001), todas desencadeadas em meio aos financiamentos e diretrizes do Banco Mundial acerca da urgência de atendimento às demandas de formação básica e qualificação dos trabalhadores, com vistas à conquista das aclamadas liberdades políticas, individuais e econômicas.
Nessas condições, Fernando Affonso Collor de Melo foi eleito presidente para o exercício 1990-1993. Erigido sob um discurso eminentemente consoante aos grupos e corporações transnacionais e aos interesses ligados ao capital financeiro, defendeu a modernização e projeção do país no cenário internacional. O resultado daquele pleito foi traduzido nos meios acadêmicos, popular e sindical, como “a vitória de um mito, produzido pelos meios de comunicação de massa” (SILVA, 1999, p.75).
Nesse período, iniciativas de adequação das políticas nacionais ao ideário neoliberal, já esboçadas no final do governo anterior16, foram implementadas apesar da resistência de parte da sociedade, e que, por sua vez, se ampliou progressivamente na medida em que o cenário sócio-econômico demonstrava a ineficiência dessas iniciativas no controle da inflação e na ampliação dos postos de trabalho (FIGUEIREDO, 2001).
Se as políticas adotadas no país promoveram o redirecionamento dos gastos a fim de se garantirem as reformas necessárias à focalização da ação estatal em determinadas áreas sociais, especialmente no campo educacional as ações da poder público evidenciaram as contradições e as implicações imanentes a esta lógica. A orientação dos investimentos públicos continuou a ser determinada pelas demandas de alocação, treinamento e, inclusive, de requalificação dos trabalhadores para atender às exigências do mercado competitivo, ainda que se tenha verificado a constituição de algumas iniciativas de democratização da educação e de sua ampliação a segmentos até então excluídos. Em diversas regiões do país ocorreu, por exemplo, “a criação dos CIACs – Centros Integrados de Assistência à Criança e aos Adolescentes, como tentativa de frear a repetência, expressa muitas vezes como evasão escolar” (FIGUEIREDO, 2001, p. 91).
As diretrizes de ação adotadas pelo governo federal nesse período geraram as condições necessárias para que o país se voltasse à transnacionalização, rumo ao alinhamento aos padrões da economia mundial, consubstanciada não de nações nem de sistemas econômicos nacionais, e sim da ação conjugadas “dos grandes grupos econômicos entre si e no interior de cada um deles” (BRUNO, 2001, p. 37).
16 Para alguns autores, a análise das políticas governamentais brasileiras permite considerar que a adoção do modelo neoliberal no país foi iniciada no final do governo José Sarney, no final dos anos 1980, tendo se consolidado de forma mais completa no governo Fernando Collor de Melo (ROCHA, 2000).
As organizações transnacionais, estruturas sistêmicas sustentadas pela base da globalização econômica, contribuíram para a ampliação do parque industrial e produtivo no país, ao mesmo tempo em que se estabeleceu uma unidade global de relacionamento e interdependência hierarquizada entre as nações desenvolvidas e aquelas ditas em desenvolvimento. A globalização, nos moldes em que foi conduzida, relativizou as barreiras antes impostas pelas fronteiras geográficas e espaciais, permitindo ao capital financeiro transitar livremente no país, conforme seus interesses.
Ao mesmo tempo em que implicou mudanças no setor produtivo, a abertura do mercado nacional ao capital internacional redirecionou a implantação de programas e projetos no setor educacional brasileiro. O volume de recursos emprestados pelos organismos multilaterais ao Brasil, especificamente à educação, saltou vertiginosamente. Nesse aspecto, verificou-se que “enquanto nos anos 87-90 [os recursos para a educação] constituíam somente 2% do total de empréstimos, nos anos 91/94 chegaram a representar 29% do total” (SOARES, 1998, p. 34-35).
Dessa forma o capitalismo brasileiro foi progressivamente renovado ao alinhar-se com a lógica e os padrões determinados pelo capital internacional. Por meio das orientações e assessorias de organismos multilaterais, materializadas em Acordos de Cooperação, principalmente financeira, mesclaram-se, no contexto nacional, os recém- chegados princípios toyotistas aos conhecidos padrões tayloristas e fordistas, assumindo maior relevância os discursos da padronização, qualidade, da eficiência, do rendimento e da produtividade, como fundamentos nacionais de modernização e desenvolvimento. Exemplos desta política podem ser constatados durante a implementação de programas tais como o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP), que por sua vez
situa-se nesse contexto e expressa, em boa medida, como se configurou a resposta do empresariado e do governo brasileiro frente às novas exigências postas pelas transformações sócio-econômicas, políticas e culturais no mundo capitalista (SILVA, 2002, p. 143).
Especificamente no campo da educação, o governo de Fernando Collor retomou a idéia de colocar a escola a serviço das políticas de formação de mão de obra especializada, a fim de atender às renovadas demandas do empresariado ligado ao setor produtivo. Esta diretriz política revitalizou o debate em grupos e segmentos sociais historicamente
contrários a esse tipo de proposta. Para estes, o cumprimento do dispositivo constitucional que apontava a educação como mecanismo de formação para a cidadania crítica e participativa contrariava as políticas de focalização e formação para o mercado de trabalho, difundidas oficialmente na época (DRAIBE, 1994).
As propostas de formação para o trabalho, orientadas pelos princípios toyotistas, pregavam a idéia de aproveitar a capacidade criativa e o potencial ativo e participativo do trabalhador na melhoria dos processos de produção.
Tal como verificado no resto do mundo, difundiram-se no país os métodos denominados participativos, que anunciaram modificar a lógica e as relações econômicas vigentes por meio da implantação de mecanismos e processos capazes de promover o envolvimento dos trabalhadores na gestão e controle dos processos de produção das empresas. No entanto, a introdução de práticas participativas de gestão nos processos produtivos consistiu, em grande parte, numa estratégia de motivação para a elevação da produtividade. Assim, para responder às demandas de competitividade e eficiência dos mercados globalizados, quando
a empresa solicita aos seus integrantes que se engajem no seu projeto, ela também demanda por identificação com seus objetivos. Essa demanda supõe um tipo de trabalhador diferente do que se submetia às estratégias tradicionais de gestão. Cada vez mais vem sendo enfatizada a necessidade de um novo perfil de trabalhador: qualificado, autônomo, criativo e polivalente. A gestão participativa buscaria, entre outros objetivos, a conformação desse novo perfil de trabalhador (COUTINHO, 2006, p. 4).
Pelas condições apresentadas pelo empresariado, as mudanças realizadas nos processos de gestão produtiva não resultaram efetivamente na ampliação do poder decisório entre a classe trabalhadora, posto que permaneceram fundamentalmente inalteradas as condições de controle e subordinação já presentes no setor (ANTUNES e SILVA, 2004; COUTINHO, 2006).
No mesmo sentido das mudanças realizadas no setor produtivo, a adoção de políticas públicas voltadas ao atendimento de metas pré-determinadas pelo capital privado, o fortalecimento e expansão do setor produtivo, a privatização de empresas e serviços públicos, a adoção de estratégias gerenciais associadas à terceirização dos serviços públicos (PERONI, 2003), bem como a permanência de uma conjuntura nacional
caracterizada por crise fiscal, escândalos de desvio ilegal de recursos públicos e falta de políticas sociais produziram vários movimentos de resistência ao governo Fernando Collor.
Ao lado desses elementos, o confisco de parte dos investimentos bancários depositados no sistema financeiro nacional, a falta de propostas adequadas de descentralização administrativa e os poucos resultados na consolidação dos direitos democráticos colaboraram com a insatisfação e queda da popularidade do governo em quase todos os setores da sociedade brasileira, incluídos aqueles vinculados, em parte, ao grupo dirigente em exercício no poder público federal.
Enquanto parte do governo de Fernando Collor agia num acelerado processo de desestatização e abertura desregulada do mercado interno ao capital estrangeiro, ocorreram sucessivas crises nos grupos e partidos de sustentação, agravadas por uma série de denúncias de corrupção.
O agravamento das denúncias de corrupção resultou na instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que, após as investigações, levou a Câmara dos Deputados a instituir a “abertura de processo de impeachment do Presidente”, que foi encerrado em “29 de dezembro [de 1992], com a condenação do Presidente e sua renúncia” (SILVA, 1999, p. 79, grifos do autor). Em decorrência, tomou posse o vice-presidente, Itamar Augusto Cautiero Franco, que conduziu o país até 1994.
A gestão do presidente Itamar Franco procurou tranqüilizar a opinião pública e os setores produtivos. Para tanto, o governo se comprometeu a não adotar medidas que surpreendesse a nação, temor decorrente dos confiscos financeiros realizados no governo anterior e que, pelo impacto gerado, mantiveram em estado de alerta a população. De maneira geral, o país apresentava um déficit público elevado, baixa produtividade industrial, sucateamento da máquina pública e altas taxas de desemprego.
Os sucessivos ministros da Fazenda de Itamar Franco tomaram medidas para reduzir os índices do déficit (sic) público e para conter a inflação, sem conseguir resultados satisfatórios. O programa de desestatização e privatização da economia, iniciado no governo anterior, prosseguiu lentamente. Esse entrave se deu principalmente à oposição de pessoas e grupos interessados em manter sob a tutela estatal as grandes empresas a que estavam ligados. A criação de uma nova moeda - o cruzeiro real -, cuja unidade correspondia a mil cruzeiros antigos, foi uma das primeiras medidas tomadas como preparação para uma reforma econômica mais ampla. A convocação do senador Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda resultou na elaboração de um novo plano econômico. O Plano FHC (letras iniciais do nome de seu criador), rebatizado
posteriormente como Plano Real, criou o URV (Unidade Real de Valor), um indexador provisório da economia, que serviria como transição até que uma nova moeda - o real - entrasse em vigor. O real manteria paridade com o dólar e eliminaria a espiral inflacionária. O novo plano econômico não incluiu as soluções conhecidas e já provadas insuficientes, como o congelamento dos preços e de salários e confiscos (ESCOLA BRASIL, 2007, “sem paginação”).
O Plano Real17 foi implantado sob a oposição de setores sindicais e alguns partidos políticos, por entenderem que o mesmo implicava em perdas para a classe trabalhadora. Além disso, logo antes de seu início verificou-se uma intensa especulação de preços, o que aumentou ainda mais o processo inflacionário. Para repelir a alta inflacionária, o governo promoveu a redução das taxas de importação, resultando em maior abertura do mercado nacional aos produtos estrangeiros. No cenário internacional também ocorreu a renegociação da dívida externa brasileira com o FMI de demais credores internacionais.
Também no setor educacional as políticas públicas adotadas refletiram os interesses e conflitos existentes entre movimentos sociais, a iniciativa privada nacional e os organismos multilaterais. Frente aos diferentes interesses e demandas, as políticas educacionais se mantiveram permeadas pelas diretrizes econômicas e pelos critérios impostos nos empréstimos internacionais contraídos no período.
A política do MEC começa a ser gestada a partir de 1992, no período de Itamar Franco (1992-1994) do Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Neste contexto, acabou predominando a política de estabilização econômica, acordada entre a Diretoria Executiva do Banco Mundial e dos gestores brasileiros (FIGUEIREDO, 2001, p. 69).
Em meio às diretrizes apresentadas nos acordos e empréstimos estabelecidos internacionalmente, foi desenvolvido pelo Ministério da Educação – MEC, o Plano Decenal de Educação para Todos, com vigência para o período 1993-2003. De forma geral, tal Plano mostrou-se alinhado às orientações emanadas da Conferência Mundial de Educação Para Todos, servindo assim de argumento para a participação do Brasil nas demais Conferências realizadas internacionalmente.
17 Em seus traços principais o Plano Real “consistiu em uma combinação de abertura comercial e liberalização financeira, simultâneas ao estabelecimento de uma taxa de câmbio sobrevalorizada, utilizando o recurso às importações baratas como elemento de força contra eventuais pressões inflacionárias internas nos setores de bens comercializáveis internacionalmente. Ao mesmo tempo, o estabelecimento de uma taxa de câmbio sobrevalorizada penalizava o setor exportador nacional” (MINEIRO, 2002, p. 14).
Em 1993, o Ministro da Educação do Brasil, Murílio de Avellar Hingel, a partir da portaria nº 489, de 18 de março, resolve criar uma Comissão Especial para elaborar o Plano Decenal de Educação para Todos, sob a coordenação da Secretaria de Educação Fundamental do Ministério, com o propósito de cumprir com o compromisso de universalização da educação, com qualidade num prazo de 10 anos e buscando a erradicação do analfabetismo. (...) Neste sentido o MEC para agilizar este processo, articulou um grupo de executivos e especialistas que tiveram o objetivo de debater em todo o País, os problemas pertinentes à educação e às alternativas para enfrentá-los. Tal discussão foi consolidada na Semana Nacional de Educação para Todos, realizada em Brasília, de 10 a 14 de maio de 1993, onde foi discutida a versão preliminar do Plano Decenal. (...) A Conferência Mundial de Educação para Todos representou a base para a elaboração do Plano Decenal de Educação para Todos. O Plano Decenal visa responder ao dispositivo constitucional que determina a eliminação do analfabetismo e a universalização do Ensino Fundamental e estabelece as diretrizes que deverão ser seguidas por todas as instâncias da administração educacional, com a finalidade de ampliação e racionalização dos recursos previstos à educação. (FIGUEIREDO, 2001, p. 70-73).
Diversas entidades do poder público, movimentos sociais organizados e representantes de outros setores participaram do processo de elaboração do Plano Decenal, o que sugeriu um caráter democrático na consolidação do mesmo. Entre as conquistas apontadas pelas lutas e demandas populares, em julho de 1994 foi assinado o Acordo Nacional de Valorização do Magistério da Educação Básica que, entre outras medidas, estabeleceu “o compromisso de se fixar um Piso Salarial Profissional Nacional de R$ 300 (cerca de R$ 700 em valores atuais)” e que foi, posteriormente, “ignorado pelo Governo FHC” (PINTO, 2002, p. 111).
O Plano Decenal apresentou a necessidade de mudanças na gestão e no funcionamento da educação básica, a fim de, entre outros aspectos, universalizar o acesso nas diferentes realidades do país, melhorar a formação inicial e continuada dos professores, promover a descentralização didática, administrativa e financeira, assim como desenvolver novos padrões de avaliação e gestão educacional.
No entanto, ao focalizar a educação básica, o Plano Decenal refletiu os limites e demandas sob os quais se assentavam as propostas do Banco Mundial, pautadas desde a década anterior na vinculação, nos países em desenvolvimento, entre a educação pública e a formação básica para o desempenho profissional, ao mesmo tempo em que condicionou aos demais níveis de ensino a descentralização administrativa e a transferência gradativa dos serviços educacionais à iniciativa privada (FONSECA, 1997). A respeito do
referencial adotado nas propostas de descentralização do sistema escolar, o mesmo estava, desde então, ressignificado, articulando-se a propostas de
progressiva privatização ou assunção de modelos e estratégias de mercado, capitaneadas pela desconcentração das ações, sem que ocorra uma garantia efetiva de financiamento. Tais encaminhamentos têm resultado, como é possível constatar no plano concreto, na crescente desobrigação do Estado no terreno educacional (DOURADO e BUENO, 2001, p. 56).
Apesar de serem percebidas algumas redefinições das políticas nacionais, durante o governo Itamar Franco as mudanças no setor educacional estiveram sempre permeadas pelas relações firmadas com os interesses internacionais e no atendimento das diretrizes apresentadas. O grau de interferência e a amplitude da ingerência dos organismos multilaterais nesse período foram verificados na declaração ao Senado Nacional, realizada por Fernando Henrique, então Ministro da Fazenda, acerca da abertura do mercado nacional ao capital internacional. Na oportunidade Fernando Henrique afirmou que
estava “extremamente feliz com o fim do problema da dívida externa”. A felicidade tinha uma explicação: o ingresso de capitais estrangeiros ganhara alento em meados de 1991. Processo similar ocorreu em toda a América Latina, com a entrada líquida total de capitais passando de 9,3 bilhões de dólares (1989) para 60,8 bilhões de dólares (1992). A Ásia também conheceu o mesmo fenô- meno, que acabou por ser a principal causa da crise asiática que eclodiu em outubro de 1997 (GONÇALVES e POMAR, 2000, p. 18).
Posteriormente, em decorrência da estabilização econômica alcançada pelo Plano Real, o governo federal obteve a credibilidade necessária para garantir o apoio majoritário da sociedade e eleger para a presidência do país o responsável pela implantação desse Plano, o Senador Fernando Henrique Cardoso (SILVA, 1999).
Sob a premissa de ter devolvido ao país a estabilidade econômica e o controle da inflação, as estratégias de ação do governo Fernando Henrique foram expressas na Lei nº 9.276/96, que instituiu o Planejamento Plurianual (PPA)18 para o período 1996-1999. Intitulado “Brasil em Ação”, o PPA se voltou para “a necessidade de consolidação da
18 O Plano Plurianual (PPA) é um instrumento de planejamento de médio prazo das ações do governo federal. Com vigência de quatro exercícios financeiros, deve ser enviado para aprovação do Congresso Nacional até o final do oitavo mês do primeiro ano do mandato presidencial, e ser executado do ano seguinte ao primeiro ano do próximo mandato.
estabilidade de preços”, por considerar que a “retomada dos investimentos produtivos e a deflagração de uma nova fase sustentada de desenvolvimento são conseqüência da estabilidade e, ao mesmo tempo, condição para a sua consolidação” (BRASIL, 1996b, p.1). Fundamentado numa lógica de modernização, racionalização e abertura comercial do Estado ao capital internacional, foram destacadas como diretrizes governamentais:
consolidação do processo de saneamento das fianças públicas; descentralização das políticas públicas para Estados e municípios, setor privado e organizações não governamentais; aumento da eficiência do gasto público, com ênfase na redução dos desperdícios e no aumento da qualidade e da produtividade dos serviços públicos; aprofundamento do programa de desestatização; modernização das Forças Armadas e de seus níveis operacionais; modernização da Justiça e dos sistemas de Segurança e Defesa Nacional; reformulação e fortalecimento da ação reguladora do Estado, inclusive nos serviços públicos privatizados; reformulação e fortalecimento dos organismos de fomento regional; modernização dos Sistemas de Previdência Social (BRASIL, 1996b, p. 2).
Com o foco da ação governamental no desenvolvimento econômico, as políticas voltadas para o atendimento das demandas sociais da classe trabalhadora apareceram como “Estratégia de Redução dos Desequilíbrios Espaciais e Sociais”, sem demonstrar o efetivo comprometimento do governo federal com a transformação das condições sociais verificadas no período. As diretrizes de ação nesse campo se orientaram para a
criação de novas oportunidades de ocupação da força de trabalho; redução dos custos de produtos de primeira necessidade; aproveitamento das potencialidades regionais, com uso racional e sustentável dos recursos; fortalecimento da base de infra-estrutura das regiões menos desenvolvidas; fortalecimento da política de desconcentração industrial; redução da mortalidade infantil; ampliação do acesso da população aos serviços básicos de saúde; melhoria das condições de vida, trabalho e produtividade do pequeno produtor e do trabalhador rural; melhoria das condições de vida nas aglomerações urbanas críticas (segurança pública, saneamento, habitação, transporte coletivo, serviços urbanos, desporto, e cultura e meio ambiente); mobilização da sociedade e comprometimento de todo o governo para a erradicação da miséria e da fome; fortalecimento da cidadania e preservação dos valores nacionais (BRASIL, 1996b, p.2).
Sob o comando de Fernando Henrique, de 1995 a 1998 as políticas nacionais intensificaram o alinhamento do país ao processo de globalização, em articulação com o atendimento dos interesses dos setores produtivos e da respectiva diminuição da interferência do Estado na regulação do mercado. Nesse sentido, verificaram-se no período ações que foram desde a “abertura comercial aos investimentos estrangeiros, a
privatização, a terceirização, a implementação de parcerias com organismos da sociedade, a desregulamentação e a desresponsabilização do Estado” (FALEIROS, 2004, p. 36-37).
Em função dos acordos e empréstimos firmados com o capital financeiro internacional, principalmente por meio do Banco Mundial e do FMI, diversos setores e grupos sociais denunciaram o impacto das interferências dos organismos multilaterais na definição das políticas sociais e econômicas de ajustes e reformas realizadas no país nesse período. A concessão de tais empréstimos foi condicionada pela adoção, nos países “socorridos”, de políticas públicas que defendessem prioritariamente os interesses dos investidores representados pelos organismos multilaterais (DE TOMASI, WARDE e