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Anos 1990: o ativismo pelos direitos humanos se transforma em terceiro setor.

1.3. Militância nacional de direitos humanos: da redemocratização às redes de ativismo.

1.3.5. Anos 1990: o ativismo pelos direitos humanos se transforma em terceiro setor.

O termo ‘terceiro setor’ começa a ser utilizado após a publicação, em 1975, do estudo The Third Sector de autoria de John D. Rockefeller, o primeiro estudo detalhado sobre o terceiro setor na América do Norte, ou seja, sobre as atividades das iniciativas privadas com sentido público na sociedade e seu relacionamento com o Governo (OLIVEIRA, 1999, p.26).

O termo ONG por sua vez foi gerado dentro da ONU, a partir da participação de associações civis nas reuniões do Conselho Econômico e Social – ECOSOC, consolidado no art. 71 da Carta das Nações Unidas e definido pela

Resolução 2/3 de 21/06/1946 como toda organização que não foi estabelecida por acordo intergovernamental (TAVARES, 1999, p.17).

O termo ONG é uma definição por exclusão, seria tudo aquilo que não é Governo. Dentro do terceiro setor as ONG´s passam a ocupar o espaço do que é ‘Público’, constituindo uma esfera pública não-estatal.

O espaço público não estatal pode ser definido como “a dimensão aberta, plural, permeável, autônoma de arenas de interação social” (TEIXEIRA, 2001, p.46). No espaço público não-estatal não há a presença do Estado, mas a lógica das ONG´s que atuam nesse espaço é a mesma que deveria permear a esfera pública; uma atuação impessoal em prol do desenvolvimento e bem-estar da sociedade.

Dessa forma as ONG´s buscam garantir os direitos sociais e o Estado começa a percebê-las como ‘parceiras’ nessa função, chegando a terceirizar algumas de suas atividades principais. Ressalte-se que o modelo do Estado de Bem-Estar ou Welfare State – forma de atuação do poder público na qual o Estado assume com prevalência a prestação dos serviços na área dos direitos econômicos, sociais e culturais - entra em declínio a partir da década de 70, quando o modelo econômico neoliberal encontra na diminuição do Estado a nova fórmula para a organização política e econômica das sociedades.

Embora entusiasta do trabalho das ONG´s Souza Santos (2002b, p.176) entende que o poder que aparentemente se retira do Estado para dar à sociedade civil continua a ser, de fato, exercido sob a tutela última do Estado, apenas substituindo, na execução direta, a administração pública pela administração privada e, conseqüentemente, dispensando o controle democrático a que a administração pública está sujeita. A lógica privada (do lucro) combinada com a ausência do controle democrático não pode deixar de agravar as desigualdades sociais e políticas.

Roy (2004) em uma análise ainda mais contundente vai entender que nesse fenômeno de terceirização de funções estatais o que as ONG’s fazem é “acalmar a raiva e distribuir a conta gotas, sob a forma de ajuda ou benevolência, aquilo que as pessoas deveriam, normalmente ter direito”.

Na década de 90 o ativismo pelos direitos humanos se pulveriza entre diversas perspectivas14 formando esse terceiro setor, ou seja, torna-se um ativismo extremamente heterogêneo, afastando-se da prática herdada da militância de esquerda que lutava pelos direitos humanos durante a ditadura e os primeiros anos da transição democrática no Brasil.

O ativismo de direitos humanos na década de 90 extrapola assim os limites tradicionais do associativismo brasileiro e passa a abarcar os temas dos direitos humanos em todas as suas vertentes: homossexuais, sem-terra, trabalhadores rurais, pessoas vivendo com HIV/AIDS, meio-ambiente, criança e adolescente, relações de gênero, democratização da cultura, acesso aos meios de informação, pessoas com deficiência, recursos hídricos, barragens, população indígena, etc....

Gohn (2003a, p.24,25) entende que essa pulverização que fica marcada nos movimentos sociais na década de 90 não significa a ausência de um sujeito histórico definido a partir da estrutura de ‘classe’ (burgueses, camponeses e trabalhadores), mas sim que existe um projeto político ‘policlassista’ que vai militar em prol de transformações culturais e políticas. Nesse momento a violência policial e a tortura ainda fazem parte do combate desse ativismo, mas, são apenas alguns, dentre os vários temas existentes. Existe uma organização em defesa de diversas minorias, trazendo á tona a motivação para o reconhecimento de identidades coletivas.

Conforme citado anteriormente, Scherer-Warren (1993, 14-25) aponta a década de 90 como uma fase de imobilismo e de despolitização dos ‘novos movimentos sociais’. Essa desmobilização seria perceptível diante do declínio “das manifestações nas ruas que conferiam visibilidade aos movimentos populares nas cidades” (GOHN, 2003a, p.19) e da mudança de foco na atuação desses movimentos, que passava a ser menos defensiva uma vez que o Regime Militar não era mais o único responsável pela situação de violação aos direitos humanos.

Entretanto, é a partir da década de 90 que os ‘novos movimentos sociais’ desenvolvem ações mais propositivas no âmbito das instituições judiciais e

14 Não só se pulveriza entre diversas perspectivas como permite que antigas reivindicações se insiram de maneira renovada no contexto dos direitos humanos. Um exemplo disso é a inclusão do tema reforma agrária no campo dos direitos humanos; “A terra é o núcleo articulador de vários direitos fundamentais. Precisamos de terra para comer, morar, trabalhar e produzir, para estabelecermos a s nossas comunidades; precisamos de terra para exercer a nossa cidadania”: Sofia Monsalve, responsável pela Campanha de Reforma Agrária da FIAN – Food First Information and Action Network, (BONILHA, 2004).

políticas, ocupando espaços institucionais e estendendo suas reivindicações da perspectiva restrita pela vida e pela liberdade individual para a reivindicação pela liberdade social, pela cidadania plena, excedendo os limites da visão originária das democracias liberais. O aparente paradoxo que se forma na década de 90 é, na verdade, a expansão do foco de atuação dos movimentos sociais de direitos humanos para além da luta política e de combate ao terror de Estado, o que desviou as atenções da luta política habitual. Houve decerto uma mudança, mas não um imobilismo.

Nesse momento o Estado não se resume exclusivamente a ‘um inimigo’, como nos tempos do autoritarismo, e a relação da sociedade civil com ele também não se resume apenas ao combate e às exigências restritas, que não atingem o cerne das decisões orçamentárias.

Gohn (2003a, p.17) faz uma diferenciação igualmente válida para identificar as mudanças que acontecem nos movimentos sociais na passagem da década de 80 para a de 90 no Brasil: na década de 80 a mobilização se faz a partir de núcleos militantes que seguem as diretrizes de uma organização, na década de 90 a mobilização se faz para acolher um apelo que propõe uma demanda mais universal, que independe de laços anteriores de ligações a uma determinada organização. A autora irá definir o primeiro período como ‘militância político-ideológica’ e o segundo como ‘Participação Cidadã’.

Diante dessa forma de agir mais propositiva e com chamados mais universais, que se alargam para além da ‘esquerda’ e das estruturas partidárias, a década de 90 constitui-se o momento em que se estruturam as redes dessa nova militância dos direitos humanos: as redes de ativismo.

A luta pelos direitos humanos no Brasil passa a ser uma estratégia que tem como objetivo melhorar a vida das pessoas, através de ações concretas e nas condições atuais, mesmo que isso não implique mudar completamente a sociedade, ou seja, mesmo que ainda não seja possível a consolidação de um novo projeto social ideológico. Essa nova estratégia implicaria em “democratizações parciais” (FRÜLING, 1986, p.02), capazes de gerar impactos e de manter a legitimidade desses novos movimentos pelos direitos humanos.

Hoje, após pelos menos dez anos da transição para o Regime constitucional democrático qual o panorama para a luta nacional pelos direitos humanos? Em primeiro lugar é preciso acatar a observação de Frühling (1986, p.23, 29,36) quando afirma que o golpe de 1964 só fez reforçar as formas de discriminação e de violação que já existiam antes. Obviamente o golpe deixou marcas indeléveis, mas o alcance de um Regime constitucional de direitos não foi por si só uma solução para os problemas estruturais do país, que sempre independeram do Regime político adotado.

Diante disso, a luta pelos direitos humanos durante o período que se segue ao Regime ditatorial no Brasil pôde abrir caminhos para a mudança de foco dos novos movimentos sociais, mas não fez com que práticas antigas, tipicamente contrárias aos direitos humanos, fossem totalmente extintas.

Pinheiro (1999a, p.40) entende que essa situação denota um Estado que, embora não organize mais uma coerção paralela e ilegal, se mostra incapaz, quando não conivente, de debelar essas práticas. Exemplos dessa incapacidade ou tolerância seriam a crescente criminalização15 dos movimentos sociais e os atos de violência cometidos contra defensores de direitos humanos16 no Brasil.

Dentro desse sistema complexo que é a trajetória que marca a luta pelos direitos humanos no Brasil se confrontam forças divergentes. Cabe buscar um melhor entendimento sobre os caminhos e os contextos em que esses novos

15 Alguns exemplos práticos dessa criminalização: o pedido de monitoramento das atividades de uma

série de movimentos sociais (Movimento Sem-Terra - MST, Via Campesina, Coordenação dos Movimentos Sociais - CMS, União Nacional dos Estudantes - UNE, Central única dos Trabalhadores - CUT, Pastorais Operárias, Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior - ANDES, Educafro, Conlutas e Central dos Movimentos Populares) enviado pelo Centro de Comunicações e Operações da Polícia Civil (CEPOL), órgão ligado ao Departamento de Inteligência da Polícia Civil do Estado de São Paulo (DIPOL), à todos os distritos policiais de São Paulo (BARBOSA, 2004a). O grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro foi condenado a pagar R$ 32 mil a quatro policiais federais a título de indenização por danos morais causados por denúncias veiculadas na página que a organização mantém na Internet. A sentença foi assinada dia 03/08/2005 pela juíza Maria Helena Pinto Machado Martins, da 42ª Vara Cível do Rio de Janeiro, no processo 2002.001.078946-0. É certo que a ONG vai recorrer da decisão, mas a sentença abre um precedente e passa a ser uma grande ameaça para todas as entidades que lutam pelos Direitos Humanos e denunciam atos de maus tratos e torturas cometidos por autoridades policiais (CONSELHO MNDH/NE, 2005).

16 Entre 27 e 27 de Agosto de 2004, na cidade de São Paulo, oitenta e sete defensores (as) de direitos humanos vindos de 20 países das Américas se reuniram na III Consulta Latino-Americana de Defensores e Defensoras de Direitos Humanos. Na declaração final do encontro afirmam que as condições de trabalho dos defensores (as) na região pioraram nos últimos anos, que as políticas estatais e de organismos internacionais como ONU e OEA são, em muitos casos, insuficientes e ineficazes; e que a criminalização dos movimentos sociais vem se transformando em uma tendência. (DECALARAÇÃO FINAL, 2004).

movimentos sociais chegarão às instituições estabelecidas para a defesa dos direitos humanos nas Nações Unidas e em que termos esse novo tipo de militância, consubstanciado nas redes de ativismo, poderá ser útil ao objetivo melhorar a vida das pessoas, dentro do projeto social e ideológico da democracia.

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