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2.4 Evolução da tecnologia no setor bancário brasileiro

2.4.3 Anos 1980: enfim, o processamento on-line

"O século XXI já chegou", anunciava o apresentador Wellington de Oliveira no Jornal Hoje da Rede Globo em agosto de 198323. Em seguida completava: “esta é a

sensação que você tem ao entrar numa agência de um grande banco, onde o computador conversa com você".

Na sequência, a matéria do Jornal Hoje, da Rede Globo, assinada por Alberto Gaspar, com imagens de Américo Figueiroa e Nestor Neregato, passava a explicar o

23 REDE GLOBO DE TELEVISÃO. Início dos caixas eletrônicos no Brasil 1983. Jornal Hoje, reportagem para televisão apresentada por Alberto Gaspar, ago. 1983. Disponível em:

funcionamento desses ‘novos’ equipamentos. Mostrando um computador adequado ao sistema bancário, o repórter explica:

A conversa se dá através de teclados e tela onde perguntas são respondidas em poucos segundos. Hoje já é possível consultar saldo e sacar dinheiro em qualquer lugar do país. O sistema é seguro, e a porta do computador tem a sua chave. São cartões magnetizados e códigos secretos (REDE GLOBO DE TELEVISÃO, 1983).

Para ilustrar a reportagem, foi entrevistado o supervisor de operações do Banco Bradesco, à época, José Braz Filho, que confirmou a segurança do sistema. “O cliente pode ter certeza de que nem a própria empresa saberia identificar esse código". Outra novidade, ainda em fase de testes, também anunciada, foi o terminal de autoatendimento. “Uma espécie de miniagência, capaz de cobrar contas e fazer depósitos e pagamentos. E o futuro não para aí. Os bancos testam um sistema que vai permitir que as compras sejam feitas sem dinheiro ou cheque”, narrou o repórter.

Logo depois, um funcionário do caixa do Bradesco explicou que ao passar o cartão magnético pela nova máquina, acontecia em 15 segundos, o débito na conta do cliente e o crédito na conta do lojista.

O repórter arrematou: “e para quem não acredita que, pelo menos nos bancos, os anos 2000 já chegaram, mais uma surpresa, um computador que fala e fornece saldo de contas bancárias por telefone". Em seguida, ele demonstrou a segurança do sistema ao tentar obter o saldo de uma conta, digitando no teclado do telefone, sem saber a senha correta, considerando que os dados da conta poderiam ter sido obtidos, por exemplo, ao encontrar um talão de cheques na rua. No entanto, ao errar três vezes a senha, a ligação foi encerrada.

Para finalizar, Gaspar perguntou se o computador estaria tirando o emprego do homem. Quem respondeu foi o então diretor de processamento de dados do Banco Itaú, à época, Renato Roberto Cuoco. “O computador está introduzindo uma série de serviços novos, que estão sendo introduzidos gradativamente, sem eliminar totalmente a utilização do elemento humano" (REDE GLOBO DE TELEVISÃO, 1983). Ao entrevistar clientes, a maioria das opiniões foi favorável aos avanços tecnológicos, com destaques nas falas para a modernidade, facilidade e praticidade, porém houve quem dissesse que tinha “se perdido” na hora de utilizar o equipamento. A matéria foi encerrada com a música “Also Sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, trilha do filme “2001, uma odisseia no espaço”, o que ratificava a ideia do que a

tecnologia representava naquele momento. Era algo novo, tido como maravilhoso, um verdadeiro avanço, um salto para o futuro. A Figura 6 demonstra um terminal de autoatendimento do período.

Figura 6: Terminal do Sistema Bradesco Instantâneo de 1982

Fonte: Bradesco [2020?]

De fato, conforme a matéria televisiva mencionada, foi nos anos 1980 que a modernização bancária realmente se popularizou. Até então, a maior parte dos resultados dos investimentos em tecnologia ficava do lado de dentro do balcão de atendimento, se restringiam aos sistemas de processamento e compensação de transações, de modo que não eram percebidos de forma tão clara pela maior parte dos clientes. A Figura 7 demonstra mais um modelo de terminal de autoatendimento da década retratada, onde é possível notar um detalhe característico dos primeiros ATMs, a tela preta com fluorescentes letras verdes.

Figura 7: Terminal de autoatendimento do Itaú da década de 1980

Fonte: Itaú [2014?]

Em 1981, o setor financeiro detinha 27% da base de computadores instaladas no país (IAMONTI, 2017). Em 1986, além desses equipamentos de uso geral, o setor bancário contava com:

[...] 7,4 mil UCPs concentradoras de operações bancárias, 106,3 mil terminais bancários, 800 ATMs (os quiosques que nos socorrem quando falta dinheiro no fim de semana), mais de 350 caixas-pagadoras. São mais de 155 mil modems, 10 mil terminais de videotexto, 1,5 mil controladores de comunicação (das quais 780 tecnologias Itautec e 627 tecnologias IBM), além de terminais de telex, PABx, CPAs e outros equipamentos de telecomunicação e transmissão de dados (DANTAS, 1989, apud IAMONTI, 2017, p. 30-31).

A história da automação bancária no Brasil não se limita à evolução tecnológica, mas principalmente às sucessivas mudanças na forma de se realizar os serviços bancários, nas suas características específicas moldadas pelas sucessivas transformações das atividades bancárias e na extinção de grande quantidade de suas funções laborais. Entre os anos 1970 e 1980, toda a rede bancária brasileira buscou melhorar os fluxos de caixa e automatizar o atendimento ao cliente. Desde o começo dos anos 1980, a tecnologia aplicada ao setor já assegurava o processamento on- line.

Conforme Accorsi (1990, apud IAMONTI, 2017, p. 30), pode-se diferenciar o parque de computadores instalado no Brasil até aquele momento como:

a) Micro e minicomputadores: teve expansão média de 53% ao ano, em termos de valor, entre 1973 e 1982. A base instalada quadruplicou entre 1980 e 1982, sendo formada quase que totalmente por empresas brasileiras;

b) Computadores médios: formado (o parque) essencialmente por sistemas importados, teve expansão média de 10% ao ano entre 1973 e 1982;

c) Computadores de grande porte: relativo (o parque) a equipamentos produzidos no Brasil pela IBM, Borrough e Telematic, cujo valor dos computadores tiveram aumento médio de 26% ao ano, entre 1973 e 1984. No período entre 1980 e 1982 a expansão foi de 84% em valor.

A segunda metade da década de 1980 presenciou uma grande evolução da infraestrutura bancária. Para Fonseca, Meirelles e Diniz (2010), apesar de o processo de automação já estar muito bem estabelecido no início da década de 1970, ainda restavam desafios a serem vencidos, sendo um deles a necessidade de reconfiguração do próprio sistema bancário brasileiro. As dificuldades para avançar com as reformas necessárias para preparar todo o sistema para uma informatização total e para a automação de muitos setores e atividades se devia, bastante, à capilaridade da rede extensa e espalhada por todo o território nacional, com muitas localidades ainda sem estradas e serviços de comunicação adequados. Também era preciso racionalizar processos, principalmente de pagamentos e cobranças. A própria evolução do conhecimento dos profissionais das áreas bancária e de informática culminou com o sucesso dessas demandas.

A Febraban também teve papel importante ao incentivar o relacionamento estratégico entre os principais bancos, ao promover congressos e encontros com objetivo de promover as trocas de experiências e o desenvolvimento conjunto de soluções tecnológicas.

A agilidade e a qualidades de processamento implementadas pela automatização passou a ser um diferencial competitivo entre os bancos. Acreditava- se que quanto mais o banco as tivesse, mais consumidores conseguiria atrair. Isso porque a tecnologia propiciou ao usuário bancário a chance de deixar de ser apenas o cliente de uma agência específica, para se tornar cliente de um banco como um todo. Foi nessa época que surgiram então os famosos slogans publicitários “banco eletrônico” (Itaú), "banco instantâneo" e “banco dia e noite” (Bradesco) e “banco 24 horas” e "30 horas" (Unibanco). Tais expressões firmaram de vez, o conceito vital da

necessidade da evolução tecnológica e da automação aplicada aos bancos (DINIZ, 2004).

Com o final do regime militar, os governos civis apresentaram novas metas para as ações governamentais que envolviam os bancos. Em 1986, com o lançamento do Plano Cruzado, iniciou-se uma série de medidas para combater a inflação. Com isso, os bancos tiveram de redefinir metas e estratégias para atuação no novo cenário econômico que se desenhava. Os projetos de automação bancária passaram a buscar maior eficiência operacional e a redução de custos operacionais. Bancos e agências com lucratividade baixa foram fechados (DINIZ, 20045).

As TIC passaram a visar racionalização no setor bancário. Serviços que tinham um forte componente de automação foram disseminados, como o pagamento automático de contas, o uso cartões magnéticos, a expansão das redes de caixas eletrônicos, dos serviços de cobrança eletrônica, dos sistemas de aplicação e resgate automáticos, além dos serviços de atendimento por telefone. A automação bancária também passou a ser associada a demissão de trabalhadores, que aos poucos foram sendo reduzidos conforme pode ser verificado no item 2.5 deste trabalho.