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Ansiedade de performance musical

2.2 Ansiedade de performance musical em cantores

Cantores solistas tendem a ser extrovertidos e exibir expressões faciais com excelente capacidade de mostrar e manter bom contato visual com o público. Ao contrário de outros músicos, que podem se proteger atrás de seus instrumentos, os cantores estão sempre expostos ao público (Davidson; Coimbra, 2001).

Sandgren (2002) realizou uma pesquisa, de caráter exploratório, com cantores de ópera, com objetivo de identificar os problemas dos cantores em lidar com a sua carreira profissional. Esse grupo de cantores de ópera não consideraram a questão da ansiedade de APM como um problema, em vez disso, mencionaram preocupação com as reações das outras pessoas sobre a sua performance, sendo usual que muitos deles sentassem constantemente expostos ao risco de receber críticas negativas da audiência, assim como na dependência de receber avaliação positiva. Além da preocupação com a avaliação, os cantores de ópera expressaram preocupação com a saúde vocal e a incapacidade de cantar satisfatoriamente, sendo explicado pelos cantores que o fato de apresentarem problemas somáticos como resfriados ou alergias, os impediria de executar a sua performance vocal com alto nível e atingir as suas expectativas e as de outros (Sandgren, 2009). Portanto, muitos desses aspectos começam a favorecer a ansiedade nos cantores, levando a preocupações excessivas quanto à saúde vocal (Sapir; Mathers-Schmidt; Larson, 1996; Sandgren, 2002).

Em outra pesquisa, realizada com 49 cantores eruditos, foi relatado que a ansiedade está significativamente associada à voz e a outras variáveis tais como a desaprovação por parte do público, preocupação associada a uma alteração na sua voz, assim como sintomas psicológicos e somáticos. Embora o nível de APM seja moderado para os cantores de ópera, quando eles apresentaram maior preocupação por aspectos intrapessoais, este favoreceu a preocupação pela sua voz, levando à indisposição e presença de depressão (Sandgren, 2009).

Ainda são poucos os estudos que exploram a APM em cantores. Steptoe (1983) realizou uma pesquisa com cantores jovens de ópera, por meio de autoavaliação da performance e atenuação emocional, em cinco situações diferentes: durante as aulas, na prática privada, audição, em ensaio geral e performance em público. O segundo experimento consistiu na avaliação da tensão emocional, nessas cinco situações, representadas em uma escala de nove pontos. Os resultados relataram que os melhores cantores apresentaram nível intermediário de tensão na performance em público, em comparação com as outras situações.

Em estudo realizado com 201 cantores de coral semiprofissionais, com idade média de 40 anos, observou-se que, quanto aos fatores que mais incrementavam os níveis de ansiedade, os cantores responderam que 72% eram relacionados à dificuldade com a música, 64% por causa da memória, 57% devido à importância da performance e 27% relacionados ao regente. Quanto a este último aspecto, foi indagado aos cantores quais características e comportamentos do regente induziam à ansiedade, sendo relatado por 75% do grupo como causa a própria ansiedade do regente, que os levava a se sentirem mais ansiosos, 31% dos cantores relataram que era o humor negativo do regente, 18% responderam que eram as habilidades do regente para conduzir o ensaio, 13% a pouca preparação e desorganização do regente e 12% a linguagem corporal negativa do regente no momento do ensaio. Quanto às abordagens de enfrentamento, a mais destacada foi a meditação realizada por 22% dos participantes, 17% praticavam exercício, 13% realizavam orações e 11% trabalhavam respiração profunda, e apenas 3% cantores faziam uso de medicamentos como betabloqueadores e tranquilizantes (Ryan; Andrews, 2009).

Em pesquisa realizada com 31 cantores de funk-rock por Bodner e Bensimon (2008), um grupo de cantores realizou autoavaliação três dias antes da performance musical e três dias após, e o outro grupo, ao contrário, primeiro após três dias da apresentação e três dias antes de nova apresentação, por meio da escala de afeição negativa e positiva (The Positive and Negative Affect Scale), do questionário de autoestima (The Self-esteem Questionnaire), questionário de objetivo de vida (The Purpose in Life Questionnaire) e questionário de saúde (Mental Health Inventory). Os resultados indicaram que três dias após a performance os cantores mostraram ligeiro decréscimo no nível de emoção negativa, não houve mudança com relação à

autoestima, também foi observada discreta diminuição no seu propósito de vida. Quanto à condição mental desses cantores, observou-se que os mesmos podem prever a forma de ajustar o desempenho no palco, por meio do bem-estar psicológico (afeições positivas e boas ligações emocionais), melhorando a sua percepção do objetivo de vida, ainda, consideram que provavelmente com o aumento do número de anos de performance mais alto será o nível de controle.

Spahn et al. (2010) avaliaram a APM em sete cantores de ópera e dois instrumentistas, durante duas situações de performance: em um ensaio e em uma situação de rotina no teatro, por meio da medição da frequência cardíaca, pressão arterial sanguínea e das escalas de ansiedade. Os resultados indicaram valores elevados da frequência cardíaca durante a performance. Já antes da performance, o número de batimentos estava ligeiramente aumentado com relação aos níveis de normalidade. No que se refere à pressão sanguínea, verificou-se aumento dos valores antes e durante a performance, com redução após o evento. Quanto à ansiedade, cinco cantores apresentaram altos níveis de ansiedade antes da performance, quando comparados com os escores após o final do evento.

Larrouy-Maestri e Morsomme (2014) realizaram um estudo com objetivo de esclarecer os efeitos do estresse na precisão da voz cantada, em 31 estudantes, por meio de uma prova experimental. Os participantes foram orientados a aprender uma melodia durante dois meses, uma vez por semana, para ser cantada à capela. Três semanas depois de terem iniciado o aprendizado foram gravados, sendo esta considerada uma fase de habituação. No momento do experimento, em condição de estresse, os participantes cantaram a melodia ‘‘Happy Birthday’’ frente a quatro juízes especialistas; e na condição sem estresse, a melodia foi cantada para o pesquisador em ambiente silencioso. Quanto aos efeitos do estresse, para os estudantes de primeiro ano, esses foram positivos, em relação aos alunos do segundo ano, foram negativos. Quanto à avaliação da performance, os estudantes de primeiro ano obtiveram melhor desempenho, durante a situação estressante. Já para os estudantes do segundo ano, não houve qualquer diferença quanto à situação não estressante. Os resultados também apontaram a relação entre precisão das notas e as manifestações psicológicas do estresse.

Reschke-Hernandez et al. (2017), tendo como ponto inicial o teste Trier Social Stress Test, amplamente utilizado para induzir o estresse agudo em situações experimentais no ambiente controlado, baseado no princípio de avaliação da ameaça social, durante a fala em público. Os autores propuseram uma versão desse teste para o canto em público, o Singing Social Stress Test. No dia do experimento, os participantes aguardaram por 45 minutos, como parte da fase de aclimatação no primeiro experimento, e um tempo menor no segundo experimento. Foram tomadas as medidas do cortisol e preenchimentos de questionários sobre estresse antes e após 15, 30 e 45 minutos de finalizada a tarefa. Os participantes foram instruídos a realizar a preparação do discurso ou da música por três minutos. O tempo do discurso e do canto em público foi de cinco minutos e mais outros cinco minutos de execução de cálculos matemáticos na frente de juízes, ao final foram tomadas as medidas de cortisol e preenchimentos dos questionários de estresse. Participaram desse estudo 20 mulheres e 20 homens não profissionais da voz, que realizaram tanto o teste de fala como de canto em público em dois momentos diferentes. Os resultados indicaram níveis semelhantes de estresse subjetivo em resposta, tanto da tarefa de canto como da de fala. No entanto, homens e mulheres apresentaram respostas diferentes ao cortisol, os homens mostraram respostas mais robustas para ambas tarefas, e nas mulheres foi menor. Esses resultados corroboram os achados na literatura quanto às diferenças entre os sexos. Os autores concluíram que o Singing Social Stress Test pode ser uma alternativa para introduzir o estresse no ambiente controlado, assim como os testes realizados em laboratórios, ainda que este seja o ponto de partida para futuros estudos.

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