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CAPÍTULO II – MORBILIDADE PSICOLÓGICA

2.3 Ansiedade e Obesidade

Frequentemente a ansiedade encontra-se associada a obesidade (Cataneo, Carvalho, Galinho & Preto, 2005). A ansiedade é um estado emocional com componentes psicológicas e

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fisiológicas, que fazem parte do espectro normal das experiências humanas, sendo propulsora do desenvolvimento e sobrevivência (Andrade & Gorenstein, 1998). A ansiedade é uma sensação ou sentimento decorrente da excessiva excitação do Sistema Nervoso Central consequente de uma situação de perigo (Kaplan, Sadock & Grebb, 1997). A ansiedade pode tornar-se patológica quando é desproporcional à situação que a desencadeia, ou quando não existe um objecto específico ao qual se direccione (Andrade & Gorenstein, 1998; Caetano et al., 2005). O estudo sobre a ansiedade do ponto de vista psicológico salienta uma diferenciação quanto à forma com que ela se apresenta - ansiedade estado e traço (Cataneo et al., 2005; Vaz, 2009). A ansiedade enquanto estado consiste num estado emocional transitório ou uma condição do organismo humano, caracterizado por sentimentos desagradáveis de tensão e apreensão, conscientemente percebidos por um aumento da actividade do Sistema Nervoso Autónomo (Luiz, Gorayeb, Júnior & Domingos, 2005). Os níveis de ansiedade estado podem variar em intensidade de acordo com o perigo percebido e flutuar no tempo (Andrade & Gorenstein, 1998). Segundo Andrade e Gorenstein (1998) a ansiedade enquanto traço, refere-se as diferenças individuais relativamente estáveis na propensão à ansiedade. Consiste em diferenças na tendência de reagir a situações percebidas como ameaçadoras com intensificação do estado de ansiedade (Caetano et al., 2005; Luiz et al., 2005). Os escores de ansiedade traço são menos susceptíveis a mudanças decorrentes de situações ambientais e permanecem relativamente constantes no tempo (Caetano et al., 2005).

Nos países desenvolvidos, as perturbações ansiosas são provavelmente as mais prevalentes (Bennett & Goldman, 2001; Gariepy, Nitka & Schmitz, 2010). Scott e colaboradores (2008b) consideram que as evidências de uma maior associação entre a obesidade e a depressão podem ser um reflexo de uma menor inclusão das perturbações de ansiedade nos estudos existentes, confinadas a estudos sobre a depressão, assim como têm sido investigadas as perturbações mentais de ansiedade, em vez de sintomas de ansiedade. Acrescentam, que as perturbações de ansiedade são um grupo heterogéneo, e deste modo as generalizações sobre a ansiedade podem não ser aplicadas a todas as perturbações de ansiedade. No entanto, na revisão da literatura as perturbações de ansiedade encontram-se em segundo lugar entre as perturbações mais associadas com a obesidade nos pacientes propostos para a cirurgia bariátrica (Black et al., 1992a; Glinski et al., 2001).

Scott e colaboradores (2008a) no seu estudo internacional constataram que a associação entre obesidade e perturbações da ansiedade era um pouco mais forte do que a observada entre a obesidade e perturbações depressivas, embora, novamente, existam diferenças entre países. Em contraste com os resultados de perturbação depressiva, a relação

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entre obesidade e perturbação da ansiedade é significativa apenas para aqueles com menor escolaridade. Consistente com os achados da perturbação depressiva, são apenas as mulheres que mostram uma relação significativa entre a obesidade e a perturbação de ansiedade, com probabilidades 1,3 para as mulheres e de 1,0 para os homens. Existem também diferenças na relação entre a obesidade, perturbações da ansiedade e idade, as probabilidades para cada faixa etária são as seguintes: 18-34 (1,3 [1,0, 1,5]), 35-49 (1,1 [0,9, 1,3]), 50-64 (1,1 [0,9, 1,4]), 65 + (1,7 [1,2, 2,3]). As pessoas com mais de 65 anos de idade apresentam uma maior probabilidade de desenvolverem uma perturbação de ansiedade.

Scott e colaboradores (2008b) na Nova Zelândia realizaram um inquérito domiciliar a nível nacional em 12.992 obesos com 16 ou mais anos de idade. Constataram que a obesidade foi significativamente associada com qualquer perturbação do humor, em especial a perturbação depressiva major, qualquer perturbação da ansiedade e uma associação mais forte com a perturbação pós-stress traumático. Constataram que a associação entre obesidade e ansiedade era mais forte que a obesidade e depressão. Segundo os autores as variáveis sócio demográficas e obesidade correlacionavam-se moderadamente com as perturbações do humor e foram significativas com as perturbações da ansiedade, sugerindo que as variáveis sócio demográficas apenas assumem um papel importante na relação entre obesidade e perturbações do humor.

Uma pesquisa nos EUA de Simon e colaboradores (2006) avaliou a associação entre obesidade e grau de humor e ansiedade, utilizando os dados da National Comorbidity Survey, em aproximadamente 40.000 indivíduos. Os resultados indicam que as pessoas obesas têm aproximadamente 25% maiores probabilidade de apresentarem ansiedade e perturbações humor do que a população em geral. Essa taxa aumenta para 44% na população branca e com grau de escolaridade mais elevado. Paralelamente, constataram que a obesidade está associada com o aumento significativo do diagnóstico de perturbação de pânico e agorafobia.

Mather e colaboradores (2009) utilizaram os dados da amostra Canadian Community

Health Survey Cycle 1.2, com um total de 36.984 sujeitos, com 15 ou mais anos de idade e

verificaram que a obesidade estava positivamente associada com ataques de pânico, fobia social, agorafobia com perturbação de pânico, assim como perturbação de ansiedade ao longo da vida. A obesidade também estava associada positivamente com ataques de pânico, fobia social e outras perturbações de ansiedade no último ano. No mesmo estudo constatou-se que a obesidade estava associada com a ideação suicida e tentativas de suicídio e negativamente associada à toxicodependência nos últimos anos. A maioria destas associações foram encontradas nas mulheres, embora em alguns casos também estavam presentes nos homens.

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Barry e colaboradores (2008) verificaram que a obesidade estava associada com uma maior probabilidade de perturbações de ansiedade e fobias específicas em homens e mulheres. No entanto, as mulheres apresentavam um risco maior de fobia social. O excesso de peso previu o aumento do risco de fobia social e fobia específica em mulheres, mas não para os homens. As mulheres com excesso de peso apresentavam mais frequentemente perturbações de ansiedade, especialmente fobias sociais e fobias específicas, do que as mulheres com peso normal. Segundo Soares (2009), as mulheres com excesso de peso e obesidade apresentam um maior risco de fobia social e medo de enfrentar situações sociais do que os homens, já que elas têm a expectativa de que vão ser negativamente avaliadas devido ao peso.

Como tem sido referido, a população obesa, comparativamente à população em geral apresenta uma sintomatologia elevada de ansiedade. Os estudos realizados nos pacientes propostos para a cirurgia Bariátrica seguem a mesma tendência. Vários estudos verificaram associações positivas entre a obesidade e a ansiedade em pacientes seleccionados e aguardar a cirurgia bariátrica (Andersen et al., 2010; Mazzoni, Mannucci, Rizzello, Rica & Rotella, 1999; Rosmond & Bjurntorp, 1998; Sánchez, López, Vargas, Téllez, Vásquez, Arcila et al., 2003; Sarlio-Lahteenkorva & Rissen, 1998) e com maior incidência nas mulheres (Becker, Margraf, Turke, Soeder, & Neumer, 2001).

Rosik (2005) utilizando o Psychiatric Diagnostic Screening Questionnaire numa amostra de 294 indivíduos no momento da avaliação para a cirurgia bariátrica constatou que as perturbações da ansiedade estavam entre as mais prevalentes. A fobia social esteve presente em 18% dos pacientes e a perturbação obsessivo-compulsiva em 13.6 %. Segundo o autor, a preocupação com o peso pode contribuir para a perturbação obsessivo-compulsivo e o estigma cultural associado à obesidade pode ajudar a explicar a frequente ocorrência de fobia social. Os resultados do estudo sugerem a presença de uma perturbação do Eixo I em metade desses pacientes, com comorbilidades presentes em 29.9% da amostra. A maior prevalência encontrada neste estudo foi a perturbação de somatização em 29.3% dos pacientes. Também foram encontrados 15% dos pacientes com a perturbação de hipocondria.

Num estudo, Matos e Zanella (2002) utilizaram o Inventário de Traço e Estado de Ansiedade (State – Trait Anxiety Inventory – STAI) para avaliar sintomas de ansiedade. Verificaram uma elevada frequência de sintomas de ansiedade em obesos propostos para a cirurgia bariátrica, assim como, uma associação positiva das perturbações alimentares e a ansiedade enquanto traço e em menor grau enquanto estado. A frequência de ansiedade como traço de personalidade foi de 70% e como estado foi de 54%. No entanto, a pesquisa de

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Capitão e Tello (2004) indicou traço e estado de ansiedade abaixo do normal em mulheres com obesidade Grau III, utilizando o IDATE.

Um estudo português de Soares (2009), com uma amostra de 133 sujeitos no qual foi utilizado o Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS), constatou que os obesos seleccionados para a cirurgia bariátrica apresentavam sintomas elevados de ansiedade e depressão, ultrapassando o limite considerado normal. A análise dos resultados obtidos permitiu verificar, considerando um ponto de corte igual ou superior a oito, a existência de ansiedade em 71.5 % dos indivíduos com diagnóstico de obesidade e de depressão em 38.5%. Foram encontrados valores médios de 7.10 de depressão e 10.45 de ansiedade. Verificou-se a existência de comorbilidade em 33.8% dos indivíduos com diagnóstico de obesidade, apresentando ansiedade e depressão. Por sua vez, Travado e Colaboradores (2004) também utilizando a HADS em 212 pacientes propostos para a cirurgia bariátrica encontraram valores médios de 7.0 para a depressão e 9.1 para a ansiedade. Neste último estudo foi utilizado o ponto de corte de 19. De acordo com os autores da HADS, Snaith e Zigmond (1993, cit. in Pais-Ribeiro, 2007), a severidade da ansiedade e da depressão podem ser classificadas como “normal” (0-7), leve (8-10), “moderada” (11-15) e “severa” (16-21). Portanto, em ambos os estudos os valores encontrados para a ansiedade encontram-se acima da média.