cações. Crato considera que isso são utopias de uma escola construtivista, moderna e romântica que promovem a ignorância.
Pela parte que me toca, com maior ou menor relevância sobre um ou o outro olhar, a dife- rença entre os rotulados de “rousseaunianos” e os racionalistas é a diferença entre uma escola de inclusão, de oportunidades para todos com eventual sacrifício de uma maior excelência de uma minoria, ou o pagamento do custo de uma maior exclusão e injustiça social em troca do eventual aumento de ganhos da referida mino- ria. Este diferente olhar constitui-se como uma questão ideológica e política correspondendo a uma fratura entre uma escola democrática, um ensino para todos e uma aprendizagem ao longo da vida, e uma escola de competição, de indivi- dualismo e de sucesso para alguns.
N
o final do ano passado, quase centenário, faleceu o filósofo brasileiro Milton Vargas (1914-2011), membro destacado do que se con- vencionou designar por “Escola de São Paulo”, movimento especulativo desenvolvido na ca- pital paulista, durante a década de 50 e 60 do século XX, em torno do Instituto Brasileiro de Filosofia, em que participaram os portugueses Agostinho da Silva (1906-1994) e Eudoro de Sousa (1911-1987).Amigo, companheiro e convivente de Vicente Ferreira da Silva (1916-1963), desde o tempo em que ambos frequentaram o Ginásio São Bento e aí foram despertados para a reflexão filosófica pelo magistério de Leonardo Van Acker (1896-1986), engenheiro de formação, membro fundador do Instituto Brasileiro de Filosofia e editor da revista Diálogo, em que
gem e a técnica são obra do homem, que fazem parte da sua cultura, não poderia imaginar-se o homem desprovido de nenhumas delas.
Por outro lado, a cultura era para ele entendida como um sistema simbólico que, tendo embo- ra a sua origem na natureza e no homem o seu agente transmissor, não se esgotava no mero comportamento humano no mundo que o cir- cunda nem se limitava à simples percepção e memorização das coisas mas constituía um siste- ma complexo que englobava, num modo de ac- ção recíproco, o homem, o símbolo e a técnica. Lembrava, ainda, o engenheiro-filósofo que os símbolos eram uma realidade inteiramente diferente da natureza ou do mundo natural, constituindo a essência das culturas humanas e sendo dotados da propriedade de se combina- rem entre si e de darem origem a determinadas cadeias de significados.
A linguagem seria, para Milton Vargas, um des- ses sistemas simbólicos, a qual permitiria a inte- riorização das imagens captadas pelos sentidos, possibilitando um “projecto” de acção no mun- do e o aparecimento de um outro “mundo”, o
das formas simbólicas.
Elemento imprescindível para uma adequada compreensão do aparecimento da cultura seria, para o pensador brasileiro, o mito, que entendia como relato das acções dos deuses que haveria dado origem às estruturas e às instituições cul- turais do homem, como a linguagem, as artes, as técnicas, a família, a religião, o governo e a guerra, relato esse que constituiria determinadas formas de comportamento, que deveriam ser obedecidas ou respeitadas pelos homens. Pensando, como outras figuras destacadas da “Escola de São Paulo” (Vicente Ferreira da Silva, Eudoro de Sousa e Adolpho Crippa), que as ra- ízes dos mitos se encontram além ou aquém da História, num outrora originário e fundador, o filósofo paulista pensava, igualmente, que as di- versas culturas míticas contêm, cada uma delas, modelos de comportamento incomunicáveis e insusceptíveis de ser transpostos ou incorpora- dos noutra cultura, se bem que admitisse serem dois produtos fundamentais da originária cul- tura mítica – a escrita e a contagem regular do tempo – que se achavam na génese da História,
fazendo que os relatos míticos, contados e de co- rados pelas sucessivas gerações, houvessem che- gado até hoje, embora despojados, agora, da sua primeira natureza de modelos divinos, apresen- tando-se, actualmente, com o carácter de lendas fantásticas, mais dirigidas à nossa imaginação do que à nossa compreensão.
Isto não significaria, contudo, segundo Milton Vargas, a morte ou a definitiva e irreparável per- da de sentido dos mitos ou da mitologia, pois aqueles são elementos constitutivos essenciais da psique humana e, nessa medida, da mesma cultura. Deste modo, a filosofia não seria algo que invalidasse ou substituísse o saber mítico, devendo, antes, entender-se que nem ela destrói a mitologia nem a ciência as destrói a ambas, sendo mais acertado admitir ou reconhecer que mitologia, filosofia e ciência coexistem no nosso entendimento como diferentes formas de expri- mir uma única e mesma realidade, nenhuma de- las podendo considerar-se superior a outra, nem sendo legítimo afirmar a existência de qualquer progresso entre elas, porquanto o que haveria era um suceder em que coexistem as três, no fim, no meio e no princípio, cabendo advertir que aquilo que, porventura, se tenha ganho em universalidade com a filosofia e a ciência, se per- deu no que respeita ao contacto directo com as coisas que o mito proporcionava.
Esclarecia o mestre paulista que, em seu modo de entendê-la, a filosofia visava, antes de mais, responder à “pergunta ontológica” ou à per- gunta sobre a realidade, notando que esta compreendia três espécies diferentes de seres, que denominava existências, entes e valores e se encontrava dividida ou distribuída por cinco regiões, correspondentes, respectivamente, à
existência subjectiva, à natureza, à cultura, às ideias e às ultimidades, sendo o domínio da
ciência o estudo das três regiões intermédias, aquilo que, em regra, se designa por mundo ou que se nos depara na vida prática.
No pensamento epistemológico de Milton Vargas, o saber científico era entendido como uma visão que objectiva a realidade mundana, a qual, por seu turno, é regida por leis científicas formuladas pelo homem, apresentando-se, por isso, como realidade bipolar que implica, ne-
cessariamente, sujeito e objecto. Deste modo, o conhecimento científico, como todo o conheci- mento, reveste-se de um carácter hermenêutico, é sempre uma interpretação, pois só é possível compreender as coisas pela sua significação, ape- nas o que é captado pelo símbolo se encontra à nossa disposição e não a coisa em si, a qual se furta, inteiramente, ao conhecimento humano. Daqui decorria, então, que toda a teoria científica mais não seria do que um sistema de símbolos linguísticos e matemáticos, que proporcionava um determinado significado, em que o símbolo dispensa a coisa em si, apresentando-se como a própria coisa. Por outro lado, o conhecimento científico é um conhecimento fenoménico, dado que os seus objectos são apenas fenómenos e nunca o ser em si na sua totalidade, cabendo ain- da ter em conta que o entendimento dos fenóme- nos unicamente se torna conhecimento científico quando esses mesmos fenómenos são unificados e se tornam coerentes no símbolo científico, ad- quirindo significado e cognoscibilidade.
Daí que, como notava o filósofo paulista, a teoria fosse sempre uma “visão do espírito” e não a pró- pria realidade concreta, em toda a sua exuberan- te, complexa e múltipla plenitude, a operação do espírito mercê da qual algo se torna visível, o que faz do saber teórico um “ver” com os olhos do espírito uma realidade ordenada, que se ocultava sob o caos das coisas ou dos entes do mundo, im- plicando, por isso, todo o conhecimento huma- no, inevitavelmente, a opção por uma determi- nada atitude perante as coisas, uma forma estabe- lecida, postulada ou pressuposta como verdade. Deste modo, segundo Milton Vargas, a ciência moderna, ao assentar na cisão entre o eu e o mundo, vinha a consistir num saber ôntico, que revela apenas as determinações dos entes e não a “coisidade” das coisas, renunciando, por isso, a chegar ou visar qualquer saber absoluto, antes constituindo um saber relativo que, no entanto, tem em si a marca da verdade insusceptível de ser contestada e se apresenta como única forma legítima de pensamento.
Uma das mais importantes dimensões da refle- xão de Milton Vargas é a relativa à estética, cujo ponto de partida é o de que a obra de arte tem não só a capacidade de modificar o mundo em
que vivemos, como, ainda, o poder de desvelar ou de instituir aspectos desse mesmo mundo por nós ainda não vivenciados. A esta capaci- dade, própria de toda a obra de arte, acresceria, no caso da poesia, cujo material é a própria lin- guagem, a possibilidade de “pronunciar pela pri- meira vez, denominar ou preservar” os aspectos insuspeitados da realidade, escondida ou oculta “nas aparências fugazes do mundo”, a verdadeira face dos entes ou do ser do existente.
Porque a obra de arte poética cria o seu próprio material, a linguagem, a qual é originariamen- te poética, a poesia seria a primeira das artes, sendo a sua essência a própria essência da arte. Pela mesma razão, a poesia ou a palavra poética aparece como categoria inaugural e fundado- ra de todo o mito, assim como impregna toda a mitologia e é a épica iniciadora da História, encontrando-se também presente em todas as formas de revelação religiosa.
Para o especulativo brasileiro, a obra de arte e, de modo proeminente, a poesia e a palavra poética são sempre a verdade, cumprindo, no- tar, porém, que aqui o conceito de verdade ou a essência da verdade não se situa no plano do conhecimento ou da relação cognitiva do sujei- to relativamente ao objecto, devendo antes en- tender-se num sentido ontológico, como “algo instituidor ou fundamentador que ocorre ante- riormente à coisa e à proposição, ao estabelecer- -se um mundo”, o que significará, então, que a essência da verdade que a arte revela ou funda
“é sempre correlacionada com a interpretação de tudo o que existe, em qualquer idade ou em qualquer grande era da história”.
Nesta visão fundadora, reveladora ou instituido- ra da arte, caberia papel primordial à poesia, pois o falar inicial é poético antes de ser lógico, dado que o mito precede o logos, pertencendo aos poe- tas o estabelecer o que é verdadeiro, permanente e sagrado, assegurando, assim, o que é essencial para a existência humana. É pela palavra que se denominam os deuses, se instituem os ritos, se narram os mitos e tudo o que é sagrado, se esta- belecem as culturas e se contam as suas histórias e se proclama a sua decadência e o seu fim, bem como a ocultação e a morte dos deuses.
A este propósito, notava Milton Vargas que, no pensamento mítico, diversamente do que acon- tece no pensamento lógico, em vez da relação sujeito-objecto, ocorrem várias subjectividades, entre as quais se cria ou estabelece uma relação de compreensão, uma vez que nele o homem não se separa do mundo nem da natureza mas faz parte deles como de todo o cosmos. Desta forma de pensamento própria do mito, algo subsiste na arte e, de modo especial, na poe- sia, em que há, não descrição, classificação ou conhecimento de objectos, mas desvelamento, visão, compreensão de algo que é o mundo, fei- to na linguagem dos símbolos que, por via do insconsciente, liga o homem à totalidade do cosmos, sem, contudo, se separar da imaginação do poeta ou do artista.
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António José Borges