CAPÍTULO 2 A concepção da natureza na teorização da Arquitectura e na prática
2.2 Evolução histórica da relação entre Natureza e modelos Arquitectónicos
2.2.1 Antecedentes: de Vitrúvio ao Renascimento
Adão não precisava da Arquitectura. Segundo a tradição Judaico-cristã retratada no livro do ―Genesis‖, o primeiro Homem vivia nu no Paraíso, sem consciência de si e daquilo que o envolvia. A Natureza era a sua Casa. Só após o pecado original e a consequente expulsão do Paraíso, Adão e Eva apercebem-se da existência de um Lugar, das dificuldades inerentes à Vida e da necessidade de trabalhar para subsistir – i.e.ao assumirem consciência da sua identidade e também da sua autonomia em relação ao seu espaço vivencial, são induzidos racionalmente a alterarem e aproveitarem os elementos e recursos que os rodeiam, para melhorarem essas condições de Vida.
Esta alegoria da origem do Homem põe em evidência a natureza dicotómica da relação que sempre existiu entre Humanidade e Ambiente natural – relação essa que está também na génese da Arquitectura: - por um lado, a Natureza madrasta, hostil e inconstante, que é necessário superar, num contexto de sobrevivência e identidade; por outro, a Natureza-Mãe, fonte e origem de todos os recursos de Vida, referencial formal e ideal de todas as Criações humanas.
Se a ―Cabana Primitiva‖, de que nos fala Vitrúvio (reinterpretada depois ao longo de toda a Tratadística da Arquitectura), ainda permanece o arquétipo dessa superação, e a afirmação da autonomia e superioridade do habitat do Homem em relação à hostilidade do espaço natural, ciclicamente a Humanidade revê-se no desejo do retorno ao Éden original, de refundição com a Natureza.
A Humanidade da época dourada original, caracterizada por Platão e por Hesíodo, tinha todas as suas necessidades respondidas e quase não precisava de construir. O retorno a este ―estado de graça‖, ambicionado por Virgílio, era visto como uma condição privilegiada, por contraponto à Civilização, vista como um mal necessário; esta visão primitivista - que ao colocar a perfeição na origem, negava, aparentemente, a ideia de Progresso – era no entanto combatida por autores como Lucrécio e Vitrúvio, que assumiam o primado da Cultura e da Civilização.
Para, Vitrúvio, o Homem, antes de se pôr a ―construir abrigos com folhas de árvores‖ (PACZOWSKY, 1983:81), descobriu o fogo e a palavra, e constituiu-se em Sociedade. Para a Tradição clássica, a origem da Arquitectura está associada à emergência da Sociedade e da Civilização – e cumulativamente à dominação da Natureza; subjacente ainda, está a oposição entre a vontade racional do Homem, expressa na Geometria das suas criações, e o caracter aparentemente irracional da Natureza selvagem.
Para Paczowski o imaginário simbólico do Homem está dividido entre o ―arquétipo da
Casa artificial, que substitui a Natureza e o arquétipo da Natureza, que se oferece ao
Homem como a Casa original‖ (PACZOWSKY, 1983:81) a que associa três tipologias
simbólicas fundamentais: - a da cúpula celeste atmosférica, a do tecto vegetal da floresta e a do abrigo mineral / Gruta; esta última, talvez a mais completa no seu simbolismo, ao mesmo tempo de origem, abrigo e sepulcro, contendo todo o ciclo da Vida. (PACZOWSKY, 1983:81).
A Arquitectura vai fundar-se neste diálogo permanente entre o Real e o Simbólico, na construção de espaços aferidos a uma ―natureza‖ idealizada global onde o Homem vive e resolve a fractura criada na harmonia natural, com as construções que constituem o seu sinal diferenciado. A procura de equilíbrio entre o Natural artificial e o Artificial natural mantem-se até aos dias de hoje como uma das polémicas mais constantes e viscerais da Arquitectura – e a sua variação assenta na ideia de Natureza / projecção que o Homem faz das suas próprias leis e do Universo, em permanente alteração no desenrolar da História Humana.
Se as primeiras Construções – Abrigo do Homem, na proximidade com a natureza, nos remetem directamente aos arquétipos simbólicos acima referenciados, sem necessidade de justificação (onde natural e sobrenatural se conjugam em continuidade), a emergência da Sociedade e da Civilização aprofunda o artifício da Construção, à medida da racionalidade e natureza humanas, vistas como continuações directas da Ordem cósmica e natural.
A História e o imaginário mítico das civilizações que nos precederam estão carregadas de exemplos e construções, onde este referencial natural físico e simbólico foi racionalmente assumido, tornado abstracto e incorporado em novas formas, transformado em regras e modelos. Ciclicamente, também, quando enfraquece a fundamentação e a lógica desta atitude de domínio da Natureza (quando conflituam Razão, Fé e Sensibilidade), o Homem apercebe-se da artificialidade dos modelos e
volta-se de novo para a Natureza – enquanto realidade original e fonte inesgotável de vitalidade.
A Arquitectura Clássica representa o expoente desta aparente cisão, onde se conjuga o ideal mítico da Natureza com um novo modelo de perfeição, uma nova Harmonia fundada na Razão, na Ordem, na Matemática e na Geometria – e onde o Natural é submetido e ―se integra dócil no enquadramento abstracto‖ (PACZOWSKY, 1983:82)., perdendo a sua raiz orgânica. Na Arquitectura Grega e Romana, o Lugar onde se constrói, embora assumido o seu valor simbólico, só é verdadeiramente importante na medida em que enquadra e põe em evidência a nova Edificação – enquanto afirmação do poder / cultura humana e domínio da Natureza. A tradição clássica assenta no contraste entre a realidade natural e o potencial criador do Homem.
O Renascimento recupera esta tradição clássica, onde o Homem é a medida de todas as coisas (Protágoras) e a Arquitectura assume a sua autonomia, enquanto Arte global, na procura do Espaço Perfeito, seguindo as regras da Perspectiva e os princípios geométricos da proporção – assumindo-se a linguagem clássica como arquétipo intemporal dessa perfeição.
Redescobertos, no início do séc. XV, os Dez Livros de Arquitectura de Vitrúvio (séc. I), o mito da ―Cabana Primitiva‖, a dicotomia entre Natural / Artificial e a importância do Lugar, vão ser reinterpretados, quase interruptamente, desde então até aos dias de hoje: - primeiro, ao nível da Tratadística, até finais do séc. XVIII, por um vasto número de teorizações sistemáticas sobre a Arquitectura, que elegeram aquele autor como referência fundamental; depois, num retorno à referência da Casa Natural, por vezes confusamente ligada às sequências abstractivas da tradição clássica, que têm o seu expoente na época romântica – embora seja já perceptível nos filósofos do iluminismo e nas utopias de Boulée e Ledoux; por último, a grande cisão que representa o Movimento Moderno, protagonizada em Le Corbusier, onde de novo, radicalmente, com uma fé cega na Razão, na Tecnologia e na Civilização, se assume a construção artificial do Paraíso, e se sobrevalorizam as leis humanas às leis da natureza (e ao seu valor simbólico) - perdendo-se a continuidade histórica da percepção da importância desta relação seminal de interdependência entre Natural e Artificial.
É sobretudo na análise destes três momentos históricos, que podemos encontrar as raízes e a fundamentação do que é hoje a abordagem ambiental da Arquitectura contemporânea – não vista apenas na leitura redutora da relação do objecto / espaço
arquitectónico com o seu contexto físico (natural e artificial) numa perspectiva de optimização de recursos e tecnologias, ou no regresso saudosista a uma escala e a um tempo onde o equilíbrio da intervenção construtiva humana com o suporte natural era mais evidente, mas na retoma da continuidade histórica da relação dialogante entre as Leis Humanas e as Leis Naturais, assumindo conscientemente a nossa Origem e o nosso Devir – a Natureza como Fonte (em vez de Recurso).(PACZOWSKY, 1983:88), e também a responsabilidade / papel do Homem na Criação.
Corresponde também à leitura destes tempos históricos, a afirmação da autonomia da Arquitectura como ―Ars liberalis‖ – o Arquitecto visto já não apenas como ―artesão‖, construindo com base na tradição empírica e na experiência, mas assumindo aprioristicamente regras e modelos expressos, impregnados de uma atitude intelectual e cultural universalista, prevendo e controlando através do Projecto, o resultado final, físico e simbólico.