6. ANÁLISE DOS RESULTADOS
6.5 Antecedentes dos comportamentos políticos
O objetivo dessa análise é testar as hipóteses H3 e H4 de que fatores individuais e fatores relativos à organização podem influenciar a percepção dos comportamentos políticos. Os
fatores individuais selecionados nesse estudo como possíveis antecedentes foram gênero, idade e tempo de experiência profissional, enquanto que os fatores organizacionais foram o nível hierárquico, a natureza e o tamanho da organização. Para a delimitação desses fatores, buscou-se uma linha de corte que distribuísse os sujeitos em sub-amostras com tamanhos mais homogêneos possíveis. A Tabela 13 apresenta distribuição da amostra e a média da variável comportamento político para cada fator.
Tabela 13 - Média da variável comportamento político por fator
Fator n Média Desvio
Padrão
Intervalo para media* limite inferior limite superior Gênero Masculino 77 2,728 0,665 2,577 2,879 Feminino 111 2,826 0,692 2,696 2,957
Idade até 30 anos 87 2,917 0,619 2,785 3,049
acima 30 anos 101 2,673 0,715 2,532 2,814 Experiência profissional até 10 anos 95 2,889 0,660 2,754 3,023 acima 10 anos 93 2,681 0,690 2,539 2,823 Nível hierárquico Não gerencial 126 2,943 0,631 2,832 3,054 Gerencial 62 2,468 0,673 2,297 2,639 Organização Pública 43 2,998 0,711 2,780 3,217 Privada 145 2,723 0,662 2,615 2,832 Tamanho da organização até 1000 funcionários 89 2,700 0,665 2,560 2,840 acima 1000 funcionários 99 2,864 0,690 2,726 3,002 *Nível de confiança: 95%
A percepção de comportamentos políticos é maior para mulheres (2,826), pessoas mais jovens - com até trinta anos de idade (2,917), pessoas com até dez anos de experiência profissional (2,889) e ocupantes de cargos não gerenciais (2,943). A média também é mais alta em organizações públicas (2,998) e em organizações de grande porte, que possuem mais de mil funcionários (2,864). Para examinar se esses valores médios são estatisticamente diferentes, gerando efeitos sobre a percepção de comportamentos políticos, foi realizada a análise de variância (ANOVA).
Como entre as premissas básicas do modelo de ANOVA estão as variâncias constantes e iguais dos erros das observações, foi utilizada a estatística do teste de Levene para verificar a
homogeneidade das variâncias. Para todos os fatores, o valor-p indica que esse pressuposto foi atendido, conforme demonstra a Tabela 14.
Tabela 14 - Teste de homogeneidade das variâncias
Fator Levene gl1 gl2 Sig.
Gênero 0,027 1 186 0,869 Idade 1,690 1 186 0,195 Experiência profissional 0,121 2 185 0,886 Organização 0,470 1 186 0,494 Tamanho da organização 0,372 1 186 0,543 Nível hierárquico 0,601 1 186 0,439
A verificação das hipóteses H3 e H4, bem como de seus desdobramentos, se dá pela interpretação das tabelas de ANOVA dispostas a seguir. Para o fator gênero (Tabela 15), o valor de F calculado (0,945) é menor do que o valor de F tabelado (3,48) no nível de 5% de significância. Isso significa que não podemos concluir pela existência de diferença das médias de percepção de política entre os gêneros. Note que o valor-p é maior que o nível de significância adotado de 0,05, o que ratifica essa análise.
Tabela 15 - ANOVA de comportamento político para o fator gênero gl Soma dos quadrados Quadrado médio F Sig. Modelo 1 0,439 0,439 0,945 0,332 Resíduo 186 86,353 0,464 Total 187 86,792
Desse modo, a inexistência de efeito do fator gênero possibilita confirmar a hipótese H3a que estabelecia não haver influência significativa do gênero na percepção de comportamentos políticos. Gênero é um dos fatores que mais receberam atenção pelos pesquisadores, porém todo esse interesse não produziu resultados consistentes em uma das possíveis direções. Há trabalhos que sugerem que as mulheres têm maior percepção da política, como também há pesquisas cujos dados indicam serem os homens mais percebem esses comportamentos. Contudo, os resultados desse trabalho apontam, de modo semelhante à pesquisa realizada por Ferris e Kacmar (1992), que não há relação significativa entre gênero e comportamentos políticos, sendo plausível sugerir que as eventuais diferenças apontadas em pesquisas
anteriores se devem mais às características amostrais do que propriamente às características de gênero.
Para os demais fatores individuais, como idade (Tabela 16) e tempo de experiência profissional (Tabela 17), o valor de F calculado (6,159 e 4,463 respectivamente) é sempre maior do que o valor de F tabelado (3,48) no nível de 5% de significância. Isso significa que podemos afirmar que existe diferença das médias de percepção de política entre indivíduos com idades abaixo e acima de trinta anos, bem como entre indivíduos com tempo de experiência profissional menor e maior que dez anos. Vale ressaltar que o valor-p para todos esses fatores é menor do que o nível de significância adotado de 0,05, confirmando essa análise.
Tabela 16 - ANOVA de comportamento político para o fator idade gl Soma dos quadrados Quadrado médio F Sig. Modelo 1 2,782 2,782 6,159 0,014 Resíduo 186 84,013 0,452 Total 187 86,795
Tabela 17 - ANOVA de comportamento político para o fator experiência profissional gl Soma dos quadrados Quadrado médio F Sig. Modelo 1 2,034 2,034 4,463 0,036 Resíduo 186 84,758 0,456 Total 187 86,792
Portanto, a existência de efeito da idade e do tempo de experiência profissional na percepção de comportamentos políticos possibilita confirmar as hipóteses H3b (a percepção de comportamentos políticos é mais significativa para os indivíduos mais jovens) e H3c (a percepção de comportamentos políticos é mais significativa para os indivíduos com menor experiência profissional).
O fator idade dos indivíduos demonstrou, para essa amostra, possuir efeito sobre a percepção de comportamentos políticos, contrariando resultados como os obtidos por Ferris e Kacmar (1992). Por sua vez, a existência de efeito do fator experiência profissional encontra eco na pesquisa realizada por Conner (2006). Os resultados que evidenciam que a percepção de
comportamentos políticos foi maior entre indivíduos com menor idade (até 30 anos) e com menor experiência profissional (até 10 anos) podem ser explicados pelas mesmas razões. A idade e a experiência passada podem afetar a extensão e a forma como as pessoas percebem a natureza política do ambiente organizacional, pois os profissionais podem aprender com o tempo a desenvolver habilidades políticas e a se protegerem dos seus efeitos negativos. Desenvolvimento da carreira, promoções e avaliações de desempenho são processos tipicamente sujeitos à atividade política, o que torna indivíduos mais velhos e experientes alvos, até mesmo, mais freqüentes desses comportamentos políticos. Enquanto profissionais mais jovens tendem a ser mais intolerantes, impacientes e idealistas em relação à alocação de recursos e recompensas na organização, tornando-se mais sensíveis à política no ambiente de trabalho, indivíduos mais experientes vivenciam os mesmos processos, porém são menos impactados pelos aspectos políticos.
Tabela 18 - ANOVA de comportamento político para o fator nível hierárquico gl Soma dos quadrados Quadrado médio F Sig. Modelo 1 9,378 9,378 22,532 0,000 Resíduo 186 77,414 0,416 Total 187 86,792
Tabela 19 - ANOVA de comportamento político para o fator natureza da organização gl Soma dos quadrados Quadrado médio F Sig. Modelo 1 2,512 2,512 5,544 0,020 Resíduo 186 84,280 0,453 Total 187 86,792
Para os fatores organizacionais como nível hierárquico e natureza da organização, o valor de F calculado (22,532 e 5,544 respectivamente) é também maior do que o valor de F tabelado (3,48) no nível de 5% de significância, conforme demonstram as Tabelas 18 e 19. Isso significa que podemos afirmar que existe diferença das médias de percepção de política entre indivíduos ocupantes de cargos gerenciais e não-gerenciais, bem como entre indivíduos que trabalham em organizações públicas e privadas. Vale ressaltar que o valor-p para ambos os fatores é menor do que o nível de significância adotado de 0,05, confirmando essa análise.
Portanto, a existência de efeito dos fatores nível hierárquico e natureza da organização na percepção de comportamentos políticos possibilita, por um lado, confirmar a hipótese H4a (a percepção de comportamentos políticos é mais significativa para os indivíduos em cargos não gerenciais) e, por outro, rejeitar a hipótese H4b (a percepção de comportamentos políticos é mais significativa para os indivíduos em organizações privadas).
Quanto ao nível hierárquico, os resultados indicaram que a percepção de política é maior em cargos não gerenciais. A relação entre níveis hierárquicos e comportamentos políticos é permeada por questões relativas ao poder formal e ao controle dos recursos da organização que cada cargo disponibiliza para seu ocupante. Assim, a ocorrência de comportamentos políticos pode se tornar até mais profusa à medida que as pessoas alcançam altos níveis na organização. Ocorre que, por ter uma vivência tão próxima dos aspectos políticos do ambiente organizacional, indivíduos em cargos gerenciais podem ver esses comportamentos de modo mais natural e a entendê-los como legítimos. Ao contrário, pessoas em cargos de menor escalão percebem a política de maneira mais significativa porque estão sujeitos a seus efeitos enquanto dispõe de menor poder formal, menor controle e maior distanciamento das decisões.
Para o fator tamanho da organização (Tabela 20), o valor de F calculado (2,755) é menor do que o valor de F tabelado (3,48) no nível de 5% de significância. Isso significa que não podemos concluir pela existência de diferença das médias de percepção de política entre organizações de tamanhos diferentes. Note que o valor-p é maior que o nível de significância adotado de 0,05, o que ratifica essa análise.
Tabela 20 - ANOVA de comportamento político para o fator tamanho da organização
gl Soma dos quadrados Quadrado médio F Sig. Modelo 1 1,267 1,267 2,755 0,099 Resíduo 186 85,525 0,460 Total 187 86,792
A inexistência de efeito do fator tamanho da organização leva a rejeitar a hipótese H4c, que previa ser mais significativa a percepção de comportamentos políticos para os indivíduos em organizações de grande porte. Esse resultado também contraria as conclusões da pesquisa realizada por Conner (2006), na qual o tamanho da organização está relacionado com as
percepções de comportamentos políticos. Nesse caso, outros fatores relacionados ao contexto do trabalho poderiam explicar essa aparente contradição entre resultados. É possível que, por exemplo, ambigüidade, incerteza, autonomia e relações cooperativas, sejam até mais determinantes para a percepção dos comportamentos políticos do que o porte da organização.
Por fim, vale destacar que a confirmação, mesmo que parcial, das hipóteses H3 e H4 se coaduna com o modelo defendido por Ferris et al. (1989), que considera tanto fatores individuais quanto fatores organizacionais como antecedentes das percepções de comportamentos políticos. O Quadro 14 sintetiza a verificação de todas as hipóteses desse estudo.
Quadro 14 - Verificação das hipóteses
Hipóteses Variável Posição Verificação Conclusão
H1 Justiça
organizacional consequente confirmada
Comportamentos politicos influenciam negativamente a percepção de justiça
H2 Confiança na
organização consequente confirmada
Comportamentos politicos influenciam negativamente a percepção de confiança
H3a Gênero antecedente confirmada Não há influência de gênero na
percepção de política na organização
H3b Idade antecedente confirmada Percepção de política é mais significativa
em indivíduos mais jovens
H3c Experiência
profissional antecedente confirmada
Percepção de política é mais significativa em indivíduos com menor experiência
H4a Nível
hierárquico antecedente confirmada
Percepção de política é mais significativa em indivíduos com cargos não gerenciais
H4b Natureza da
organização antecedente refutada
Percepção de política é mais significativa em indivíduos de organizações públicas
H4c Tamanho da
organização antecedente refutada
Não há influência do tamanho da organização na percepção de política