2 A GUERRA DAS MALVINAS COMO FATOR DE
2.1 Antecedentes Históricos e Imediatos do Conflito
Para se compreender a disputa anglo - argentina pelas Malvinas/Falkland é necessário se retornar um pouco no tempo, no fim da era das Grandes Navegações, quando as principais potências européias buscavam vantagens geoestratégicas que lhes garantissem a expansão de suas empreitadas comerciais e dos respectivos canais de comunicação e suprimentos, por meio da posse soberana de territórios.
No caso das Malvinas, durante a era dos descobrimentos e mesmo no século XVII, há vários relatos de navios que avistaram o arquipélago ou nele aportaram, mas foram presenças que não tiveram grandes conseqüências nas disputas entre as casas reinantes da Europa.
Em 1690, por exemplo, o navegador inglês John Strong tomou posse das ilhas, e batizou-as com o nome do patrocinador de sua expedição, o visconde de Falkland. No entanto, os ingleses não se fixaram no território, que foi ocupado por franceses, originários de um porto na Bretanha ao Oeste da França, chamado Saint-Malo. Daí veio o nome îles Malouïnes, que depois virou Malvinas, quando o Reino da Espanha as adquiriu da França, em 1766.
Os argentinos herdaram as Ilhas dos espanhóis, mas não tiveram condições de priorizar uma ocupação da região, ao se tornarem independentes, em 1816, em função de seus sérios problemas políticos internos para consolidação de um poder central.
Em 1833, porém, a Inglaterra, que era a maior potência colonial e naval do planeta, resolveu ocupar as ilhas, que estavam abandonadas, valendo-se de seu poderio militar. Desde então as Falkland/Malvinas pertencem ao Reino Unido e são reclamadas pela Argentina. Ou seja, há uma pendência secular, na qual não fica claro porque essas Ilhas são tão cobiçadas, visto que quase nada nelas parece valer à pena. O território possui um clima gélido e um solo rochoso, formado de colinas, montanhas e planícies onduladas. Pingüins fazem parte da fauna nativa.
Em outros tempos, nestas ilhas existiram importantes postos de caça de baleias, porém a prática provocou o desaparecimento de numerosas espécies destes mamíferos nos mares austrais e fez com que a importância econômica das Malvinas, como também das Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, fosse reduzida. Falava-se em grandes reservas petrolíferas, mas ao menos até o momento do conflito, elas nunca haviam sido encontradas ou exploradas.
Assim, sua economia baseava-se na pesca, na criação de carneiros (para consumo da carne e exportação da lã) e, somente muito mais recentemente, no eco turismo.
O posicionamento Geoestratégico das ilhas no Atlântico Sul, a meio caminho do extremo sul da África e da América do Sul, servindo de portão de entrada para os Oceanos Índico e Pacífico e para o Continente Antártico, é o único motivo racional para a disputa. Pelo lado do simbolismo nacional, a Argentina tinha sérias dificuldades para acertar a soberania estrangeira dessas porções de terra ao largo de seu litoral. Sob o ponto de vista do Reino Unido, aquelas Ilhas remotas, além de serem um ponto de apoio logístico-militar no meio do extremo sul do Atlântico, eram também um dos poucos símbolos que restaram do seu passado glorioso.
Em 1965, a Argentina conseguiu que a ONU aprovasse a resolução 2065, qualificando a disputa como um problema colonial e convocando as partes para negociar uma solução; não obstante, as negociações ficaram infrutíferas durante os dezessete anos seguintes. De qualquer forma, as relações entre a Argentina, o Reino Unido e os habitantes das Ilhas até os finais da década de 60 e o início da década de 70 foram excelentes. Tanto é assim, que, semanalmente, durante grande parte dos anos anteriores à guerra, se operava uma ponte aérea entre a Argentina e Puerto Argentino (Port Stanley para os ingleses), da qual os insulares dependiam fortemente para sua provisão e para a assistência médica completa. Inclusive, a pista de aterrisagem original de Port Stanley que funcionou até o início da década de 70, feita em alumínio, foi construída pela Força Aérea Argentina.
No momento específico que se iniciou a guerra, havia alguns aspectos conjunturais que também davam importância àquele arquipélago. Conseguir a soberania sobre as Ilhas representava para o governo argentino, por exemplo, uma excelente oportunidade para a necessidade de revalidar a ditadura militar e afastar da pauta política possíveis críticas e contestações. O discurso oficial enfatizava o ufanismo nacionalista.
Quando o ano de 1982 se iniciou, a Argentina vivia sob uma ditadura militar, estabelecida por um golpe de Estado em 1976. O regime já estava desgastado, especialmente pela crise econômica a que arrastara o país. Por isso, o ataque às ilhas foi uma forma de estimular o nacionalismo dos argentinos, angariar simpatias ao governo do general Leopoldo Galtieri e canalizar descontentamentos para um inimigo externo, no caso os ingleses.
A princípio, as Ilhas eram um alvo fácil, pois não contavam com forças defensivas expressivas. A ocupação só não foi um verdadeiro piquenique porque os ingleses esboçaram alguma reação por meio dos poucos fuzileiros estacionados nas ilhas.
Às 8h30 do dia 02 de de abril de 1982, entretanto, os dois principais nomes da cúpula dirigente britânica das Malvinas naquele momento, o governador Hunt e o major Norman, após debaterem sobre como deveriam continuar reagindo, decidiram finalmente se entregar,
pois com forças tão pequenas não fazia sentido dispersar para o interior e iniciar uma guerra de guerrilha. Às 9h30 desse mesmo dia, o governador Hunt se rendeu nas ilhas Malvinas ao contra-almirante Busser. Um avião de transporte militar argentino o levou à cidade de Montevidéu, de onde voltou para Londres.
O Governo argentino chegou a avaliar que não haveria reações posteriores. Esta avaliação se baseou em duas características militares que, a princípio, pareciam certas:
a) A capacidade de guerra anfíbia do Reino Unido a meio mundo de distância não estaria à altura das circunstâncias, apesar do seu grande poderio aeronaval;
b) Não era provável que o Reino Unido iria realizar um contra-ataque em grande escala, afetando o território continental argentino ou não, e usando seus submarinos nucleares, por uma questão colonial sobre algumas ilhas remotas.
Essas avaliações excessivamente otimistas somam-se a outras também equivocadas de caráter mais geopolítico e diplomático, tais como:
a) Naquele contexto de Guerra Fria, a Junta Militar ignorou que a comunidade de nações poderia não ver com bons olhos uma intervenção violenta e isolada da Argentina, com forte potencial para motivar e desencadear, pelo exemplo, outras guerras regionais nos cinco continentes;
b) Nesse contexto ainda, os EUA davam mais importância à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), concebida diretamente para deter a URSS que ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), mais orientado para conter o comunismo na América do Sul e percebido como sendo de interesse secundário por Washington;
c) Uma ditadura de extrema direita não poderia esperar o apoio da maior parte das democracias ocidentais, visto que as graves violações dos Direitos Humanos cometidas pela Junta já eram de domínio generalizado da opinião pública;
d) As estreitas relações entre os Estados Unidos e o Reino Unido transcindiam e transcendem o marco da OTAN;
e) O fato de o Reino Unido ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com direito a veto, lhe dava um poder diferenciado naquele órgão; e f) O ano de 1982 era eleitoral no Reino Unido. Em uma pesquisa Gallup, realizada a poucos dias do início da guerra, 28% da população britânica
chegaram a declarar que «a questão das Malvinas» iria a ser o seu elemento fundamental de decisão de voto.
Os militares argentinos, enfim, não esperavam que o Reino Unido, embora também enfrentasse problemas econômicos e na política interna, resolvesse revidar o ataque e lutar pelo que considerava um direito seu. A partir de uma análise errônea, o Governo argentino articulou um plano para a recuperação militar dos três arquipélagos em disputa chamado de Operação Rosário.
A Operação Rosário foi criada pelo Almirante Jorge Isaac Anaya, membro da Junta militar presidida por Galtieri, no final de 1981 e início de 1982. Esta consistia de uma série de ações de intensidade crescente destinadas a recuperação argentina das ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul que seriam executadas em sentido inverso (de Leste a Oeste e de menor para maior relevância política), iniciando-se de maneira mais discreta possível e culminando com a tomada do arquipélago das ilhas Malvinas e de sua capital, Puerto Argentino, mediante um assalto direto. A Junta logrou manter em segredo o plano de Anaya até apenas 48 horas antes do início das hostilidades.
A Inglaterra era, entretanto, governada pela Primeira Ministra Margaret Tatcher, a chamada Dama-de-Ferro, que já havia enfrentado uma ferrenha resistência interna, para retirar, por meio de medidas duríssimas, a Inglaterra da crise em que vivia. Ela simplesmente não demonstrou o menor receio de recorrer a uma reação armada e despachou de imediato as poderosas forças navais britânicas para o Atlântico Sul9. Paralelamente, já no dia 3 de abril, o Reino Unido logrou que a ONU aprovasse a resolução 502, que exigia a retirada das tropas argentinas dos arquipélagos ocupados como condição prévia a qualquer processo negociador.
O Reino Unido também rompeu todas as relações comerciais com a Argentina, e começou a buscar aliados diplomáticos com um êxito muito maior que o da Junta Militar.
No dia 9 de abril, o Reino Unido já havia conquistado o pleno apoio da Comunidade Econômica Européia (CEE), hoje União Européia (UE), a OTAN, a Comunidade Britânica das Nações e a ONU. O resultado dessa e outras ações posteriores seria que dois meses depois, em 14 de junho, a bandeira do Reino Unido ou Union Jack tremularia sobre a cidade de Stanley, a capital das ilhas Falkland, após terem morrido nos combates navais e aéreos, 649 argentinos e 258 britânicos.
9 Na verdade, no dia 30 de Março, quando se fez óbvio de que a invasão era iminente, o Governo britânico havia ordenado que o destróier HMS Antrim, seguido de outros dois navios de superficie e de três submarinos nucleares, se dirigisse às ilhas Geórgia do Sul para apoiar o HMS Endurance. O resto das unidades da marinha britânica foi posta em alerta de quatro horas.