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Antecedentes: mapeamento do processo de internacionalização brasileiro de

Capítulo 2 A experiência recente de internacionalização das empresas

2. Antecedentes: mapeamento do processo de internacionalização brasileiro de

brasileiro de 1960 a 1990

A entrada das empresas brasileiras nos mercados internacionais ocorreu de forma tardia se comparada àquelas das nações desenvolvidas. A fim de possibilitar a apreensão do processo de internacionalização destas empresas, desde sua fase puramente comercial até o advento dos fluxos de Investimento Brasileiro Direto Externo (IBD), propõe-se dividi-lo em cinco etapas18: i) 1960 a 1980, ii) 1980 a 1990, iii) 1990 a 1999, iv) 2000 a 2009 e v) 2009 em diante. Considera-se que cada uma destas fases apresenta características particulares, determinadas tanto pela conjuntura interna brasileira quanto pelos movimentos da economia mundial o que justifica a observação e análise feita de forma separada.

Até o fim da década de 1960, a estratégia de internacionalização das empresas de capital nacional se limitava essencialmente à esfera comercial19, mais especificamente a exportação de commodities agrícolas e minerais. Segundo o IPEA (2010), as exportações de produtos básicos, na classificação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC),

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A escolha pela periodização foi orientada pela literatura precedente sobre o tema, entre os quais TAVARES, 2006 e IGLESIAIS;VEIGA, 2002, com o acréscimo da fase contemporânea do fenômeno de internacionalização das multinacionais brasileiras.

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A internacionalização pela via do IED antes da década de 1960 se resume a casos raros. Há registros, por exemplo, de investimentos brasileiros no exterior em 1930, efetuados pelo Grupo Francisco Matarazzo para a instalação de um moinho de trigo na Argentina (LOPÉZ, 1999).

respondiam por 77,7% do total em 1969, ao passo que os semimanufaturados e manufaturados compreendiam, respectivamente, a 9,1% e 12,3% do total.

Entre os anos 1960 e 1970, diante do quadro econômico marcado pela alta da inflação, desequilíbrio do balanço de pagamentos, aumento da dívida externa que marcaram o contexto de crise do modelo de substituição de importações, o governo militar adotou medidas que visavam promover a diversificação da pauta exportadora, a partir do estímulo à venda dos produtos manufaturados no exterior. Entre tais medidas, podemos citar políticas creditícias, tributárias, tarifárias e cambial.

Nestas duas primeiras décadas analisadas a emissão de IBD era ainda muito reduzida, especialmente quando comparada aos fluxos mundiais (ver Tabela 1). De acordo com dados da UNCTAD, o Brasil emitiu, entre os anos 1970 e 1979, fluxos de investimentos no exterior contabilizando 864,5 milhões de dólares, o que representava 0,31% dos fluxos de IED realizados no mundo e 60,19% dos IED emitidos pela América Latina. Os números revelam também que esta entrada tardia e incipiente do Brasil na internacionalização pela via do IED foi paralela ao movimento mais geral dos demais países latino- americanos.

Tabela 1- Fluxos de Investimentos Diretos realizados no exterior. Em US$ milhões, 1970 – 2013.

1970-1979 1980-1989 1990-1999 2000-2009 2010-2013 Fluxos globais 282.758 935.229 4.195.265 11.794.548 5.984.729 Países em desenvolvimento 3.478 59.242 456.265 1.786.107 1.715.435 América Latina e Caribe 1.436 11.730 107.636 550.657 507.741 Brasil 864 2.241 9.245 60.721 4.241 % PEDs nos fluxos globais 1,23 6,33 10,88 15,14 28,66 % América Latina e Caribe nos

fluxos globais 0,51 1,25 2,57 4,67 8,48 % Brasil nos fluxos globais 0,31 0,24 0,22 0,51 0,07 % Brasil nos fluxos da América

Latina e Caribe 60,19 19,11 8,59 11,03 0,84 Fonte: Unctad FDI database (elaboração própria).

Os principais agentes responsáveis pela emissão do IBD até o final da década de 1970 eram a Petrobras, instituições financeiras, e empresas de engenharia e construção civil. Os investimentos da Petrobras foram

consolidados a partir da subsidiária Braspetro – criada em 1972 – com o intuito de encontrar novas fontes de petróleo para abastecer o mercado interno, o que explica seus investimentos na África e no Oriente Médio. Já a abertura de agências de bancos privados e estatais no exterior – particularmente em países desenvolvidos e paraísos fiscais – estava associada à captação de recursos no mercado financeiro internacional para atender às necessidades de uma base empresarial brasileira e, de forma secundária, ao atendimento de atividades bancárias de clientes nacionais no exterior. No que diz respeito às empresas de engenharia e construção, estas se estabeleceram nos mercados estrangeiros visando aplicar o know how, as capacitações, os ganhos de escala e as vantagens administrativas acumulados no desenvolvimento de grandes obras públicas no Brasil em países onde aumentavam os investimentos em infraestrutura (IGLESIAS e VEIGA, 2002; LOPÉZ, 1999).

Embora o Investimento Brasileiro Direto Externo (IBD) proveniente do setor industrial fosse secundário até este período, é importante ressaltar que não era inexistente, sobretudo entre a passagem da década de 1970 e 1980. Segundo Guimarães (1984, p. 6), entre 1977 e 1982, 123 firmas industriais promoveram investimentos no exterior, entre as quais três merecem destaque: a Copersucar – do setor de processamento de alimentos – que foi responsável por 47% dos investimentos externos realizados pelo setor industrial, a Gradiente e a Gerdau – do setor de eletrônicos e da siderurgia, respectivamente – que juntas responderam por 19,2% desses investimentos. Neste intervalo de seis anos os investimentos do setor industrial somaram 138,3 milhões de dólares, correspondentes a 16% do total de IED brasileiro.

No período seguinte, compreendido entre 1983 e 1992, manteve-se a relevância dos setores financeiros, de engenharia e construção e de petróleo, e a participação minoritária do setor de manufaturas – entre eles o de autopeças, metalmecânica, têxteis, aço e embalagens – responsável por apenas 10% dos investimentos (TAVARES, 2006). O cenário de crise da dívida externa e estagnação do mercado interno durante a denominada década perdida repercutiu de forma dual sobre o movimento de internacionalização de empresas brasileiras. Por um lado, nota-se que as grandes inversões estiveram concentradas nos últimos três anos do período assinalado – 1989 a 1991 – (ver Gráfico 2) e visavam operações em conjunto (joint ventures), o que pode ser

interpretado como um reflexo das agruras econômicas. Ademais, a análise quantitativa do montante de IBD emitido durante a década de 1980 revela que, embora seu valor total tenha triplicado em relação à década anterior, contabilizando US$2,24 bilhões, sua participação no total dos fluxos globais caiu para 0,24% e sua participação nos fluxos emitidos pela América Latina e Caribe diminuiu sobremaneira, atingindo 19,11% (ver Tabela 1). Isto é, o crescimento nos fluxos de IED emitidos pelo Brasil não acompanhou o crescimento dos fluxos globais e regionais e este baixo desempenho decorre, em parte, da estagnação econômica que marcou o período.

Gráfico 2 - Fluxos de IED emitido pelo Brasil e participação no total da América Latina e Caribe. Em US$ milhões e %, 1970 – 1999.

Fonte: Unctad FDI database (elaboração própria).

Por outro lado, a crise também impulsionou alguns setores a procurar oportunidades de investimento no exterior como alternativa à estagnação interna. No caso das grandes empreiteiras – Andrade Gutierrez, Mendez Junior, Queiroz Galvão, Camargo Correia, Odebrecht –, por exemplo, a crise teve como efeito o aprofundamento do processo de internacionalização. O crescimento de suas operações em mercados estrangeiros tinha por objetivo garantir a manutenção do crescimento e da produtividade, em uma conjuntura de queda nos investimentos públicos domésticos.

Ademais, uma parcela considerável das iniciativas de internacionalização das empresas brasileiras esteve estreitamente relacionada

aos estímulos às exportações proporcionados pelas políticas do governo, o que é evidenciado pelas frequentes aberturas de escritórios comerciais, depósitos, subsidiárias de vendas e de assistência técnica, com o intuito de criar suportes às suas atividades exportadoras estabelecidas previamente (IEDI, 2003).

Uma pesquisa empreendida pelo BNDES (BNDES, 1995 apud IGLESIAS; VEIGA, 2002) procurou caracterizar as particularidades dos IBD durante os anos 1980 em relação àquele da década anterior. Concluiu-se, primeiramente, que mais empresas menores – com faturamento inferior a US$100 milhões – passaram a integrar o movimento de internacionalização que antes era restrito às empresas maiores – com faturamento acima de US$500 milhões. Houve uma diversificação das empresas industriais envolvidas neste movimento, com a maior participação dos setores de material de transporte, têxtil, siderurgia, entre outros. E a pesquisa revelou, por fim, que durante os anos 1980 houve um crescimento considerável na instalação de subsidiárias na América do Sul.

Sposito e Santos (2012), em uma síntese do processo de internacionalização das empresas brasileiras durante a década de 1980, acrescentam que a maior parte das operações de internacionalização foi realizada mediante a criação de joint ventures, o que os autores afirmam se tratar de um reflexo da baixa tendência de centralização do capital, característica que sofreria alteração na década seguinte.

A década de 1990 pode ser considerada uma fase de transição no que se refere à adoção de uma estratégia de internacionalização mais ativa. O período foi marcado por rápidas mudanças nas relações externas brasileiras em virtude da adoção de políticas de liberalização, tais como reduções drásticas das tarifas de importação e das barreiras ao comércio exterior, privatização de empresas estatais, controle inflacionário e desregulamentação de alguns segmentos relevantes. Em termos quantitativos, o IBD se manteve bastante reduzido, somando US$9,24 bilhões de 1990 a 1999, perdeu participação relativa no total de IED da América Latina e apresentou uma tendência de crescimento moderado com algumas oscilações durante a década (ver Gráfico 2 e Tabela 1).

A abertura indiscriminada da economia brasileira às empresas estrangeiras significou um aumento considerável no padrão de concorrência do

mercado doméstico, frente ao qual as empresas nacionais não detinham condições financeiras ou tecnológicas para atuar. Se, por um lado, estas novas condições expuseram as empresas mais frágeis à ofensiva das multinacionais estrangeiras, por outro, obrigaram as empresas mais bem posicionadas – estatais, ex-estatais e privadas – a reestruturar e modernizar suas operações com o propósito de sobreviver aos novos critérios de competitividade impostos pela globalização. Xavier e Turolla atentam para este processo:

“As reformas realizadas pelo país nos anos noventa contribuíram para o fortalecimento da competitividade de algumas empresas brasileiras, em especial daquelas que foram capazes de resistir e de se adaptar aos fortes choques que sofreram desde a década passada. Entre esses choques, pode-se mencionar: a abertura comercial; o Plano Real e a âncora cambial, com apreciação do câmbio gerando vantagem artificial à produção estrangeira; volatilidade nos principais preços macroeconômicos; e ainda elevações na carga tributária ocorridos desde a Constituição de 1988.” (XAVIER E TUROLLA, 2006, p.5)

Entre as medidas adotadas no sentido de aumentar a competitividade destas empresas – como forma de garantir a manutenção do crescimento e da lucratividade – foi frequente a especialização produtiva nas áreas nas quais já possuíam maiores capacidades competitivas (core business) – principalmente àquelas ligadas aos recursos naturais (commodities) e às tecnologias maduras – e o abandono dos setores intensivos em tecnologia para as empresas multinacionais estrangeiras. Outras estratégias de ajuste empregadas, segundo Coutinho et alli (2008, p. 78), foram a redução do endividamento, redução de custos operacionais, adoção de técnicas industriais modernas.

Outro fator relevante para o processo de internacionalização neste período foi a criação do Mercosul em 1991, que intensificou o comércio entre os países do bloco e ainda fortaleceu as relações diplomáticas, comerciais, culturais e empresariais entre eles. A integração regional incentivou, desse modo, empresas brasileiras a se voltarem para os países vizinhos com os quais mantinham relações comerciais – especialmente a Argentina – a fim de instalar distribuidores e representantes ou mesmo realizar aquisições parciais de indústrias locais. Entre as empresas que seguiram este caminho podemos

elencar Sadia, Weg, COFAP, Freios Varga, Tintas Renner, Inepar, Maxion, CVRD, Usiminas, Newtechnus (GOULART; ARRUDA; BRASIL; 1994, p. 39).

Tratou-se, na realidade, de uma fase de aprofundamento da presença internacional de empresas que já buscavam a expansão além das fronteiras nacionais desde a década de 1970, ao menos por intermédio das exportações. É importante advertir, contudo, que as aquisições de empresas nacionais por multinacionais estrangeiras ultrapassaram muito as iniciativas brasileiras no exterior, neste período. O Gráfico 3 revela o aumento do influxo de IED após 1994 que foi possibilitado, em grande medida, pela política de privatização do governo e o aumento discreto dos fluxos de IED emitidos pelo Brasil nesta década.

Gráfico 3 - Investimento Estrangeiro Direto - Brasil, 1990 – 2013.

Fonte: Balanço de Pagamentos – Banco Central do Brasil (elaboração própria).