A AGREGAÇÃO DOS COMUNGOS: o período universitário da formação
3.1 Antecedentes: o que se passava antes dos comungos entrarem na universidade
São Lázaro 23. Curso de psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia. O fim da década de 80 e o início da década de 90, época pós- ditadura, foi marcada por um longo marasmo, principalmente em relação ao movimento estudantil que tinha, significativamente, enfraquecido. Alguns estudantes são lazarinos passaram a não conseguir conter um certo sentimento de insatisfação em relação ao curso e à psicologia em voga. Cansados da excessiva discursividade, característica marcante da clínica psicanalista que era hegemônica na época, os estudantes começam a se enveredar pelas abordagens corporais (psicodrama, bioenergética e biodança) juntamente a uma preocupação em dar à psicologia um tom mais social e para isso se inspiravam numa psicologia social derivada do marxismo, que tinha César Wagner, da Universidade Federal do Ceará, como expoente.
Esses grupelhos minoritários acabaram movimentando algumas atividades no cotidiano acadêmico: pequenos movimentos de tom coletivista que agregavam elementos artísticos, principalmente o teatro, ao que, até então, era a psicologia em São Lázaro. Havia também a preocupação em realizar eventos na faculdade (encontros, reuniões, saraus, etc...) juntamente à proposta de pensar uma psicologia social. Rafael se referiu assim a esta época:
Eu, como Dani falou, tenho uma anterioridade a isso aí [à Comungos], então, por isso eu vou situar num plano em que eu estou situado, ou seja, num movimento que surgiu com a própria insatisfação de São Lazaro. [...]. Foram surgindo movimentos que estavam rolando, histórias, revisão de currículos, sabe assim?, só que movimentos que iam e paravam, iam muitos, não foram poucos... O diferencial do que começou a dá um gás, que eu chamo, que foi o Fazer Fazendo... foi uma “cagada”, uma
“cagada” epistemológica, que foi a gente ter preparado um encontro, um banquete pra poder realizar a discussão do que queríamos, dos projetos que queríamos desenvolver, e depois com o tempo descobrimos que o certo, o legal, o forte não eram os projetos e sim o banquete em si. E dali a coisa começou a querer puxar outros espaços acadêmicos, sabe?, extensões e a partir de uma percepção de que precisamos estar bem juntos, encontrando, e aí foram entrando as novas teorias, foi por aí que eu enveredei com várias pessoas [...]. São as pessoas que eu descobriria por
dentro de São Lazaro e isso foi me dando uma amplitude e aí esse movimento rolou, né? A gente criou professores, o Senne assim, não existia
23 São Lázaro é como carinhosamente é chamada a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. São-
enquanto pessoa possível para ação em outro lugar que não fosse dentro da sala de aula e aí a gente como achou que ele era o mais aberto puxamos o Senne (Informação verbal).
Wilson Senne evoca Rafael como um personagem importante deste período.
Rafael é uma boa lembrança desses primórdios, porque acho que, se tiver que lembrar de um primeiro devir-comunitário de São Lázaro, teria que lembrar da dupla Rafael e Artur que tinham... acho que me arrastavam um pouco pra essas coisas. Foram os que arrastavam... Lembro de Rafael passando em casa e... [...] “Bora! Ô, vai ter um negoço lá. Vamo lá que a
professora tá te esperando”. “ Pera aê!” e tal. E foi na Gamboa os primeiros trabalhos. Antes disso, eu já tinha - isso é importante lembrar - dois encontros em psicologia que foi feito comunitariamente, cem por cento, praticamente sem participação do departamento, dos professores e de nada. Movimento de alunos (Informação verbal).
Em 1996, o Terceiro Encontro Nordestino de Psicologia Comunitária que acontecia pela primeira vez em Salvador foi um evento que marcou o surgimento de uma psicologia comunitária em São Lázaro. Este foi um encontro tímido e desorganizado, contando apenas com um grupo de 10 estudantes do Ceará e com alguns estudantes de psicologia de Salvador 24.
Esse evento fez o grupo ser reconhecido em outros departamentos e faculdades da UFBA. Logo em seguida, o “pessoal da psicologia comunitária” foi chamado para auxiliar em uma intervenção realizada por um grupo de arquitetura na Gamboa, uma localidade de baixa renda situada em baixo da Av. Contorno e que passava por um processo de re-locação devido ao início da higienização social da Baía de Todos os Santos. Os moradores estavam sendo forçados a receber uma indenização e alguns já tinham sido re-locados para a zona periférica da cidade, afastados do mar e do Centro da Cidade que eram os meios de sustento de quase toda a população da vila. O projeto da equipe de arquitetura objetivava refazer o modelo urbanístico do local de modo que os moradores não precisassem ser re-locados. No entanto, a equipe passava um embaraço junto à população local e às duas associações que estavam em disputa entre si. O pessoal da psicologia comunitária, então, foi chamado para integrar a equipe na tentativa de resolver tais dilemas que atravancava o processo.
24 Ainda não tinha ocorrido o boom das faculdades particulares e, em Salvador, só havia o curso de psicologia da
Neste período, a disciplina Psicologia Comunitária era optativa no currículo do curso e quem passou a administrá-la foi o professor Wilson Senne que até então tinha passado por diversas outras disciplinas como professor substituto. Foram os alunos que estavam envolvidos nesse trabalho da Gamboa que tiraram Wilson da sala de aula para auxiliar no trabalho na comunidade. Desde, então, Senne passou a se encanar com essa área da psicologia ainda embrionária e assumiu definitivamente, até os dias atuais, a cadeira da disciplina.
Esse grupo de estudantes não era grande, talvez possível até de se contar nos dedos das mãos, mas era um grupo significativo, considerando a “pasmaceira” que era a faculdade. Era um grupo bastante heterogêneo, mas que destoava da maioria dos alunos por signos corporais como roupas meio ripongas, homens com cabelos grandes, jeito de falar, leituras não comuns no curso etc.
Os signos corporais revelavam mais um tom da experimentação proposto por estas pessoas do que unicamente uma identidade alavancada por tais signos. Uma experimentação que passava por uma outra organização grupal, estabelecendo um modo próprio de relacionar-se com o conhecimento priorizando mais o aspecto hedonístico – “partir de uma percepção de que precisamos estar bem juntos”, do que o aspecto organizativo formal, mas sem abrir mão desse último.
O Fazer Fazendo, que Rafael era o organizador, foi um movimento realizado pelos alunos de psicologia cuja proposta era tentar aglomerar os estudantes num banquete regado a frutas e vinhos, a fim de discutir projetos em comuns. Esse estilo de estar-junto é visto por Rafael como algo que viria a influenciar, mais à frente, o modo de atuação do Diretório Acadêmico (D.A) e o próprio estilo dos comungos.
A gente não assumia fazer D.A. Então o D.A. que tomou prumo foi o D.A. que tinha Viviane, que tinha Anselmo [...], tinha Ivan, tinha uma galera que
começou a fazer, usar o mesmo estilo, quer dizer: um estilo de estar bem juntos, de uma coisa agradável, porque a gente fazia academia muito de
uma forma ruim, brigando, uma discussão, e a gente aboliu isso. Essa foi, eu acho que o saque, a “cagada”, e eu lembro bem que a gente descobriu isso por que Duda Tavares virou pra gente e disse: “vamos marcar um grupo de estudo para estudar isso”, esse banquete que tava rolando, pra estudar o que era isso. A galera já tava perguntando, “pô, isso é diferente”. Aí: “não grupo de estudo! A gente vai estudar aqui, fazendo a
história. E por isso o nome Fazer Fazendo, a gente não ia parar para
estudar a gente ia fazer e estudando e fazendo e estudando”. [...] Era
dentro do processo. E a Comungos vem dessa efervescência, A Comungos
[...], como a Consultoria Junior, como vários projetos que surgiram dessa
abertura... ou seja, se não tivesse havido... Não foi ninguém o autor, mas se não houvesse, não existiria, sabe? (Informação verbal)
O Fazer Fazendo não utilizava os dispositivos da política clássica (diretórios acadêmicos e movimento estudantil) para realizar as suas ações. Talvez pelo fato dos jogos de linguagem das arenas democráticas estudantis serem incompatíveis com a experimentação existencial que os grupos intentavam. A preocupação, ou o motivo, que parecia estar em primeiro plano era a de estar-juntos de maneira que as propostas coletivas fossem frutos desse pertencimento, desse bem- estar.
A Comungos, dentro da perspectiva de Rafael, seria um desdobramento de agenciamentos anteriores que já operavam pela faculdade. “O processo social está sempre deixando heranças que acabam constituindo uma condição para as novas etapas” – já dizia o sistêmico geógrafo baiano Milton Santos (2002, p. 140). Muitos dos elementos estéticos e éticos - a preocupação com os
bons encontros, a ação fora dos dispositivos da política clássica, as expressões artísticas - que atravessam esses grupos anteriores à Comungos iria também atravessá-la mais tarde. Só que de uma maneira completamente distinta.
Quase todo mundo que viria a constituir a Comungos se conheceu através da formação universitária 25 e se afinou através de algo que a formação acadêmica, no sentido formal, não oferecia. O surgimento da Comungos como uma associação da sociedade civil sem fins lucrativos foi antecedida por um complexo entrecruzamento de espaços (desdobramentos informais do espaço acadêmico), os quais as pessoas começaram a freqüentar e foram, assim, se conhecendo e se conectando. Estas vizinhanças constituíram um excêntrico espaço formativo que compôs o currículo da graduação desses estudantes.
Para compreender a formação comunga como um suplemento, como um “a mais” da formação acadêmica, precisamos traçar minimamente as configurações que a antecederam. Quais espaços convergiram para constituir a Comungos? Quais linhas a possibilitaram? Que
territorialidades ela envolveu? Quais os seus conteúdos e expressões? Como as pessoas foram se chegando? Que interesses perpassavam no grupo? Quais foram os pontos de precipitação do acontecimento?
3.2 As Primeiras aproximações entre os comungos: constituição de um território existencial