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Antes de discutir as consequências da proposta do Direito

Alexandre Nodar

11. Antes de discutir as consequências da proposta do Direito

Antropofágico, gostaria de insistir no imbricamento essencial entre políti- ca e arte no movimento. Os integrantes do movimento expressavam isso claramente. Assim, por exemplo, lemos na Revista de Antropofagia que “A descida antropofágica não é uma revolução literária. Nem social. Nem política. Nem religiosa. Ela é tudo isso ao mesmo tempo”. Não se trata de uma mera carta de intenções. Se, em 1928, a Revista de Antropofagia era ainda encarada como um blague, uma piada, um ano depois ela anunci-

ava a realização do I Congresso Brasileiro de Antropofagia8. Nesse Con-

gresso, que receberia apoio do governo do Espírito Santo – um assessor direto do secretário de Educação do estado capixaba escrevia para a Re-

9 Trata-se de Garcia de Rezende (assessor do então secretário de Instrução do Espírito Santo,

Atílio Vivacqua), que colaborou na Revista (sugerindo, inclusive, em um de seus textos, o “ensino antropofágico”), e republicou material do periódico no órgão de imprensa oficial local. Quando o evento passou a ter a chancela e o apoio do governo capixaba, mudaram também o seu nome e alcance – de “Brasileiro” se tornou “Mundial” – e a data de sua realização: 11 de outubro, “o último dia da América Livre”.

10 A atualidade de muitas das teses – eutanásia, aborto, reforma agrária, mediação e arbitra-

gem – é evidente. Outro tema que os antropófagos pioneiramente abordavam já na década de 1920, era a biomassa. Em uma carta a Joaquim Inojosa, datada de 21 de junho de 1929, o integrante da Antropofagia Clóvis de Gusmão enumera alguns elementos da “Força solidificadora da idéia central do movimento [antropofágico]”, entre as quais encontramos a proposta de uma economia antropofágica, anti-malthusiana: “- Nova engenharia. O homem se aproveitando do material fornecido pelo ambiente e elevando com ele a sua civilização. E é esse o erro básico da economia brasileira que só a antropofagia econômica corrigirá. Se nós não temos ferro, devemos criar a nossa engenharia de país que não tem ferro. Se nós não temos petróleo devemos incentivar a existência de sucedâneos do petróleo. Devemos criar a nossa química industrial. Com feição própria. É preciso que nos libertemos dos banqueiros de Wall-Street mais ainda do que da literatura francesa. // - Temos o ‘imamoim’ que dá 100% de gasolina vegetal. Temos o babaçu que resolve o problema de nossa siderurgia. Tudo isso inexplorado. É a mentalidade rotineira atuando no subconsciente dos nossos capitalistas que os impede de ver o ‘lucro máximo e novo’ que valorizaria um novo produto de exporta- ção. Taxas e sobretaxas em todo capital inerte. Imposto sobre a não constituição da família. A procriação e o trabalho como base da sociedade futura contra a escravidão econômica” (INOJOSA, Joaquim. O movimento modernista em Pernambuco. v. 2. Rio de Janeiro: Tupy, 1968. p. 405). Por outro lado, outras teses – o Estado tribal (corporativo), e a supressão do Congresso – ecoam o fascismo que, à época, estava em ascensão. Na edição do dia 17 de vista9 –, se discutiriam um decálogo de nove teses que “não representam,

porém, senão um aspecto do pensamento antropofágico”: I – Divórcio.

II – Maternidade consciente.

III – Impunidade do homicídio piedoso.

IV – Sentença indeterminada. Adaptação da pena ao delinquente. V – Abolição do titulo morto.

VI – Organização tribal do Estado. Representação por classes. Divi- são do país em populações técnicas. Substituição do Senado e Câmara por um Conselho Técnico de Consulta do Poder Executivo.

VII – Arbitramento individual em todas as questões de direito priva- do.

VIII – Nacionalização da imprensa.

IX – Supressão das academias e sua substituição por laboratórios de pesquisas.

Tais teses seriam debatidas e convertidas “em mensagem ao Senado e à Câmara, solicitando algumas reformas da nossa legislação civil e pe- nal e na nossa organização político-social”. Curiosamente, não há ne- nhuma tese estritamente artística. Mais curioso ainda é o fato de que não há, a rigor, nenhuma obra artística antropofágica. Os quadros de Tarsila do Amaral, muito mais que inspirarem-se no ideário do grupo, foram a sua inspiração. Cobra Norato, de Raul Bopp, e o par de romances Memórias

sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de Oswald de

Andrade, foram gestados muito antes da Antropofagia. Não há nenhum objeto próprio da Antropofagia. Mário de Andrade negava que Macunaíma

fosse antropofágica11, ainda que um trecho da rapsódia tenha sido publi-

março de 1929, a Revista trazia um texto assinado por Freuderico, pseudônimo de Oswald, em que os antropófagos se mostravam “contra os fascistas de qualquer espécie”, com a ressalva de que “O que nessas realidades políticas houver de favorável ao homem biológico, consideraremos bom. E nosso”. Deste modo, algo de “bom” era extraído do fascismo: o “congresso corporativo. Evolução da divisão do trabalho social (social não, tribal) pelos gru- pos totêmicos”. Em todo caso, cabe ressaltar que a maioria das teses advoga direitos negati- vos, ou seja, abstenções por parte do Estado. Há, como notou Raul Antelo, uma ligação entre o Estado mínimo e a poesia mínima (em especial “Amor”) do Primeiro caderno do aluno de

poesia Oswald de Andrade: “Como se pauta pela correlação, quando não pela identidade,

entre estereótipos verbais e rigidez moral, Oswald de Andrade intui que escritura e lei rezam pela mesma cartilha, daí que sua defesa de uma poesia mínima, meta de modernidade, possa ser decodificada como aposta em um peculiar processo de modernização, o do Estado mínimo, o que alimenta, por sua vez, a utopia modernista do comunismo e da língua surrealista. // Aceitando a idéia do (Estado) mínimo, não há como recusar a da ilegitimidade de toda outra construção que supere o mínimo. Cabe ao mínimo realizar a máxima aspiração dos visionários – a posse contra a propriedade [...] // Constata-se, assim, que o marco do texto mínimo (as condições que permitem a deriva paranomásica) funciona, alternada e simulta- neamente, como condição de possibilidade da tradição utópica (esse oxímoron...), abrindo a historicidade dessa construção ao leque infinito dos mundos possíveis. [...] // Contra a con- venção (do gênero, do Estado), a poesia Pau Brasil arma intrigas teóricas que encrespam e cruzam a verdade da ficção com o não-saber do poder” (ANTELO, Raul. Quadro e caderno.

In: ANDRADE, Oswald. Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade. 4. ed.

São Paulo: Globo, 2006. p. 27). Sobre o “Direito Antropofágico” como dimensão essencial- mente negativa do Direito, escrevi o ensaio “La unica ley del mundo”, a ser publicado no já mencionado Por una ciencia del vestigio erratico, de Gonzalo Aguilar.

11 Em carta a Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde) de 19 de maio de 1928, Mário se

queixa da associação entre Macunaíma e a Antropofagia: “E vai também a Antropofagia [refere-se a um exemplar da Revista de Antropofagia] que não sei como é que o Alcântara [Machado] não mandou para você. Sobre ela tínhamos muito que falar... Antes de mais nada: não tenho nada com ela mas já estou querendo bem ela por causa de ser feita por amigos. Só colaboro. [...] Mas a respeito de manifestos do Osvaldo eu tenho uma infelicidade toda particular com eles. Saem sempre no momento em que fico malgré moi incorporado neles. [...] O Osvaldo vem da Europa, se paubrasilisa, e eu publicando só então o meu

Losango cáqui porque antes os cobres faltavam, virei paubrasil pra todos os efeitos. Tanto

assim que com certa amargura irônica botei aquele ‘possivelmente pau brasil’ que vem no prefacinho do livro. Quê que havia de fazer!... [...] Macunaíma vai sair, escrito em dezembro de 1926, inteirinho em seis dias, correto e aumentado em janeiro de 1927, e vai parecer inteiramente antropófago... Lamento um bocado essas coincidências todas, palavra. Princi-

cado na Revista de Antropofagia e que os antropófagos constantemente a

reivindicassem como sua obra-prima12, chegando a planejar uma cerimô-

nia de “confisco” da obra. Como entender que um movimento nascido de estratégias de apropriação cultural terminasse completamente ausente de propostas artísticas ou obras de arte próprias? Como entender que, na fase final da Revista de Antropofagia, Oswaldo Costa dissesse que “Não quere- mos literatura”?