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Antes do ponto final...

Impossível me conter nesse momento, por tudo defendido até então, em que sinto desvelar o meu próprio processo dentro desta pesquisa. Construção que se iniciou pelas minhas vivências na infância, tomaram espaço ao longo da minha trajetória, alcançando a dimensão aqui demonstrada na sistematização de idéias, conflitos, descobertas e, principalmente no continuum da minha formação como pesquisadora e como professora.

Todo esse processo vivido foi intenso, “ensejou pesquisa, vontade de saber mais”(7) a cada leitura, a cada encontro, a cada observação. Nesta relação íntima com a pesquisa me vi como professora, aluna, pesquisadora, artista e diante disso tudo, admiradora da docência, principalmente quando o corpo, o movimento e a Dança são o ponto central.

Neste ressurgir, começamos por elucidar que as reflexões das professoras realizadas durante o curso permitiram a elas reorganizar pensamentos, sensações e percepções de seus corpos, da criação de movimentos e, principalmente, a enxergar a Dança no mundo como Arte, linguagem, comunicação, expressão, prazer e lazer. Como relata a professora: “A dança é Arte e como tal faz parte da humanidade. É também linguagem, instrumento de comunicação e expressão. Antes e acima de tudo, dança é movimento: corpo em movimento! [...]” (23).

Tendo em vista esse movimento e a construção de novos conhecimentos, as professoras notaram que “aquilo que não é dito é tão importante quanto aquilo que é dito” (GIROUX, 1997, p. 36). Assim, a partir do autoconhecimento, passaram a observar os outros, os acontecimentos e a dança na escola de uma outra maneira, construindo, em grande maioria, novos conceitos e valores, como relata a professora: “...o corpo fala e o nosso conhecimento não é necessariamente exprimido em papéis, o que nós aprendemos pode ser mostrado através do nosso corpo, da nossa dança.” (11).

Para ilustrar esses apontamentos, trago Laban (1990):

A sensibilidade cultivada para o movimento e sua percepção mais aguda são parte necessária da capacidade de nos relacionarmos com o mundo e os outros. Ao dançar, podemos experimentar relações em que se realça a consciência de si mesmo e dos demais. O sentido de prazer que a dança

pode nos oferecer ajuda-nos a achar harmonia e adquirir maior sentido de pertinência. Com esse fim, nosso impulso interior para o movimento deve se vitalizar e orientar-se para uma expressão plena e estruturada. Se em nossos ensinamentos ajudamos as pessoas a enfrentar seus temores e adquirir confiança para se comunicar livremente com sensibilidade e imaginação e se conseguimos que, inclusive em pequena medida, tomem consciência de seu próprio potencial e do dos demais, teremos então conseguido um êxito considerável. (Laban, 1990, p. 128)

O curso de formação continuada em contexto “Entrando na Dança” teve como consequência, por parte das professoras e por mim, uma visão mais clara sobre a Dança e sobre o corpo do professor, ultrapassando o limite escolar. Foi importante para nossas vidas, para nosso autoconhecimento e para criar necessidades e carências. No caso das professoras, a vontade de aprofundar os estudos e entender a Dança nos diferentes estágios da Educação Infantil. Já no meu caso, o desejo de continuar envolvida com pesquisas que estejam a serviço do trabalho cotidiano do professor e, como desdobramento deste estudo, construir, acompanhar e estudar a prática pedagógica da Dança na escola em conjunto com as professoras.

As professoras relataram ao final do curso o quanto cresceram nesse período, umas mais outras menos, porém todas puderam, por meio do reencontro com si, rever, ressignificar e reconsiderar seu próprio pensar sobre o corpo, o movimento e a Dança. Em concordância com elas, ressalto ainda a importância da construção do método do curso como possibilidade de experiência estética e de expressão das professoras, como forma de conhecimento, educação; como arte.

A partir dessa construção, pude perceber o quanto mudei ao longo dos encontros, um novo olhar, um outro jeito de ensinar e aprender, uma idéia diferente, um questionamento a mais. Embora tenha focado as mudanças das professoras, o meu processo de reflexão antes, durante e após a ação foi concentrado na dinâmica dos encontros e na interação com os saberes das professoras; e, como não relatar meus sentimentos e minhas sensações como professora neste processo? Impossível, visto que todo o percurso foi uma construção coletiva. Dessas reflexões e inflexões surgiram os “Comentários da professora/pesquisadora”, extraídos do meu diário de bordo. Mesmo não tendo a intenção inicial de relatar esses comentários, a metodologia da pesquisa-ação participativa me levou a isso, a expor minhas idéais, minha dúvidas, minhas angústias, minhas alegrias; o que me instiga, em outro momento, a voltar a olhar para esses registros, me debruçar sobre eles e analisar os fatos, passos, descobertas, indagações e idéias que enfatizei durante os

encontros.

Diante desse processo da pesquisa-ação, trago um relato de Franco (2005) destacando a relação entre o pesquisador e o professor, e que, pude vivenciar durante essa pesquisa: o pesquisador está por certo, prioritariamente envolvido na pesquisa e nos resultados desta; e, o professor, por certo, está prioritariamente envolvido na ação, aguardando melhorias em sua prática. Acrescento ainda, que ambos tem o propósito de transformação do contexto pesquisado.

Esse ir e vir da interligação entre professora e pesquisadora foi, inicialmente um conflito, o qual segundo Mizukami et al (2002) é inerente à pesquisa na/com a prática; mas, a própria construção da metodologia deu conta de desvelar os caminhos para articular tais olhares e papéis durante o estudo. Tal construção foi mais um dos aspectos significativos que aprendi com essa experiência.

Por todos estes motivos, essa pesquisa foi muito rica, principalmente para mim como pesquisadora e professora, que ao buscar os objetivos tive a possibilidade de aprender, ensinar, sentir, dançar, refletir e constatar que o trabalho com o corpo, o movimento e a Dança é indispensável ao professor de Educação Infantil.

Laban (1990) elucida essa necessidade mencionando que a formação dos docentes deve garantir que os estudantes sejam preparados para a vida de maneira tal que não aspirem simplesmente a se sobressair do ponto de vista intelectual ou desenvolver suas aptidões físicas, mas que os diversos esforços humanos se apreciem de maneira mais completa e se utilizem para desenvolver-se em um todo integrado. Estarão, então, melhor preparados para educar os pequenos de modo que alcancem a felicidade em si mesma e em sua relação com os demais, chegando a compreender essa manifestação básica da vida que é o movimento (p. 103).

Diante de todo o estudo realizado, registro a necessidade de as Instituições voltadas para a formação inicial ou continuada do profissional de Educação Infantil entrarem na Dança e repensarem os aspectos aqui abordados para o desenvolvimento de um docente reflexivo, sensível e inteligível.