5 DAS AGROFLORESTAS AO PICOLE DE BUTIA
5.8 ANTEVENDO O PROXIMO PASSO
Nesse sentido, uma questão importante quando se trata das perspectivas para o trabalho com sistemas agroflorestais, é a questão da comercialização e do 68 Tal parceria torna-se necessária uma vez que - como o processo de legalização das polpas ainda está em vias de finalização - ainda existem entraves para a comercialização do produto.
processamento dos produtos. O aproveitamento dos produtos é um elemento que vem sendo trabalhado dentro da temática desde meados da década de 2000, pelo entendimento da importância do uso dos produtos da agrofloresta e geração de renda com estes.
Partindo exatamente deste entendimento da importância do processamento, dá-se conta também da necessidade de se organizar sistemas de escoamento desses produtos. Daí a organização, por exemplo, da Cadeia Solidária das Frutas Nativas.
Para se avançar no processo de qualificação de processamento e comercialização, é preciso que existam políticas públicas que viabilizem o uso dos produtos da floresta. Para isso, a incidência política é um fator de suma importância. Embora avalie-se, por parte dos entrevistados, que os avanços estão aquém das expectativas criadas, alguns avanços são reais e importantes.
Nos últimos 12 anos foi possível avançar-se especialmente no que concerne à leis que permitem o uso dos elementos florestais desde que com manejo adequado e seguro das áreas. Devido ao trabalho constante de incidência junto aos governos, hoje já se pode contar com brechas nas leis ambientais que permitem o trabalho dentro da temática sem que se incorra contra o Código Florestal, por exemplo.
No Rio Grande do Sul, hoje conta-se com um sistema de certificação de áreas de manejo agroflorestal, junto a SEMA, tornando nosso estado o primeiro do país a ter uma regulamentação e autorização ambiental para manejo de agroflorestas. À nível de país, recentemente foi aprovada uma portaria interministerial do Ministério do Meio Ambiente e Ministério do Desenvolvimento Social, que reconhece as frutas nativas como de interesse social, permitindo que a legalização do processamento dos produtos seja facilitada. Essa portaria substitui a regulamentação que orientava o trabalho até então, que era regido pela Lei da Mata Atlântica. Isso faz com que, quem trabalha com esses produtos, no Rio Grande do Sul, por exemplo, desde que esteja dentro do processo de certificação estadual e regido por essa portaria, tenha seus produtos totalmente legalizados.
O grande desafio agora, segundo os entrevistados, está em saber usar essas ferramentas que foram conquistadas, de forma a qualificar o trabalho na temática e não deixar que esses instrumentos sejam banalizados no sentido de usar indiscriminadamente os remanescentes florestais.
Outra faceta da incidência política, são as relações com as organizações da sociedade, que trabalham, especialmente, na popularização e divulgação da proposta. Nesse sentido, a avaliação é de que as perspectivas são positivas, pois muitas entidades estão se engajando na proposta de desenvolvimento de sistemas agroflorestais.
Dessa forma, as perspectivas de trabalho dentro da temática no CETAP estão voltadas para a execução de projetos em diferentes fases, atualmente, e em diversos segmentos e frentes de trabalho. Ao pensar sobre o próximo passo o olhar tanto se dirige para o futuro quanto para o passado. Identifica-se o aceno de novas oportunidades no desenvolvimento do tema das agroflorestas mas com perspectivas divergentes.
pensados dentro da perspectiva do modelo neoliberal para sequestro de carbono. Por outro lado o tema se alia, definitivamente, a questões de soberania e segurança alimentar e nutricional, pelo reconhecimento do potencial nutracêutico dos produtos
que vêm sendo trabalhados (especialmente esse
sempre foi o nosso objetivo: produzir alimentos que tragam valor nutricional para as pessoas e qualidade ambiental. O tema está conseguindo adentrar nessa questão (entrevista02), estando, inclusive, dialogando com outras entidades e associações que trabalham especificamente com o tema, não estando necessariamente orientadas para a agroecologia.
Com isso, avalia-se que, sobre os aprendizados, o momento é de repensar as ações e desenvolver novas estratégias. Atualmente, a entidade passa por um processo de reavaliação das ações com sistemas agroflorestais e frutas nativas.
Um dos elementos apontados, por parte dos entrevistados, é que o esforço de inclusão de diversos tipos de colaboradores no processo, com diferentes graus de inserção dentro da temática, levou à uma falsa ideia de que o tema estava sendo tratado de forma superficial (entrevista02). Ou seja, avalia-se que, atualmente, o movimento de trabalho dentro da temática é muito mais no sentido de qualificar a metodologia, de forma a ter sistemas mais complexos mesmo que de forma menos inclusiva. É claro que, a abrangência adotada até aqui, facilitou a capilarização do tema, mas ao custo da fragilização de outros elementos que hoje são vistos como mais importantes.
Dessa maneira, a avaliação tida atualmente é de que é muito mais vantajoso se trabalhar com processos de agroecologização do que com implantação de agroflorestas, prestando a atenção, especialmente, nos sistemas tradicionais de cada região abrangida. A utilização de áreas que já possuem algum grau de importância econômica para as famílias faz com que o trabalho não corra o risco de cair na vala de dar simples utilidade à áreas até então inutilizadas, por localização ou condições do local. Somado à isso, não sobrecarrega os produtores, pois uma área a mais para manejo, por menos mão-de-obra que demande, ainda é uma demanda de maior uso dessa mão-de-obra, que muitas vezes já é escassa.
O maior conflito se dá no âmbito de não deter autonomia suficiente para aproximar o desenvolvimento dos espaços de reflexão com as práticas que deveriam surgir a partir disso. Esse é um elemento central, pois é uma problemática apontada em outras temáticas também: a dinâmica na qual as ações e projetos são desenvolvidos, muitas vezes impedem que os processos de sistematização se desenvolvam plenamente. São diversos os espaços onde se debatem temas e ações, mas poucas vezes isso é documentado de forma satisfatória (lembremos da indicação posta, anteriormente, de que a entidade necessitava de mais materiais sobre frutas nativas e sistemas agroflorestais). Isso gera a existência de um vácuo entre os acúmulos que se adquire e a efetivação dessas técnicas, especialmente no que diz respeito à replicabilidade.
As indicações são de que um novo ciclo de aprendizagem se inicia, justamente à partir da análise e reflexão dos elementos e aprendizados percebidos até aqui.