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Mapa 3: Possessões e ambições portuguesas na África In: África meridional [Material cartográfico: mappa dos limites portuguezes conforme aos ultimos tratados : Portugal-

2.2.4 Antonio Enes e as bases do Projeto Colonial

Em meio às disputas entre liberais e nacionalistas e as propostas de manutenção ou venda das colônias, um dos integrantes da nova geração de imperialistas é convidado para fazer um levantamento sobre as possibilidades de execução do projeto colonialista em Moçambique. Sua motivação, entre outros fatores, estava relacionada com a discussão que ocorria na imprensa onde “havia sido proposta ao parlamento a alienação da província de Moçambique”.265 Enes preocupava-se com os argumentos de que os territórios da colônia davam prejuízo e por isso salientava que “andavam estrangeiros a apeá-lo e nacionais a conspurcá-lo”.266

Era fato que a colônia de Moçambique dependia dos recursos da metrópole e isso fundamentava o argumento da sua venda. Os proponentes de tais pressupostos, segundo

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OLIVEIRA MARTINS, J. P, 1920, p. 287-8. Referência ao modelo sul-africano de colonização, à perda das colônias na Índia e a ameaça de conflito com a Inglaterra bem como a derrota para potentados nas proximidades de Lourenço Marques.

265 ENES, Antonio. Moçambique: relatório apresentado ao Governo. Lisboa: Imprensa Nacional, 1946, p. 7.

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Enes, sequer davam-se ao trabalho de investigar as causas dessa dependência de recursos na colônia. Por isso, para ele, a investigação de tais problemas “tinha a máxima oportunidade” e o interessava por circunstâncias pessoais.267

Tendo conhecimento dos discursos anteriores sobre a colônia e alinhado nas hostes do nacionalismo imperial, tal autor fazia uso de todas as representações existentes das colônias africanas sobre a Natureza para defender os propósitos do seu grupo. Enes possuía uma capacidade sagaz de manipulação dos argumentos prós e contras, referentes às questões coloniais. As visões sobre o mundo natural são um elemento fundamental nesses argumentos. Por isso, as primeiras descrições do Comissário Régio pautavam-se no sentimento de desânimo ante a ocupação da terra em Moçambique:

Dos seus milhões de hectares, quantos são ocupados por gentes bravias, que só poderão ser subjugadas em guerras que custariam num dia mais do que suas terras renderiam num século, ou por criaturas ínfimas que a civilização mal poderá aproveitar para instrumentos rudes de trabalho? 268

A primeira observação relaciona-se com o aspecto que ocupava as observações de Serpa Pinto: a terra e a gente. A gente ou era selvagem ou inapta para os empreendimentos civilizatórios. Note o quão desmotivado parece Antonio Enes diante deste problema. Embora a menção de subordinar os habitantes pela guerra pareça custosa, é importante salientar que é uma idéia plausível, a exemplo do que dizia Oliveira Martins. Entretanto, existem territórios despovoados e certamente seria possível apropriar-se destes, mas:

Quantos outros são areais estéreis, pântanos que exalam morte, juncais impenetráveis, leitos de oceanos efémeros que o sol depois muda em esbraseadas charnecas, serranias de cabeleiras hirsutas em que se dobra o fio dos machados, chão pobre, chão de refugo, chão maldito, que só merece ser explorado quando não houver mais terra inculta no mundo?269

Um amálgama das ideias de Hegel e Oliveira Martins é aqui repetida. O repertório desanimador sobre os problemas da natureza é exaurido por Enes. Tais características

267 ENES, 1946, p. 7. 268 Ibid., 1946, p. 11. 269

seriam ainda empecilho para o estabelecimento de vias de escoamento. Os rios, a exemplo do Busi, “fundos e estreitos” dificultavam a navegação, mormente devidos aos seus cursos serem “torcidos e retorcidos”. “Os caminhos de terra, [eram] interceptados por pântanos sem chão firme e charnecas sem água potável, ainda antes de serem infestadas pela tse-tsé”. Os custos da criação de infraestrutura seriam altíssimos e somente a exploração do ouro seria suficiente para obter retorno de tais investimentos, mas não qualquer produção; teria que

haver tanto e em tais condições de lavra que pague a estripação das montanhas, a pulverização de rochedos, a montagem de oficinas e a alimentação de máquinas em sertões ínvios e inóspitos, em que é preciso construir caminho de ferro só para estudar se ele terá que transportar.270

Como se vê, o empreendimento colonial seria muito desanimador. A menos que, com muito esforço e determinação, lentamente se dispusessem a mudar tal quadro, a única saída seria mesmo a alienação. Mas se fosse necessário, os instrumentos civilizadores esmagariam as dificuldades. A hostilidade da natureza em África poderia ser subjugada pelo poder da tecnologia. Quais seriam os esforços para tal fim? Primeiro era necessário observar, “administração pública à parte”, que a colônia ainda assim prosperava. Sabia-se que parte dessa prosperidade era fruto dos investimentos da metrópole, mas a outra parte fora resultado do esforço do investimento de recursos produzidos na colônia. Para que o projeto lograsse êxito, fazia-se necessário o uso de investimento estrangeiro, bem como fundamentalmente desenvolver a agricultura.

Porque não há-de Moçambique nivelar-se com essas suas irmãs da outra costa? É verdade que só produz a bem dizer, coco e sementes oleaginosas; mas se nada mais se tem pedido ao seu torrão e ao braço dos seus indígenas! só produz isso, mas pode produzir tudo, e essa é a sua superioridade.271

A fertilidade do solo apresenta-se, aqui, em analogia àquela apresentada por Serpa Pinto, afirmando que o “indígena” é que “fará produzir o torrão”. A pecuária poderia também ser uma opção econômica para a colônia, pois “as pastagens que alimentam densos

270 ENES, 1946, p. 17. 271

rebanhos de antílopes, de zebras, de búfalos, também engordariam gado vacumm”. Assim como “as florestas das margens do Zambeze, as da baía de Fernão Veloso e tantas outras, oferecem madeiras estimadas e resinas de preço”.272

Um dos problemas para fazer as terras produzirem, apascentar o gado e extrair madeira, consistia em definir e viabilizar o uso da força de trabalho. Empregar a mão de obra europeia era inviável, supostamente devido ao fato de que o europeu não suportaria as condições climáticas. Por outro lado, os indígenas eram “invencivelmente rebeldes ao trabalho”. É certo que muito da desmotivação indígena estava relacionada à opressão perpetrada pelos vátuas que se apropriavam da produção dos povos por eles dominados. O vátua era “o fidalgo da selvageria, para quem o trabalho é desdouro, glória o assassínio e a rapina direito”. 273 Não seria muito difícil imaginar quais seriam os planos de Enes para o Império de Gaza. Afinal, havia nas primeiras partes do seu texto, uma ideia muito clara sobre quais métodos seriam mais eficazes para dominar as “gentes bravias”. Não foi por acaso que em 1895 – ano da campanha militar que capturou Gungunhana e submeteu o referido reino – Antonio Enes era o Comissário Régio que comandava as operações. Outros meios poderiam ser utilizados para “motivar” os demais indígenas ao trabalho. Consistia em manipular “as suas paixões, – que não são as suas necessidades, – e especialmente o instinto sensual e a infantil vaidade, associadas ainda em alguns distritos às tradições da escravidão”, tais expedientes seriam úteis para sujeitar “os mais deles ao trabalho, como meio único de consecução de determinados fins”.274

Enes demonstrava, uma capacidade singular de apropriação dos argumentos e representações sobre a natureza elaboradas pelo seus antecessores. Num primeiro momento, em seu suposto desânimo, o autor lista todos os aspectos das visões do mundo natural dos portugueses contrários ao empreendimento colonial: a pestilência, o homem selvagem, a exuberância vegetal e animal de uma África inalcançável às possibilidades lusitanas. Num segundo momento, debulha o rosário de soluções, ciente das limitações, mas crente nas possibilidades de sucesso do empreendimento.

Depois deste relatório, Antonio Enes torna-se-ia o alicerce do colonialismo,

272 ENES, 1946, p. 22. 273 Ibid., p. 23. 274

exemplo de estadista e modelo e ser seguido. Fundamentou ainda os caminhos políticos, econômicos e sociais perseguidos pelos seus sucessores. Mesmo certos colonizados nutriam certa admiração por tal personagem. Tanto que a escola criada por uma associação de africanos versados na cultura europeia foi batizada com seu nome.275 Há inclusive um autor que define o estabelecimento do Estado Novo como a execução, mais de trinta anos depois, dos projetos do emérito colonialista.276