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Ao sofrimento da vida a “vingança da sabedoria”

No interessante e já citado artigo de Chevitarese publicado em, Arthur

Schopenhauer no Brasil, livro que presta uma homenagem ao filósofo nos seus 150

anos de morte, organizado por Deyve Redyson, composto de vários e instigantes artigos de produção nacional e internacional, temos a apresentação de seis pontos que sustentam o pessimismo schopenhaueriano: 1) “Na essência do mundo, encontra-se uma vontade cega e faminta”; 2) “o indivíduo deseja sempre, sendo este seu mais íntimo ser”; 3) “a vida é sofrimento”; 4) “o caráter é imutável, ninguém pode deixar de ser o que é”; 5) “não há livre-arbítrio”; 6) “toda esperança em um porvir redentor é uma ilusão”. É de se notar que o tema abordado em Sobre a Liberdade da Vontade engloba alguns desses pontos: a imutabilidade do caráter, a não existência do livre arbítrio e a desesperança em um porvir redentor e, a bem da verdade, nas entrelinhas, os demais pontos. Mas, parece que temos em Chevitarese um autor que compartilha da ideia de um “otimismo prático”, em Schopenhauer; pois, ele compreende que a partir da constatação feita de que a vida é sofrimento, haveria uma possibilidade de uma “orientação eudemonológica” para enfrentar melhor esse sofrimento: “trata-se de recomendar o exercício de uma postura positiva diante da existência: a conquista de uma ‘sabedoria de vida’” 120

. Chevitarese também considera conflitante como se pode recomendar tal postura dada inexistência do livre-arbítrio. A “sabedoria de vida” à qual se refere, no entanto, não implica em mudança de caráter, pois, como já dissemos diversas vezes, o caráter não muda; mas, quer dizer uma “lucidez positiva” de enfrentamento da

118 Cf. 2010, p. 137. 119 Cf. 1994, p. 142. 120 Cf. 2010, p. 127.

existência: “se a vida é sofrimento, a vingança da sabedoria é viver da melhor maneira possível” 121

.

Ora, a orientação schopenhaueriana não poderia ser outra, pois, sua ética não prescreve regras, já que a Vontade, o fundamento de sua filosofia, é indeterminável. O próprio fundamento da moral schopenhaueriana, a compaixão, não pode ser produzido voluntariamente: “[a compaixão] quando se faz presente, surge sempre como uma ‘graça’. Toda ação compassiva é misteriosa, uma ‘mística prática’” 122

. O que, no sentido de aceitação, paciência para com os sofrimentos, alguns podem chamar de uma postura resignada.

As virtudes, assim como os vícios, não são passíveis de serem aprendidas. Aqueles que percebemos em nós e nos outros, nos acompanham desde sempre. Contudo, quando Schopenhauer faz a classificação de caráter inteligível (“ato de vontade propriamente dito, não submetido ao princípio de individuação”) e caráter empírico (“manifestação da vontade em condições espaço-temporais, segundo a lei de causalidade”), ele também fala em caráter adquirido. Este, consiste no aprendizado e, pode nos conduzir a uma vida menos sofrida. Se conhecermos bem quem nós somos e o que queremos e como queremos, como se dá esse querer, pode ser bem menos sofrível lidar com o que somos. Isto, contudo, só se dá na experiência — caráter adquirido.

Basta uma olhada para o passado e logo apreendemos nossa essência, pois, nossos atos atestam nosso ser. Não podemos agir, como já foi dito, de forma distinta do que somos: “a idéia de uma existência sem essência é inconcebível, pois como poderia algo existir sem nada ser? [...] Cada uma de nossas ações leva, inexoravelmente, nossa marca” 123

.

Chevitarese faz uma analogia da relação entre o fenômeno e a Vontade usando a alegoria do espetáculo teatral:

Como espectador do teatro da vontade, o intelecto pode conhecer o drama que ela encena. Este ‘autoconhecimento’ que é atributo do caráter adquirido, ou seja, o conhecimento pela experiência de nosso querer, pode, efetivamente, modificar nosso encaminhamento na vida. [...] Conquistar a ‘sabedoria teatral’ significa ser um bom ator do papel que lhe cabe. [...] fazendo arte do que lhe é inevitável. 124

. 121 Cf. 2010, pp. 127-128. 122 Cf. Ibid., p. 128. 123 Cf. Ibid., p. 131. 124 Cf. Ibid., pp. 132-145.

Ou seja, o dramaturgo desse espetáculo é a Vontade; o autoconhecimento que o ator possa ter do papel que está interpretando, muito embora não possa mudar a cena final da peça, pode levá-lo a interpretar de diversas formas seu personagem. Enfim, é o intelecto que proporciona esse autoconhecimento que nos permite melhorar ou não nossa conduta. Chevitarese cita outras alegorias do próprio Schopenhauer, presentes em

Aforismos para Sabedoria de Vida, texto que integra os Parerga e Paralipomena,

acerca do “destino”. Dentre as que ele cita, achamos interessante aqui mencionar a do jogo:

as condições iniciais da vida (do jogo) são determinadas pelo destino (quem embaralha), a partir daí, é possível tentar fazer o melhor jogo possível com as cartas que se têm. Se as cartas são muito inadequadas, as chances são mínimas, embora, por outro lado, há quem faça um péssimo jogo mesmo com as cartas mais favoráveis. Tudo depende da habilidade do jogador — algo que só se aprende com a prática 125

.

O destino não passaria, portanto, de um “jogo” de sorte ou azar; apenas as jogadas dependem de nós126

.

A ética schopenhaueriana não é uma “ética da felicidade”, assim como também não é uma “ética prescritiva”, mas seria sim uma “ética do consolo”, do “qual a melhor forma para ser menos infeliz”: “seu valor é, portanto, condicional, pois sua meta, se tomada positivamente, não passa de quimera” 127

. Para Schopenhauer, se a vida é um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio, a felicidade assume o caráter negativo de cessação de um extremo ou outro:

perseguir a ‘felicidade positiva’ é como se lançar indefinidamente ao deserto, na esperança de chegar à miragem produzida pela insolação. [...] O otimismo teórico mostra então sua face perversa: a crueldade de nos fazer perseguir ‘castelos no ar’, fomentando inúmeras desgraças. 128

O termo usado por Chevitarese no título de seu artigo, “eudemonologia empírica”, corresponde, pois, à uma “ética da melhoria”; a “ética da liberdade que nos resta”. Aproveitar essa “liberdade” da melhor forma, depende de nós.

125 Cf. Ibid., p. 139. 126 Cf. Ibid., p. 140. 127 Cf. Ibid., p. 133. 128 Cf. Ibid, p. 135.

3 – A COMPAIXÃO COMO FUNDAMENTO DA MORAL

Ao sondar o enigma do mundo, Schopenhauer vê que o que há por trás de tudo, a essência do universo, outra coisa não é senão sofrimento, gerado pela oscilação entre dor e tédio. Para nosso filósofo, vivemos no pior dos mundos possíveis e, nosso desejo deve ser apenas um: de que esse mundo, tal como ele existe, nunca tivesse existido. A humanidade serve de joguete ao querer da Vontade saindo sempre como perdedora nessa disputa dela consigo mesma. O sofrimento gerado pela Vontade não cessa, é eterno. Não obstante, nos iludimos às vezes em acreditar na felicidade. Não há felicidade duradoura A satisfação não passa de um ponto de partida para um novo esforço. Tanto a causa de nosso sofrimento quanto a causa de nossa alegria reside em pensamentos abstratos, não na realidade dos acontecimentos.

Neste capítulo veremos como podemos escapar dos sofrimentos oriundos da Vontade, negando-a. Tanto a afirmação quanto a negação da Vontade consiste no conhecimento de si. Quando o homem toma consciência de si enquanto fenômeno, ele se torna claro e distinto a si mesmo, livre de qualquer ilusão. Assim ele dirá que aceita a tensão entre o querer o que não tem e o entediar-se com o que possui, ou, do contrário, negará a Vontade, suprimindo o querer. Essa negação pode se dá através da arte, quando nos consolamos dos tormentos impostos pela tensão da Vontade onipresente: no momento que se fundem homem e objeto artístico, ambos deixam de existir separados e passam a ser uma mesma coisa; ou, através da compaixão, que é quando tomamos consciência de que somos: uma unidade e, passamos a perceber o outro como parte nossa. Passamos a visar não o bem particular, mola impulsora do egoísmo, mas o bem- estar coletivo, que restaura a união do homem com os demais seres.