3.1 O catálogo de música erudita do Festa
3.1.5 Ao vivo, com a Orquestra Sinfônica Brasileira
Em agosto de 1958 o jornal Correio da Manhã anunciava o lançamento do primeiro LP sinfônico do Festa com as seguintes obras de Francisco Mignone: Primeira (1929) e Segunda Fantasia Brasileira (1931) para piano e orquestra; seis prelúdios escritos em dupla versão, pianística e orquestral (1932); Festa das Igrejas (1940) e Congada, da ópera O Contratador de Diamantes (1921). A gravação ao vivo aconteceu no dia três de maio daquele ano, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, durante o primeiro concerto da Série Nacional, da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), tendo como solista João de Souza Lima ao piano.
Dos trinta títulos de música erudita do Festa levantados pela pesquisa, mais da metade deles, ou seja, dezesseis, têm a participação da Orquestra Sinfônica Brasileira. Esses dezesseis LPs, lançados entre 1958 e 1963, foram gravados no Rio de Janeiro durante temporadas da OSB no Theatro Municipal e na Escola Nacional de Música da então Universidade do Brasil150. Entre eles figura, por exemplo, o disco LDR-5015, lançado em 1959, com Concerto para harmônica de boca e orquestra e Brasiliana nº 3, de Radamés Gnattali, com regência do próprio compositor. Eduardo Nadruz, músico conhecido como Edu da Gaita, é solista na primeira obra.
149
BANDEIRA, M. Discos. Folha da Manhã, São Paulo: 5 jan. 1958.
150
95 A OSB foi fundada em 11 de junho de 1940, no Rio de Janeiro, por um grupo encabeçado pelo compositor e maestro paraibano José Siqueira, então crítico de música erudita da Revista da Semana.151 A orquestra abrigou, nos primórdios, músicos como Hans-Joachim Koellreutter (flauta) e Cláudio Santoro (violino). Sérgio Nepomuceno Alvim Corrêa (2004) aponta que a OSB já surgiu com uma série de propostas elaboradas de modo a garantir sua manutenção financeira, o que incluía, entre outras medidas, a realização de concertos em parceria com o então Ministério da Educação e Saúde. Outra alternativa aventada era a gravação, em disco ou filme, das obras de compositores brasileiros, mediante contrato com o autor ou com o Estado, ou ainda, a cessão de direito autoral de execução por determinado período.
Nota-se que, apesar de ser uma instituição particular, a OSB desde o começo considerava o apoio governamental como um importante vetor dentro de sua estratégia de sobrevivência financeira, visto a manutenção de uma orquestra sinfônica exigir recursos elevados. Além disso, naquele momento a música sinfônica sofria com a concorrência do cinema, disco e rádio. Contier diz que já nas décadas de 1920 e 1930,
A reprodução mecânica substituía a orquestra ao vivo, despendendo quantias bem menos elevadas. Nos Estados Unidos, as orquestras viviam em défict permanente. No Brasil, os problemas eram semelhantes. Os conjuntos orquestrais criados em São Paulo durante os anos 20, não conseguiam sobreviver por falta de subvenção. Por esse motivo, muitos intelectuais agarraram-se ao Estado em 1930, visto como o único empresário capaz de manter, sem nenhum interesse financeiro, esses conjuntos orquestrais ou corpos estáveis de bailado, coros e grupo de óperas (CONTIER, 1988, p. 399).
No início, além de obter recursos por meio de assinaturas e venda de ações, a entidade particular contou com o apoio de seu primeiro presidente, Arnaldo Guinle.152 O espaço para a sede administrativa da orquestra, por exemplo, foi cedido pela empresa Docas de Santos, na época presidida pelo industrial. Além de doar os instrumentos para a orquestra, como harpa e piano, no final de 1942, Guinle também obteve apoio do
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Além de Siqueira, participavam do grupo os professores da Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil (Alberto Lazzoli, Antão Soares, Antônio Leopari e Orlando Frederico), professores do Serviço de Educação Musical e Artística da Musicalidade (Nelson Cintra, Iberê Gomes Grosso e Djalma Guimarães), o capitão do Exército brasileiro Fortunato Nascimento e o funcionário público José Gonçalves Bandeira (CORRÊA, 2004).
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Arnaldo Guinle ocupou a presidência da OSB em dois momentos: 1940-1948 e 1956-1962. Como mecenas, contribuiu, entre outras ações, junto ao irmão Carlos Guinle e a Olívia Guedes Penteado, para o lançamento da carreira de Villa-Lobos na Europa, na década de 1920 (CONTIER, 1988).
96 governo federal para a empreitada graças ao trânsito que desfrutava com o presidente Getúlio Vargas (CORRÊA, 2004).
De acordo com Corrêa (2004), entre as décadas de 1940 e 1950 a corporação passou por constantes crises institucionais. Em 1957, durante os anos JK, sofreu intervenção do Ministério da Educação e Cultura, na gestão do ministro Clóvis Salgado. Na oportunidade, o governo teria concedido subsídio de 10 milhões de cruzeiros à orquestra.153 Além disso, nomeou o musicólogo Mozart de Araújo como interventor da OSB, que então formou uma comissão artística para dirigir o conjunto sinfônico, composta pelo diretor artístico da orquestra, o maestro Eleazar de Carvalho, bem como por Francisco Mignone e pelo escritor e dramaturgo Guilherme Figueiredo.
André Acastro Egg (2010) aponta que, a partir do início da década de 1950, após a morte de Mário de Andrade, em 1945, e da partida de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo para o exterior, Mozart de Araújo torna-se um líder do nacionalismo musical e importante interlocutor de compositores nacionalistas no Rio de Janeiro.154 No final daquela década, Araújo acumulava a vice-presidência da OSB e a direção geral da Rádio MEC, cargos que, segundo o crítico Eurico Nogueira França, teria conquistado graças à ajuda do amigo Camargo Guarnieri, então assessor de assuntos musicais do MEC, na gestão Clóvis Salgado.155 Nessa época, de acordo com Corrêa (2004), a orquestra viveu seus “anos fonográficos” ao gravar entre 1958 e 1959 uma série de LPs de música erudita brasileira.156
Em 1959, Araújo declarou ao Diário da Noite que a Rádio MEC estava patrocinando a gravação de uma série de discos de música erudita brasileira com a OSB. O repertório incluía a “música mineira do século XVIII, levantada após minuciosas pesquisas em diversas cidades ligadas ao ciclo de ouro, pelo pesquisador e musicólogo Curt Lange”, além de concertos com obras de Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, Francisco Mignone e do padre José Maurício Nunes Garcia.
153
MASSARANI, R. A nona e a O.S.B. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro: 4 jun. 1957.
154
Mozart de Araújo publicava textos na imprensa em defesa do nacionalismo musical desde 1946, mas seu principal texto com este teor foi aquele utilizado para a conferência A música brasileira e o nacionalismo musical, proferida em Fortaleza, em dezembro de 1949 (EGG, 2010).
155
FRANÇA, E. N. Concêrto da OSB. Correio da Manhã, Rio de Janeiro: 5 ago. 1958.
156
Segundo Corrêa (2004), a OSB já havia gravado discos anteriormente. Em 1943, gravou um disco em 78 rotações pela Odeon, com o Hino Nacional Brasileiro, regido por Eugen Szenkar, na Escola Nacional de Música, para ser distribuído de forma gratuita. Em 1952 gravou pela marca Cambridge, com fins comerciais, o LP Orquestra Sinfônica Brasileira, com obras de Carlos Gomes, Lorenzo Fernandez, Fructuoso Vianna, Francisco Braga e Alberto Nepomuceno, sob regência de Eleazar de Carvalho.
97 Araújo não menciona o nome do selo Festa na reportagem, mas é possível afirmar que a gravadora participava do referido projeto da Rádio MEC, considerando que em 1958 lançou discos em que a OSB executava o repertório citado pelo jornal. Cabe lembrar que Garcia e Araújo haviam colaborado para a Revista da Música Popular (1954-1956), de Lúcio Rangel e Pérsio de Moraes.
A matéria do Diário da Noite informava que a primeira leva de LPs, produzida em 1958, já havia sido inclusive encaminhada às instituições estrangeiras. Nas palavras de Araújo, aquela produção fonográfica iria “mostrar no exterior a capacidade criadora do brasileiro neste setor de cultura” e havia recebido boa acolhida na Europa e América Latina. Araújo prossegue:
Dando sequência ao programa organizado pelo ministro Clóvis Salgado, para o ano em curso [1959], a Rádio Ministério da Educação procurará patrocinar uma série de novas gravações, todas elas em “long-playing”, num total aproximado de doze. No ano passado, que marcou o início do trabalho, conseguimos fazer onze discos, que já começaram a ter sua distribuição à discotecas e entidades culturais de cunho internacional. De alguns países já recebemos não só o agradecimento pelo envio das gravações, bem como observações efetuadas acerca da excelência das composições. Como não podia deixar de ser, a música mineira do século dezoito, de cunho eminentemente barroco, é a que está suscitando maior volume de estudos e investigações. Graças à sua descoberta, já foi possível inclusive colocá-la como fundo musical de cinco documentários rodados em velhas cidades de Minas, coloridos e em “cinemascope”. O apoio dado pelo ministro Clóvis Salgado a esta iniciativa está sendo o principal fator de sucesso.
De acordo com Araújo, a iniciativa havia saído “a preços baixos”, pois a OSB mantinha contrato com o Ministério da Educação e Cultura para apresentação de uma série de concertos em função da subvenção estatal recebida pela orquestra. Segundo Araújo,
Se fôssemos contratar orquestra e pessoal especializado para efetuar as gravações dos números selecionados [...] o programa de música erudita ficaria caríssimo. O que estamos fazendo para baratear o custo dos discos é justamente o uso dos concertos da própria Orquestra Sinfônica Brasileira, como base para gravar os números de compositores brasileiros, além do trabalho dos nossos técnicos e de alguns de empresas que se dedicam a esta indústria. Somente assim poderíamos alcançar objetivo tão elevado com poucos recursos, conseguindo maior número de exemplares de discos para uma
98 constante divulgação de nossa música no estrangeiro e, mesmo, em diversos pontos do território nacional.157
A pesquisa não localizou os contratos firmados entre o MEC e a Festa para entender com precisão os termos dessa parceria. Uma hipótese que me parece provável é a do selo ter sido convidado pela Rádio MEC para realizar o trabalho de gravação e impressão dos discos por conta própria. Esses passariam a integrar o catálogo da gravadora de Irineu Garcia. Por outro lado, o Ministério se comprometeria a comprar e distribuir boa parte daquela produção feita sob encomenda.
Uma informação veiculada no jornal O Metropolitano158 corrobora essa ideia. Segundo o impresso, Irineu Garcia havia gravado com apoio do MEC o concerto com as obras localizadas por Curt Lange no interior de Minas Gerais e o ministério havia adquirido parte dos discos (no caso, a coletânea Mestres do Barroco Mineiro) para distribuí-los a entidades internacionais que se dedicavam à música erudita. 159 Entretanto, como já apontara Mozart de Araújo, a distribuição dos LPs não seria feita exclusivamente para países estrangeiros, mas também para “diversos pontos do território nacional”. Um dos discos localizados durante a pesquisa na Discoteca Pública Natho Henn160, Francisco Mignone (1958), traz um carimbo com os seguintes dizeres: “Contribuição da Campanha de Assistência ao Estudante do M.E.C. na divulgação da música erudita brasileira”.161
Pelo relato de Mozart de Araújo ao Diário da Noite, a iniciativa de realizar o registro fonográfico dos concertos não teria partido do selo Festa, mas, sim, da gestão do ministro Clóvis Salgado, por sinal, admirador de música erudita e marido da cantora lírica Lia Salgado. Segundo o crítico Zito Baptista Filho, a iniciativa estatal teria ido de encontro às aspirações de Irineu Garcia, então interessado em expandir o catálogo da gravadora:
157
BRIABRE. Música do século XVIII em elepês. Diário da noite, Rio de Janeiro: 16 jul. 1959.
158
O jornal foi fundado em 1959 por um grupo de estudantes da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, que incluía Carlos Diegues, Arnaldo Jabor, José Carlos Avelar e Paulo Alberto Monteiro de Barros (conhecido pelo pseudônimo de Arthur da Távola). O semanário era órgão oficial da União Metropolitana de Estudantes e circulava aos domingos no jornal Diário de Notícias. Os colaboradores não estavam necessariamente ligados ao movimento estudantil. Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/metropolitano-o. Acesso em: 18 ago. 2018.
159
DYKERMAN, M. Descobertas no terreno musical. O Metropolitano, Rio de Janeiro: 7 jun. 1959.
160
A discoteca é sediada em Porto Alegre e pertence à Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul.
161
A Campanha de Assistência ao Estudante foi instituída em 1958, durante o governo JK, e tinha como metas, entre outras, conceder bolsas de estudo, instalar restaurantes e melhorar bibliotecas.
99 A Orquestra Sinfônica Brasileira, sempre maciçamente subvencionada pelo Estado, foi instada a trabalhar mais assiduamente o repertório nacional, isto por iniciativa do Sr. Mozart de Araújo, então diretor da Rádio Ministério da Educação e Cultura, na gestão Clóvis Salgado. Essa coincidência foi feliz, dizemos, porque encontrou Irineu Garcia disposto a expandir o catálogo de seus discos “Festa” nesse inexplorado terreno da música brasileira.162
É possível imaginar que o nacionalismo musical figurava no escopo de Garcia – e não apenas pela escolha do nome de Mignone para a estreia da gravadora na seara erudita. Antes de criar a gravadora Festa, ele havia comungado do ideário varguista: no final da década de 1940, em período pós-Estado Novo, Garcia era apontado como vice- presidente do Movimento da Juventude Trabalhista, ligado a Getúlio Vargas.163 A meu ver, o predomínio de autores ligados ao nacionalismo musical na série erudita do Festa não deve ser entendido como mera imposição de uma encomenda comercial do Ministério da Educação e Cultura. Ao que tudo indica, Irineu Garcia gravaria, por opção própria, muitos desses autores nacionalistas. Entretanto, por certo, o repertório orquestral gravado pelo selo foi pautado não pelas escolhas de Garcia, mas pela OSB e MEC.
De qualquer forma, Festa não foi a única empresa fonográfica a participar deste projeto do MEC. A gravadora Discos Rádio, por exemplo, também gravou ao vivo concertos da OSB com repertório dos compositores Alberto Nepomuceno e Alexandre Levy, cujo resultado foi apresentado no dia 19 de janeiro de 1959, no prédio do Ministério da Educação e Cultura, para o ministro Clóvis Salgado e convidados. Entretanto, as gravações não chegaram a ser lançadas pela Rádio. Ao desistir de sua breve incursão pelo setor erudito164, a gravadora cedeu as matrizes ao selo Festa, que lançou os dois discos naquele mesmo ano.
162
BAPTISTA FILHO, Z. Do barroco a Vila-Lôbos. O Globo, 30 abr. 1962.
163
Vargas definia o movimento como “uma escola de homens para servir o Brasil” e esperava que “a mocidade das escolas, do comércio, da indústria e da lavoura” compreendesse que “a política, tomada a palavra no seu mais alto sentido, não deve ser estranha às suas cogitações de uma cruzada em torno do que exige levantar a bandeira das idéias, como sejam consubstanciadas no programa trabalhista”. In: JORNAL DO COMMERCIO. Vargas ordenou a Walter Rayol organizar o Movimento da Juventude Trabalhista. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro: 19 jul. 1949.
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Conhecida pelos discos dançantes do pianista Waldir Calmon, a Discos Rádio lançou seu primeiro disco erudito em 1957, com o pianista Agustin Anievas (EUA), que naquele ano havia participado do I Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro.
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