• Nenhum resultado encontrado

A

NÁLISE DOS ATRAVESSAMENTOS E MOVIMENTOS DE CONSTITUIÇÃO DE MEU SER DOCENTE

-

ARTISTA

No presente capítulo, apresento uma breve análise e uma reflexão daquilo que me atravessou ao confeccionar uma biografização de meu trajeto formativo enquanto pessoa, artista de teatro e professor de artes.

Figura 71: O camaleão em processo de mutação – Animal que simboliza a minha passagem neste

mundo.

Ao tecer a minha biografização fui aprofundando o conhecimento sobre mim, observando atentamente os elos, os significados dos vividos e dos atravessamentos que me fazem ser quem sou. Olhei para o papel central que a arte e a educação tiveram na constituição de mim partindo da premissa que o que sou é resultado de encontros singulares em meio a pluralidade de ocorrências. Identifiquei que o olhar para si - para as particularidades e singularidades das quais somos compostos - é uma constante tarefa desenvolvida nos processos investigativos do biógrafo

acerca do seu processo de vida e das reverberações emergentes do seu contato com as memórias e das suas vivências enquanto sujeito singular-plural. Segundo Josso,

trabalhar as

questões de

identidade,

expressões de nossa existencialidade através da análise da interpretação das histórias de vida escritas, permite colocar em evidência a pluralidade, a fragilidade e a mobilidade de nossas identidades ao longo da vida (2007, p.

415).

Foi nesta vertente que atentei o meu olhar perante as minhas origens, meus lugares e locais de pertencimento, as relações afetivas que me influenciaram. A presença de pessoas tão complexas, distintas, diferentes que, com suas particularidades, influenciaram na construção do meu eu.

Os fatores da identificação, do pertencimento, das relações constituídas nos espaços de vivências e experiências apresentam as influências do sujeito, como também, oportunizam a reflexão do sujeito para o seu interior, para as marcas do tempo que estão vivas e latentes em si.

Biografizar-me possibilitou trazer à tona as minhas origens, elucidar a para mim mesmo as minhas escolhas e, principalmente, entender-me como projeto inacabado e em constante construção. Não uma construção qualquer, mas uma tessitura única porque é feita de elementos que dão sentido ao que sou.

A palavra “Camarense” presente no título desta dissertação incorpora o local onde nasci, o quintal onde cresci, as cacimbas onde mergulhei, os ventos por onde me aventurei, os principais

sujeitos que coloriram as minhas penas.

Não é uma cidade qualquer, é o meu berço, é a terra que me fez quem eu sou, é o solo por onde pisam as minhas principais referências. É a cidade que carrega a linda história do meu povo, dos meus familiares, da minha gente.

Nesta perspectiva, reconheço a minha identidade com os fatores preponderantes na própria cidade narrados em muitos momentos de minha (auto)biografização acima em que os meus feitos e os desafios da minha existencialidade, incluindo as muitas barreiras que enfrentei e enfrento.

Compreendo que o campo do reconhecimento identitário revela e reforça as primícias de que a identidade do sujeito é concebida por processo de rupturas, conflitos e superações. De acordo ainda com Josso:

[...] a questão da identidade deve ser concebida como processo

permanente de identificação ou de diferenciação, de definição de si mesmo através da nossa identidade evolutiva, um dos sinais emergentes de fatores

socioculturais

visíveis da existencialidade.

(2007, p.415).

Analisar os conflitos vividos, os momentos de crises existenciais, observar meu trajeto para além do que a minha memória era capaz de sinalizar, colaborou para que eu respeitasse e valorizasse as bases da minha formatividade.

Os estudos (auto)biográficos ancorados nas histórias de vida permitiram que eu me debruçasse na investigação dos meus alicerces através da minha própria identidade ao analisar o trabalho transformador do meu eu interior, no que concerne o reconhecimento da minha identidade ligada à narração das histórias de vida.

A partir do delineamento das imagens organizadas no tabuleiro da minha vida, passei a observar e “avivar”

os momentos de aprendizagens e contatos que tive com o mundo e comigo mesmo. A presença da arte e da educação, a latência da cultura do meu povo, a constituição do menino arteiro que habitava em mim, que sempre habitou em meu imaginário, em meus sonhos.

Conforme as inferências sobre os escritos de Josso (2008), compreendi que sou corpo, somos corpo. Corpos que verbalizam através do toque, que se comunicam pelas ondas sonoras da vida e dos atravessamentos nas relações interpessoais.

Após realizar a biografização, entendo que nosso corpo apresenta gatilhos internos que permitem elucidar o nosso trajeto, iluminando nossos caminhos e que um processo de biografização é como uma fotografia do que podemos ver em um momento.

A biografização me permitiu compreender que não há “a vida”, mas um conjunto dinâmico de acontecimentos que fazem sentido para nossas escolhas e que são uns ou outros dependendo do momento em que se olha para o trajeto vivido. Assim, fui sentindo a presença do meu corpo e a legitimação dos meus anseios e aspirações, reconhecendo o meu legítimo espaço como pesquisador, artista, docente, homem, pai, sujeito que vive e convive em sociedade desde esse período de 2020 até 2021. Biografizar-me em plena pandemia e tudo o que isso implica, me faz tecer um trajeto em que me

apresento como um jovem andarilho singular, que carrega em seu corpo as experiências de seu território geográfico e afetivo – a cidade de João Câmara e todas as suas cores.

Me permiti observar o meu trajeto nesta pesquisa acerca dos dispositivos biográficos, ou seja, um sujeito que se permite sentir\reviver aquilo que expressa e carrega, as marcas talhadas pelas relações dos contatos do sujeito com os demais indivíduos, na relação plural da vida social.

Nada mais fui\sou hoje do que um indivíduo que vislumbra conhecer mais sobre si para dialogar mais e melhor com seus alunos. E é essa busca pela identificação das tessituras da história da própria vida como motivo para seguir o que aprendi com esse processo.

Para a realização da pesquisa (auto)biografica, passei a reconhecer a extrema importância do meu mergulho dentro do rio caudaloso da minha cabeça, das minhas memórias, das vivências que tive no quintal da minha vó, nos sítios, nos terreiros das quadrilhas juninas, nas salas de aulas e

projetos culturais, educativos e sociais que tive a honra de participar.

Ao analisar gradativamente as primeiras imagens reconstruídas do meu trajeto formativo, perguntas sobre a necessidade da pesquisa foram surgindo, permitindo que eu buscasse olhar para trás, para o presente e para o futuro em busca de respostas.

Todo o tempo fui observando o meu espaço como sujeito inacabado, me perguntando - por qual motivo pesquiso?

- O que preciso fazer para caminhar livremente no meu trajeto como andarilho na minha própria história?

Para responder a essas inquietações, busquei luz nos escritos de Peres, que por sua vez afirma que

os dois pés precisam manter um mesmo ritmo para unirem a

pessoa e o

pesquisador, pois quem produz o sentido são as intimações da pessoa revertidas do profissional que habita e vice-versa (2011, p. 174).

Assim, uma nova chave apareceu em meus ouvidos na calmaria de uma noite de sábado. A partir daí, passei a sentir com mais naturalidade,

sem afobação, os traços formativos, os rascunhos do tempo, os ritmos que a vida me impôs. A necessidade de firmar os pés no chão não me limitava ao solo, nem tampouco me impedia de voar. Eu precisava ter clareza que enquanto docente-artista, passaria a refletir constantemente sobre as minhas intimações internas e aquelas advindas das necessidades externas, que me foram permitidas através dos contatos e aprendizagens plurais.

Desta forma, fui percebendo as nuances do corpo, inferindo e buscando respostas, tentando entender os resultados das chaves e aberturas de portas que me fizeram seguir nos trilhos da vida.

A biografização trouxe para meu mundo a incorporação e materialização dos vividos, o olhar atento para as lembranças existentes em minhas memórias. Fui compilando com muita seriedade e respeito cada informação que estava latente, para além das fotografias apreciadas, dos recortes de textos, mensagens, depoimentos narrados. Reuni elementos para desvendar os mistérios momentâneos que envolvem a pesquisa

(auto)biográfica no âmbito das minhas histórias de vida.

Essa compilação começou a ser tecida quando fui intimado pela natureza da vida, pelas relações naturais com os meus familiares, aqueles momentos espontâneos, ao esbarrar com um dos sujeitos que estiveram/estão presentes na minha história.

Ao longo do meu trajeto, tive a oportunidade de viver novamente momentos sublimes que influenciaram o meu caminhar, a minha maneira de enxergar o mundo, as intimações que a vida me obrigou a respeitar e aceitar, a maturidade que foi constituída com a intervenção da arte e da educação.

Ao reavaliar os

direcionamentos, as setas do meu caminho como pesquisador, fui

elucidando pensamentos,

materializando ações e acontecimentos, rememorando passagens que tiveram forte influência na pessoa que sou. A forma que ando, que falo, que me porto com as pessoas, a minha educação, as minhas relações interpessoais, as maneiras que adotei para criar as

minhas filhas, carregam os traços e influências de várias outras vidas.

No entanto, entendo que o processo de biografização nos permite afinar compreensões da nossa própria existência em consonância com os atravessamentos da história. Assim, podemos ampliar os horizontes da nossa ótica Investigativa acerca daquilo que podemos filtrar. De acordo com Josso,

A história da vida é,

assim, uma

mediação do

conhecimento de si

em sua

existencialidade, que oferece a reflexão de seu autor oportunidades de tomada de consciência sobre diferentes registros de expressão e representação de si, como as dinâmicas de si, que orientam a sua formação (JOSSO, 2007, p.419).

Portanto, seguindo a linha de raciocínio da autora, olhando para o meu trajeto e para as aspirações da minha pesquisa, entendo que a reflexão do sujeito ao longo das travessias da vida, acarretam na compreensão e tomada consciente das decisões e escolhas que se faz ao longo de um

trajeto. Através desta reflexão de si, o sujeito passa a colaborar para o aprofundamento que norteia a sua formação como sujeito social.

Com base nos escritos de Delory-Momberger (2008), por sua vez, a biografização corresponde a um processo que se utiliza da ação dos sujeitos ao narrar e compartilhar suas histórias. Este processo, portanto, é tecido pelos percursos da vida que, de acordo com as reflexões da autora, se encontram e se relacionam com o biógrafo, o formativo e o político no mundo. E, ainda, é nos percursos de vida que se dá a figuração de si do sujeito.

Segundo Delory-Momberger,

Cada um representa sua existência segundo suas trajetórias e construções

diferentes que

integram as

restrições, os

valores, as

dinâmicas ou o peso de seu meio socioprofissional (2008, p. 36). Mergulhado nas tessituras da autora em defesa da narrativa de vida como fio condutor da própria história de si, ancorei as bases do meu estudo autobiográfico acerca de dois pilares: 1.

Dimensão individual e 2. Dimensões sociais. Com isso, voltei-me para as contribuições das vivências que foram nutridas através das minhas relações interpessoais enquanto sujeito singular-plural.

A figuração de um sujeito na sua história de vida corresponde ao seu percurso, e para que compreendamos os desdobramentos da nossa história, para entendermos que temos uma história, é primordial sentirmos que somos escritores coautores das nossas vidas, pois somos crias singulares-plurais.

Segundo, ainda, Delory-Momberger A figuração de si corresponde a narrativa que faz de nós o próprio personagem de nossa vida, é ela enfim que dá uma história a nossa vida: não fazemos a narrativa porque temos uma história, temos uma história porque fazemos a narrativa da nossa vida (2008, p.34).

De acordo com a perspectiva da autora, acolho o processo de figuração de mim próprio como sujeito que vai se atualizando conforme as reverberações das memórias que emergem e que vão me proporcionando a análise de algumas

passagens e dos acontecimentos costurados nelas.

Através do escopo da (auto)biografização, levando em consideração a figuração de si do sujeito, segundo conceitua Delory-Momberger, configura-se "como uma ação permanente de figuração de si que se atualiza na ação do sujeito ao narrar sua história a tal ponto que ele se confunde com esta" (2008, p. 17).

O método (auto)biográfico possui bases referenciais imaginativas que se mesclam nos imaginários, pensamentos e aspirações dos sujeitos biografados e que em parte constitui a verdade de si mesmo.

Assim, chego à compreensão de que o sujeito é complexo e carrega consigo marcas, heranças de vidas, de outras vozes e roupagens. Além de complexo, é marcado pelas tensões e muitos atravessamentos diante das relações interpessoais, das imposições sociais envolvendo valores, crenças e as relações de poder.

No âmbito da figuração, seu reconhecimento do pertencimento social, o sujeito passa a literalmente se reconhecer enquanto parte formadora

de um grupo social, de determinada cultura, como ser criador.

A figuração do sujeito enquanto protagonista da sua história acontece na mesma corrente em que é marcado pelo protagonismo plural, entendo que o sujeito constrói seu roteiro de vida acerca do processo de caminhar para si.

JOSSO reconhece esse processo como, um processo a ser construído no decorrer de uma

vida, cuja

atualização

consciente passa, em primeiro lugar, pelo projeto de conhecimento

daquilo que somos, pensamos, fazemos, valorizamos e desejamos na nossa relação conosco, com os outros e com o ambiente humano e natural (2004, p.

59).

De fato, olhar para o trajeto, para as partituras que compõem o todo que por consequência é inacabado, oportuniza o olhar consciente, se não, pelo menos caminha para o despertar da consciência do processo futuro, das escolhas do passado, daquilo que vivemos no presente. Caminhar para si é se permitir acessar lugares íntimos, é

sentir reverberações que só nosso eu subjetivo é capaz de entender.

Segundo Larrosa,

A experiência é aquilo que nos acontece, o que nos toca. Fazer uma experiência com algo significa que algo nos acontece, nos alcança, que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma (2001, p.

2).

As afirmações do autor caminham em consonância com as minhas crenças sobre o poder da experiência. E com base nesta afirmativa, me permito refletir sobre as escolhas dos momentos que me tocaram e, por conta disso, venho tecendo as imagens que circundam a minha mente.

Entendo que nem tudo pode ser considerado experiência, uma vez que não nos damos conta de tudo que nos acontece, nos toca, nos transforma. Por conta disso, ative-me às experiências marcantes e pulsantes que estão presentes e latentes nos escritos da minha pesquisa autobiográfica.

Falar de si/mim repercute na ativação de conectivos que estão presentes nos arcabouços

hermenêuticos da minha vida e da minha existência. Sendo assim, busco organizar nas minhas caixinhas da mente e das minhas memórias, os elementos e tessituras que nelas estão espalhadas. É como se estivessem imersas na correnteza de um rio caudaloso, necessitando, de minha parte, habilidades e, principalmente, o exercício da respiração para que possa fisgar as imagens constituídas no interior deste rio que carrega a minha totalidade enquanto sujeito, sem direção e sem saber aonde chegará.

Tais reverberações, nesta reflexão sobre as imagens refletidas no rio caudaloso, que necessitam de pulso, respiração e habilidades para galgar êxito no fisgar de si/mim estão associadas intrinsecamente as relações de tempo-espaço, daquilo que dou conta de filtrar e refletir dentro do núcleo de cada travessia do meu trajeto enquanto artista-docente. Delory-Momberger afirma que:

O espaço-tempo, segundo o qual figuramos os limites de nossa existência, é de fato aquele no qual nascem nossas histórias, ou seja, as construções segundo as quais aprendemos

nossa vida (2008, p.

36).

Por meio da biografização fica evidenciado que a cada palavra escrita previamente rememorada e posteriormente refletida, o sujeito concede a si próprio a oportunidade de olhar para seu interior, podendo desnudar-se de retalhos que não contribuem para seu progresso enquanto sujeito social, como também, elucidar as potencialidades geradoras que estão presentes em seu escopo de vida e existência.

Delory-Momberger continua explicando que [...] "quando queremos nos apropriar de nossa vida nós a narramos" (2008, p.36). Desta forma, fiz a escolha da apropriação. Decidi pelas linhas escritas desta pesquisa me apropriar de quem sou, do que represento e do posso ser/viver.

Sendo assim, seguindo essa corrente das percepções de si, do sujeito, através da vida narrada, Delory-Momberger afirma que:

o único meio de termos acesso a nossa vida é percebermos o que

vivemos por

intermédio da escrita de uma

história (ou de uma multiplicidade da história) de certo modo, só vivemos

nossa vida

escrevendo-a na linguagem da história (2008, p.

36).

Através das contribuições da autora compreendi que quando somos capazes de reconhecer que somos escritores da nossa história, passamos a vivê-la com mais sabor e comprometimento com o mundo.

Por essa via, caminhei através de um novo percurso, estando mais sensitivo para filtrar as pegadas no meu caminhar, trazendo comigo a essência da composição do artista Chico César:

"caminho se conhece andando". Desta forma, procurei ser um andarilho resiliente nesta imersão reflexiva da vida em constante transformação.

Delory-Momberger quando se refere ao sujeito, especificamente ao indivíduo pós-moderno, afirma que:

[...] o indivíduo tornou-se o homem plural descrito por Bernad Lehire (1998): ele não é mais o representante de um grupo e da lógica social inerente a esse grupo, mas o

produto complexo de experiências

socializadoras

múltiplas"(2008, p.

75).

A presente linha de raciocínio da autora, me permitiu assumir o meu espaço de sujeito tecido por múltiplas experiências que foram alimentadas acerca de vários acontecimentos e starts, que proporcionaram ativação do meu olhar enquanto sujeito singular para o outro.

Considero que me reconheço como um sujeito que carrega em seu trajeto imposições culturais, políticas, espirituais e sociais que, por sua vez, demarcam as digitais de uma partitura deste mundo que vivo.

Tenho consciência que fui atravessado pelos rabiscos da cultura do meu povo, da região que vivo, das verdades impostas por essa sociedade e, agora, me vejo na missão de me despir de alguns tabus, estereótipos que não cabem mais na mala. Que a arte esteve presente em todas as minhas vivencias e manifestos de viver. A arte através da educação fortaleceu minhas asas para que eu pudesse fugir das dores que a vida, por sua magnitude, me apresentou

ao longo da vida. A arte foi o meu refúgio em diversos momentos.

Por essa via, reflito sobre a escrita da minha pesquisa e ao fazer isso, passo a operar com a narrativa como uma formação continuada. A formabilidade, de acordo com as perspectivas de Delory-Momberger é:

uma capacidade de mudança qualitativa

pessoal e

profissional

engendrada por uma ação reflexiva com sua história considerada como um processo de formação (2008, p.

99).

Assim, compactuando com as contribuições da autora, através da narrativa, escrevi e refleti sobre as minhas travessias, como atos que acoplam partituras de um espetáculo apresentando os ciclos da minha formação.

Demarquei os frutos da minha evolução, observando a história como cenário formativo, como o enredo da minha existência. Delory-Momberger (2008) desdobra escritos sobre os ciclos de contação de si do sujeito, como uma abordagem que alimenta e ativa conectivos para reflexividade sobre a

produção da vida envolvendo a história de vida e formação do sujeito.

Na condição de docente-artista que sou, que me assumo perante a sociedade com bastante altivez, congratulo o meu próprio trajeto, respeitando todos os vividos, cada experiência formativa.

A minha biografização reafirmou a minha presença e as influências dos meus pares em meus ciclos formativos, como também, a presença da arte, do imaginário, da contação de histórias que foram reverberando, ramificando cada experiência vivida. Reconheço que sou um sujeito repleto de singularidades e pluralidades, tendo consciência das influências dos atores sociais que me teceram em meus bordados, em minhas vestes.

É ainda, Delory-Mombergerque nos apresenta a emergência do

"reconhecimento da vida como experiência formadora'' (2008, p. 99), ou seja, a autora dimensiona e reconhece a narrativa como formação como a base da existência dos sujeitos. Observo nesta afirmação, olhando para a minha trajetória como andarilho dentro da minha própria história, que as imagens

que foram estruturadas acerca de minha linha do tempo, dos recortes da minha vida, fortaleceram a costura da biográfização, tecida, analisada e partilhada neste lindo processo de reafirmação da vida através da pesquisa acadêmica.

Entendo que a tarefa de organizar as minhas memórias, filtrar os acontecimentos que estiveram\estão latentes em mim, como também, a busca pelos recortes que não estão tão claros, facilitou o reconhecimento deste todo, e principalmente, a minha autoafirmação que sou um sujeito inacabado.

Tais desdobramentos são conceituados por Delory-Momberger:

[...] como uma hermenêutica

prática, um quadro de estruturação e significação da experiência por intermédio do qual o indivíduo se atribui a uma figura no tempo, a uma história que ele reporta a um si mesmo (2008, p. 27).

Olhei para os achados refletidos sobre mim, analisei as minhas contribuições para a sociedade, me permiti entender como me tornei

docente-artista, a didática, as metodologias e abordagens de trabalho, os repertórios de avaliação docente, o professor que foi constituído pelas coisas boas e também pelas experiências não satisfatórias, mas que tiveram seu grau de formatividade.

O processo de constituição de si acerca das experiências subjetivas e particulares acaba por ecoar na sociedade uma versão legítima de um sujeito que valoriza a sociedade, a democracia e as correntes formativas e interativas que ocupam espaços cruciais na vida em coletividade. São princípios básicos, ou melhor dizendo, prerrogativas que convocam o sujeito a posição do “poder-saber”, como afirma DELORY-MOMBERGER:

[...] Aquilo que se apropria aquele que formando a história de sua vida forma-se assim mesmo, deve-lhe permitir agir sobre o seu ambiente,

oferecendo-lhe

meios para

reescrever sua história na direção e na finalidade de um projeto de vida (2008, p.95).

Refletir sobre o ato do poder-saber, no que concerne às apropriações

Documentos relacionados