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Capítulo III: Do que não é visto

III.I Acaso e apadrinhamentos

III.I.V Apadrinhamentos no Vasco

Sabe-se e ouve-se que no mundo do futebol muitas vezes situações são definidas e concretizadas a partir de indicações, amizades, relações, laços e apadrinhamentos, é o que poderíamos definir aqui como os “acasos” dentro desse contexto, ou melhor, dinâmicas de relacionamentos, tal como já apontei ao mencionar a expressão “Futebol é relacionamento”, muito ouvida em diversos situações de pesquisa.

Entre uruguaios e argentinos escutamos algo parecido: “Todo son relaciones”130. Apontamos também que para flagrar um caso desta natureza é preciso estar profundamente imbricado em tais amarras, o que nem sempre foi possível. Mas em alguns momentos pudemos observar, como na simples conversa com o pai de um futebolista.

Quando da primeira vez que estive em São Januário, ainda tentando estabelecer os primeiros contatos esperei por horas e mais horas sob as escadarias das arquibancadas do velho estádio, um lugar onde se localizam as salas e escritórios que comandam o futebol do clube. Tive duas reuniões com o então coordenador das categorias de base, Otávio Costa. Da primeira vez esperei ao lado de um pai que trouxe a filha de Minas Gerais, nos arredores de Juiz de Fora, para fazer testes no futebol

130 O livro Niños Futbolistas (Meneses, 2013) ilustra uma série de negociações quando o autor vivenciou o cotidiano de clubes e escolinhas de futebol por todo continente sul-americano. A referida frase saía da boca dos personagens em inúmeras ocasiões.

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feminino vascaíno. Ele simpático e papeador, flamenguista; ela, mais calada, apenas sorria timidamente, dezessete anos de idade131.

Otávio era alguém extremamente simpático e bem humorado, ou ao menos esbanjava disposição naquela manhã de terça-feira, março de 2012. Recebeu-nos os três juntos, de uma só vez, em uma acanhada sala, com ar-condicionado, é verdade, que ficava embaixo de uma das arquibancadas do campo. Para chegar até esta sala passamos por onde os atletas da equipe profissional estacionavam seus valiosíssimos automóveis. Eles treinavam no gramado naquele momento. Ao lado, numa quadra de futsal, jogavam garotos de cerca de oito anos de idade. Os “futebóis”, assim, ocupavam diversos espaços em São Januário.

O coordenador primeiro quis ouvir o pai da garota e tudo então ficou claro: ambos tinham um conhecido em comum – um tio da garota – que havia agendado um treino ou avaliação no Vasco. Entre sorrisos e piadas sobre o simpático zelador devidamente travestido com as cores e símbolos daquela casa, que entrou de supetão catando isso e aquilo e limpando o que via pela frente, ligou para que o responsável técnico por aquele tipo de avaliação comparecesse ao local em vinte minutos. Ao que parecia, seria atendido.

Na segunda reunião que tive naquela mesma sala vi um conselheiro do clube, que beirava os sessenta e cinco anos de idade, acompanhar um garoto de quinze junto de seu pai. O objetivo da pequena caravana era agendar a presença do jovem num teste no clube. O tal conselheiro esperou Otávio, que não havia chegado no horário combinado. Antes disso, porém, ficou dentro da sala principal do setor, o que demonstra seu trânsito no clube. Na saída, após longa conversa, ressaltou que não gostaria que o garoto, em caso de reprovação, recebesse a notícia sozinho. Isso deveria ser dito na companhia do pai, já que uma nota tão triste como aquela deveria ser partilhada e com o apoio do suporte talvez maior de um garoto nascido no ano de 1996. O pedantismo do senhor era tremendo e a forma com que ele demonstrava ser amigo de todos ali parecia ser tão falsa quanto. Ele citava nomes e rápidas histórias que havia passado no Vasco. Como da primeira vez, com o pai da garota mineira, Otávio confirmou-me receber aquele tipo de

131 O Vasco mantinha quatro equipes de futebol feminino: sub 15, sub 17, sub 20 e adulto. De acordo com o blog femininovasco.blogspot.com.br o clube era “o único dentre os grandes do Rio de Janeiro a investir em futebol feminino com uma equipe de profissionais qualificados em todas as categorias”. No website oficial do Vasco (http://www.vasco.com.br) o futebol feminino está alocado na seção de esportes olímpicos.

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visita aos montes, diariamente. Em seguida, desabafou num tom cansado: “É garoto, futebol não é fácil, não”.

Tais episódios que abarcam a vida de futebolistas, seguramente de modo corriqueiro, nos fazem atentar-se para relações que lhes parecem distantes, mas que, como tentei mostrar, influenciam diretamente na circulação pelo universo do futebol. O

rodar (Rial, 2008) é algo inerente à suas carreiras e esta condição também se faz presente,como já apontamos, a partir de outras esferas de influência, como as relações políticas dentro dos clubes, expressas pelos casos de apadrinhamento e redes de contato – entre agentes, clubes e pais de atletas – e também fora dos clubes, em “instâncias maiores” como no caso do acordo sobre atletas de base em litígio, quando aquilo que é decidido por dirigentes da alta cúpula de um clube pode decidir quando e onde um aspirante voltará a atuar pelos campos Brasil afora. Neste caso, diríamos que as instâncias que permeiam a vida de futebolistas se tocam, fazendo com que suas vidas esportivas estejam permanentemente sujeitas aos acasos das linhas que se cruzam, fazendo desse futebol de base um ambiente fluido, permissível e que não segue uma única lógica.