A autora é uma das principais intelectuais negras do Brasil, nascida e criada na periferia da cidade de São Paulo, por uma ex-costureira e um ferroviário. Desde muito cedo, percebeu a necessidade da educação como mecanismo de resistência e luta por melhores condições de vida,
tanto para si quanto para toda a população negra. Esta postura diante de sua negritude e feminilidade se consolida, quando adentra ao meio acadêmico e passa a se interessar pelas lutas dos movimentos negros e feministas, buscando, em seus estudos, evidenciar a importância da mulher negra nos movimentos de luta e resistência, assim como na manutenção da herança e tradições dos povos negros (BORGES, 2009).
Sueli Carneiro, ao adotar uma posição militante em prol dos direitos dos negros e das mulheres, é uma das fundadoras da organização não governamental Geledés Instituto da Mulher Negra, em São Paulo, que tem por objetivo ser um lugar de encontro e apoio das ativistas negras do país. Em seus estudos, abordou temas ligados à questão racial do país, às mulheres negras, à constituição da cultura e religiosidade afro-brasileira.
Carneiro (2011a, p. 63) descreve a questão racial do Brasil, por meio do fato de a identidade étnica e racial ser um “[...] fenômeno historicamente construído ou destruído [...]” socialmente, evidenciando a falta de uma identidade racial, que resultara em uma certa confusão no reconhecimento étnico da população. A indefinição é causada pela miscigenação que ocorre no país, de sorte que, “[...] diferentemente de outros lugares, a nossa identidade se definiria pela impossibilidade de defini-la. ” (p. 63). Um primeiro problema da questão racial no Brasil a ser elencado é a utilização da miscigenação racial tanto por fins políticos como ideológicos, sustentada por uma concepção eugenista de bases coloniais, com o objetivo de branquear a sociedade. Para chegar a esse objetivo, o intercurso sexual entre as “raças” era tolerado, mas essa prática era marcada por uma das formas de violência à qual eram submetidas as mulheres consideradas de raça inferior, um estupro colonial. Contemporaneamente, essa prática se tornou mais sofisticada, uma vez que adota o discurso da narrativa de democracia racial (CARNEIRO, 2005, 2018).
O mito da democracia racial é o segundo problema. Souza (1977 apud CARNEIRO, 2005, p. 63) aponta que esse mito “[...] corresponde ao desejo de uma auto-representação da sociedade e de representação positiva do país frente ao ‘complexo de inferioridade interiorizado e legitimado cientificamente’ [...]” Consequentemente, o mito da democracia racial suporta e permite que a falta de identidade e a violência racial não sejam percebidas como tal. A questão racial da identidade, no mito da democracia racial, pode ser entendida como um desejo de ser branco, em que se nega a raça e o racismo (CARNEIRO, 2005, 2018).
As duas concepções apresentadas facilitam a desigualdade racial no país, ao evidenciarem o modo como esses instrumentos são usados para propagar a ideia de embranquecimento na sociedade, afinal, se originam
[...] da instituição de uma hierarquia cromática e de fenótipos que têm na base o negro retinto e no topo o “branco da terra” oferecendo, aos intermediários, o benefício simbólico de estarem mais próximos do ideal humano, o branco [...] (CARNEIRO, 2005, p. 64).
Para Carneiro (2005, 2018), o impacto dessas concepções na população negra do Brasil tem uma única função: a de constituir no imaginário, tanto social quanto do negro e da negra, uma suposta noção de superioridade racial dos mais claros em relação aos mais escuros. Sendo constatada na forma em que os (as) negros (as) e descendentes miscigenados optam para se autodefinirem racialmente, por exemplo: moreno escuro, moreno claro, moreno-jambo, marron-bombom, mulato, mestiço, caboclo, mameluco, cafuzos, adjetivos confusos e reduzidos a uma única categoria, denominada pardo, a qual não tem definição se é cor ou raça. O termo pardo serve para agregar todos aqueles que têm sua identidade racial destruída por essas lógicas e, com o “[...] ônus simbólico que a negritude contém socialmente, não sabem mais o que são ou simplesmente não desejam ser o que são. ” (CARNEIRO, 2005, p. 63).
Dessa forma, a questão racial no Brasil é mais abrangente e profunda, pois se fundamenta no que Carneiro (2018) descreve como “ ideologia tortuosa” de raça, a qual se constitui para sustentar um discurso e uma imagem enganosa da sociedade brasileira, seja para sua população, seja para o exterior, inventada somente para manter o controle de uma raça sobre a outra. Uma ideologia de raça nasce de uma necessidade dos que estão no poder de se manter no poder. Nesse caso, é a pessoa branca que,
[...] ao eleger que um grupo racial é superior ao outro, provoca a desumanização de grupos humanos, justificando as formas mais abjetas de opressão, tais como a escravidão, os holocaustos e genocídios e de discriminação étnica e racial. (CARNEIRO, 2018, p. 135).
Segundo Carneiro (2018), essas são algumas ideologias que contribuem para que a democracia não possa ser alcançada, pois criam categorias que segregam as pessoas, afim de dividir os direitos de maneira desigual, bem como fragmentar a identidade, de forma a impedir que esta possa se transformar em fator que agregue o campo político, social e cultural, tornando-se palco para as reivindicações dos grupos minoritários, em favor de uma equidade ético-racial (CARNEIRO, 2005, 2018). Um dos principais problemas se evidencia por meio da necessidade de se entender as conjecturas que irão construir o termo raça e seus efeitos na sociedade. Carneiro (2005, p. 28-29) busca compreender esse termo, considerando a classificação apresentada por Sérgio Guimarães, em Racismo e Anti-Racismo no Brasil (1999):
[u]m conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. Trata-se, ao contrário, de um conceito que denota tão-somente uma forma de classificação
social, baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais, e informada por uma noção específica de natureza, como algo endodeterminado. Mas por mais que nos repugne a empulhação que o conceito de “raça” permite – ou seja, fazer passar por realidade natural preconceitos, interesses e valores sociais negativos e nefastos, – tal conceito tem uma realidade social plena, e o combate ao comportamento social que ele enseja é impossível de ser travado sem que se lhe reconheça a realidade social que só o ato de nomear permite. [...] A realidade das raças limita-se, portanto, ao mundo social [...] a noção de raça, neste sentido, difere de outras noções “essencialistas”, como a de sexo, por exemplo, embora se preste às mesmas práticas discricionárias e naturalizadoras do mundo social, em pelo menos dois aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, porque a noção de raça não se refere a nenhuma diferença física inequívoca, como ocorre com a noção biológica de sexo (cuja naturalidade, para ser suplantada, precisa da noção de gênero). Segundo, porque a noção de raça classifica os indivíduos segundo critérios ambíguos, mas justificados numa teoria específica, em que a ideia de “raça” é central.
De acordo com Carneiro (2005, p. 29), o termo raça, em sociedades de origem colonial, que são etnicamente multirraciais, como o Brasil, contribui para gerar certos conceitos:
[...] Os conceitos de apartheid social, a supremacia do conceito de classe social sobre os demais - como pretendem os pensadores de esquerda, herdeiros do materialismo histórico dialético – são conceitos que não alcançam, e, ao contrário, invisibilizam ou mascaram a contradição racial presente nas sociedades multirraciais, posto que nelas raça/cor/etnia e, em especial para o Brasil, são variáveis que impactam a própria estrutura de classes. Disso decorre que a essência do racismo, enquanto pseudo-ciência, foi buscar legitimar, no plano das ideias, uma prática, e uma política, sobre os povos não-brancos e de produção de privilégios simbólicos e/ou materiais para a supremacia branca que o engendrou. São esses privilégios que determinam a permanência e reprodução do racismo enquanto instrumento de dominação, exploração e mais contemporaneamente, de exclusão social em detrimento de toda evidência científica que invalida qualquer sustentabilidade para o conceito de raça.
A raça é, portanto, um modo de classificação “cruel” criado por humanos, com objetivo de se conseguir manter privilégios e poder, retirando-os de outros seres humanos; com isso, é utilizado como elemento fundamental para “definir a qualidade do ser” (CARNEIRO, 2005). Mas, como mencionado anteriormente, definir essa qualidade depende de que indivíduo estamos falando: afinal, qualidades podem ser tanto negativas quanto positivas. Aos brancos e brancas cabem os adjetivos positivos, como a racionalidade, concedendo a estes o poder sobre as outras “raças” consideradas inferiores, como os negros. Aos negros cabe a negatividade de adjetivos relacionados à exploração de seus corpos. Por isso, raça, paradoxalmente, enquanto terminologia, tem em suas bases a discriminação racial. Discriminar é o elemento essencial para criar a noção de diferença entre um indivíduo e outro, de sorte a gerar a necessidade de entrar no “padrão” social que lhe permita ser aceito enquanto sujeito e, assim, submeter uma parcela
da sociedade a um controle social, ao “[...] justificar a dominação, a escravidão e a exploração de um grupo racial sobre outro. ” (CARNEIRO, 2018, p. 145). Atualmente, esses fatores apelam principalmente para a
[...] negação da realidade social da “raça” e da necessidade que dela decorre de focalizar as políticas públicas nos segmentos historicamente discriminados se presta à perpetuação da exclusão e dos privilégios que a ideologia que o sustenta produziu e reproduz cotidianamente. (CARNEIRO, 2018, p. 145).
O embranquecimento acaba sendo desejado, pelos povos categorizados como minoria, os quais buscam apagar as origens culturais, raciais e étnicas dos ocidentais não-brancos (CARNEIRO, 2018). Ao se introjetar o branco como modelo de superioridade e oportunidade social, constroem-se mecanismos de controle das subjetividades sociais. Assim, qualquer cor ou fenótipo que não estiver próximo da tonalidade branca é marginalizado e assinalado como um estereótipo inferior de desclassificação enquanto pessoa.
O branqueamento se perpetua por meio
[...] de seus símbolos, que expressam os seus sucessos materiais e simbólicos como demonstração de sua superioridade ‘natural’, cotejados sistematicamente com os símbolos de estigmatização da negritude, seu contraponto necessário. (CARNEIRO, 2005, p. 65).
Carneiro (2005, p. 47) finaliza, afirmando que essas questões e concepções são concomitantes a uma “[...] supremacia branca, estruturada por um Contrato Racial. ” O contrato racial é fundamental para que se possa ter um controle da sociedade, consistindo de uma tradição contratualista, onde os indivíduos dominantes e racialmente homogêneos empregam a violência racial para subordinar os racialmente diferentes ao contrato racial, que tem nesse acordo a garantia de manutenção de seu poder e privilégio. Ou seja, “[...] o Contrato Racial é um contrato firmado entre iguais, no qual os instituídos como desiguais se inserem como objetos de subjugação, daí ser a violência o seu elemento de sustentação [...]” (p. 48).
A violência instaurada pelo contrato opera por dois dispositivos epistemicídio e racialidade/biopoder. O epistemicídio, nesse caso, é um dispositivo que tem por objetivo articular três dimensões: os saberes, os poderes e as subjetividades, constituindo-se em um instrumento operacional para “[...] a consolidação das hierarquias raciais por ele produzidas [...]” (CARNEIRO, 2005, p. 33). A noção de racialidade/biopoder, relê e recupera as contribuições foucaultianas, para se define como um campo de significações que determinam as especificidades das relações raciais junto às relações de poder, ao correlacionar suas estruturas, afim de manter o contrato; articula-se e se diferencia de outros campos narrativos,
ao privilegiar as “[...] particularidades de nossa formação social e cultural. ” (CARNEIRO, 2005, p. 30).
Carneiro (2005) concorda com Mills (1997), quando assevera que Contrato racial é um contrato ideal estabelecido para a sociedade, e tem por função organizar a sociedade por meio de categorias raciais. Trata-se de um Estado racial, em que todas as suas estruturas operem a partir de uma lógica racial, onde brancos e não-brancos tenham papéis determinados, tanto por lei quanto por costumes, mantendo a ordem racial e os privilégios àqueles que controlam esse contrato:
A carnavalização das nossas relações raciais escamoteia a rigidez da segregação espacial e social que separa negros e brancos. Ignora solenemente a concentração dos negros nas favelas, palafitas, cortiços, nas periferias das grandes cidades. Ou seja, encontra-se naturalizado o paradigma casa-grande e senzala, por isso trata-se com quase absoluta indiferença essas desigualdades raciais [...] (CARNEIRO, 2018, p. 144).
O contrato racial se faz presente na universidade e o (a) negro (a) se torna
[...] a penas uma realidade estatística para deleite acadêmico. Não tem concretude como credor social, demandador de políticas específicas em função das desigualdades de que padece, posto que essas são só reconhecíveis no plano virtual. (CARNEIRO, 2018, p. 144).
Por conseguinte, devemos entender o que é violência racial e os mecanismos que sustentam a sua manutenção. É o racismo e suas estruturas perversas que possibilitam a existência de um Estado racial, onde a raça é fator determinante para se ser ou não sujeito de direitos e privilégios (CARNEIRO, 2011a). As práticas perpetradas pelo racismo são construídas para legitimar uma “[...] produção de privilégios simbólicos e/ou materiais para a supremacia branca que o engendrou [...]” (CARNEIRO, 2005, p. 29). Normalizam, no cotidiano, saberes impregnados de estigmas, discriminação e preconceito, retratando o (a) negro (a), o indígena e o amarelo como subespécies humanas, quando não reconhecem seu direito a uma condição ontológica de completude humana, visto que sustentam ideias calcadas na negação de sua história e cultura como parte constituinte da sociedade ocidental, subjugando esses povos à sua visão.
O racismo, em sua essência, compreende uma lógica que se fundamenta em uma pseudociência, a qual pretende se legitimar através de mecanismos fundados dentro dos planos das ideias que permeiam as subjetivações próprias de um povo (CARNEIRO, 2005). Destaca-se que dentro dessa concepção, os privilégios Destaca-se tornaram elementos esDestaca-senciais para consolidarem a permanência e reprodução do racismo enquanto instrumento de controle social,
exploração e exclusão social, conservando ainda conceitos já superados e refutados simplesmente como forma de se autojustificar, como o caso da ideologia de raça. Assim:
A sustentabilidade do ideário racista depende de sua capacidade de naturalizar a sua concepção sobre o Outro. É imprescindível que esse Outro dominado, vencido, expresse em sua condição concreta, aquilo que o ideário lhe atribui. É preciso que as palavras e as coisas, a forma e o conteúdo, coincidam para que a ideia possa se naturalizar [...] (CARNEIRO, 2005, p. 29).
O racismo, quando normatizado pela sociedade, torna-se uma “profecia auto-realizadora”, tornando-se mecanismo indispensável para justificar a desigualdade que, no Brasil, condena os negros e negra e outras minorias a um ciclo de pobreza e falta de direitos, gerando na sociedade mais categorias de discriminação racial, violência e desumanização. Contudo, isso é parte da estratégia do sistema, o qual se vale das sutilezas do racismo para inferiorizar os grupos raciais a uma posição de objeto de manipulação e exploração dos grupos raciais dominantes (CARNEIRO, 2005).
Logo, a perversidade do racismo, na sociedade brasileira, é amparada em alguns pontos:
Na negação patológica da dimensão racial das desigualdades sociais;
Nos eufemismos que são utilizados para mascará-las: se não há negros nem brancos, como poderá haver políticas especificas para negros? Ou, o problema no Brasil não é racial e sim social ou o que há é um apartheid social!
Na intransigente recusa de instituição de qualquer mecanismo redutor das desigualdades raciais;
Na defesa maníaca de propostas que postergam para as calendas o enfrentamento dessa realidade. A educação é sempre usada como panaceia nesses casos. (CARNEIRO, 2018, p. 144).
No Brasil, passam por um racismo velado e violento à constituição de sua identidade e subjetividade, porque a sociedade enxerga na miscigenação uma democracia racial inexistente, mas defendida pelos brancos conservadores como fato comprobatório de não sermos racistas, a qual acaba sendo introjetada no imaginário social que reproduz esse discurso, sem ao menos saber de suas implicações. Cria-se, no povo, uma narrativa de que tudo é uma brincadeira ou é só uma piada e, com isso, vai-se alimentando a desigualdade de que a branquitude precisa, para manter os seus privilégios (CARNEIRO, 2005, 2018).
As mulheres negras são tema de vital importância para os estudos da filósofa e escritora, que considera que elas são relegadas à última categoria, na qual o racismo visa a atuar de forma mais cruel e violenta. São consideradas inferiores ao homem negro, sofrendo de
marginalizações, silenciamento, invisibilização e violências de ordem racial, que as desconsideram enquanto mulheres, cujos corpos, além de sexualizados em prol do prazer da classe dominante, ainda servem como instrumento de branqueamento da sociedade, já que o discurso que permeia o imaginário social as coloca como corpos objetificados e marcados pela discriminação racial. Nesse contexto, salienta-se que o Brasil, desde período colonial, adotou uma postura favorável ao embranquecimento da população, principalmente evidente depois da abolição da escravidão, com “[...] a emergência de novos procedimentos de saúde pública, em que a racialidade intervirá introduzindo uma orientação eugenista corretora da presumida promiscuidade, sobretudo sexual, instaurada na escravidão [...]” (CARNEIRO, 2005, p. 76).
São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor. (CARNEIRO, 2011b, s/p, grifo do autor).
A origem dessa discriminação, para a autora, está na violência sexual, utilizada para manter o controle sobre os corpos e, no caso das mulheres negras do Brasil, o estrupo colonial é o cerne que possibilitou a construção de representações negativas sobre essas mulheres, onde a identidade nacional, as hierarquias de gênero e raça estão intimamente fundamentadas (CARNEIRO, 2005). A miscigenação forçada pode ser entendida através do que Gilliam (1996 apud CARNEIRO, 2018) comenta ser a teoria do “esperma da formação nacional”, a qual acarretará em distorções ou negação do fato concreto. Pois, “[...] o papel da mulher negra na formação da cultura nacional é rejeitado, a desigualdade entre homem e mulher é erotizada e a violência sexual contra as mulheres negras é romantizada. ” (CARNEIRO, 2018, p. 153).
Carneiro (2005) então afirma que as mulheres negras têm, em sua historicidade, vivências e experiências diferentes daquilo que se naturalizou como narrativa/discurso clássico do que é ser mulher, para o patriarcalismo presente na sociedade. O discurso clássico de opressão das mulheres da casa-grande não consegue explicar toda opressão e violência sofrida pela mulher negra, pois há uma diferença fundamental no cerne da narrativa sobre a qual essa opressão foi construída. A identidade social imposta à mulher branca tem um efeito mais cruel sobre o que se identifica e se entende como mulher negra (CARNEIRO, 2011a).
Carneiro (2018, p. 162) nota, a partir dos estudos de Joel Rufino dos Santos, em
Movimento Negro e Crise Brasileira, atrás do Muro da Noite: Dinâmica das Culturas Afro-Brasileiras (1994), que há dois vieses presentes na violência sofrida pela mulher negra: o
primeiro, a violência de gênero “[...] oriunda da ideologia machista patriarcal que concebe as mulheres em geral como objetos de propriedade masculina [...]”; o segundo é o aspecto mais perverso às mulheres negras: a violência racial, que, para além de toda opressão imposta pela violência de gênero, ainda estabelece “[...] a desvalorização das negras em relação às brancas.” Essa desvalorização coloca a negra não só como objeto, mas também como mercadoria que pode ser adquirida como qualquer outro utensílio.
A subjetivação do racismo traz consequências à mulher negra de forma contínua:
[...] Persistem operando no imaginário social, ao lado dessa reação conservadora, os estigmas e estereótipos que desvalorizam socialmente as mulheres negras e que carecem de estratégias para serem repelidos. Requerem campanhas de caráter publicitário e pedagógico que tanto empreendam a valorização social da imagem das mulheres negras como, simultaneamente, confrontem as diferentes práticas discriminatórias de que são alvo essas mulheres [...] (CARNEIRO, 2009, s/p).
O papel dos estereótipos, na construção dos discursos, coloca a negra em uma posição de marginalização e inferiorização em determinadas classes da sociedade. Os estereótipos são símbolos constituídos historicamente pela classe dominante, em favor de explorar o outro em prol da manutenção desigual de poder. As mulheres negras, além da exploração e objetificação de seus corpos, são vistas como meio de exterminar uma raça, ao submetê-la à lógica do embranquecimento social, construindo no imaginário social categorias de classificações que permitam que a violência do racismo e da discriminação não sejam percebidas como tais (CARNEIRO, 2018).
O feminismo negro é fundamental para compreender essas diferenças e estereotipização distorcidas, porque as teorias iniciais, que procuravam criticar e evidenciar a desigualdade de gênero nas relações entre mulheres e homens, eram unidimensionais e limitadas a uma visão de opressão direcionada às mulheres brancas. “A ausência desta compreensão tem determinado que no geral as conquistas do movimento de mulheres tendem a beneficiar as mulheres brancas como consequência da discriminação racial que pesa sobre as negras. ” (CARNEIRO, 2015, p. 12). Submetendo-a a um silencio histórico, onde a violência retira dela o direito de ser mulher (CARNEIRO, 2008).
Entretanto, Carneiro (2011a) pontua que, apesar da violência e discriminação racial, são essas mulheres que representam a força resistente de um povo, pois, ao preservarem suas tradições e lutarem pelo direito a exercer sua cultura e religiosidade, não se deixam ser