4 NEXO DE CAUSALIDADE E A (IR)RESPONSABILIDADE DO ESTADO NA
4.4 DECISÕES JUDICIAIS A RESPEITO DO TEMA
4.4.3 Apelação Cível n 0000476-42.2013.8.24.0033, de Itajaí
Com relação à responsabilidade civil objetiva do Estado, o egrégio Tribunal de Justiça de Santa Catarina firmou o entendimento já sedimentado pelo egrégio Superior Tribunal de Justiça no tema 592, no sentido de que o Estado detém o dever de vigilância e segurança dos presos sob custódia, estando ele em delegacia, presídio ou cadeia pública, o julgamento abaixo traz referência a este entendimento:
APELAÇÃO CÍVEL E REEXAME NECESSÁRIO. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. MORTE DE DETENTO NO INTERIOR DE
ESTABELECIMENTO PRISIONAL. CONDUTA OMISSIVA.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO ENTE PÚBLICO. "[...] A compreensão do Tribunal de origem está de acordo com a do STJ, que sedimentou o entendimento de que a responsabilidade civil do Estado pela morte de detento em delegacia, presídio ou cadeia pública é objetiva, pois é dever do estado prestar vigilância e segurança aos presos sob sua custódia. [...] (STJ, REsp 1645224/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, j. 07/03/2017). DANO E NEXO CAUSAL CONFIGURADOS. ÓBITO CAUSADO POR FRATURA E ASFIXIA PROVOCADAS POR OUTRO PRESO. DEVER DE GUARDA E VIGILÂNCIA COM RESPEITO À INTEGRIDADE FÍSICA E MORAL DO DETENTO NÃO OBSERVADO. "[...] A morte do detento pode ocorrer por várias causas, como, v. g., homicídio, suicídio, acidente ou morte natural, sendo que nem sempre será possível ao Estado evitá-la, por mais que adote as precauções exigíveis. [...] A responsabilidade civil estatal resta conjurada nas hipóteses em que o Poder Público comprova causa impeditiva da sua atuação protetiva do detento, rompendo o nexo de causalidade da sua omissão com o resultado danoso. [...] In casu, o tribunal a quo assentou que inocorreu a comprovação do suicídio do detento, nem outra causa capaz de romper o nexo de causalidade da sua omissão com o óbito ocorrido, restando escorreita a decisão impositiva de responsabilidade civil estatal. [...] (STF, RE 841526, Relator Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, j. 30/03/2016). TEMA 592 DO STJ. INCIDÊNCIA NO CASO. "Em caso de inobservância do seu dever específico de proteção previsto no art. 5º, inciso XLIX, da Constituição Federal, o Estado é responsável pela morte de detento." DANO MATERIAL. OCORRÊNCIA. DETENTO FALECIDO QUE DEIXOU FILHA DE 1 (UM) ANO DE IDADE. INDENIZAÇÃO QUE CONSISTE NA PRESTAÇÃO DE ALIMENTOS ÀS PESSOAS A QUEM O MORTO OS DEVIA. INTELIGÊNCIA DOS ARTIGOS 948, II, E 1.695, DO CC/02, E 229 DA CRFB/88. PENSÃO NO VALOR CORRESPONDE A 2/3 (DOIS TERÇOS) DO SALÁRIO MÍNIMO VIGENTE DEVIDA ATÉ QUE COMPLETOS OS 25 (VINTE E CINCO) ANOS DE IDADE DA DEPENDENTE ECONÔMICA. PRECEDENTES. CUMULAÇÃO DA PENSÃO ARBITRADA COM BENEFÍCIO DO INSS. POSSIBILIDADE. VERBAS DE NATUREZAS DISTINTAS. DANO MORAL. OCORRÊNCIA. PRESUMIDO ABALO PSÍQUICO SOFRIDO POR FAMILIARES PRÓXIMOS DE VÍTIMA DE HOMICÍDIO NO INTERIOR DE ESTABELECIMENTO PRISIONAL. PRECEDENTES. CRIANÇA QUE, AINDA NOVA, PERDEU O PAI. IMPOSSIBILIDADE DE FORTALECIMENTO DO VÍNCULO AFETIVO COM SEU GENITOR. QUANTUM INDENIZATÓRIO ARBITRADO EM R$
40.000,00 (QUARENTA MIL REAIS). VALOR EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA PÁTRIA. JUROS DE MORA DA INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. TERMO INICIAL. DATA DO EVENTO DANOSO. SÚMULA 54 DO STJ. PRECEDENTES. CONSTITUIÇÃO DE CAPITAL. DESNECESSIDADE. CONDENAÇÃO DO ESTADO DE SANTA CATARINA. NOTÓRIA SOLVABILIDADE DO ENTE PÚBLICO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. VERBA SUCUMBENCIAL ARBITRADA EM 10% SOBRE O VALOR DA CONDENAÇÃO. SUCUMBÊNCIA DA APELADA EM PARTE MÍNIMA DO PEDIDO. APELANTE RESPONSÁVEL PELA TOTALIDADE DOS HONORÁRIOS. ART. 86 DO CPC/15. REEXAME NECESSÁRIO E APELAÇÃO CÍVEL CONHECIDOS. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. SENTENÇA REFORMADA, EM REEXAME, PARA EXCLUIR A DETERMINAÇÃO DE CONSTITUIÇÃO DE CAPITAL POR PARTE DO ESTADO. (TJSC, Apelação Cível n. 0000476-42.2013.8.24.0033, de Itajaí, rel. Vera Lúcia Ferreira Copetti, Quarta Câmara de Direito Público, j. 14-12- 2017).
Pela leitura do julgado, a situação ocorrida foi a morte de um preso, sob a tutela do Estado, em situação na qual não foi comprovado o rompimento do nexo de causalidade. Isso porque, na situação narrada, caberia ao Estado o dever de guarda e segurança do detento.
Neste caso, houve condenação do Estado de Santa Catarina ao pagamento de indenização por danos morais no importe de R$ 40.000,00 (quarenta mil reais), cumulados com indenização por dano material que consiste no pagamento de pensão alimentícia correspondente a 2/3 do salário mínimo, à filha da vítima até que esta complete 25 anos de idade, sendo que à época do fato ela tinha apenas 1 ano de idade.
4.4.4 Apelação Cível n. 0312145-87.2015.8.24.0020, de Criciúma
Com relação à Corte Catarinense importa destacar, ainda, o julgamento de ação que visava à reparação moral, material e lucros cessantes a transportadora autora pela ocorrência de incêndio em dois de seus caminhões, por “ações criminosas na comunidade”, aduzindo que houve omissão do estado na prestação do serviço de segurança pública:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. INDENIZAÇÃO POR
DANOS MORAIS, MATERIAIS E LUCROS CESSANTES.
TRANSPORTADORA. INCÊNDIO EM 2 CAMINHÕES. ALEGAÇÃO DE OMISSÃO ESTATAL EM PROPORCIONAR UM POLICIAMENTO OSTENSIVO E PREVENTIVO. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA NA ORIGEM. IRRESIGNAÇÃO DA AUTORA. PRELIMINAR DE NULIDADE DA
SENTENÇA. ALEGAÇÃO DE IMPRECISA E DESVIRTUADA
FUNDAMENTAÇÃO. DECISUM COM FUNDAMENTAÇÃO SUFICIENTE, HARMÔNICA E CLARA NO ESTUDO DA CAUSA POSTA EM DEBATE.
PREFACIAL RECHAÇADA. MÉRITO. FALHA NA SEGURANÇA PÚBLICA NÃO DEMONSTRADA. IMPOSSIBILIDADE DE SE EXIGIR ONIPRESENÇA DO ESTADO. NEXO CAUSAL DIRETO NÃO EVIDENCIADO. INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO OU NEGLIGÊNCIA ESTATAL. NÃO DEMONSTRAÇÃO DE QUE O PODER PÚBLICO, DEVENDO AGIR, MANTEVE-SE INERTE. CULPA NÃO EVIDENCIADA. EVENTO NOTICIADO QUE NÃO IMPLICA NO DEVER DE INDENIZAR. HONORÁRIOS DE
SUCUMBÊNCIA. MINORAÇÃO. POSSIBILIDADE. RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO. Entende-se que a responsabilização extracontratual do Estado deve estar condicionada à constatação de que, por imposição legal, a ele cabia agir, porém nenhuma providência foi tomada ou a conduta adotada foi ineficiente. O Estado, na prestação da segurança pública, não tem condição de impedir todos os delitos praticados em seu território. Estabelecer nexo causal entre tais fatos significaria, na prática, a consagração do seguro estatal universal em relação aos atos danosos praticados por terceiros. O Poder Público, "de fato, tem a obrigação de propiciar segurança à população, o que não implica, no entanto, o dever de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, fornecendo um policial para assegurar a integridade física de cada cidadão" (TJSC. rel. Des. Vanderlei Romer). (TJSC, Apelação Cível n. 0312145-87.2015.8.24.0020, de Criciúma, rel. Pedro Manoel Abreu, Primeira Câmara de Direito Público, j. 17-07-2018).
Neste caso, a alegação do ofendido é de que o Poder Público cometeu omissão, uma vez que deveria proporcionar policiamento adequado ao local em que ocorreu o acidente. Não prestado o serviço, foi alegada falha na segurança pública.
O voto do relator Pedro Manoel Abreu no tocante ao mérito, afirmou “O ponto nodal da quaestio é: Cabe ao Estado indenizar o autor pelo incêndio em seus caminhões? A questão não é nova, nem o tema posto é inédito. Vem sendo exaustivamente debatido pela doutrina”.
Ainda, em seu voto, o relator diferencia a responsabilidade objetiva e subjetiva do estado e traz referência à culpa administrativa, razão pela qual não se poderia deixar de trazer essa decisão para verificação:
Nos casos de atos comissivos de agentes públicos, revela-se pacífico o entendimento doutrinário e jurisprudencial, lastreado na teoria do risco administrativo, de que não seria necessário perquirir a culpa do ofensor. Aqui, no entanto, é diversa, uma vez que o autor, ora apelante, não aponta um ato comissivo, mas sim uma omissão do Poder Público, qual seja, não proporcionar segurança pública aos cidadãos. Diante de tal peculiaridade, entende-se que a responsabilização extracontratual do Estado deve estar condicionada à constatação de que, por imposição legal, a ele cabia agir, porém nenhuma providência foi tomada ou a conduta adotada foi ineficiente. A responsabilidade por culpa administrativa, então, é modalidade de responsabilidade subjetiva, não se confundindo, pois, com a responsabilidade objetiva.
Por fim, explica o relator, inexiste nexo de causalidade entre a conduta (omissiva) e a prática do crime que gerou o dano sofrido pela autora. Isso porque, na
prestação do serviço de segurança pública, o Estado é incapaz de impedir o cometimento de todos os crimes no interior do seu território. Razão pela qual o pleito foi julgado, novamente, improcedente.
Com essas considerações, a seguir será apresentada a conclusão, de acordo com o referencial teórico.
5 CONCLUSÃO
Este trabalho buscou demonstrar as hipóteses em que se vê caracterizado o nexo de causalidade entre a conduta do Estado, e o dano por esta conduta causada ao cidadão. Pelo estudo realizado, o nexo causal além de ser requisito primordial para a responsabilização civil, também coíbe que essa responsabilidade seja atribuída de forma desproporcional e incontida.
Para tanto, foi demonstrada a concepção histórica e conceituação da responsabilidade civil, bem como pressupostos, características básicas, requisitos, modalidades e excludentes de responsabilidade. Em seguida, foi conceituada a responsabilidade civil do Estado e as suas particularidades no ordenamento jurídico pátrio, notadamente a teoria da culpa administrativa, teoria do risco administrativo e o risco integral.
Em seguida, foram demonstradas as hipóteses de possível responsabilização do Estado pelo nexo de causalidade entre a conduta do Estado e o dano sofrido pela vítima, também no que se refere à prestação do serviço de segurança pública. Com a Constituição da República Federativa do Brasil (art. 37, §6º), o Estado passou a ser responsabilizado pelos atos de seus agentes, sendo observada, assim, a teoria do risco administrativo. Nesse contexto, verificou-se que também em 1988, no art. 144 da Carta Magna segurança pública foi inserida como dever o Estado e direito de todos.
Nesse sentido, consoante foi demonstrando, é relevante a demonstração do nexo de causalidade para atribuir ao Estado a responsabilidade civil decorrente de falha na prestação do serviço de segurança pública, seja por ação ou omissão do agente investido do múnus público. Não se aplica, portanto, a teoria do Risco Integral. No entanto, apesar de ser consagrada a teoria do risco administrativo, averiguou-se que a maioria das hipóteses relativas à segurança pública são inerentes à omissão estatal, o que torna complexa a averiguação do nexo de causalidade. Esta constatação demonstra que, por vezes, o que ocorre, na prática, é a (ir)responsabilização do Estado pela omissão no que tange à segurança pública,
Diante de todo o exposto, foi possível verificar que as hipóteses questionadas foram efetivamente encontradas no curso da pesquisa e redação deste trabalho, embora a pesquisa de jurisprudência acerca do tema tenha se revelado desafiadora, em razão das próprias diferenças no posicionamento dos doutrinadores, respondendo-se ao problema da pesquisa.
Verificou-se, assim, conflito entre a responsabilização ideal do Estado quando à segurança pública e aquela que é efetivamente aplicada. Isso porque, as decisões judiciais que permeiam o tema da responsabilidade civil do Estado não são abundantes, especificamente no que tange à responsabilidade civil subjetiva do Estado. Apesar disso, foi possível verificar que as decisões são uníssonas sobre o tema, sendo afastada a responsabilização civil do Estado e demonstrada, na verdade a prática da irresponsabilidade.
Por fim, constatou-se que as decisões dos Tribunais, ainda estão na contramão da doutrina, uma vez que a maior parte dos autores defende a ampla responsabilização do Estado, aproximando-se, inclusive, da defesa do risco integral, em razão dos riscos inerentes ao exercício das atividades estatais.
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