CAPÍTULO 4 – SOLUÇÕES POSSÍVEIS? TENTATIVAS E PROPOSIÇÕES PARA O
4.1 Apelos internacionais: como deter um genocídio?
Assim que as atrocidades oriundas da crise em Darfur começaram a chamar a atenção internacional sobre a região, o que ocorreu somente em 2004 – em um contexto especialmente marcado pelo décimo aniversário do genocídio em Ruanda –, emergiram também os clamores para que a sociedade internacional tomasse alguma medida concreta para dar fim à situação. Slim (2004) destaca que essa tomada de consciência sobre o que ocorria naquela região do Sudão foi lenta e durante 2003 não avançou significativamente.
Apesar de o Chade ter sido o primeiro ator internacional a mediar negociações (SLIM, 2004), devido à posição de destaque global dos Estados Unidos da América, recaiu sobre este país a suposta responsabilidade, imputada pela sociedade internacional, da proposição de um plano que visasse a atingir tal objetivo. A primeira iniciativa estadunidense foi tomada pelo Congresso, que, em contraste com o posicionamento frente ao caso ruandês, declarou oficialmente que aquilo que acontecia em Darfur era, de fato, um genocídio. Assim, apesar de a princípio o executivo estadunidense tomar distância da crise darfuri, Heinze (2007) aponta que o legislativo federal reconheceu em 2 de abril de 2004 pela primeira vez a ocorrência de genocídio no Sudão. Não tardou para que a Secretaria de Estado, sob Colin Powell, também adotasse essa designação para a crise. Como se discutirá adiante, a utilização dessa retórica, contrariando o entusiasmo intervencionista, pode ter sido uma substituta a uma ação mais concreta por parte dos Estados Unidos da América (HEINZE, 2007).
Independentemente das razões subjacentes que motivaram o discurso estadunidense, conforme discutido em capítulos anteriores deste trabalho, a fala constitui por si só um ato político, e a caracterização de uma crise como genocídio é carregada de significância. Assim, o animus internacional opunha-se, em 2004, àquele de 1994, no sentido de que se reconhecia abertamente a gravidade das atrocidades em Darfur e considerava-se, pois, que isso consequentemente implicaria em ações internacionais que colocariam um fim a elas, diferentemente do que aconteceu em Ruanda.
O otimismo internacional não foi desperdiçado, ocorrendo assinaturas de diversos acordos de paz e de cessar-fogo entre as partes envolvidas no conflito. Em 8 de abril de 2004, por exemplo, foi assinado o Acordo Humanitário de Cessar-Fogo de N‟Djamena que, de acordo com De Waal (2007), tornou-se a base de todo o esforço diplomático subsequente em
Darfur. Não houve texto final com o qual todas as partes concordassem, mas permitiu-se o envio de tropas da Missão da União Africana no Sudão (African Mission in Sudan, AMIS) a Darfur. Posteriormente, a AMIS foi, como se analisará a seguir, substituída pela Missão das Nações Unidos e da União Africana em Darfur (United Nations African Union Mission in Darfur, UNAMID), cujo efeito para a terminação do genocídio não foi, porém, mais exitoso do que aquele de sua antecessora. De Waal (2007, p. 1043) critica o fato de que, após N'Djamena, não se seguiu uma estratégia estruturada para dar fim ao conflito: “Durante o período de 2004-2007, a comunidade internacional buscou uma série de objetivos para Darfur [...] A multiplicidade desses objetivos impediu uma estratégia clara e coerente”.
Nesse contexto foi assinado também o DPA, em maio de 2006. Totten (2009) utiliza-se do adjetivo “natimorto” para caracterizar o DPA: além do GoS, ele foi assinado – em um contexto de extrema fragmentação dos grupos rebeldes –, apenas por uma facção dentro do SLA, não incluindo, portanto, nem algumas partes desse grupo nem, de forma alguma, o JEM, o que contribuiu para que fosse visto com desconfiança e não se tornasse efetivo. Logo, o DPA não impediu que continuasse a violência na região, e exacerbou divisões existentes dentro dos grupos rebeldes, o que contribuiu para que essa violência se intensificasse. Os acordos e as missões de organizações internacionais não tiveram êxito, portanto, em deter a ocorrência do genocídio, o que se comprova pela sua continuidade até hoje, conforme discutido no capítulo anterior com base nos relatos de Reeve (2015a, 2015b, 2015c).
O que pode ser feito, portanto, para se dar fim a um genocídio?
Deng (2011, p. 74) é taxativo ao afirmar que a “prevenção é a melhor solução”. E de fato há intensa discussão acadêmica acerca de mecanismos de prevenção e de detecção precoce de genocídios8. Em um caso com o do Sudão, porém, no qual não é mais possível tomar medidas preventivas contra o surgimento do fenômeno, que já eclodiu, meios que visem a encerrar as atrocidades devem ser ponderados – meios esses que coloquem, de fato, um fim à violência.
A pergunta acima é, pois, se não uma das mais relevantes, uma das mais discutidas em todo o campo de Estudos de Genocídio (ao lado de “o que é genocídio?”, como se discutiu no Capítulo 1, e de “como evitar que um genocídio aconteça?”, como se analisará neste capítulo). Totten (2004, p. 484-5) aponta que os estudiosos dessa área concentram seu esforços, durante suas discussões sobre essa questão, em oito aspectos visando a chegar a uma resposta: definir o que é um genocídio; analisar seus processos; analisar episódios específicos; analisar dados
relativos a esses episódios a fim de criar métodos de prevenção; tentar criar sistemas de aviso prévio (early warning); determinar os efeitos do negacionismo relativo a episódios passados; argumentar em prol da punição dos perpetradores do crime; desenvolver esforços educacionais relativos ao genocídio. Entretanto, o problema, segundo o autor, é que
[...] por mais importante que sejam os desenvolvimentos supracitados, apenas começam a abordar o problema relacionado ao que precisa ser feito para que se desenvolvam os métodos mais efetivos possíveis para a intervenção em casos de genocídio ou para que se previna que sejam perpetrados (TOTTEN, 2004, p. 485). O autor propõe, portanto, que seja desenvolvida maior sinergia entre e dentre os aspectos citados acima, por meio de um esforço conjunto de acadêmicos da área de Estudos de Genocídio, para que se possa, consequentemente, fazer emergir uma solução eficaz na repressão e na prevenção desse crime. O fato é que ainda não se observa essa sinergia no campo de estudos, o que leva a proposições diversas e nem sempre convergentes acerca do que deve ser feito frente a um episódio dessa atrocidade para que o mesmo seja detido.
O próprio Totten (2004), porém, enxerga com otimismo certo desenvolvimento em direção a esse objetivo: a criação de diversos think tanks e institutos de pesquisa sobre o assunto; o êxito na proteção da minoria Bahá‟i no Irã nos anos 19809; a criação dos tribunais ad hoc para a ex-Iugoslávia e para Ruanda, bem como do TPI, de caráter permanente; o êxito da intervenção no Timor Leste, em 199910. Novas ideias, portanto, estão emergindo acerca da necessidade de combate e prevenção ao genocídio na sociedade internacional. Essas novas ideias surgem, conforme se discutirá a seguir, como tentativas de renovar as concepções acerca da cosmovisão corrente pautada pela prevalência da compreensão tradicional do conceito de soberania.
Essa relativização da soberania – sobre a qual já se comentou anteriormente neste trabalho –, aliada à pressão pela busca de respostas à violência em Darfur certamente dão esperanças de que medidas concretas serão tomadas para que o genocídio se torne um fenômeno restrito a ser descrito nos livros de História e para que os acadêmicos do campo de
9 Totten (2004, p. 486) afirma que “um dos mais exitosos casos de prevenção de genocídio deve ter sido o
esforço para proteger a comunidade Bahá‟i do Irã nos anos 1980”. Explica-se: “nesse caso, houve uma resposta preventiva imediata pelas Nações Unidas. A explanação para esse distanciamento radical da prática normal da ONU encontra-se em parte no status de pária que tem, em certa medida, o Irã [...], [m]as um fator mais importante foi o papel da Comunidade Internacional Bahá‟i em conduzir uma campanha hábil, na forma de um alerta internacional, altamente focada nas Nações Unidas” (KUPER apud TOTTEN, 2004, p. 486).
10 “O terror e as mortes [no Timor Leste] chamaram a atenção internacional, e a ONU foi pressionada a agir por
vários ministérios estrangeiros, bem como por organizações de direitos humanos [...]. As mortes e destruições só cessaram assim que peacekeepers (autorizados pelo Conselho de Segurança da ONU a utilizar “todos os meios necessários”) intervieram para deter a violência e colocar o Timor Leste sob tutela da ONU em 20 de setembro de 1999 [...]. Em última instância, e notavelmente, a Indonésia voluntariamente desistiu de sua reinvindicação ao território” (TOTTEN, 2004, p. 487-8).
Estudos de Genocídio busquem outras áreas de pesquisa para seguirem suas carreiras: “o fato de que agora estamos enfrentando o princípio da indiferença ao genocídio é motivo de esperança” (FOWLER, 2004, p. 466).
A continuação do genocídio em Darfur há mais de uma década, porém, é evidência de que esse discurso não foi tão efetivo quanto prometia. Neste capítulo, se argumentará que um dos fatores que motiva essa situação é a persistência da prevalência do conceito tradicional de soberania entre os atores internacionais. Discutir-se-á, pois, algumas das soluções propostas desde 2004 para deter o genocídio em Darfur, relacionando-as, especialmente, às normas que embasam a ideia de soberania conforme discutida nos capítulos anteriores deste trabalho. Analisar-se-á os pedidos de intervenção internacional com o uso da força e a abertura de um caso contra o presidente Al-Bashir no TPI. Frente às deficiências dessas propostas em atingir seu objetivo de combater o genocídio, especialmente em Darfur, a conclusão deste capítulo se pautará pela reflexão acerca de abordagens alternativas, principalmente baseadas em Levene (2004a; 2004b), que podem contribuir para pôr fim a essas atrocidades.