2. DAS CINZAS AO FAROL: HISTÓRIA E TERRITORIALIDADES DO MERETRÍCIO EM
2.3. As pensões galantes do Centro
2.3.2. Aplaudidas na rua: lembranças do carnaval
E um dia, afinal Tinham direito a uma alegria fugaz Uma ofegante epidemia Que se chamava carnaval47
O sentido de ter vivido uma época privilegiada é nítido nas evocações deAugusta sobre o período vivido nas pensões do Centro da cidade. A memória de uma época de ouro é constituída em torno do valor da elegância, do glamour das casas que contavam com orquestras, garçons, pianistas, fotógrafos profissionais.
Entre os momentos citados nos relatos sobre os “bons tempos”, os carnavais ocupam lugar de destaque. Augusta, Novinha e Glória forneceram-me ricos relatos sobre os carnavais nas pensões do Centro e no Farol. Nestes períodos, a ordem pública sofria uma inversão48, e as prostitutas, personagens cotidianamente invisibilizadas no espaço urbano,
podiam desfilar em avenidas centrais da cidade, sendo aplaudidas como atração pública. Artigos publicados em jornais locais, escritos por cearenses que viveram os carnavais da cidade nas décadas de cinqüenta e sessenta, registram a existência de blocos carnavalescos compostos por meretrizes, misturando-se alegremente às famílias da “boa sociedade”. A escritora cearense Edna Moreira assim descreve a participação das meretrizes nos carnavais da década de 50:
O carnaval de Fortaleza, e isso me dá saudade, era chamado de “corso” e percorria a avenida Duque de Caxias, formado por centenas de carros alegóricos. À frente ia o Rei Momo, a rainha do carnaval e sua corte. Nos carros de trás iam rapazes, moças e famílias, todos da boa sociedade fortalezense. Encerrando o desfile, democraticamente vinha o caminhão enfeitado com as “mulheres da vida fácil”, todas com fantasias bem comportadas e atirando beijinhos para a multidão postada nas calçadas49.
A presença das mulheres das pensões nos cortejos carnavalescos também é lembrada pelo jornalista José Augusto Lopes, segundo o qual:
[...] a rapaziada ficava ansiosa para ver o “caminhão das prostitutas”, lá das “Pensões Alegres”. Aquelas mulheres da vida, mas de alto nível, desfilavam com fantasias bem ornamentadas. Brincadeiras de
47Versos do samba “Vai passar”, de Chico Buarque.
48 Para Roberto DaMatta, o carnaval brasileiro opera “uma inversão do mundo”, em que a rotina e o trabalho são cambiados pelo prazer. Trata-se de uma inversão planejada, que suspende temporariamente hierarquias e diferenças sociais. Conferir DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco: 1986. 49 Cf. MOREIRA (2004, p. 35-6).
mau-gosto com elas? Que nada. As jovens eram aplaudidas. (Jornal DIÁRIO DO NORDESTE, 1º/02/1999)50
.
Também no Serviluz, as mulheres costumavam fantasiar-se para ir ao corso. Novinha contou-me, em uma conversa que não foi gravada, sobre um de seus carnavais, quando foi assistir aos desfiles na avenida Duque de Caxias, no Centro da cidade. A lembrança deste episódio é, para ela, bastante penosa, pois o carnaval era uma data muito esperada e o passeio foi frustrado por uma intervenção policial. Fantasiada e acompanhada de suas inquilinas, Novinha havia providenciado motorista e um jipe alugado para ver o corso. Outros grupos de meretrizes estavam no local, e brincaram o carnaval normalmente. O jipe de Novinha, no entanto, levava também dois meninos, filhos de mulheres da casa.
A entrevistada conta que, ao descer do carro, foi de pronto abordada por um policial, que lhe ameaçou de ser presa por levar duas
crianças ao corso “com esse monte de mulher”. As perguntas dirigidas a Novinha pelo policial, conforme relatado pela narradora, demonstram que, à época, uma mulher no espaço público sem a companhia de um responsável masculino, pai ou marido, ainda era vista com suspeição. O policial perguntou-lhe se era solteira, se morava sozinha e se era meretriz, para em seguida alertá-la: “você sabia que não podia estar aqui com esses meninos e esse monte de mulher? Você sabia que você vai presa?”. Novinha conta que, após ameaçar prendê-la, o policial mandou-lhe que voltasse para casa. “Aí me liberou, me mandou deixar os meninos em casa, mas também acabou meu carnaval. Eu fui, deixei o menino em casa, e fiquei em casa me embriagando, sozinha”.
50 VASCONCELOS, Helena. O carnaval da chiquita bacana: pesquisadores e memorialistas lembram os carnavais do passado. Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, 1º fev. 1999. Disponível em:
http://diariodonordeste.globo.com/1999/02/01/030001.htm
Figura 15 Augusta, na escadaria de uma pensão, fantasiada de Zorro, para ir ao corso. Fonte: arquivo da entrevistada.
Na foto ao lado, de quando era proprietária de uma casa de prostituição no Serviluz, Novinha aparece com calças bufantes e blusa colada ao corpo, além de luvas. Explicou-nos que aquela era fantasia da madame, que deveria ser diferente da confeccionada para as “inquilinas”.
Figura 16 Fonte: arquivo da entrevistada.
Glória contou-me sobre os carnavais da boate Chave de Ouro, no Farol. As lembranças da entrevistada são mais recentes, da década de oitenta.
Glória: Digamos, quando faltava dois mês [meses] pro carnaval nós já começava a organizar o salão...
Érika: A senhora se divertia, gostava?
Glória: Amava! Eu amava, não vou mentir. Eu queria que um cabaré de hoje fosse como o de antigamente. [...]
Glória: Isso aqui era na boate que a gente morava, e aí todo carnaval a gente fazia as fantasias, e fazia um bloco. Era na boate da Mariana, a Chave de Ouro, uma casa aqui perto, que hoje é uma lanchonete . Você vai ver muita foto aqui. Essas fantasias a gente preparava só pro carnaval. Cada carnaval, roupas diferentes [GLÓRIA, 2011]. Nas fotos, a simplicidade das fantasias, com ares de improviso, contrasta com o esplendor descrito na fala da entrevistada. Purpurina, batons vermelhos e enfeites chamativos dão o tom kitsch das fantasias festivas. No entanto, mesmo que as fotos não reflitam o luxo mencionado no discurso, é pelo discurso do glamour que a personagem constrói os significados que são objeto de minha interpretação. Não interessa aqui se Glória está construindo um mito de origem pessoal ou se está fornecendo um relato fidedigno, mas o papel que os sentidos de elegância e glamour operam na construção de sua identidade. A
elegância funciona, no discurso de Glória, como fator de legitimação social e diferenciação. Associando à sua história no meretrício o valor distintivo do glamour, Glória se identifica com as mulheres de ontem e se diferencia das prostitutas de hoje, sobre as quais recaem os estigmas da promiscuidade:
Porque hoje, a batalha é totalmente diferente. As mulheres tudo com o rabo de fora! No nosso tempo, não. No nosso tempo, as mulheres eram tudo de longo, de salto alto, de meia, de cabelo feito [GLÓRIA, 2001].
Carnavais na boate Chave de Ouro, década de 80. Fonte: arquivo pessoal da entrevistada.