3.4 Dinˆamica dos gr˜aos
3.4.4 Aplicabilidade dos mecanismos de alinhamento
Um grande n´umero de mecanismos que produzem o alinhamento dos gr˜aos foram desenvolvidos at´e os dias atuais. Um resumo dos processos descritos nas se¸c˜oes anteriores est´a exposto na tabela 3.1.
Ao lidar com uma situa¸c˜ao astrof´ısica particular, ´e preciso identificar qual ´e o meca- nismo de alinhamento dominante, e assim o entendimento das limita¸c˜oes dos diferentes mecanismos ´e essencial. Antigamente havia uma regra geral que normalmente era seguida pelos astrˆonomos ao lidar com uma situa¸c˜ao em que se exigia uma interpreta¸c˜ao associada `a dire¸c˜ao de alinhamento: todos os gr˜aos s˜ao sempre alinhados e o alinhamento ocorre com o eixo maior dos gr˜aos perpendicular ao campo magn´etico. Esta receita simples fa- lhou frente a diversas evidˆencias observacionais posteriores, que indicaram que (Lazarian, 2007):
1. Gr˜aos de tamanho menor que um determinado tamanho cr´ıtico n˜ao s˜ao alinhados ou s˜ao muito pouco alinhados;
Tabela 3.1: Sum´ario dos mecanismos de alinhamento de gr˜aos.
Mecanismo Descri¸c˜ao Condi¸c˜oes Efeitos
Paramagn´etico Alinhamento dos gr˜aos δ = tgas/tparamag≫ 1; ~J k ~B;
(Davis-Greenstein) em rota¸c˜ao t´ermica por Tgas6= Tgraos δ ∝ a−1, resultando
relaxa¸c˜ao em maior eficiˆencia
paramagn´etica para gr˜aos menores
Alinhamento Alinhamento dos gr˜aos Presen¸ca de aglome- ~J k ~B;
Superparamagn´etico em rota¸c˜ao t´ermica por rados ferromagn´eticos Aumento em χ, le- relaxa¸c˜ao δ = tgas/tparamag≫ 1; vando a uma dimi-
superparamagn´etica Tgas6= Tgraos nui¸c˜ao em tparamag;
> eficiˆencia para gr˜aos maiores Rota¸c˜ao Alinhamento dos gr˜aos Presen¸ca de s´ıtios ~J k ~B;
Suprat´ermica em rota¸c˜ao suprat´er- catalizadores de H2; Aumento da energia rota-
(Torques de mica por relaxa¸c˜ao δ = tm/tparamag≫ 1; cional devido principal-
Purcell) paramagn´etica mente `a emiss˜ao de H2;
(> rota¸c˜ao por > eficiˆencia para
emiss˜ao de H2) gr˜aos maiores
Rota¸c˜ao Alinhamento dos gr˜aos Ambiente sob influ- ~J k ~B;
Suprat´ermica em rota¸c˜ao suprat´er- ˆencia de radia¸c˜ao Espalhamento diferencial (Torques de mica por relaxa¸c˜ao anisotr´opica; entre ambas as componen- Purcell) paramagn´etica Gr˜aos com um certo tes de polariza¸c˜ao circu-
(> rota¸c˜ao por grau de helicidade lar, aumentando a rota¸c˜ao
torques radiativos) dos gr˜aos
Mecˆanico Alinhamento mecˆanico Fluxo supersˆonico de Eixo maior dos gr˜aos (Mecanismo de dos gr˜aos ao longo g´as e poeira; paralelos ao fluxo; Gold) da dire¸c˜ao de fluxos Rota¸c˜ao suprat´ermica Possivelmente
supersˆonicos de deve dificultar o ~J ⊥ ~B,
mat´eria processo; dependendo da situa¸c˜ao
2. Gr˜aos formados em sua maior parte de carbono n˜ao s˜ao alinhados, ao passo que gr˜aos de silicatos s˜ao alinhados;
3. Uma quantidade significativa de gr˜aos pequenos embebidos em nuvens moleculares n˜ao s˜ao alinhados;
4. Gr˜aos podem estar alinhados com seus eixos maiores paralelamente `a dire¸c˜ao do campo magn´etico.
Em particular, o mecanismo DG deve ser importante para gr˜aos paramagn´eticos pe- quenos, j´a que δ = tgas/tpar ´e inversamente proporcional ao tamanho do gr˜ao. Acredita-se
que este mecanismo cl´assico n˜ao ´e promissor para o alinhamento de gr˜aos maiores que 0,02 µm.
Ao mesmo tempo, com o mecanismo de torques radiativos, ocorre a situa¸c˜ao inversa, j´a que n˜ao ´e eficiente para gr˜aos suficientemente pequenos (ou seja, λ ≫ a). Este meca- nismo em especial sofreu mudan¸cas dram´aticas nos ´ultimos 10 anos. Do mais esquecido ele ascendeu a um dos mais importantes. Draine & Weingartner (1996, 1997) afirmam que o processo de torques radiativos pode ser o mecanismo de alinhamento dominante no meio interestelar difuso. No entanto, quest˜oes permanecem a respeito da natureza do mecanismo, da escolha particular de gr˜aos estudados e da eficiˆencia do processo em diferentes ambientes.
Em rela¸c˜ao ao mecanismo de Gold, apesar de n˜ao ser convincente ao explicar o padr˜ao global dos vetores de polariza¸c˜ao em grande escala, sem d´uvida existem situa¸c˜oes em que o mecanismo ser´a importante, especialmente em casos onde os processos de rota¸c˜ao suprat´ermica s˜ao pouco eficientes (Lazarian, 1995b). Outras situa¸c˜oes em que o ali- nhamento n˜ao surge devido ao campo magn´etico tamb´em s˜ao poss´ıveis. Por exemplo, na vizinhan¸ca bem pr´oxima das estrelas, os gr˜aos podem se alinhar em rela¸c˜ao ao fluxo de radia¸c˜ao. Al´em disso, picos de luz em explos˜oes de supernovas podem impor a dire¸c˜ao do fluxo de f´otons como o eixo de alinhamento.
No entanto, Lazarian (2007) argumenta que para condi¸c˜oes t´ıpicas do meio intereste- lar, o alinhamento ocorreria sempre em rela¸c˜ao ao campo magn´etico, independente do mecanismo dominante, como consequˆencia da r´apida precess˜ao de Larmor (do momento angular ~J ao redor do campo magn´etico externo).
Cap´ıtulo 4
Polarimetria
Informa¸c˜oes sobre o Universo s˜ao obtidas atrav´es de ondas eletromagn´eticas e de part´ıculas que chegam at´e n´os. As OEMs trazem informa¸c˜oes contidas tanto em suas caracter´ısticas transversais quanto em sua intensidade. Isso porque um feixe luminoso car- rega um conjunto de informa¸c˜oes a respeito da fonte e de quaisquer intera¸c˜oes que tenha sofrido ao longo do caminho at´e o observador. A partir da interpreta¸c˜ao dos poss´ıveis processos f´ısicos envolvidos, tais informa¸c˜oes poder˜ao fornecer detalhes a respeito do meio interagente, particularmente quando analisadas em fun¸c˜ao de λ e de suas caracter´ısticas transversais, normalmente referidas como polariza¸c˜ao.
Neste cap´ıtulo descreveremos o processo da medida polarim´etrica da luz das estrelas, essencial para o desenvolvimento deste trabalho. Todas as medidas foram realizadas no Laborat´orio Nacional de Astrof´ısica (LNA), cujo s´ıtio observacional (Observat´orio Pico dos Dias - OPD) est´a localizado no munic´ıpio de Braz´opolis, MG - Brasil.