2 Modelo teórico e metodologia de pesquisa
2.2 Arranjos Produtivos Locais – APL´s
2.2.2 Como e por que apoiar os Arranjos Produtivos Locais
Apenas no início dos anos 90 a visão acerca da importância das pequenas e médias empresas (PME´s) começou a mudar, como destaca Puga (2004). Dados do SBA (small business Association) mostram que “ as MPE´s
foram responsáveis por mais de 76,5 % dos novos postos líquidos de trabalhos criados nos EUA entre 90 e 95” (Puga, 2004). O cenário no Brasil também é
de destaque para as PME´s já que mais de 65 % dos postos de trabalho são gerados por elas (Dias Júnior, 2005).
O incentivo a estas PME´s também ganhou destaque no Brasil na formulação de políticas industriais e de desenvolvimento recentemente com a formalização do Grupo de Trabalho Permanente (GTP-APL) 16 dentro do
Plano Plurianual (PPA 2004-2007), cujo objetivo é o de integrar as ações do
governo federal e outras agências públicas e privadas para sua promoção. O programa 1.015 – Arranjos Produtivos Locais – tem como objetivo a promoção do desenvolvimento de APL´s, elevando sua competitividade e sua internacionalização, especialmente das micro, pequenas e médias empresas situadas em APL´s 17. Tal meta é um dos objetivos macro do governo federal,
16Portaria interministerial nº 200, de 3/8/2004, composto por 23 instituições, sendo 11 ministérios, além de instituições
não-governamentais, de abrangência nacional.
que é o de promover o crescimento com geração de renda, trabalho e emprego, ambientalmente sustentável, sendo ainda redutor de desigualdades.
Esta lógica de apoio parte do princípio de que os diversos atores dentro de um APL podem mobilizar-se e, de forma coordenada, identificar suas demandas coletivas por iniciativa própria ou por indução de entidades envolvidas com o segmento.
Uma das principais ações estruturantes incluídas no programa 1.015 é o
Projeto Extensão Industrial Exportadora – PEIEx, uma parceria entre o
MDIC, APEX e o SEBRAE. Este projeto oferece suporte técnico e consultoria gerencial individualizada, aumentando assim a competitividade das empresas situadas em APL´s.
Para que um APL tenha efeito duradouro em termos de promoção de desenvolvimento, atuando como política pública de desenvolvimento regional, é necessário que se verifique não apenas a capacidade que o mesmo tenha de gerar empregos, mas que se verifique também a qualidade do emprego gerado, bem como as relações de trabalho existentes. O apoio aos APL’s deve ser direcionado no sentido de promover a melhoria das relações de trabalho, o grau de formalização das empresas (pagamento de impostos, engajamento em associações empresariais, etc) e dos empregos (carteira assinada e direitos trabalhistas) , bem como caminhar no sentido de eliminar o trabalho infantil e a informalidade das relações de trabalho (NORONHA, 2005).
Salienta-se que estas aglomerações produtivas, quando em estágio avançado, atuam como propulsoras do desenvolvimento da região em que atuam. Além disto, os APL’s podem ser responsáveis pelo adensamento do parque industrial brasileiro, já que diferem da estratégia das indústrias transnacionais que vagam o mundo em busca de melhores oportunidades, não hesitando em deslocar suas plantas industriais para outros países, pouco se importando com a geração local de renda e de empregos.
Políticas de apoio aos APL’s também encontram respaldo na distribuição de renda e criação de novos empregos na região em que atuam. Novamente ao exemplo das firmas transnacionais, ao gerar lucro em suas plantas industriais, não necessariamente (e até dificilmente) reinvestem estes lucros na região em que produz, já que tal decisão cabe à matriz da empresa. Já as empresas situadas em APL’s, geralmente pequenas e médias, qualquer
excesso de capital acumulado é reinvestido no próprio local de atuação, muitas vezes no incremento de sua atividade produtiva, em P&D, em tecnologia, visando ganhos de escala ou mesmo na diversificação para outros negócios, também na própria região.
As políticas de apoio às MPE´s inseridas em arranjos produtivos locais partem do conhecimento da estrutura destes arranjos. Assim, alguns procedimentos preliminares se fazem necessários (PUGA, 2004):
i) Conhecer o porte das empresas e as relações de cooperação existentes 18;
ii) Verificar a existência, a representatividade e a atuação de associações de empresas; instituições de ensino; serviços locais de apoio empresarial; instituições financeiras;
iii) Avaliar as demandas das empresas;
Puga (2004) destaca ainda que tais políticas de apoio devem focar não apenas as iniciativas voltadas para a melhoria do acesso ao crédito, mas sim a criação de ambiente favorável ao desenvolvimento dos negócios. Muitas vezes, o acesso ao crédito pode se constituir num entrave ao crescimento das empresas quando não se avalia a real capacidade de pagamento e gestão destes recursos obtidos por parte da empresa. Assim, o suporte gerencial se faz necessário. No que se refere ao acesso a crédito, Puga (2004) apresenta algumas possibilidades que poderiam viabilizar a diminuição das garantias cobradas pelas instituições financeiras bem como as taxas cobradas por estes empréstimos, entre elas o “Modelo de Cooperativas de Crédito Italianas e o
Sistema Espanhol de Garantias Recíprocas” 19 esta última com boa
“aderência” ao modelo estrutural existente no Pólo de Confecções do Agreste. De acordo com este autor, o SEGR poderia ser impulsionada com o estímulo à criação das sociedades de garantia solidária, autorizadas desde 5 de outubro de 1999, pela Lei 9.841, que instituiu o Estatuto da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Sob a forma de sociedade anônima, os sócios investidores (que poderiam ser também os próprios empresários) colocam
18Puga (2004) destaca que a presença de empresas líderes possui um comportamento ambiguo, já que podem atuar
como propulsores de desenvolvimento para as outras empresas do APL ou mesmo como minando o crescimento de outras firmas, ao citar o caso de grandes empresas no Vale dos Sinos no sul do Brasil.
19Maiores informações consultar PUGA, F.P. Alternativas de apoio a MPME´s localizadas em Arranjos Produtivos Locais, IPEA, texto para dicussão nº99, 2004.
recursos à disposição dos sócios participantes. Os sócios investidores podem ser pessoas físicas ou jurídicas que farão aportes de capital na sociedade com o objetivo de auferir rendimentos. Os sócios participantes têm que ser constituídos, exclusivamente, por microempresas e empresas de pequeno porte, não podendo o seu número ser inferior a dez, e nenhuma delas pode ter mais de 10% do capital social [Hentz (2000) apud Puga(2004)].
Quanto ao estabelecimento de instituições que avalizem as garantias oferecidas por essas sociedades, poderiam ser utilizados os fundos de aval existentes: Fundo de Garantia para Promoção da Competitividade (FGPC), pertencente ao Tesouro Nacional e gerido pelo BNDES; Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe) do Sebrae; e Fundo de Aval para Geração de Emprego e Renda (Funproger), criado no âmbito do Programa Brasil Empreendedor e administrado pelo Banco do Brasil. O grande desafio, nesse caso, estaria em coordenar esses fundos. Um primeiro passo foi dado nesse sentido, em 2002, com a celebração do acordo de cooperação entre o BNDES e o Sebrae, que prevê a utilização do FGPC e do Fampe no apoio a arranjos produtivos locais (PUGA, 2004).
As políticas de apoio aos APL’s, ou clustering, como define Barros (1999), devem
i) Viabilizar os investimentos em infra-estrutura econômica que possam ser úteis ao desenvolvimento da competitividade do APL e que sejam eficientes na alocação de recursos, públicos ou privados;
ii) Viabilizar investimentos em recursos humanos e tecnologia, com vistas a satisfazer as necessidades dos APL’s e fomentar o aperfeiçoamento dos processos produtivos;
iii) Atrair novos empreendedores que possam integrar mais as cadeias produtivas, melhorando o fluxo interno de informações, diminuindo então o custo de transação;
iv) Facilitar a prestação de serviços pelos agentes financeiros; v) Criar mecanismos que facilitem o fluxo de informações dentro
do APL, tanto entre os próprios agentes internos como os externos.