CAPÍTULO 4 A educação profissional de pessoas com
3.4 Relação entre instituições de ensino e mercado de trabalho
3.4.3 Apoio e acompanhamento do egresso no mercado de trabalho
O apoio e o acompanhamento do egresso no mercado de trabalho são formas de prestar atendimento individualizado a cada pessoa com deficiência,depois que a contratação é efetivada pela empresa. A conclusão do curso que visa à sua inserção no mercado de trabalho é apenas uma etapa nesse processo de inclusão.
A consolidação da experiência no mundo do trabalho traz novos desafios para muitas pessoas com deficiência, especialmente para aquelas que terão sua primeira experiência de emprego. Dificuldades de socialização, de mobilidade e de adaptação na tarefa a ser desenvolvida podem ser dificuldades iniciais, o que faz com que o acompanhamento por parte da instituição educacional seja importante ponto de apoio para elas e para as empresas. Receber um funcionário com deficiência é uma experiência nova para muitas delas.
As escolas do SENAI e do SENAC mantêm um sistema de pesquisa dos egressos. O interesse neste acompanhamento consiste em saber se os alunos estão inseridos, se estão na área que estudaram, como é que foi a resposta deles ao mercado de trabalho em relação aos cursos, entre outras questões. Mas esse acompanhamento não é específico para um determinado segmento de alunos, ou seja, não é feito um acompanhamento de egressos específico para as pessoas com deficiência. Por isso, não é possível avaliar como as pessoas que passaram pela educação profissional destas escolas estão situadas no mercado de trabalho.
Nem todas as ONGs pesquisadas fazem este trabalho de acompanhamento do egresso, mas, como seus serviços de apoio a estas pessoas vão além da oferta de educação profissional, elas continuam frequentando a instituição na busca por outros serviços ou, mesmo, pelo vínculo afetivo desenvolvido com a equipe de profissionais que lá trabalham. Esta frequência constante nas instituições faz com que haja um acompanhamento informal,
oportunidade em que a equipe pedagógica da escola fica sempre atualizada em relação à situação do aluno no mercado de trabalho. Além disso, a parceria das ONGs com empresas dura muito tempo, o que faz com que o contato entre elas seja permanente. Esta situação é descrita a seguir.
RIONG 02: sim. Não muito formal. A gente não tem, assim, um processo formal de acompanhamento. A gente tem um processo informal porque as empresas são clientes fidelizados. Normalmente, a gente atende a empresas que já trabalham com a gente há algum tempo. Então, a gente consegue ter facilmente o feedback da empresa e os alunos também acabam formando um vínculo com a equipe e a gente tem facilidade de receber notícias. Mas, eu não posso te dizer que eu tenho um processo que eu vá, aluno por aluno, checar informações específicas. A gente tem uma devolutiva mais genérica. É um item que a gente deveria desenvolver sim e a gente ainda não teve braço e perna pra fazer isso. Mas, informalmente, a gente tem alguma devolutiva.
Algumas ONGs fazem um acompanhamento formal, negociando com a empresa o tempo que irá durar esse acompanhamento. É, na verdade, um acompanhamento não só do egresso, mas também de todo o contexto que irá envolvê-lo no trabalho, que envolve também a preparação da empresa para receber o funcionário com deficiência. Algumas destas questões que são alvo do apoio e acompanhamento foram citadas por um (a) representante de ONG.
RIONG 03: a pessoa, depois de incluída, é negociado com a empresa o tempo que a gente acompanha essa pessoa dentro da empresa pelos menos 3 meses, 90 dias, pra poder acompanhar a adaptação dessa empresa, a pessoa com deficiência, o gestor dela. Então, a gente ainda acompanha a pessoa depois de incluída no mercado. (...) É uma dificuldade de realmente... como que eu lido, como é que eu falo, como é que eu me comporto, como é que eu ofereço ajuda... Então, são dúvidas que é mais do empregador mesmo em relação à pessoa, porque a pessoa está lá disponível, ela quer trabalhar, ela está preparada pra isso,
como nós também, mas é a maior dificuldade da empresa. Por isso que tem esse acompanhamento, por isso que a gente tem as palestras de sensibilização (...) A gente não inclui sem esse produto junto porque é um passo muito importante de mostrar para as pessoas o que são as deficiências, como que eu ofereço ajuda pra cada deficiência... Então... é uma quebra de paradigma, é esclarecer pra pessoa de como ajudar uma pessoa com deficiência visual, um deficiente intelectual, que tem uma coisa interessante que a gente percebe, como, por exemplo, o intelectual, ele tem uma questão cognitiva mais baixa do que a real idade dele e as pessoas ficam falando “ahninininhim”. Trata eles como criança e eles são adultos... Então, é esse esclarecimento que a gente dá nestas palestras e, depois, durante o acompanhamento também e a gente percebe que o maior problema de adaptação da pessoa com deficiência na empresa é o relacionamento. É a questão da relação mesmo.
Nota-se que ainda há uma falta de preparação das empresas em lidar com a pessoa com deficiência, principalmente no que tange ao relacionamento interpessoal. Como as pessoas com deficiência têm uma trajetória de vida marcada pela segregação, elas não fazem parte do convívio cotidiano com as pessoas sem deficiência. Esta é uma das razões para que muitas pessoas não saibam lidar com o que é diferente, diverso.
A relação entre pessoas com e sem deficiência parece ser alvo de tantos problemas que inspirou Mara Gabrilli a escrever um Manual de Convivência: Pessoas com Deficiência e Mobilidade Reduzida. Neste manual, a autora tenta esclarecer que a deficiência não é sinônimo de incapacidade, descrevendo as deficiências e oferecendo algumas dicas sobre como pode ser o relacionamento entre pessoas com e sem deficiência (GABRILLI, [19--]).
Esta estranheza é provocada pela crença de que as pessoas com deficiência são incapacitadas para as atividades laborativas e que possuem alto grau de dependência de outras pessoas, até mesmo para os cuidados pessoais. É no conjunto das relações sociais que essas diferenças no tratamento dispensado às PcD são mais percebidas.
Esta forma de interpretação da deficiência reporta ao modelo médico da deficiência, segundo o qual a incapacidade é considerada problema da pessoa, que requer cuidados médicos visando à sua cura ou sua adaptação à sociedade. Também é coerente com a matriz de normalidade, elaborada por Carvalho- Freitas et al. (2009), na qual a deficiência é considerada um desvio ou uma doença que requer cuidados dos profissionais de saúde.
A partir desta crença, a possibilidade de inserção da PcD só acontece mediante sua reabilitação e adequação ao sistema social. Segundo a autora, as pessoas que compartilham desta concepção consideram que as pessoas com deficiência assumem atitudes inadequadas, provocando situações embaraçosas, são mais propensas a acidentes e têm problemas de relacionamento. Quando adota esta visão, a inclusão ou a exclusão efetiva são de total responsabilidade do indivíduo com deficiência.
O acesso ao mercado de trabalho é facilitado pela qualificação, legislação e parcerias entre empresas e ONGs, mas a dificuldade ainda reside na falta de informação, na falta de oportunidades de convivência entre pessoas que possuem limitações diferentes. No encontro do diverso no ambiente de trabalho, eclodem problemas, como a falta de informação e o estigma.
Outras ONGs só fazem este tipo de trabalho mediante a solicitação da pessoa com deficiência ou da empresa.
RIONG 01: acompanhamento assim... a gente até faz, se a pessoa também solicitar. Então, a gente vai lá, conversa, vê, dá dicas, ajuda o pessoal (...) porque, às vezes, eles não conseguem entender que, se eles tiverem, por exemplo, uma tela um pouquinho maior, vai facilitar. São soluções tão simples! Se você, por exemplo, mandar um e-mail pra uma pessoa em vez de arial 12, arial 16, vai facilitar a vida dela. Então, soluções muito simples.
Em uma das ONGs pesquisadas, o acompanhamento do egresso no mercado de trabalho não é feito, pois, de acordo com a orientação que a instituição adota, a relação entre a empresa e o empregado deve ser construída por ambos, no cotidiano do trabalho, como com qualquer outra pessoa sem deficiência.
RIONG 04: a gente acha que, nessa relação empresa- empregado, tem que ser construída pelos dois . (...) A gente faz sim algum acompanhamento mas, mais longe, mais a distância. A gente teve empresas que a gente conseguiu fazer o que se chama de on the job, que é um profissional nosso acompanhando essa pessoa por uma ou duas semanas, mas não pra fazer a ponte entre ela e a empresa, porque isso tem que ser construído mesmo. Mas, no sentido de ajudá-lo a superar alguma dificuldade técnica mesmo, entendeu? Tentar ajudar ele a desenvolver uma tarefa de modo mais simples, usando os recursos que ela já aprendeu aqui, entendeu? A gente fez com uma empresa e foi uma coisa bem sucedida.
É difícil para uma pessoa com deficiência, em sua primeira experiência profissional, por exemplo, construir um “relacionamento com a empresa” sozinha. Mesmo porque este relacionamento é, na verdade, com os demais funcionários (seus pares, chefes), com clientes externos, com questões do mundo do trabalho como a hierarquia, metas, regras, mudanças e tudo o que, internamente, interfere no trabalho desta pessoa.
A trajetória de vida marcada pela exclusão e pela descrença em suas potencialidades se mantém também durante o primeiro momento de inserção no trabalho, como aponta Carvalho-Freitas et al. (2009). Nota-se, inicialmente, insegurança, ansiedade e medo de não conseguir executar as tarefas solicitadas. Por esta razão, apoio e acompanhamento no sentido de desconstruir esses medos podem ser bastante úteis para as pessoas com deficiência.
3.5 Desafios e possibilidades da educação profissional de pessoas com