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9 A CAF SE POSICIONANDO NO TERCEIRO SETOR

9.7 APOIO DE EMPRESAS

Se por um lado a adesão de igrejas passa pela compatibilidade de valores e de missão, com as empresas a adesão se dá pela compatibilidade de interesses e pela capacidade organizacional. Em recente entrevista a MARTES e ALVES (2006) CARDOSO diz que: “hoje você muito dificilmente tem apoio de uma empresa se não tiver avaliação de trabalho. Porque é uma coisa da cabeça dos empresários. As ONGs foram muito influenciadas pela forma de gestão das empresas, e as que não conseguirem um bom gerenciamento vão perecer”(p. 111).

A atuação empresarial dentro do Terceiro Setor tem sido tema para estudos alguns dos quais tem resultado em criticas que ressaltam o uso do marketing social e da “responsabilidade social” como mais um meio de as empresas engordarem os interesses dos acionistas, inclusive, imprimindo nos projetos, a lógica dos resultados “curto-prazistas” referidos por KLINSBERG (1999).

No entanto outros autores (ALVES, 2001; CARDOSO, 2004; FALCÃO, 2004;) discutem a inegável participação empresarial no desenvolvimento de projetos sociais sem a qual, não teria havido especialmente na década de 90 o crescimento e o desenvolvimento que inclusive alterou a forma de as ONGs se estruturarem e se adequarem às exigências do Terceiro Setor.

Algumas empresas apoiarão projetos com crianças, outras, projetos de proteção do meio ambiente, e assim por diante, mas, invariavelmente, as empresas buscarão

entidades que demonstrem algum grau de credibilidade organizacional para gerenciar os projetos.

Se a CAF tinha uma preocupação em mostrar aos lideres das igrejas que a organização era séria do ponto de vista dos seus valores e do cumprimento de sua missão para com os beneficiários, com as empresas era importante demonstrar a capacidade de gestão do projeto, em especial, a preocupação e transparência com os dados financeiros etc.

Não significa que as igrejas não estivessem preocupadas com a gestão de projetos ou que as empresas não se interessassem pela relação com os beneficiários, mas era utilizado um discurso diferente para com os diferentes parceiros.

A Fast Lanches, primeira empresa a dar continuidade ao apoio para a CAF desde 2001, doavam os lanches que eram servidos nas reuniões de quarta-feira e posteriormente passaram a colaborar com doações para as festas. Os lanches, de boa qualidade vinham ensacados individualmente em plástico e transmitiam uma mensagem de higiene, que a coordenadora, como enfermeira, valorizava e ressaltava junto aos beneficiários e visitantes das reuniões. De forma atípica, o empresário nunca solicitou um relatório, para ele bastava um telefonema vez ou outra para falar como os lanches estavam sendo utilizados, o relatório era informal. Alguns doadores preferem que não haja muita promoção sobre a sua doação e alguns até mesmo recusam cartas de agradecimento.

Manter as pessoas informadas sobre o que acontecia na CAF foi uma necessidade vital. Principalmente por causa do relacionamento com as empresas, acostumadas ao tempo real on line, a urgência foi aprimorar o sistema para imprimir um pouco mais de rapidez nas comunicações. A compra do computador foi um avanço, mas somente em 2004, quando a equipe já era maior e contava com pessoas trabalhando especificamente na área de comunicação foi que a CAF retomou a sistematização do seu banco de dados e iniciou um informativo que também ajudou na prestação de contas.

O contato com as empresas muitas vezes é efetivado através de um funcionário. Com uma empresa produtora de brinquedos que colaborou com doação de brinquedos e com trabalho voluntário o contato passou a ser mais freqüente através do funcionário encarregado pelas doações, ele tornou-se como que o representante da CAF dentro da empresa, avisando de antemão sobre a possibilidade de alguma doação ou de um evento ou palestra que pudesse interessar. Existia, entretanto, o risco de se colocar toda a ênfase naquele funcionário, e, caso o mesmo saísse da organização, o contato se perderia.

Muitas iniciativas partiam dos funcionários ou do setor de Recursos Humanos e de Marketing e não propriamente da empresa. Na universidade onde a coordenadora lecionava, o apoio partiu dos funcionários do RH que desenvolveram uma série de atividades tais como: coleta de brinquedos e roupas e a organização de reportagens sobre a CAF, feitas pela equipe de reportagem da universidade. Devido principalmente à capacidade de mobilização de duas funcionárias, as iniciativas de coleta de agasalhos e brinquedos foi aos poucos ficando conhecida dentro da organização e ganhando o respaldo dos diretores.

Algumas empresas só ajudavam em ocasiões especiais, como por exemplo, o natal. Era como se as pessoas só tivessem fome ou necessidade em datas especiais. Por mais que se buscasse um relacionamento mais próximo e uma verdadeira aproximação que continuasse ao longo do ano, era como se a ajuda ocorresse mesmo para aliviar a consciência ou para criar uma “imagem junto aos colaboradores daquela empresa”, confirmando uma das principais criticas que se faz à “falsa responsabilidade social” praticada por algumas empresas (MARTES e ALVES, 2006).

Outras empresas não demonstravam nenhum interesse em ajudar, porque a CAF não tinha ainda todos os registros junto ao governo ou porque não podia dar demonstrativos de sustentabilidade, como por exemplo, um quadro amplo de parceiros. Os registros e a comprovação de parcerias eram uma forma de selecionar

as organizações no caso de alguma subvenção, de verificar a credibilidade da organização. Com isso, somente organizações grandes acabam tendo acesso aos recursos disponibilizados por determinadas empresas e agencias internacionais ao passo que as pequenas permanecem longe das possibilidades de adequar-se aos parâmetros solicitados.

Com a ampliação para outros projetos, aconteceu a entrada de grandes empresas que passaram a apoiar como colaboradores inicialmente e algumas, como parceiros não apenas dos projetos específicos, mas, também, contribuindo tecnicamente para o crescimento e estruturação da ONG, que começou a diferenciar-se de uma organização de um único projeto, para uma organização gestora de projetos, para a equipe de trabalho, identificada como a CAF-ORG.

As doações de empresas e o próprio contato com as mesmas favoreceu a assimilação de um discurso de negócios que se aplicou principalmente no bazar permanente, conforme a fala do informante 3:

(...) primeiro lugar... amizade com o povo e... preço, preço bom... as vezes as coisas é tudo bem baratinha,porque? Porque o interessante é a rotação,...não adianta você pega uma coisa e por um preço alto, alto que eu digo assim, que não vai se encaixar no poder aquisitivo da comunidade, das pessoas que freqüentam aqui.... e a qualidade também porque as coisas que a gente colocamos no bazar são coisas da melhor qualidade, porque o que não serve pras pessoas não serve pra mim, e o que não serve pra mim não serve pras pessoas também então nós não podemos vender o que não serve pras pessoas, costumamos quando chega as coisas fazer uma inspeção de qualidade, tem coisas que não tem condições então nós procuramos separar e colocamos só coisas boas e um preço bom, então é capital de giro, tudo que é barato e bom tem retorno (SIC)

A resposta de empresas tem sido muitas vezes mais rápida do que a resposta de outros parceiros, segundo a experiência da organização, ocorrendo com uma ética que indica que esses atores tem eles próprios refletido sobre o seu papel no campo social à luz das críticas que tem sido feitas à “responsabilidade social”.