S íntese conclusiva e limitações metodológicas
7. Apontamento sobre paradigmas com recurso a medidas centrais
Literalmente, existem centenas de estudos que utilizaram técnicas de Electroencefalografia (EEG) e de Potenciais Evocados (PE) em populações de jovens delinquentes, psicopatas, criminosos violentos e criminosos em geral. As revisões desses estudos são também muito extensas e frequentes (e.g., Mednick et al., 1981; Raine e Venables, 1987; Volavka, 1987; Milstein, 1988; Raine, 1993; Hare, 2000).
Grande parte dos referidos estudos encontram anormalidades EEG em criminosos violentos e reincidentes, e uma elevada prevalência de ritmos EEG lentos na adolescência é um dos factores preditivos da criminalidade adulta (Raine et al., 1990c).
Numa conclusão importante para os nossos trabalhos, Mednick (1981) finaliza a sua revisão afirmando que a alta prevalência de anormalidades EEG (ritmos lentos) existe entre pessoas condenadas por crimes violentos. Este dado é especialmente verdadeiro para os criminosos reincidentes e implica as regiões anteriores do cérebro. Volavka (1987) e Milstein (1988) reportam conclusões similares, não exclusivamente para crime violento, mas também para o crime em geral.
No que diz respeito à psicopatia, Raine (1993) observa que houve poucos estudos EEG metodologicamente rigorosos ao nível dos critérios da selecção das amostras, mas o excesso de actividade lenta é reportado desde há longa data nos psicopatas (e.g., Hare, 1970). De qualquer modo Blackburn (1979),
refere ter encontrado maiores níveis de activação cortical em psicopatas primários do que em psicopatas secundários. Este resultado não deixa de ser surpreendente mas é relatado por outros investigadores (e.g., Howard, 1986). Outros estudos não encontraram diferenças significativas entre criminosos psicopatas e não psicopatas (Harpur et al., 1986).
Por isso, e não obstante o grande número de investigações com psicopatas, as evidências de anormalidades EEG em repouso são manifestamente insuficientes. Nomeadamente, é necessário proceder a mais estudos topográficos. Por exemplo, o estudo de Gatzke e colaboradores (2001), mostra actividade EEG anormalmente lenta no lobo temporal de criminosos violentos, à semelhança de pesquisas anteriores (e.g., Chesterman et al., 1994; Blake et al., 1995) mas a actividade EEG é regular em outras regiões cerebrais.
Há também uma longa história de resultados evidenciando que a região frontal pode mostrar disfunções específicas (e.g., Monroe, 1974; Syndulko, 1978) e que a excessiva actividade Teta está relativamente localizada em regiões mais anteriores do cérebro (Mednick et al., 1981).
Talvez o desenvolvimento de mais estudos longitudinais, que clarifiquem a relação de causalidade entre as anomalias EEG e o crime, e a combinação de estudos EEG com resultados de técnicas imagiológicas e neuropsicológicas, possam providenciar modelos explicativos mais completos sobre os correlatos neurofisiológicos da criminalidade.
A título ilustrativo, Raine (1993) sugere que a evidência de anormalidades cerebrais anteriores pode ser aprofundada através de registos EEG obtidos sobre regiões frontais e não-frontais durante a execução de tarefas neuropsicológicas que activam essas áreas (e.g., WCST).
Apesar das dificuldades antes apresentadas, não podemos deixar de referir as teses explicativas de maior consistência, ou que têm historicamente resistido às provas empíricas.
A tese da imaturidade cortical de Hare (1970) constituiu uma das primeiras interpretações teóricas sobre o excesso de actividade Teta em criminosos adultos. Contudo, só muito mais tarde se tentou articular convenientemente a hipoactivação EEG com diversas evidências psicofisiológicas – como o baixo RC e a hipoglicemia - emergentes da utilização de múltiplas medidas, aplicando o conceito de vagotonia para as explicar (Venables, 1988).
Relembramos que o conceito de vagotonia refere-se à predominância dos processos autonómicos parassimpáticos sobre os simpáticos e Venables alega que os criminosos, particularmente os mais violentos, se caracterizam por um tonus vagal excessivo. Este modelo é empiricamente consistente porque o baixo RC é indicador de activação parassimpática, a activação do nervo vago resulta em hipoglicemia pela libertação de insulina e as frequências EEG parecem ser inferiores em sujeitos vagotónicos e mais elevadas em indivíduos simpaticotónicos (Virkkunen, 1984).
Numa súmula inicial dos estudos electroencefalográficos diríamos que as anormalidades EEG em criminosos foram extensivamente estudadas, apesar de poucos investigadores apresentarem interpretações consensuais e claras para os dados encontrados. Não obstante a diversidade das condições experimentais, tratamento dos resultados, critérios diagnósticos e grupos alvo, foram consistentemente reportadas por investigadores independentes dois tipos de anormalidades: excesso generalizado de actividade lenta – Teta (1); maiores alterações a nível das regiões anteriores do cérebro, nomeadamente a nível frontal e temporal (2).
A partir do início dos anos setenta, a aplicação de técnicas electroencefalográficas passou a fazer-se segundo paradigmas experimentais especificamente destinados à obtenção de PE.
Algumas das melhores revisões de literatura sobre estudos de PE conduzidos junto de populações criminais foram efectuadas por Raine (1989, 1993). Visto que essas revisões mantêm um considerável grau de actualidade, passamos a descrevê-las nos seus pontos essenciais, reforçando-os ou infirmando-os com dados de investigações mais recentes. Os estudos que se focalizam nos componentes de curta latência3 referem que, nos psicopatas, as latências desses componentes dos PE tendem a ser maiores sugerindo um sistema de activação disfuncional ao nível do tronco cerebral ou do córtice parietal (somatossensorial). Esses dados são utilizados para justificar a hipoactivação ou excessiva filtragem dos estímulos ambientais, tendo como consequência a privação sensorial e baixos níveis de activação crónicos.
Se, por um lado, as descobertas para os PE de menor latência são sólidas, já os resultados obtidos nos PE de média latência4 carregam muitas variações. Vejamos. Os estudos revistos por Raine (1989, 1993) descrevem aumentos de amplitude dos PE em psicopatas à medida que se vai aumentando a intensidade dos estímulos (cortical augmenters). Este fenómeno parece ser consistente com a perspectiva de que a busca de sensações é uma forma de ultrapassar a hipoactivação cortical.
Contudo, outros resultados revelam a importância de se considerar a interacção entre o nível de psicopatia e a actividade-passividade do indivíduo
3 Reflectem registo sensorial precoce do estímulo ao nível do tronco cerebral e córtice sensorial: 1-10ms - tronco
cerebral; 10-50ms - tálamo e córtice sensorial primário.
4 Componentes entre 50-250ms - reflectem a activação de áreas inespecíficas, tal como o córtice de associação
nas tarefas. Por exemplo, Jutai e Hare (1983) utilizaram a amplitude da N100 como medida para estudar a atenção a estímulos auditivos em um grupo de reclusos com altos níveis de psicopatia, comparativamente com outros reclusos com baixos níveis de psicopatia. Não encontraram diferença na amplitude da N100 entre os grupos numa tarefa de atenção passiva mas, numa tarefa de atenção selectiva o grupo com baixos níveis de psicopatia apresentou maiores N100. Com o decorrer da tarefa, enquanto a amplitude N100 do grupo de menor psicopatia continuou a aumentar, a amplitude N100 do grupo de alta psicopatia continuou a diminuir. Esses resultados foram interpretados como prova de que os psicopatas têm recursos atencionais limitados e investem-nos em estímulos de interesse imediato, ignorando os outros.
Por fim, a análise das componentes de longa latência5 indica, de uma forma global, maiores amplitudes P300 nos psicopatas, particularmente em estímulos relevantes, em que é necessário o processamento activo e algum esforço cognitivo (Raine, 1989). Apesar disso, investigações recentes indicam uma P300 de menor amplitude nas regiões frontais e anteriores do cérebro (Costa et al., 2000).
A P300 pode ser vista como parte da resposta de orientação a estímulos inesperados (Rosler, 1980, cit. em Raine, 1989). Tendo em consideração que as respostas electrodérmicas revelaram défices no reflexo de orientação e a relação estabelecida com a ineficácia da atenção passiva (Raine e Venables, 1984) reforça-se a tese de que os psicopatas apenas atribuem maiores níveis de atenção aos estímulos de interesse ou aos acontecimentos estimulantes.
5 Componentes de latência superiores a 250ms, elicitados independente das características físicas do estímulo, mas
Os estudos que reportam maiores P300 na revisão de Raine (1989) são suportados pelos resultados de outros estudos posteriores à sua primeira revisão, quer em psicopatas adultos quer em psicopatas adolescentes (Forth e Hare, 1990; Raine et al., 1990a; 1990b; 1990c).
Para ilustrar o que se acaba de referir, Forth e Hare (1990) investigaram a Variação Contingencial Negativa (VCN) numa tarefa de tempos de reacção, com sinal de aviso, em reclusos psicopatas e não-psicopatas. Em coerência com a hipótese de que os psicopatas focalizam efectivamente a atenção em eventos que lhes interessam, estes manifestaram uma VCN inicial maior do que a dos não-psicopatas6. Contudo, os psicopatas mostraram uma fraca VCN no intervalo entre o estímulo de aviso e o estímulo alvo, uma descoberta que tem sido interpretada segundo a tese da dificuldade de aquisição de respostas classicamente condicionadas, em consistência com as evidências autonómicas (ver pontos anteriores). Estes resultados são tão mais importantes quanto Howard (1984) sugeriu que a amplitude da VCN se correlaciona com a sociabilidade. Acresce que os psicopatas manifestam uma fraca VCN a condições de punição e uma VCN normal face a condições de reforço, sendo que esta tendência parece ser coerente com um padrão de défice de evitamento de respostas punidas e orientação para recompensas (Dikman et al., 2000).
Voltando à P300, importa ainda sublinhar que as maiores amplitudes dessa componente foram observadas na região parietal (Raine, 1993). Estes dados são consistentes com a melhor performance dos psicopatas em medidas neuropsicológicas sensíveis ao funcionamento dessa região, sugerindo que
6 Nos segundos iniciais, a VCN é maior sobre as regiões frontais e pode reflectir as exigências das tarefas, assim
como as características físicas, significado e processamento do estímulo de aviso. Está eventualmente associada ao processo de orientação. As componentes de maior latência são maiores nas regiões pré-centrais e centrais e podem reflectir a preparação motora e as exigências da resposta.
essas pessoas são competentes em funções parietais (e.g., raciocínio espacial, coordenação vísuo-motora). Já nas regiões temporais, segundo Raine e Venables (1988), não se observam diferenças significativas face a outros grupos de reclusos não-psicopatas. Para além do anteriormente afirmado, os resultados sugerem que o processamento eficiente da informação em tarefas associadas ao lobo parietal pode estar subjacente à melhor capacidade atencional de curta-duração dos psicopatas.
Williamson (1991), por sua vez, também avaliou os PE em reclusos psicopatas comparativamente com não-psicopatas, mas procurou testar a hipótese de que a psicopatia está associada ao processamento anormal de material verbal de conteúdo afectivo. Visto que os psicopatas mostraram menor diferenciação cortical (componentes menos amplos) entre palavras afectivas e neutras, o autor concluiu que os psicopatas extraem menos informação de palavras afectivas do que os restantes indivíduos. Este tipo de dados recebe confirmação de pesquisas recentes (e.g., Kiehl et al., 2000) e de trabalhos anteriores. De facto, Jutai e colegas (1987), nos seus estudos sobre a resposta cortical a estímulos linguísticos, também haviam encontrado uma menor latência e amplitude da P300, assim como ondas assimétricas (lateralização à direita), indiciando um processamento anómalo da fala sob condições de distracção. Em consequência, foi sugerido que os psicopatas podem ter um défice de recursos no hemisfério esquerdo para o processamento de material verbal .
Um outro estudo que não podemos deixar de destacar, porque se trata de um dos raros estudos longitudinais, foi coordenado por Raine (1990b; 1990c). Tratou-se de um estudo desenhado para avaliar se os PE auditivos registados na adolescência permitem prever o crime adulto. A amplitude da
N100 (maior) e a latência da P300 (menor) classificaram correctamente 74% dos sujeitos criminais. Relembramos que este mesmo estudo, utilizando medidas electrodérmicas e cardiovasculares, além das corticais, relacionou a hipoactivação do SNC e do SNA observado na adolescência com a prática de comportamentos criminais adultos, concluindo-se que a predisposição para a criminalidade pode expressar-se através da hipoactivação geral do SN.
Numa tentativa de integração global dos resultados obtidos através da técnica de PE, Raine (1989, 1993) propõe um modelo alargado de procura de sensações que incorpora as diversas descobertas psicofisiológicas num quadro geral de processamento da informação.
Recorde-se que até então, a perspectiva dominante consistia em interpretar a aceleração cardíaca face a estímulos nocivos como um mecanismo de rejeição sensorial e filtragem desses acontecimentos por sistemas nervosos superiores; o maior tempo de recuperação da CEP era interpretado em termos de processos atencionais fechados ao ambiente e a baixa resposta electrodérmica era entendida como uma manifestação do distúrbio da atenção sustentada (para revisão, ver Hare, 1978).
O modelo integrado de Raine (1989, 1993) sugere que os indivíduos caracterizados por uma hipoactivação crónica, possivelmente causada pela excessiva filtragem dos estímulos, tendem a procurar acontecimentos estimulantes por forma a aumentar os seus níveis de activação para valores mais funcionais. Por sua vez, esta procura de estimulações pode contribuir particularmente para a maior focalização dos recursos atencionais em acontecimentos de interesse, tal como parecem comprovar as maiores P300 face aos estímulos alvo nos paradigmas de atenção selectiva. Consequentemente, as situações potencialmente perigosas e arriscadas,
como as inerentes aos actos criminais, podem representar situações para as quais os indivíduos anti-sociais se sentem particularmente atraídos.
Em favor desta teoria também joga o facto de a amplitude dos PE nos criminosos psicopatas, ao contrário do que acontece noutros grupos criminais, aumentar à medida que vai aumentando a intensidade dos estímulos – cortical augmenters (Raine, 1993).
Em resumo, foram muitas as tentativas de utilização dos PE para testar o modelo da hipoactivação cortical e verificar se os criminosos possuem sistemas de processamento da informação idiossincrásicos. A N100 foi adoptada como medida de activação central em vários grupos criminais, mas as diferenças de grupo só auferem de consistência em condições de atenção particulares. A recolha de dados em situações de atenção passiva fazem sobressair a excessiva simplicidade da teoria de hipoactivação cortical (Jutai e Hare, 1983). Nos estudos da P300, que é sensível a mudanças na alocação de recursos atencionais, os resultados suportam a noção de que os psicopatas possuem uma capacidade pouco usual para focalizar a atenção em estímulos que lhes interessam e ignorar a estimulação irrelevante (Jutai e Hare, 1983; Forth e Hare, 1990). A investigação da mesma componente revela que os psicopatas podem ter recursos limitados no hemisfério esquerdo para processar material verbal.
Quanto à modulação da intensidade dos estímulos, os psicopatas tendem a mostrar um aumento nas amplitudes dos componentes de menor latência à medida que a intensidade dos estímulos vai aumentando (i.e., são cortical
augmenters). A verificar-se que este fenómeno se correlaciona com a busca
de sensações, este padrão pode predispor para a delinquência e criminalidade.
S
íntese conclusiva
Desde o início do século anterior foram efectuados centenas de estudos que se podem inscrever no domínio da psicofisiologia forense. A maior parte desses estudos recorreu a medidas periféricas autonómicas para investigar as relações entre o funcionamento nervoso e o comportamento criminal. Revimos as principais conclusões e hipóteses explicativas das referidas investigações, com predomínio para as que se conduziram nos últimos 20 anos. A maior parte dos investigadores debruçou-se sobre grupos de criminosos psicopatas. Visto que a maioria da criminalidade reincidente é perpetrada por esses grupos, este capítulo constituiu uma recensão crítica das principais evidências científicas que emergiram da investigação psicofisiológica desses mesmos indivíduos.
Os primeiros seis pontos do capítulo reflectem, eles próprios, os factos assumidos e as dúvidas a esclarecer neste domínio da investigação criminal: a hipoactivação autonómica (1); défices de processamento atencional (2); processamento anormal de estímulos aversivos (3); défices de aprendizagem por condicionamento (4); dificuldades da inibição de respostas previamente punidas (5); e, orientação para busca de recompensas (6).
Enquanto os seis pontos acima enunciados se referem a medidas periféricas, o último ponto foi dedicado a um breve resumo da investigação que recorreu a medidas de funcionamento do SNC.
Numa tentativa de resumo da miríade de evidências e sugestões originárias dos estudos em que se utilizaram medidas psicofisiológicas periféricas, concluí-se que:
1. há alguma evidência de hipoactivação em grupos anti-sociais, embora essa evidência seja menos marcada em reclusos adultos do que em delinquentes;
2. há alguma evidência de défices de atenção, manifestados por hipo- reactividade em paradigmas de reflexo de orientação, mas parece ser mais característica de psicopatas secundários ou criminosos esquizóides;
3. as evidências disponíveis indicam que os criminosos psicopatas não são hipo-reactivos nem desatentos em todas as situações – por exemplo, parecem ser menos reactivos a estímulos sociais de conteúdo significativo, mas mais reactivos a estímulos da fala;
4. além disso, os défices de atenção podem ser ultrapassados e os criminosos psicopatas mostram melhor aprendizagem quando suficientemente activados e/ou motivados para as tarefas;
5. a fraca resposta autonómica a estímulos aversivos tem sido interpretada como evidência de hipoactivação ou de redução de medo face a estímulos stressores e situações punitivas;
6. aparentemente, as descobertas mais sólidas com índices autonómicos assentam em défices de condicionamento segundo mecanismos clássicos, défices na aprendizagem do evitamento de respostas punidas, orientação comportamental para recompensas e maior tempo de dissipação da ansiedade;
7. o padrão anteriormente descrito pode estar associado ao desenvolvimento do comportamento criminal ao diminuir a eficácia da
socialização, devido à fraca aprendizagem de respostas punidas e excessiva orientação para obtenção de recompensas imediatas, ainda que socialmente censuráveis.
Adicionalmente, a análise dos dados decorrentes da utilização de medidas centrais pode resumir-se em cinco pontos:
1. as populações criminais caracterizam-se por maior incidência de anormalidades EEG em repouso (excesso de actividade lenta), mas a interpretação destes resultados é dificultada por limitações metodológicas;
2. as anormalidades detectadas suportam a tese de hipoactivação nas populações criminais e pode ser consistente com baixos RC, reflectindo uma activação vagal excessiva;
3. a descoberta mais consistente consiste em P300 de maior amplitude face a estímulos alvo;
4. esta evidência é consistente com a tese comportamental da procura de estimulação e com o argumento de que os psicopatas têm melhor processamento atencional de curta duração em situações de espera activa;
5. as investigações longitudinais, embora com limitações, confirmam a hipoactivação electrodérmica, cardiovascular e cortical, como um dos factores predisponentes para o desenvolvimento do comportamento criminal.
A terminar, numa tentativa de integração dos dados psicofisiológicos atrás descritos com observações comportamentais da impulsividade e busca de sensações, características comuns nas personalidades anti-sociais, Zuckerman (1993) relaciona esse padrão comportamental com o fracasso da aprendizagem de evitamento passivo, fazendo-o depender da desinibição
das respostas e da excessiva atenção às recompensas. Segundo o autor, os marcadores psicofisiológicos deste traço incluem um forte reflexo de orientação, fraco reflexo de defesa e o aumento da reacção cortical a estímulos intensos, sendo que estes marcadores possuem uma forte hereditabilidade. Reforça-se, desta maneira, a possibilidade de a excitação e a recompensa imediata associadas ao crime poderem ser demasiado irresistíveis para estas pessoas, apesar das consequências tendencialmente nocivas do comportamento criminal para o próprio, pelo menos a médio-longo prazo.
Contudo, e no nosso entender, o modelo anterior não ficará completo sem considerar o efeito pouco reforçador da lenta dissipação da ansiedade na inibição de comportamentos anti-sociais previamente punidos.
Ou seja, conjuntamente, estas perspectivas legitimam a suspeita de que os anti-sociais possuem um sistema de filtragem eficiente para as qualidades aversivas dos estímulos em geral e da punição em particular, bem como um funcionamento psicobiológico que facilita a adesão às recompensas.
Não podemos concluir sem nos referirmos a questões, algumas das quais metodológicas, que podem alterar a relação entre as variáveis psicofisiológicas e os comportamentos criminais. Por exemplo, importa recordar que quando as pressões sociais para o comportamento criminal são menores, os determinantes psicofisiológicos de tal comportamento assumem maior importância (Mednick e Christiansen, 1977; Raine e Venables, 1981). De forma inversa, o bom funcionamento psicofisiológico parece proteger as crianças de condições familiares e sociais adversas, favoráveis ao desenvolvimento do crime (Brennan et al., 1997). Aqui temos mais um bom exemplo de como a interdisciplinaridade e a implementação de estudos prospectivos, cuja escassez já apontámos em outras ocasiões, auxilia à
conveniente clarificação das relações de causalidade entre os mecanismos neuropsicofisiológicos e o desenvolvimento do comportamento criminal.
Acresce que a mesma falta de estudos comparativos entre reclusos e não reclusos apontada nas investigações neuropsicológicas também faz regra aqui. Para o nosso propósito, as conclusões extraídas são igualmente úteis. Mas não é líquido que as pessoas com tendências anti-sociais que se encontram em reclusão se caracterizem pelo mesmo padrão de funcionamento psicofisiológico que aquelas que nunca foram condenadas. Ishikawa e colaboradores (2001), por exemplo, demonstram o contrário, com os psicopatas que levam uma vida socialmente regrada a manifestarem níveis mais elevados de reactividade cardiovascular e menos défices neuropsicológicos do que aqueles que se encontram em reclusão.