CAPÍTULO 2: DESENHO DA PESQUISA
D. Autoria do projeto
2.3.4 Apontamentos Metodológicos
A presente pesquisa consiste em um estudo comparativo que tomou como objeto de investigação o processo decisório em torno de 10 projetos de lei que tramitaram nas Assembléias Estaduais de Minas Gerais (ALMG) e da Bahia (ALBA) nos anos de 2007 e 2008. A unidade de análise são os processos decisórios, privilegiando-se a fase de apreciação pelas comissões permanentes de análise de mérito. A pesquisa visa investigar as variações nos processos decisórios no tocante ao volume e à qualidade da deliberação, propondo que essas possam ser explicadas pelas diferenças organizacionais existentes entre as assembléias, pelo perfil dos deputados e por diferenças dentro de cada uma das casas. Trata-se de uma comparação sincrônica que aborda diferentes casos em um mesmo momento.
Evidentemente, o reduzido número de casos e o pequeno recorte temporal limitam as possibilidades de generalização das descobertas. Em um estudo clássico, Lijphart (1971) recomenda, sempre que possível, aumentar o número de casos de modo a ampliar as possibilidades de controle das hipóteses. De fato, a escolha de um número maior de Assembléias e de processos decisórios permitiria maior rendimento na comparação. Por outro lado, alguns autores argumentam que, em se tratando de temas e contextos ainda pouco estudados, a redução do número de casos e do período estudado mostra-se uma estratégia interessante, pois, se de um lado, limita as pretensões de generalização do conhecimento e de descoberta de regularidades, por outro, possibilita a investigação aprofundada dos mecanismos causais e das relações entre as variáveis (LIJPHART, 1971; SARTORI, 1994). Afirma-se que a análise intensiva de poucos casos pode ser mais promissora do que a análise
superficial de muitos casos, podendo contribuir para a elaboração de hipóteses robustas a serem testadas futuramente com base em um número maior de casos. Como afirma Morlino:
Nos casos em que não se possa dispor de teorias e conceitos estruturados, não haja uma literatura de referência e se tratar de uma investigação muito nova, então o investigador estaria inevitavelmente „empurrado‟ ao aumento do número de aspectos a considerar e, igualmente, determinado a diminuir o número de casos e o período a examinar (MORLINO, 1994, p. 24).53
Segundo Sartori (1994), nessas circunstâncias a combinação de técnicas quantitativas e qualitativas é bem vinda, pois serve, simultaneamente, aos dois propósitos: comparar e propor relações de causalidade e aprofundar na compreensão de cada caso. Em se tratando do estudo da dimensão da deliberação, a adoção de técnicas qualitativas de pesquisa e a classificação sistemática não são apenas interessantes, mas sim indispensáveis.
Em função das escolhas metodológicas realizadas a pesquisa não permitirá tirar conclusões a respeito do conjunto dos processos decisórios levados a cabo nas Assembléias da Bahia e de Minas Gerais e não permitirá fazer generalizações ou identificar regularidades. Uma desvantagem do pequeno recorte temporal é a possibilidade de que o fenômeno estudado seja influenciado por questões circunstanciais. Quanto a isso, é importante esclarecer que, nos estados da Bahia e de Minas Gerais, nos anos de 2007 e 2008, não se registrou acontecimentos que afetassem a normalidade política como escândalos de corrupção (como se observou no RS e no DF) e processos de cassação de mandato de governadores (como no MA e PB). Na Bahia, o acontecimento mais relevante foi o rompimento do PMDB com o governo, fato que ocorreu após o período estudado na tese. E claro, deve-se considerar que se trata de um momento singular na trajetória política da Bahia com o fim do predomínio de um grupo tradicionalmente forte no estado após a derrota do PFL (DEM) nas eleições de 2006 (SOUZA, 2010).
Outra limitação da abordagem escolhida é a pequena capacidade de confrontar explicações alternativas e sustentar empiricamente relações de causalidade. Por isso, a principal contribuição da pesquisa será a de realizar um estudo aprofundado da dinâmica do processo decisório com foco em uma dimensão até então pouco explorada e por meio de uma
53Do original: “(...) en el caso que no sea posible disponer de teorias o conceptos estructurados, no hubiese uma literatura de referencia y se tratasse de uma investigación myu „nueva‟, entonces el investigador estaria inevitablemente „empujado‟ hacia el aumento del número de aspectos a considerar e, igualmente, determinado a disminuir los casos y quizá también el período a examinar” (MORLINO, 1991: p. 24).
abordagem, em parte inovadora, que permita verificar a forma como as variáveis interagem. Dessa forma, espera-se contribuir para a construção de uma agenda de pesquisas assinalando aspectos e conexões causais a serem investigados.
Como já afirmado, os estudos que focam a deliberação no contexto das casas legislativas são ainda pouco numerosos e recentes e, no caso do Brasil, quase inexistentes. Há um enorme debate em torno das opções metodológicas mais adequadas a esses estudos, tratando-se, portanto, de um campo a ser explorado e que apresenta muito mais perguntas que respostas. Essa pesquisa poderá contribuir para o enriquecimento desse debate e mostrar que é possível e necessário que a deliberação seja investigada também no contexto dos órgãos representativos e não apenas no âmbito das instituições participativas.
Um último esclarecimento, mas não menos importante, deve ser feito para qualificar melhor que tipo de deliberação espera-se encontrar nos legislativos estudados. No início desta tese, a deliberação foi definida como um processo de argumentação e troca de informações entre indivíduos que, mediante o uso da linguagem, orientam-se para a mútua persuasão. O uso de argumentos e razões que levem em consideração a diversidade de interesses presentes no embate público também é um fator distintivo desse processo o que, implica, necessariamente, que o uso da fala e da linguagem deve ser um atributo central (em oposição, por exemplo, ao uso de recursos políticos que dão a uns, mais que a outros, maior poder de barganha).
As semelhanças com a idéia de deliberação comumente defendida no campo da chamada teoria deliberativa da democracia acabam aí. Não se espera que os participantes do processo deliberativo sejam dotados de qualquer virtude que os disponham de antemão ao processo de discussão. Nem que este processo seja plenamente livre de distorções causadas por diferenças e desigualdades existentes entre os participantes. Um nível mínimo de igualdade, obviamente, é exigido para que os participantes possam se engajar em um processo de discussão e, de fato, o princípio da igualdade é consagrado nas instituições representativas. Também não se pretende que o procedimento deliberativo seja tal que seus resultados não sejam “contaminados” pela estratégia, pelo interesse e pelo cálculo.
A questão que se quer enfatizar é que a presente pesquisa não visa investigar se as assembléias parlamentares se constituem como as arenas da deliberação ideal pensadas pelos
teóricos deliberativos, nem se elas obedecem aos requisitos sociais, culturais ou políticos por eles propalados. A questão principal está em investigar o quanto de deliberação é possível esperar nas Assembléias Estaduais e as condições que favorecem uma deliberação informada, considerando a presença inescapável do conflito distributivo, do embate de interesses, do cálculo e da estratégia. Afirma-se, ao contrário dos teóricos deliberativos, que é possível, sim, que em meio a essa gama de interações, que a deliberação se distinga enquanto forma de decisão capaz de aperfeiçoar a atividade representativa e a qualidade das decisões tomadas. A hipótese desta pesquisa é a de que a organização informacional do Poder Legislativo é um caminho nesse sentido.
CAPÍTULO 3: ORGANIZAÇÃO LEGISLATIVA NAS ASSEMBLÉIAS DE MINAS