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4. RESULTADOS E DISCUSSÃO: DANÇANDO COM O MATERIAL PRODUZIDO

4.1 Breve histórico do SAD em Campinas

4.1.3 Apontamentos e tendências

Finalmente, há alguns apontamentos sobre a tendência de aumento da complexidade de usuários delegada aos cuidados do SAD, o que demandaria reconfiguração da AD no município, com aumento da potência de AD pela AB a casos de menor complexidade clínica. A terapeuta ocupacional TO M avalia:

(...) eu vejo Campinas hoje com muito mais AD2 e AD3, o AD1 a gente praticamente não executa... mas de fato estou meio assustada porque estou achando que estamos ficando só no AD3... aí a gente tem que potencializar muito a AB... porque a gente está absorvendo casos cada vez mais complexos.

E finaliza ponderando as condições de saúde do município:

Uma cidade que está envelhecendo, cronificando, uma cidade que trabalha pouco com a prevenção, tudo isso me agonia... e tem um pouco de cada coisa...tem criança, idoso, população flutuante... então, como você lida com isso de forma eficaz? Garantindo o que todo mundo precisa? É o que mais está me preocupando no momento, não estou querendo assumir os AD3 todos (...) até que alguém assuma os AD2.

Neste sentido, TO M mostra-se temerária e opta por retardar algumas desospitalizações de maior complexidade clínica até a rede ter condições de absorver as demais já existentes. A médica M A reforça essa tendência:

(...) agora você tem uma pressão velada para assistir pacientes em NPP13, em respirador, em ventilação mecânica... mas não temos RH para

isso, no entanto, já tem uma criança com NPP na Norte-Leste, já está sendo. Há questão de mais ou menos 3 semanas, a gerente do nosso SAD esteve diante do juiz porque estão querendo dar alta para um paciente com ventilação mecânica. Só que ele mora no CDHU14, não

tem estrutura, só que ele foi barrado porque não estrutura em relação à rede elétrica, mas parece que está tendo uma forçação, sabe? (para as altas)... eu sei que a gente está trabalhando pela desospitalização e que é esta a tendência, mas para isso, é preciso ter RH capacitado.

Como limitações presentes atualmente nas equipes, são relatados o RH insuficiente para a demanda no município, bem como a falta de diálogo entre as próprias equipes dos SADs no sentido de compor alguns parâmetros na admissão e alta de usuários.

13 Nutrição Parenteral Prolongada.

Como aumento de capacidade de atuação, é destacada a importância dos cursos novos sobre AD, Cuidados Paliativos, especializações em geriatria, além da bagagem nuclear de cada trabalhador (por exemplo, técnicos de enfermagem com experiência de procedimentos de terapia intensiva, médicos com formação em geriatria, pediatria, nefrologia). Na maior parte das vezes, essa bagagem é buscada ou trazida pelos próprios trabalhadores, não pela gestão municipal.

Finalmente, como produto da composição de rede há 20 anos, é descrito o presente reconhecimento por uma parte dos trabalhadores de outros equipamentos da atuação e competência da equipe do SAD. A médica M A relembra:

Em relação à Unicamp, eu acho que nós conseguimos ganhar valor num caso específico de um paciente que tinha uma CA (Câncer) de fígado, jovem, um italiano, que veio passar as férias no Brasil com a esposa e cinco filhos. Todos menores. Ele passou mal, acabou dando entrada na UNICAMP e sendo diagnosticado com um câncer inoperável, pra paliação. E ele ficou muito tempo hospitalizado... eu lembro que a oncologista ligou e perguntou se era possível mantê-lo em uma casa por três dias...por três dias. Que ele sabia, assim, que a morte era iminente, porque a família da Itália estava vindo para se despedir dele. E foi assim, a gente ganhou não somente três dias: ele conseguiu ficar uma semana toda. Foi um caso que ganhou muito nosso coração como da UNICAMP (equipe cuidadora do HC/ UNICAMP).

Fato este que, outrora, já foi motivo de maiores dificuldades nas articulações pela ausência de legitimação do serviço por parte da rede e apresenta limitações ainda:

Os profissionais do hospital nos olham com desconfiança. Essa é uma luta que a gente trava: todos os dias temos que mostrar que somos capazes. Parece que é... como se fosse o refugo... o que está no atendimento domiciliar, sabe?

Interessante observar a perspectiva da médica acerca do olhar por parte de outros profissionais da saúde: “refugo” seriam os trabalhadores e os usuários da AD? Lidar com casos cujo prognóstico é reservado e fora do setting oficial da biomedicina faz do cuidado em saúde algo menor? Trabalhar com o limite da morte já dado como algo de menor importância? São interrogações que ficam em aberto nesta pesquisa.

Ainda sobre a “lida com a morte” e como a própria equipe se prepara para isso, a médica M A conta que, há muitos anos em que, uma psicóloga do HMMG, voluntariamente, fez um importante trabalho com a equipe do SAD Sul. Esta psicóloga sugere que alguns trabalhadores fizessem terapia individual, e esta médica também parte para a terapia:

Eu fui fazer terapia. E eu lembro que a primeira vez que entrei no consultório... ela falou assim: ‘Não é porque você trabalha com a morte que você vai trazer morte para sua vida, não é? Então ela trabalhou muito comigo essa questão, então eu precisei sim, de apoio profissional.

E avalia sobre a necessidade de cuidado aos trabalhadores:

Eu sempre falei no SAD: uma equipe de SAD precisa de apoio. Não só os pacientes, infelizmente, não entra psicóloga na nossa equipe, e eu acho que deveria entrar... a equipe merece também um cuidado.

Em outro momento, define:

Eu sempre falo que a gente só presta um bom atendimento quando a gente está bem.

E terminamos este assunto com M A me contando sobre o falecimento de uma enfermeira da equipe, que teve câncer foi cuidada pela equipe. Esta equipe não teve qualquer cuidado por parte da gestão:

Esperei alguém chegar e falar: a gente compreende o que vocês estão sentindo... Ninguém veio. Talvez se fosse em outra época a gente ia ter mais tempo pra chorar junto, sabe, recuperar de uma angústia. Ninguém, ninguém veio falar.

Aqui se faz importante recordar que nenhuma das equipes de SAD de Campinas conta com psicólogos ou supervisão clínico-institucional15. Já do ponto de vista da entrevistada TO M, as primeiras equipes e trabalhadores tiveram esse cuidado:

A gente teve sim preparo, precisa de apoio institucional porque não é fácil você lidar com a morte o tempo inteiro, né... então isso precisa, não é uma coisa que você pode deixar passar batido. Eu sempre falava isso nas reuniões com a equipe: tem duas coisas que me preocupam quando a gente pensa em morte: uma é a gente morrer junto em cada morte de

15 A supervisão clínico-institucional foi implementada pelo MS como ferramenta indispensável à qualificação da rede de serviços psicossociais, territoriais, da atenção secundária brasileira. Casos políticos, organizacionais e clínicos podem ser discutidos no contexto dos serviços, das redes, do planejamento e das políticas de saúde.

usuário nosso, e a outra é a gente banalizar, não sentir mais nada, né? Duas coisas que mostram que tem alguma coisa errada nessa equipe... eu não posso também achar ‘que bom, morreu, e pronto’, chegou a hora...simplesmente assim, então eu acho que a gente tem que ter esse pulsar existente no seu limite correto e ético e profissional.

Entretanto, TO M compreende que atualmente as equipes seriam capazes de fazer essa retaguarda para si próprias:

Então eu acho que isso encara sim uma necessidade de um suporte profissional. Só que a medida que o tempo passa e que as coisas se cristalizam no bom sentido também né, a própria equipe começa a dar essa dimensão, dos profissionais novos que chegam, então você vai criando mecanismos de que... como tem os antigos e os novos... então essa, não que não precisa ainda do apoio institucional, mas isso vai ficar mais liso, né, vai ficando mais tranquilo.

Estes são alguns destaques dados a partir das entrevistas realizadas na pesquisa, com o intuito de escrever algumas importantes passagens da história da formação destas equipes, dando vista às contribuições ao longo dos 20 anos de existência e pontuando tendências e limitações. Feito isso, temos um panorama mais adequado para adentrar em uma equipe específica com conhecimento sobre seus contextos e tensionamentos atuais. Durante as entrevistas, também busquei responder a pergunta primeira desta pesquisa: qual o sentido do trabalho em cuidados paliativos para vocês?

4.2 Categorias empíricas de sentido no trabalho: seus aspectos e suas

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