3. CAPÍTULO II DOMINAÇÃO DO ESPECTRO TOTAL
3.1. APORTES INICIAIS: A ATUALIDADE DO PENSAMENTO LENINISTA
O conceito de imperialismo é a categoria fundamental para a interpretação do capitalismo contemporâneo a nível internacional. Não a reivindicamos como resposta imediata, mas enquanto contexto estrutural, o atual estágio do sistema capitalista e de suas relações de produção e reprodução do capital.
A era do imperialismo, ou, nos termos de Lenin (2011), a fase superior do capitalismo, se caracteriza pela formação dos grandes monopólios, desenvolvidos pela tendência intrínseca ao próprio capitalismo de intensificação da concentração e centralização do capital. Tais monopólios substituem a predominância da livre concorrência e passam a determinar as tendências do desenvolvimento capitalista global; todavia, como pontuam Traspadini e Bueno (2014), “isto não significa o fim da concorrência, e sim um novo teor na disputa intercapitalista pela apropriação de parte do valor produzido na totalidade da produção capitalista”. (TRASPADINI; BUENO, 2014, p. 190).
Tal processo de concentração (ampliação do capital constante na composição orgânica do capital) e centralização (expressa principalmente pelo processo de fusões e aquisições) do capital, que caracteriza o monopólio, se associa dialeticamente à formação do capital financeiro, que Lenin (2011) define como a fusão entre o capital bancário e industrial, ou a dominação do primeiro sobre o segundo. A fase dos monopólios se configura, assim, como a fase das oligarquias financeiras – a expressão do controle tanto do capital fictício quanto do industrial por parte dos grandes bancos, em geral localizados no centro do sistema capitalista. A expansão imperialista dessas oligarquias se desenrolará tanto sobre as empresas de menor porte quanto sobre novos territórios, onde, pelas necessidades de acumulação, tais monopólios disputarão o controle da periferia do sistema, em especial através da exportação de capitais.
Como colocado pelo líder bolchevique:
Os capitalistas não partilham o mundo levados por uma particular perversidade, mas porque o grau de concentração a que se chegou os obriga a seguir esse caminho para obterem lucros; e repartem-no ‘segundo o capital’, ‘segundo a força’; qualquer outro processo de partilha é impossível no sistema da produção mercantil e no capitalismo. A força varia, por sua vez, de acordo com o desenvolvimento econômico e político; para compreender o que está a acontecer é necessário saber que problemas são solucionados pelas mudanças da força, mas saber se essas mudanças são “puramente” econômicas ou extra-econômicas (por exemplo,
militares), é secundário e em nada pode fazer variar a concepção fundamental sobre a época atual do capitalismo. (LENIN, 2011, p. 198-9).
Em suma, a partilha do mundo pelos monopólios - isso é, a disputa por novos mercados, pela absorção de empreendimentos menores e pelo controle de recursos - acentua a desigualdade entre pequena e grande empresa e entre países (centro x periferia), ao passo que acentua (e não atenua, como defendiam alguns) o acirramento entre as oligarquias financeiras e, inevitavelmente, entre países. Esse acirramento, como supracitado, não se restringe ao meio econômico, mas se dá também “segundo a força”, em geral com o empenho das forças militares, seguindo o mesmo fundamento. Esse uso da força ocorre tanto pela imposição colonial do centro sobre a periferia quanto pela belicosidade entre nações imperialistas. É nesse contexto que deve ser compreendida a Primeira Guerra Mundial, como consequência das disputas interimperialistas pela divisão do mundo; também a Segunda Guerra, como consequência da primeira; e, naturalmente, a ordem que se estabelece no pós-guerra.
No contexto do pós-guerra, essa dinâmica, contudo, se atualiza em conformidade com a evolução do capitalismo. A concentração e centralização de capital avança com maior voracidade rumo ao chamado Terceiro Mundo, mantendo e avançando o controle de recursos e da produção. Os grandes conglomerados financeiros e empresas multinacionais progressivamente ampliam seu domínio sobre as economias periféricas por meio de investimentos diretos, da dívida pública, da dependência tecnológica e do monopólio dos setores primário-exportadores bem como dos setores dinâmicos das indústrias nascentes. Tal processo atualiza o caráter dependente desses países e complexifica as relações de classe, intensificando os conflitos internos ao mesmo tempo que potencializa a relevância da luta anti-imperialista.
O avanço das forças imperialistas vai desenvolver consigo novas estruturas e dinâmicas econômicas e extra-econômicas que condicionam a disputa inter-imperialista e ajudam a manter subjugados o pequeno empreendimento e as nações periféricas: as instituições internacionais (FMI, agências de risco); a consolidação das empresas monopolistas transnacionais; a propriedade intelectual e, assim, a manutenção da dependência tecnológica; além das guerras imperialistas de ocupação ou por procuração. Em tempos contemporâneos, os capitais monopolistas avançam com maior ferocidade contra o Estado - em especial o periférico - por meio de privatizações, da dívida pública e da livre remessa de lucros, apropriando-se de novos recursos, mercados e territórios que antes eram de monopólio
estatal ou eram protegidos pelo Estado - como a água de outros recursos naturais (HARVEY, 2014).
Não obstante, a dinâmica do imperialismo clássico descrita por Lenin - que não viveu a era das grandes empresas transnacionais - no início do século XX segue, grosso modo, vigente: trata-se de um processo de concentração de capital e da permanente disputa em torno do controle de recursos e mercados que todavia se atualiza conforme as atualizações do Estado e das estruturas produtivas e de acumulação, o que promove também a atualização da luta de classes. (OSORIO, 2019). Da mesma forma, como veremos adiante, atualizam-se também as formas de utilização da força, tanto econômicas quanto extra-econômicas, que seguem tão essenciais quanto no contexto colonial.
Na América Latina, a inserção no capitalismo internacional é definida a partir do processo colonial. Esse processo estabelece uma economia cujo desenvolvimento é pautado externamente, através da exportação de produtos primários e da transferência de valor. Essa estrutura promove a formação de elites regionais - sustentadas pela extração de valor dessas atividades primário-exportadoras - e de Estados oligárquicos que condicionam sociedades altamente desiguais.
Nesse sentido, as independências formais cumprem simplesmente a função de atualização da condição subalternizada - agora, em termos dependentes - mantendo seus pilares coloniais. As burguesias “nacionais”, assim, encontram-se em posição contraditória, pois o desenvolvimento interno se mostra incapaz de sustentar os seus processos de acumulação. Dessa forma, não só essas classes dominantes se mostram incapazes de conter o avanço imperialista, como progressivamente se associam a ele de forma dependente, sendo expressões locais, enquanto “sócios menores”, do mesmo projeto. (MARINI, 2017), (BAMBIRRA, 2015).
Em linhas gerais, a atualidade da categoria de imperialismo serve-nos como base estrutural para compreensão da manutenção da desigualdade centro-periferia e dos processos de ingerência e dominação das nações subalternas por parte dos centros imperialistas - processos que evoluem com o desenvolvimento das relações produtivas e políticas, mas mantém a essência da descrição leninista. Vejamos a seguir como se desenvolve tais processos em relação ao principal centro do capital financeiro - os Estados Unidos - em termos geopolíticos e como se apresentam as atuais formas de dominação.