“- Não é para prestarem atenção nisso!”
A aula era de Geografia. Estudávamos Elementos naturais e Elementos humanizados/culturais. A atividade da apostila pedia que fizéssemos uma lista de elementos separando-os nessas duas categorias.
Mobilizada pelo anseio de utilizar outros espaços da escola, além da sala de aula, fiz aos alunos a proposta de realizarmos a atividade no bosque. Para isso, pegaram as apostilas, lápis e borracha e lá fomos nós.
Chegando no bosque, as apostilas foram colocadas em cima da mesa e a observação direcionada começou. Foram citando os elementos que viam, e escrevendo nas colunas adequadas.
Mas de repente, aparece uma formiga que passeia pela mesa e por algumas apostilas. O vento, por sua vez, muda a página da apostila mesmo que as crianças não se movimentem para isso. E eis que esses fatos dominam a atenção dos pequenos.
Incomodada por ver que estavam deixando de escrever na apostila para se atentarem ao que acontecia à sua volta, resolvi chamar a atenção deles para que finalizassem a atividade, pensei “Pessoal, não é para prestarem atenção nisso!”. Mas antes que minha boca pudesse pronunciar essas palavras, veio à minha mente Nana dizendo da importância de estarmos atentos ao que nos cerca, e de que devemos incentivar as crianças a fazê-lo.
Re-signifiquei o que eu pensava, considerando que tão importante quanto a atividade que realizávamos na apostila, era perceber aqueles detalhes...a leveza das folhas se movendo com a brisa do vento que as toca, e que, por estarmos perto da natureza, alguns pequenos animais convivem conosco e é justamente esse o sentido de realizarmos atividades em outros espaços, perceber outros aspectos do mundo que nos cerca. Perceber o mundo por meio de outros sentidos e sensações. Estar na escola é também desenvolver formas de se relacionar com o mundo e os outros, vivenciando espaços onde podemos aprender a aprender.
Apreender a realidade de maneira sensível
É chegado o momento de abordamos a última categoria de análise dessa pesquisa. A fotografia utilizada para dialogar com ela foi tirada por mim, na hora do recreio. Enquanto as crianças comiam seus lanches no bosque, perceberam os sons e os movimentos de algumas aves que balançavam as copas das árvores. Logo foram conferir mais de perto, ajudando uns aos outros na percepção daquelas “araras verdes”, como eles mesmos chamavam as maritacas que se camuflavam entre as folhas.
Naquele instante, vendo o modo com que estavam atentos ao que se colocava à nossa volta, senti-me orgulhosa de todos os momentos em que indiquei novos sentidos para direcionarem seus olhares, em que busquei potencializar uma apreensão sensível da realidade que nos cerca, sinalizando sempre que algo na natureza ou em nosso entorno me chamasse atenção. Me senti feliz e orgulhosa por cada um daqueles olhares sensíveis que miravam o topo das árvores.
Afinal, o que é uma apreensão sensível da realidade? São olhares, escutas e percepções, que buscam ir além do que está posto, anseiam compreender, interpretar, acolher! Quando eu percebo, de maneira sensível, o meu aluno, é também de maneira mais sensível que consigo agir junto a ele, respeitando-o como indivíduo em suas singularidades. Do mesmo modo, quando olha de maneira sensível para o mundo, é de maneira mais consciente que as crianças poderão nele atuar.
Ao abordarmos uma dimensão primária das sensibilidades, podemos considerar que ela se realiza em um aspecto elementar, onde por meio do nosso corpo, coloca-nos atentos e sensíveis ao entorno, percebendo o que nosso/como corpo sente.
São considerados dados sensórios simples os estímulos elementares que nos chegam do ambiente e não configuram sentidos maiores, feito, por exemplo, a rugosidade de uma casca de árvore, a aspereza da areia, a cor da terra, o lampejo de uma luz, o aroma de uma flor, o rumorejar de um regato, etc. Tais estímulos são sumamente
“Prô, acho que o tatu não ‘tá’ gostando do barulho das outras crianças, olha como ele ficou correndo quando elas chegaram” (Outubro de 2018)
importantes para a criança que, em seu processo de crescimento, deles necessita para um bom desenvolvimento sensorial, para o aperfeiçoamento de sua capacidade perceptiva. (DUARTE JR., 2000, p. 153)
Porém, o modo sensível com que as crianças desenvolvem a percepção de ser e estar no mundo, vai mais longe do que imaginamos. Para além das situações a que estão comumente acostumados, percebem de modo sensível também questões outras, que muitas vezes nem são o foco ou a temática das discussões.
Esta categoria foi criada a partir da incidência de trechos que narravam momentos em que pude perceber nas falas e ações das crianças, evidências que demonstravam que a realidade estava sendo percebida de maneira sensível por elas. Não era uma apreensão que se limitava a uma percepção descritiva do meio, mas que o analisava levando em conta outras referências que já possuíam.
Essa apreensão sensível da realidade não se limitava a aspectos dela que poderiam ver ou tocar à sua volta, mas a partir do que era dito, visto, vivido, faziam abstrações que demostravam uma apreensão ainda mais ampla e integral dos nossos modos de ser e estar no mundo.
Desenvolvendo uma outra dimensão das sensibilidades, as crianças vão dando significados ao que é sentido pelo corpo delas e, assim, as compreensões são ampliadas, passam a interpretar e nomear, por meio de signos, tudo o que é por elas sentido e percebido.
Perceba-se que todos mantêm uma relação direta com os nossos sentidos, na ampla significação do termo. Ou seja: a casa onde
Na hora do intervalo, escuto um diálogo entre H. (que acaba de ganhar uma irmãzinha) e as gêmeas, A. e C.:
- A minha mãe nem dormiu essa noite, a bebê ficou chorando.
- [...] Mas é assim, porque quando ela nasce, ela quer explorar o mundo... - Eu acho que eu não quero ser mãe, bebês são muito difíceis! (Maio de 2018)
moramos, os lugares por onde caminhamos, aquilo de que falamos e aqueles com quem conversamos, o alimento que ingerimos e a maneira como ganhamos a vida, além de darem um sentido, de emprestarem um significado à nossa existência, também estão diretamente relacionados com o nosso corpo, com as nossas sensações, percepções e sentimentos. (DUARTE JR., 2000, p. 32) O trecho a seguir ilustra a maneira com que, não só ouviam a história, mas se envolviam com ela, pensando e analisando o que era dito de maneira empática. Evidenciando também as relações com outros saberes apreendidos e experiências vivenciadas. Assim, a dimensão mais desenvolvida das sensibilidades, possibilita-nos relacionar o que se vive e sente no momento presente, com outras experiências já vivenciadas, bem como com memórias e emoções com as quais se relacionam.
A apreensão sensível da realidade que estamos, a todo tempo, buscando desenvolver junto às crianças para além de perceber o meio que nos cerca e o mundo do qual fazemos parte, pretende ressaltar a percepção de cada indivíduo que se relaciona com cada um de nós.
Em meio à leitura e discussão do livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, quando diziam sobre a Tia Nastácia, algumas crianças se manifestaram:
- Coitadinha, não fala ‘empregada’! Fala ‘familiar’...
- Ela é familiar, ela é da família. Lá na minha casa, a Lena me conhece desde que eu era bebê. (Agosto de 2018)
Enquanto Lu. explicava sua nova descoberta, P. me falou que La. estava chorando. Olhei de longe e vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Fui até ela na intenção de conversarmos fora da sala, chamei-a e disse que não precisava chorar, e
depois me senti muito mal por isso. Quem sou eu para dizer a qualquer pessoa que ela não precisa chorar? A prof.ª S. perguntou o que estava acontecendo e saiu com
Perceber a realidade de maneira sensível implica, também, estar atento àqueles com quem convivemos na dimensão coletiva de ser e estar no mundo. É me sensibilizar com dor alheia, me comover com sofrimentos que não são meus, buscar compreender concepções distintas das minhas e a partir disso, agir na realidade considerando o bem-estar comum. Aprendi com os alunos a apreender o mundo de uma forma mais genuína, a humanizar o meu olhar e focalizá-lo de maneira mais respeitosa. Assim, aprendemos juntos sobre ver e perceber o mundo e, mais do que isso, sobre como, por meio dessa relação dialógica com a realidade e os outros, nos constituirmos pessoas cada vez melhores.
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